João Costa, ex-ministro da Educação, fez a Portugal uma pergunta que se pretende retórica, mas que é, na verdade, a porta de entrada para uma das discussões mais graves das democracias contemporâneas: "Não estará na hora de o discurso de ódio ser efetivamente penalizado e de as redes sociais serem reguladas?"
A pergunta é feita com o tom de quem já sabe a resposta, e é esse tom, a certeza tranquila de quem se acha do lado certo da história, que trai o verdadeiro projeto.
Merece ser desmontada com cuidado, não pela indignação fácil, mas pela evidência do que "penalizar discurso" e "regular redes sociais" já significaram, na prática, onde foram implementados.
Há uma ironia que Costa não vê, ou finge não ver: quem se apresenta como o rosto da tolerância é, amiúde, o mais incapaz de exercê-la.
Fala em nome do respeito, da democracia, do combate ao ódio e ao mesmo tempo trata milhões de portugueses que pensam diferente dele como uma ameaça a neutralizar, uma patologia social a "penalizar".
Não tolera dissenso; ofende quem não se deixa moldar por sua régua moral. É esse fanatismo com ar de bom senso, a certeza de que só ele e os seus sabem distinguir a opinião legítima da perigosa, que deveria alarmar mais do que qualquer insulto anônimo numa caixa de comentários.
Onde a Pergunta Já Foi Respondida;
O Reino Unido não é uma hipótese acadêmica. É o laboratório onde a resposta afirmativa à pergunta de Costa já foi dada e os resultados estão documentados.
Sob a Seção 127 da Lei de Comunicações de 2003 e a Seção 1 da Lei de Comunicações Maliciosas de 1988, 37 forças policiais britânicas registraram 12.183 prisões em 2023 por comunicações consideradas "grosseiramente ofensivas".
Mais de 30 pessoas por dia, um aumento de quase 58% face às 7.734 detenções de 2019.
Os números vêm de pedidos de acesso à informação feitos pelo jornal The Times e depois foram confirmados pela biblioteca da Câmara dos Lordes britânica, que ressalta uma segunda estatística desconfortável: as condenações efetivas sob essas leis têm caído, de 1.995 em 2015 para 1.119 em 2023.
Ou seja, o aparelho policial deteve cada vez mais gente por opiniões publicadas online, ainda que a esmagadora maioria não chegue a tribunal o que não torna a detenção, a algemagem e o interrogatório menos reais para quem os sofre.
Os nomes existem.
Rose Docherty, uma avó escocesa de 74 anos, foi presa em fevereiro de 2025 no Queen Elizabeth University Hospital, em Glasgow, por segurar silenciosamente uma placa que dizia "coerção é um crime, estou aqui para falar, só se você quiser" sob a lei escocesa que cria "zonas de acesso seguro" ao lado de clínicas de aborto. Ela foi presa uma segunda vez em setembro do mesmo ano pelo mesmo gesto.
O caso, confirmado pela BBC, não se enquadra na mesma lei que gera as 12 mil detenções anuais por discurso online. É um instrumento legal distinto, sobre proximidade física a clínicas mas ilustra o mesmo mecanismo: uma categoria de "discurso que perturba" definida pelo Estado, aplicada depois a um gesto que, para muitos, seria simples exercício de opinião.
Esse é o destino habitual de quem entrega ao Estado o poder de decidir, ele mesmo, o que constitui "discurso de ódio".
A categoria começa por parecer consensual.
Quem defenderia publicamente o ódio?
Mas na aplicação real revela-se elástica o suficiente para incluir cartazes silenciosos, comentários indignados, opiniões impopulares.
João Costa escreveu palavras de burocrata, calculadamente mornas, que soam a moderação e bom senso e escondem, atrás da vaguidão, a ambição de decidir por todos o que pode e não pode ser dito.
É o velho truque de quem quer o poder de punir sem ter coragem de dizê-lo sem rodeios: fala-se em "penalizar o ódio" para preparar terreno a medidas que, ditas com todas as letras, encontrariam a resistência que merecem.
