terça-feira, 15 de setembro de 2026

Vilarejos unem-se à revolta contra campos de migrantes.

Piddington cria modelo para ajudar outras pequenas paróquias obrigadas a abrigar milhares de requerentes de asilo. Uma onda de resistência comunitária contra os campos de migrantes está prestes a se espalhar por todo o país. Na terça-feira, Piddington, em Oxfordshire, realizará um referendo simbólico sobre a saída do Reino Unido, em protesto contra os planos de transferir até1.250 requerentes de asilo do sexo masculino para um antigo quartel do exército <https://www.telegraph.co.uk/news/2026/09/14/fighting-plans-1256-male-asylum-seekers/>perto da vila de 350 habitantes. A paróquia foi procurada por centenas de outras vilas e cidades em todo o país em busca de conselhos sobre como replicar a campanha, que conquistou o apoio dos Conservadores e do Partido Reformista. Além da votação,os moradores de Piddington <https://www.telegraph.co.uk/news/2026/08/15/bicester-piddington-burnham-middle-class-asylum-plans/>elaboraram planos para instalar uma rede de câmeras de segurança sem fio, um sistema de alerta de emergência e equipes de patrulha de segurança, devido ao receio de estarem em desvantagem numérica de quase quatro para um. AnúnciEm entrevista ao The Telegraph na véspera dTim McNally, presidente do conselho paroquial de Piddington, afirmou que centenas de outras áreas queriam seguir seu plano para combater os acampamentos de migrantes. Mulheres que moram em Piddington disseram que planejam fazer aulas de autodefesa por medo da chegada de imigrantes. Mulheres que moram em Piddington dizem que planejam fazer aulas de autodefesa por medo da chegada de imigrantes.Crédito: Joe Giddens/PA Ele disse: “Temos trabalhado nos bastidores com outras áreas que compartilham da nossa opinião, que sentem que não foram representadas e que foram atropeladas.O que aconteceu com a nossa política <https://www.telegraph.co.uk/news/2026/01/23/labour-contempt-for-democracy-is-on-display-in-crowborough/>para permitir que isso acontecesse?” “Quando publiquei o plano pela primeira vez, recebi mais de 500 consultas de todo o Reino Unido, de vereadores e conselheiros municipais.O objetivo do nosso referendo <https://www.telegraph.co.uk/news/2026/07/20/oxfordshire-village-passport-to-pimlico/>é que eles mesmos o façam.” O partido de Nigel Farage prometeu apoiar quaisquer outras áreas que desejem realizar votações. Suella Braverman, deputada do Reform UK, que visitou Piddington na segunda-feira, disse ter ouvido "em primeira mão de mulheres que estão absolutamente aterrorizadas com o que este centro de acolhimento para migrantes significará para as suas famílias e para a sua comunidade". Ela acrescentou: “Este é um governo impondo sua vontade à população local e esperando que ela simplesmente a aceite. É um abuso de poder terrível.” “A Reform UK apoia incondicionalmente qualquer comunidade que o Partido Trabalhista planeje atingir com essa medida. Deteremos e deportaremos todos os imigrantes ilegais e priorizaremos os interesses e a segurança das comunidades britânicas.” Piddington Se os planos forem adiante, mais de 1.000 solicitantes de asilo serão alojados nesta antiga instalação militar perto de Piddington.Crédito: Hannah McKay/Reuters Piddington, perto de Bicester, é o local deum dos três novos campos de refugiados propostos <https://www.telegraph.co.uk/politics/2026/08/13/labour-mp-rachael-maskell-attacks-migrant-barracks-plan/>em antigas bases militares. Os acampamentos em Crowborough, Sussex <https://www.telegraph.co.uk/news/2025/11/16/migrants-barracks-crowborough-training-camp-east-sussex/>, e Wethersfield, Essex, já foram abertos, enquanto o Partido Trabalhista busca realocar milhares de migrantes de hotéis e encontrar acomodações para os 17.000 migrantes que atravessaram o Canal da Mancha e chegaram este ano. Atualmente, os migrantes alojados em bases militares e hotéis têm permissão paracircular livremente <https://www.telegraph.co.uk/politics/2026/04/17/detention-camp-migrants-banned-from-heading-into-town-under/>pelas aldeias e cidades vizinhas. Prostests against the Crowborough migrant camp O Sr. McNally afirmou que o Governo não forneceu quaisquer dados sobre a criminalidade dos migrantes, deixando os moradores das aldeias no escuro e com medo do pior. Ele reclamou que a vila teve apenas 10 dias para responder a um documento de planejamento de 1.000 páginas para o local, cuja possível conversão em um acampamento foi autorizada pelos poderes da Coroa, ignorando o conselho. "Fomos confrontados com uma total falta de democracia", disse ele. "Nenhuma consulta." O plano do Sr. McNally descreve em oito etapas como organizar um referendo local, desde a conversa com os conselhos paroquiais até o envio do resultado da votação aos parlamentares. Tim McNally, presidente do conselho paroquial, disse que centenas de outras áreas queriam se juntar à luta contra os acampamentos de migrantes. Tim McNally, presidente do conselho paroquial, disse que centenas de outras áreas queriam se juntar à luta contra os acampamentos de migrantes.Crédito: Jamie Lorriman para o The Telegraph. Incentivando outros a seguirem o exemplo de Piddington, ele escreve: “Uma única aldeia que expressa insatisfação pode ser facilmente descartada. “Várias comunidades que realizam discussões democráticas devidamente organizadas e registram seus resultados de forma independente criam algo diferente.” Antes da votação, as mulheres de Piddington se reuniram no centro da vila para encontrar Chris Philp, o secretário de Estado sombra para Assuntos Internos, Joy Morrissey, a ministra sombra para Mulheres e Igualdade, e as deputadas do Reform UK, Sarah Pochin e Sra. Braverman. O Sr. Philp afirmou que o Partido Trabalhista "desrespeitou a democracia local, usando os poderes da Crown Estate para excluir completamente o conselho do processo". Ele acrescentou: “As comunidades não precisam ficar de braços cruzados e aceitar que o Partido Trabalhista as oprima. As mulheres de Piddington estão mostrando que existem maneiras legais e democráticas de contestar essas decisões, e sua corajosa postura deve dar esperança a outras vilas e cidades que observam isso e temem ser as próximas.” “Chegou a hora de Andy Burnham e seus deputados trabalhistas defensores de fronteiras abertas prestarem atenção às pessoas decentes em todo o país que estão fartas da imigração ilegal em massa.” A Sra. Pochin disse: “Minha preocupação é que não há nada para eles [os requerentes de asilo] fazerem aqui. Nenhuma instalação. Nenhuma loja. Nenhum centro esportivo. É uma receita para o desastre.” 'Estou absolutamente apavorado' Gina Perkins, de 37 anos, mãe de três meninos de sete, cinco e dez meses, disse: "Estou absolutamente apavorada." “Nós viemos jogar futebol aqui algumas vezes por semana. Não me sentiria confortável em deixar meus filhos descerem a pé para visitar os avós na aldeia.” “Isso vai mudar completamente a forma como vivemos nossas vidas. Seria irresponsável deixar nossos filhos continuarem como estão, com homens andando livremente por aí.” Victoria Hubbocks, de 39 anos, mãe de três meninos de 11, 9 e 5 anos, disse que as aulas de autodefesa dariam às mulheres conselhos sobre o que fazer caso se sentissem ameaçadas pelos migrantes que chegassem, caso o acampamento fosse construído. “São coisas simples. O que você pode fazer se se sentir ameaçada? É algo muito básico. É algo que qualquer pessoa pode fazer, sejam mulheres jovens ou idosas. Inicialmente, estamos oferecendo isso às mulheres, mas também será oferecido aos homens”, disse ela. O resultado do referendo é esperado para a manhã de quarta-feira. Um porta-voz do Ministério do Interior disse: “O governo está fechando todos os hotéis para requerentes de asilo, economizando aos contribuintes mais de £ 1 bilhão em apoio a solicitantes de asilo desde as eleições. Joy Morrissey, ministra-sombra para as mulheres e a igualdade, ouve os receios das mulheres locais junto à cerca que delimita o local proposto para o centro de acolhimento de migrantes. Joy Morrissey, ministra-sombra para as mulheres e a igualdade, ao centro, ouve os receios de mulheres locais junto à cerca que delimita o local proposto para o centro de acolhimento de migrantes.Crédito: Joe Giddens/PA “Estamos trabalhando para alojar de forma justa os requerentes de asilo em todo o país, transferindo-os para acomodações alternativas, incluindo antigos locais militares projetados para serem autossuficientes, a fim de reduzir o impacto na comunidade local. “Como parte do processo, interagimos com as autoridades locais e as forças policiais para garantir a segurança e a proteção daqueles que residem na área circundante.” https://www.telegraph.co.uk/news/2026/09/14/villages-join-piddington-revolt-over-migrant-camps/

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Fwd: Notícias a caminho dos cinco anos: o que é hoje para si o PÁGINA UM?