Perguntar "não é hora de penalizar o discurso de ódio?" é uma pergunta diferente de perguntar "você concorda que o Estado deve ser capaz de decidir, caso a caso, quais opiniões merecem sanção penal?". Mas é exatamente essa segunda pergunta que a primeira, levada à prática, acaba fazendo.
Nenhuma destas leis britânicas nasceu a dizer "vamos prender avós por cartazes" ou "vamos algemar quem escreve um comentário indignado".
Nasceram todas com o vocabulário de Costa: penalizar o ódio, proteger espaços sensíveis, regular a comunicação. O alargamento veio depois, degrau a degrau, com a lógica implacável da burocracia a cumprir o seu mandato.
É este o cerne da questão: quem define o que conta como discurso inaceitável, e onde termina essa definição?
Hoje, a categoria abrange incitação à violência e desumanização de minorias, consensos que ninguém sério disputa. As duas leis britânicas citadas mostram, cada uma à sua maneira, o que acontece quando essa categoria se expande na prática: uma passou de perseguir ameaças reais a deter 33 pessoas por dia por mensagens "grosseiramente ofensivas"; a outra, pensada para proteger utentes de clínicas de assédio directo, acabou por deter uma mulher de 74 anos por segurar, em silêncio, um cartaz a 200 metros de distância.
Não é preciso imaginar um cenário distópico. Basta ler as estatísticas de um país que, até há poucas décadas, se orgulhava de ser o berço do parlamentarismo e da liberdade de imprensa.
Conclusão: A Vigilância com Sotaque de Bom-Senso.
A liberdade de expressão não precisa de proteção para ideias agradáveis.
Precisa dela, justamente, para as ideias que incomodam, que ofendem, que um ex-ministro da Educação prefere não ler nas caixas de comentários. É essa proteção e não o conforto do consenso, nem a vaidade de quem se acha superior moralmente que distingue uma democracia de um regime de tutela.
Quando um ex-governante pergunta, com ar de evidência, se "não estará na altura" de penalizar e regular, não está a propor um debate.
Está testando a receptividade da opinião pública a uma medida cujo resultado prático já conhecemos, porque outros já o aplicaram primeiro.
E, enquanto isso, continua a se apresentar como o defensor da tolerância, enquanto trata como delinquentes em potencial os milhões de portugueses que não comungam de sua visão de mundo.
Não há contradição maior: pregar o respeito ao outro ao mesmo tempo em que se nega a ele o direito de pensar diferente sem represália.
A retórica de hoje é a detenção administrativa de amanhã e o Reino Unido de Keir Starmer é a prova documentada, não a especulação alarmista, de que esse caminho tem um destino conhecido.
DENUNCIANTE.Pt
Lista de fontes
- https://expresso.pt/.../2026-07-27-nas-caixas-de...
Dados de detenções no Reino Unido
- https://lordslibrary.parliament.uk/select-communications.../ — briefing da Câmara dos Lordes, resume e confirma os dados do The Times
- https://freespeechunion.org/.../police-make-30-arrests-a... — reproduz os números originais da investigação do The Times
Caso Rose Docherty
- https://feeds.bbci.co.uk/news/articles/c36507lw234o — primeira detenção, Fevereiro 2025
- https://feeds.bbci.co.uk/news/articles/cq65q455gn0o — segunda detenção, Setembro 2025
Espaço do Raio Xis
Cogito, ergo sum.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
João Costa, ex-ministro da Educação, no governo de António Costa.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
E ninguém sabe ‘Chinês’?!?
O capital chinês possui uma forte presença estratégica na economia de Portugal, tendo adquirido posições de grande relevância (frequentemente como o maior acionista ou com controle total) em setores como energia, finanças, saúde e infraestrutura.
Abaixo estão listadas as 20 empresas mais importantes que operam em Portugal e possuem controle ou participações dominantes e estratégicas de grupos chineses:
- Sector Financeiro e Seguros
Fidelidade – É a maior seguradora de Portugal. O grupo privado chinês Fosun detém cerca de 85% do capital.