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Elevadores de Lisboa

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A casa também joga: parte II

Match-fixing, jovens atletas e a erosão silenciosa da verdade desportiva

No artigo anterior, a questão ficou colocada no plano da publicidade, dos patrocínios e da normalização das apostas dentro do espectáculo desportivo. Aí, o problema era sobretudo este:  até que ponto pode o desporto vender a sua credibilidade simbólica a uma indústria que vive da aposta repetida, do impulso e, muitas vezes, da vulnerabilidade do apostador?

Mas essa é apenas a primeira parte do problema.

Porque as apostas não estão apenas à volta do jogo, podem tentar entrar dentro dele.

E é aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre patrocínio, publicidade ou dependência familiar, para passar ao território mais sensível do direito do desporto – a verdade desportiva.

red and silver can on gray sand

E depois há a outra face, talvez ainda mais grave para o direito do desporto: a captura do atleta. 

As apostas desportivas não ameaçam apenas quem aposta,  ameaçam também quem joga.

Sobretudo quando falamos de jovens atletas, jogadores de escalões inferiores, modalidades com menor visibilidade, contratos precários, prémios baixos e carreiras frágeis. É aí que a promessa de dinheiro rápido se torna mais perigosa. Não é preciso comprar uma final europeia; basta comprar um ponto, uma dupla falta, um cartão amarelo, um canto, uma substituição, uma derrota discreta num torneio menor ou num campeonato periférico.

A corrupção moderna do desporto nem sempre entra pela porta principal.

Não precisa de alterar um campeonato inteiro, basta manipular um momento estatisticamente apostável.

person holding glass ball

Esse é o perigo das apostas contemporâneas. Já não se aposta apenas no resultado final. Aposta-se em tudo, golos, cantos, cartões, faltas, pontos, sets, substituições, intervalos, micro-eventos. Quanto mais se fragmenta o jogo em mercados de aposta, mais se multiplicam as oportunidades de manipulação.

Aliás, o legislador português já deu nome a esta realidade. A Lei n.º 14/2024, de 19 de janeiro, chama «incidências» às acções ou acontecimentos susceptíveis de aposta, incluindo o vencedor, o resultado, os golos ou pontos, os cartões, os cantos e os livres, finais ou parciais. E define a manipulação de competições como a alteração irregular do resultado ou do próprio desenrolar da competição destinada a eliminar, no todo ou em parte, a sua natureza imprevisível para obter uma vantagem indevida. O direito percebeu, portanto, que não é preciso comprar o resultado final para corromper o jogo.

O direito do desporto tem de abandonar a ingenuidade.

A verdade desportiva não é um ornamento dos regulamentos, mas o centro de tudo. Sem verdade desportiva não há competição; sem competição leal não há mérito; sem mérito não há resultado digno desse nome e, sem confiança pública no resultado, o desporto deixa de ser desporto e passa a ser encenação.

a soccer player holding a flag on a field

A manipulação de competições não prejudica apenas a casa de apostas, o clube ou a federação. Prejudica o adversário, o adepto, o patrocinador, o colega de equipa, o jovem que treina honestamente, o treinador que prepara o jogo, o clube que investe, a competição que se organiza e o próprio fundamento jurídico da actividade desportiva.

Quando um atleta é aliciado para manipular um jogo, não está apenas perante uma tentação individual –  está perante uma rede e, quem entra numa rede destas, raramente sai limpo.

A primeira aceitação compra mais do que um lance: compra silêncio, vulnerabilidade e o futuro. Quem cede uma vez pode ser chantageado na segunda. Quem aceitou dinheiro para manipular um momento passa a viver com a ameaça permanente da exposição. As redes criminosas ligadas à manipulação de apostas não compram apenas resultados, compram pessoas.