Millennium BCP – Maior banco privado português. A Fosun é a maior acionista individual, detendo cerca de 20% das ações.
Bison Bank – Antigo Banif – Banco de Investimento, foi 100% adquirido pelo grupo Bison Capital, baseado em Hong Kong.
Multicare – Relevante seguradora de saúde portuguesa que faz parte do grupo Fidelidade, controlada indiretamente pela Fosun.
Via Directa (Ok! Seguros) – Outra subsidiária do ecossistema da Fidelidade voltada a seguros digitais e diretos.
- Energia e Utilidades Públicas
EDP (Energias de Portugal) – Uma das maiores empresas do país. A estatal China Three Gorges (CTG) é a maior acionista individual com mais de 20% do capital.
REN (Redes Energéticas Nacionais) – Empresa que gere as redes de transporte de eletricidade e gás. A State Grid Corporation of China detém 25% da empresa, e a Fosun possui pouco mais de 5%.
EDP Renováveis – Gigante do setor de energias limpas controlada pela EDP, sofrendo forte influência estratégica da China Three Gorges.
Petrogal Brasil (Subsidiária da Galp) – Embora a Galp seja portuguesa, a estatal chinesa Sinopec detém 30% da sua lucrativa operação de extração petrolífera no Brasil.
-Saúde e Hospitais
Luz Saúde – Um dos maiores grupos de medicina privada em Portugal (dono do Hospital da Luz). É controlado pela Fidelidade (Fosun).
Hospital da Luz – Rede hospitalar de referência integrada no ecossistema da Luz Saúde e dominada pela gestão do capital chinês.
-Engenharia, Construção e Indústria
Mota-Engil – A maior construtora de Portugal. O grupo estatal chinês CCCC (China Communications Construction Company) comprou uma posição estratégica de mais de 30% da empresa.
CALB Portugal (China Aviation Lithium Battery) – Responsável pelo maior investimento industrial recente em Portugal (cerca de 2 mil milhões de euros) para criar uma megafábrica de baterias elétricas em Sines.
Martifer – Empresa de construções metálicas e energias renováveis que conta com investimentos diretos de capital chinês em seu portfólio.
-Tecnologia, Telecomunicações e Mídia
Huawei Portugal – Gigante tecnológica chinesa com forte domínio na infraestrutura de redes de telecomunicações e venda de eletrónicos em solo português.
ZTE Portugal – Outra multinacional estatal chinesa focada em telecomunicações que opera de perto com os operadores de rede portugueses.
Tencent Portugal – Multinacional que não só gerencia propriedade intelectual e investimentos locais, como monitora startups no ecossistema ibérico.
Reditus – Empresa portuguesa de tecnologias de informação que possui participações minoritárias mas estratégicas de fundos associados ao capital chinês.
-Outros Setores (Imobiliário e Logística)
Fosun Portugal (Imobiliário) – Braço que gere dezenas de propriedades de luxo, terrenos urbanos e ativos imobiliários de grande porte comprados pelo grupo em Lisboa e Porto.
Inapa – Empresa do setor de distribuição de papel e soluções de embalagem que listou capital aberto com investimentos diretos e indiretos de grupos orientais.
Fabulosa Geração.
Fabuloso Geração
Rua António Aleixo, N.º 179, 2865-613 Fernão Ferro
quarta-feira, 22 de julho de 2026
EBITDA
Qualquer gestor de empresa pública costuma dizer o mesmo quando os resultados não são bons: «O EBITDA melhorou.» A frase é tecnicamente verdadeira.
Mas esconde o que realmente importa: o contribuinte está pagando mais e recebendo menos.
Os números de 2024 do Setor Empresarial do Estado (SEE) — o conjunto de empresas controladas pelo Estado — contam uma história clara quando você lê os relatórios até o fim.
O indicador que os gestores gostam de destacar subiu um pouco. O número que realmente mostra se a empresa ganhou ou perdeu dinheiro desceu.
E o buraco financeiro na saúde quase duplicou num único ano.
Isto não é opinião.
São contas oficiais da UTAO e do Conselho de Finanças Públicas.