É por isso que falar de apostas desportivas apenas como patrocínio é pouco – o patrocínio é a montra; o problema é o sistema que floresce à sua volta.

a boy holding a football ball

A Netflix tem explorado esta realidade em documentários sobre corrupção desportiva. A série Bad Sport cruza crime real e desporto para revisitar escândalos globais, incluindo manipulação de jogos, corrupção no futebol e queda de atletas envolvidos em redes ilícitas. Caught Out: Crime. Corruption. Cricket. aborda o grande escândalo de manipulação de resultados no críquete indiano. Estes documentários não são prova jurídica de nada, naturalmente. Mas são úteis porque mostram ao grande público aquilo que o direito do desporto já devia saber há muito tempo:  a corrupção desportiva raramente nasce apenas da ganância individual. Nasce de vulnerabilidade, oportunidade, silêncio, medo, dinheiro e redes que sabem escolher bem as suas vítimas.

No ténis, o caso de Marco Trungelliti é especialmente revelador. O tenista argentino denunciou uma abordagem corrupta recebida de terceiro à antiga Tennis Integrity Unit. A própria entidade internacional de integridade do ténis veio esclarecer que Trungelliti comunicou voluntariamente essa abordagem; não foi investigado, acusado ou sancionado, não recebeu pagamento pela informação prestada e actuou com integridade. A imprensa internacional relatou depois o custo pessoal dessa denúncia:  hostilidade, ameaças, isolamento e saída da Argentina.

woman covering face with her hands

Este tipo de caso mostra o paradoxo mais cruel da integridade desportiva – pede-se ao atleta que denuncie, mas muitas vezes deixa-se o denunciante sozinho.

A mensagem oficial é: denunciem.

A mensagem real, demasiadas vezes, parece ser outra: denunciem e aguentem.

Portugal, pelo menos no plano legal, já não parte do zero. A mesma Lei n.º 14/2024 impõe aos agentes desportivos que comuniquem imediatamente ao Ministério Público os comportamentos de que tenham conhecimento ou de que suspeitem e que possam afectar fraudulentamente uma competição ou o seu resultado. Garante a confidencialidade da identidade do denunciante e proíbe ameaças, actos hostis e práticas laborais desfavoráveis ou discriminatórias contra quem denuncia. A lei reconhece, assim, uma evidência que o caso Trungelliti torna quase dolorosamente clara: pedir coragem ao atleta sem lhe garantir protecção é apenas transferir para ele o risco que o sistema devia assumir.

Tennis racket hitting a ball against an orange sky

E a arquitectura institucional também existe. A Lei criou a Plataforma Nacional destinada ao tratamento da manipulação de competições desportivas, que funciona junto da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária. Cabe-lhe coordenar a luta contra a manipulação, centralizar e analisar informação sobre apostas irregulares ou suspeitas, emitir alertas, transmitir elementos às entidades competentes e articular autoridades judiciárias, policiais, desportivas e de regulação do mercado do jogo. A pergunta, portanto, já não é se Portugal precisa de inventar uma entidade. É mais incómoda: a estrutura que criámos tem meios, rapidez e capacidade operacional para chegar antes da chantagem, antes da carreira destruída e antes do resultado manipulado?

Ora, um sistema sério de integridade não pode viver apenas de cartazes, códigos de conduta e sessões de formação no início da época. Precisa de proteção efectiva: canais seguros, acompanhamento psicológico, apoio jurídico, mecanismos de denúncia credíveis, resposta disciplinar rápida e cooperação entre federações, ligas, operadores, reguladores, autoridades policiais e Ministério Público.

A integridade não se defende com slogans; defende-se com arquitetura institucional.

A question mark drawn in light in a dark graffiti covered tunnel

Grande parte da manipulação de competições pode ser prevenida se existirem regras claras para todos: estruturas de cumprimento nos clubes e nas organizações desportivas, combate real ao jogo ilegal, protecção efectiva dos denunciantes, monitorização de mercados suspeitos, partilha célere de informação e uma Plataforma Nacional dotada de meios para exercer as competências que a lei já lhe atribuiu.

É também necessário não misturar realidades diferentes. Um operador de apostas licenciado não é, por definição, aliado de quem manipula uma competição. Também ele é prejudicado pela fraude e pode ter um papel decisivo na detecção de padrões e apostas suspeitas. A própria lei prevê circulação de informação relativa a operadores licenciados e não licenciados e coloca o regulador do jogo dentro da arquitectura de cooperação. As redes criminosas, o jogo ilegal, os operadores licenciados e os patrocinadores não são a mesma coisa.

a scrabbled wooden block with the words integr city on it

O problema do patrocínio é outro, e é suficientemente sério sem precisarmos de lhe acrescentar culpas que não tem.  Quando o desporto se torna financeiramente dependente de uma indústria com a qual tem de cooperar, mas que simultaneamente tem de manter à distância da decisão desportiva, cria-se um problema de independência institucional e de aparência de independência. A cooperação é necessária, a dependência é perigosa. E a pergunta decisiva permanece: devem competições e clubes ser patrocinados por casas de apostas?