O que é o EBITDA?
É um indicador que mede apenas o dinheiro gerado pelas operações normais da empresa — vender produtos ou prestar serviços — antes de pagar juros de empréstimos, impostos e antes de contar com o desgaste natural dos edifícios, máquinas e equipamentos (as chamadas depreciações).
Pense numa padaria familiar.
EBITDA é o dinheiro que sobra das vendas de pão depois de pagar a farinha, o salário do padeiro e a conta de luz.
Mas ignora completamente os juros do empréstimo do forno, os impostos e o fato de que o forno perde valor todos os anos.
É como olhar só o “lucro da loja” e esquecer todas as contas do banco e a manutenção do equipamento.
Em 2024, as 119 empresas do SEE com dados disponíveis aumentaram o EBITDA de 2.988 milhões de euros em 2023 para 3.084 milhões — mais 96 milhões.
Parece boa notícia.
Mas o resultado líquido (o lucro ou prejuízo final depois de todas as despesas) caiu de 997 milhões para 938 milhões.
Menos 59 milhões no mesmo ano.
A receita total subiu 19,9 %, mas os gastos cresceram 24 %. Estão a faturar mais… e a gastar ainda mais depressa.
As 10 empresas financeiras do Estado melhoraram bastante.
Já as 131 empresas não financeiras (hospitais, transportes, etc.) pioraram: o EBITDA caiu 575 milhões e o prejuízo agravou-se.
Pior ainda: as empresas mais controladas diretamente pelo Governo (as chamadas Empresas Públicas Reclassificadas) tiveram o desempenho mais fraco de todas. O EBITDA passou de positivo para negativo e o prejuízo quase duplicou.
As empresas mais independentes até melhoraram.
Quanto mais perto do controlo político, pior corre financeiramente.
A dívida desceu… mas vejamos quem pagou a conta
A dívida total do SEE caiu 23 % (menos 5 398 milhões de euros).
Boa notícia?
Sim, mas olhem quem reduziu mais: foram precisamente as empresas em pior situação financeira.
As mais rentáveis reduziram muito menos dívida.
Isto sugere que as empresas em dificuldades receberam injeções de dinheiro do Estado, reestruturações ou venderam ativos para conseguir baixar a dívida.
Não foi porque começaram a gerar mais dinheiro sozinhas.
É como uma família endividada que vende o carro ou pede dinheiro aos pais para pagar o cartão de crédito: a dívida desce, mas a situação não melhorou por mérito próprio.
O verdadeiro buraco: o SNS empresarial (e a pressão sobre os serviços públicos)
Esqueça a TAP por um momento.
A maior empresa deficitária do SEE, excluindo a saúde, foi a TAP SGPS com prejuízo de 59 milhões de euros. É um número que ganha manchetes, mas é pequeno comparado ao resto.
O verdadeiro problema está na saúde.
As entidades públicas empresariais do Serviço Nacional de Saúde (hospitais e Unidades Locais de Saúde organizadas como empresas do Estado) tiveram prejuízos de 1 738 milhões de euros em 2024, contra 969 milhões em 2023.
Quase o dobro em um único ano.
Isto representa 93 % de todo o prejuízo negativo do SEE.
30 das 42 entidades do SUS têm patrimônio líquido negativo, ou seja, devem mais do que têm.
Estão em falência técnica.
O buraco patrimonial acumulado é de 1,6 mil milhões de euros.
Quando nos dizem que a imigração está pressionando os serviços públicos, aqui está a prova concreta.
Portugal recebeu um forte aumento de população nos últimos anos, em grande parte por imigração. Mais pessoas significa mais procura de consultas, urgências, cirurgias, medicamentos e cuidados de saúde.
Os números mostram que o sistema não está a aguentar financeiramente: o prejuízo quase duplicou num ano, quase metade das unidades já está em falência técnica e o buraco patrimonial é enorme.
Isso não significa que a imigração seja a única causa, o relatório do CFP aponta subfinanciamento estrutural crônico (As subvenções dos amigos AntónioCosta e Mário Centeno), custos das novas Unidades Locais de Saúde e problemas de governança.
Mas os dados são claros: a pressão sobre os serviços públicos existe, é real e está custando caro aos contribuintes.
Qualquer um que diga que “não há problema” ou que “o sistema pode lidar com isso” está ignorando a aritmética oficial.
A afirmação de que “Portugal está melhor”… desmontada pelos números
Enquanto alguns governantes, incluindo o primeiro-ministro Luís Montenegro, repetem que Portugal está melhor, os números do Setor Empresarial do Estado desmentem essa narrativa quando olhamos para os serviços essenciais que o Estado gerencia diretamente.
O buraco na saúde quase duplicou.
As empresas mais próximas do controlo do Governo são as que pioram mais.
Mais de metade das empresas públicas ainda não tinha as contas de 2024 aprovadas pela tutela mais de dez meses depois do fecho do ano.
E o esforço financeiro do Estado com o SEE até diminuiu em um ano em que os danos à saúde explodiram.
“Portugal está melhor” pode ser verdade em alguns indicadores macroeconômicos ou em certos setores privados.
Mas para aqueles que dependem do NHS, para os contribuintes que financiam essas empresas e para aqueles que olham para a governança real do Estado empresarial, os números mostram deterioração, não melhoria. O “melhor” não chega aos serviços públicos mais críticos.
Quem paga a fatura e quem não presta contas
Apesar dos prejuízos gigantescos na saúde, o Estado transferiu menos dinheiro para o SEE em 2024 do que no ano anterior. Entretanto, o sector empregava 187 088 pessoas (mais 14,5 %).
E persistem graves problemas de transparência: só 48 % dos relatórios e contas de 2024 estavam aprovados quando o CFP publicou o seu relatório.
O retrato que os comunicados oficiais não dão de uma só vez
- O EBITDA sobe para disfarçar que o resultado final cai.
- As empresas mais controladas pelo Estado são as que mais perdem dinheiro.
- A dívida cai principalmente nas empresas em pior estado — muitas vezes com ajuda do Estado ou venda de bens.
- O SNS empresarial está em crise financeira grave, com quase metade das entidades em falência técnica.
- A pressão sobre os serviços públicos é real e visível nos números — incluindo o impacto do aumento da população por imigração.
- A governação e a transparência continuam fracas.
- Afirmações de que “Portugal está melhor” não resistem quando se olha para o Setor Empresarial do Estado.
Não é preciso inventar nada.
Basta ler os relatórios até o final e fazer as contas.
Como se esconde tudo isto?
Através da “dança das cadeiras” técnica, das nomeações em bloco e do controlo dos árbitros que deveriam fiscalizar o sistema.
Os números que publicamos, o buraco do SNS quase dobrando para 1,7 bilhão de euros de prejuízo em 2024, 30 das 42 entidades em falência técnica, o resultado líquido do SEE piorando enquanto o EBITDA é usado para disfarçar não são segredo. Estão nos relatórios da UTAO de maio de 2025 e do Conselho de Finanças Públicas de novembro de 2025.
Qualquer deputado, qualquer jornalista e qualquer cidadão os pode ler.
Então porque é que nada muda de forma estrutural?
Porque quem produz os relatórios, quem os interpreta e quem decide o que fazer com eles circula dentro do mesmo círculo fechado há décadas. A nomeação de Ana Sofia Terlica Pereira para coordenar a UTAO é apenas mais uma peça desse quebra-cabeça.
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É a clássica “dança das cadeiras” entre PS e PSD. Mudam os rostos, permanecem as mesmas redes, as mesmas formações e os mesmos constrangimentos orçamentários vindos de Bruxelas.
Chama-se “bloco central” quando se faz por nomeações em vez de por acordo explícito de governo.
Enquanto se nomeiam dezenas de administradores para as Unidades Locais de Saúde e hospitais muitas vezes com ligações políticas claras de ambos os lados, o prejuízo anual das entidades do SNS quase duplicou.
Quem chega a essas direções herda estruturas subfinanciadas, com capital próprio negativo e sem autonomia real para decidir.