Esta pergunta devia estar no centro do debate português.

Não basta perguntar se as casas de apostas cumprem a lei.

É preciso perguntar se a lei cumpre a sua função.

E a função da lei não é apenas licenciar operadores, cobrar receita e punir abusos depois de ocorrerem. É prevenir danos previsíveis. É proteger vulneráveis. É preservar a integridade das competições. É assegurar que a necessária cooperação com o mercado regulado não transforma o desporto num braço emocional da indústria do jogo.

O problema não é uma casa de apostas existir.

O problema é a camisola de um clube parecer uma extensão da casa de apostas.

red and white round plastic containers

O problema é um adolescente ver o jogo e receber, ao mesmo tempo, a mensagem de que perceber de futebol é apostar em futebol.

O problema é transformar o adepto em apostador e o jogo em carteira aberta.

O problema é convencer uma geração de que emoção desportiva sem aposta é experiência incompleta.

A publicidade às apostas já tem proibições relevantes. Mas a pergunta é se isso basta.

Porque o menor pode não estar dentro da escola. Pode estar no sofá de casa, ao lado do pai, a ver o jogo. Pode estar no estádio. Pode estar nas redes sociais. Pode seguir um antigo jogador. Pode ouvir um podcast. Pode ver uma camisola. Pode decorar o nome de uma casa de apostas antes de perceber verdadeiramente o que é uma aposta.

A proteção de menores não se esgota em afastar publicidade da porta da escola. A escola hoje é também o ecrã. O recreio é também o telemóvel. O estádio é também a página inicial de uma rede social. A publicidade deixou de ser apenas geográfica, passou a ser comportamental, emocional e algorítmica.

É aqui que a comparação com o tabaco volta a fazer sentido.

Durante anos, a sociedade tolerou que o tabaco comprasse glamour desportivo. Depois percebeu que a associação era tóxica. Hoje, corremos o risco de repetir o mesmo erro com as apostas, só que com uma diferença: o cigarro exigia compra, fogo e consumo físico. A aposta exige apenas um clique.

O tabaco adoecia o corpo do adepto; as apostas, quando invadem o coração competitivo do desporto, adoecem o próprio jogo.

a group of people sitting on a bench with their laptops

A verdade desportiva não se protege apenas punindo quem manipula competições. Protege-se impedindo que o ambiente económico, publicitário e emocional do desporto se torne favorável à manipulação.

A integridade começa antes do crime.

Começa na coragem de perguntar se a indústria que mais lucra com a imprevisibilidade do desporto deve estar colada à imagem institucional do próprio desporto.

Pierre de Coubertin via no desporto uma escola de esforço, lealdade, superação e respeito pela regra. Podemos discutir, com justiça, as limitações históricas e sociais dessa visão. Mas há um núcleo que permanece: o desporto só tem valor se o resultado for verdadeiro.

Quando o adepto começa a perguntar se aquele cartão foi natural, se aquela dupla falta foi azar, se aquele canto foi apenas consequência do jogo, se aquele erro foi humano ou encomendado, a competição perde a inocência mínima de que precisa para existir.

O desporto pode sobreviver ao erro do árbitro, à falha do guarda-redes, ao azar do ressalto e à injustiça do resultado. Não sobrevive bem à suspeita permanente de encenação.

Por isso, talvez esteja na altura de dizermos com as apostas aquilo que um dia tivemos de dizer com o tabaco – o facto de uma indústria ter dinheiro não lhe dá direito natural a ocupar o imaginário do desporto.

brown basketball on brown dried leaves

O desporto não tem de fingir que as apostas não existem, mas também não pode continuar a fingir que são apenas mais uma marca na camisola.

A dependência do jogo destrói famílias.

A manipulação de competições destrói carreiras.

A normalização das apostas dentro do desporto ameaça destruir a confiança no próprio resultado.

E quando se destrói a confiança no resultado, destrói-se aquilo que nenhuma casa de apostas, nenhum patrocinador e nenhum contrato televisivo conseguem comprar: a alma competitiva do jogo.

Sem verdade desportiva, não há vencedor; há apenas um guião com camisolas.

Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS . É pós-graduado em Direito do Desporto.