Depois, quando os resultados são maus, o Governo ou a oposição apontam o dedo… mas mantêm o modelo de nomeações que garante lealdade em vez de competência de gestão.
É o mesmo padrão que se vê na UTAO: o órgão que deveria ser o “olho” independente do Parlamento fica nas mãos de alguém que já fez parte do poder executivo que agora vai auditar. O relatório sai, os números são duros, mas a narrativa que se constrói em cima deles continua cabendo dentro do mesmo esquadro: “é preciso mais eficiência”, “é preciso cumprir as regras europeias”, “o EBITDA até melhorou”.
O custo real para os portugueses
Os portugueses são constantemente apresentados com dois discursos em paralelo:
1. Os relatórios técnicos que mostram a realidade crua (prejuízos a crescer, dívida técnica, falência técnica de metade das unidades de saúde).
2. Os comunicados políticos que dizem que “Portugal está melhor” ou que “estamos fazendo o que é necessário”.
A nomeação de Terlica não esconde os números. Eles estão publicados.
Esconde a consequência política desses números. Porque quem agora lidera a unidade que produz os relatórios pertence à mesma elite técnica que há 20 anos desenha as políticas, as audita e depois as justifica perante Bruxelas.
Enquanto isso:
- O SUS continua acumulando prejuízos e perdendo profissionais.
- As empresas públicas mais próximas do controle político continuam sendo as que pior administram.
- O contribuinte continua pagando a conta sem ver reformas estruturais que mudem o modelo.
A “independência” técnica é real no papel. Na prática, é uma independência dentro de um sistema que não questiona as regras do jogo — só mede se estamos cumprindo melhor ou pior.
O que ficaria se quiséssemos realmente mudar
Se o objetivo fosse mesmo resolver o problema em vez de gerir a narrativa, far-se-ia o contrário do que se tem feito:
- Dar verdadeira autonomia de gestão às unidades de saúde, com orçamentos plurianuais e responsabilização clara por resultados.
- Reduzir drasticamente o número de nomeações políticas para cargos técnicos e de direção.
- Exigir que quem lidera organismos de fiscalização como a UTAO tenha um período de “quarentena” maior depois de passar por gabinetes governamentais.
- Publicar não só os relatórios, mas também o que o Governo faz (ou não faz) com as recomendações que eles contêm.
Enquanto isso não acontece, os relatórios da UTAO — mesmo os mais críticos — continuarão servindo de “prova” para quem quer atacar e de “alibi técnico” para quem quer continuar tudo igual.
Os números estão todos lá.
O buraco do SNS, a piora do resultado líquido do SEE, a falta de aprovação de mais de metade das contas das empresas públicas.
Tudo documentado.
O que falta é vontade política de quebrar o circuito de nomeações e de elites que garante que, independentemente de quem ganha eleições, o modelo se mantém.
Essa é a maneira mais eficaz de esconder o que você não quer resolver: não negando os números, mas controlando quem os produz, quem os interpreta e quem decide se valem a pena ser levados a sério.
Fontes
https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf...
UTAO, Relatório nº 6/2025, "Apreciação econômico-financeira do Setor Empresarial do Estado: janeiro a dezembro de 2024", 2 de maio de 2025.
Conselho de Finanças Públicas, Relatório n.º 09/2025, "Setor Empresarial do Estado e Regional 2023-2024", 26 de novembro de 2025 ( cfp.pt ).
ECO, "SNS representa 93% dos prejuízos das empresas públicas", 26 de novembro de 2025 (eco.sapo.pt).
Observador, "Prejuízos do setor empresarial do Estado se agravaram para 1.312 milhões de euros em 2024, diz Conselho das Finanças Públicas", 26 de novembro de 2025.
Jornal de Negócios, "Hospitais com perdas de mais de 1.500 milhões de euros em 2024", citando dados da ACSS, 5 de março de 2025.
terça-feira, 21 de julho de 2026
AS ÁGUAS SOCIALISTAS DE PORTUGAL – COM O ALTO PATROCÍNIO DE ANTÓNIO COSTA

