segunda-feira, 13 de julho de 2026

Neste Mundial de 2026 as transmissões dos jogos mudaram.

 Em Portugal, apareceu a LiveMode que passa partidas no Youtube. 

O que promete mudar o mercado. 



A pandemia levou a Globo a iniciar uma disputa com a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) para renegociar os direitos televisivos que tinha acordado por um preço anual de 90 milhões de dólares de 2015 a 2022. Numa altura em que muitos negócios ficaram pelo caminho, também o principal grupo televisivo brasileiro queria baixar a sua fatura com os direitos do futebol, já na antecâmara do Mundial de 2022, no Qatar, falhando mesmo o pagamento na altura acordada. O caso chegou à justiça brasileira. A FIFA foi à luta. O acordo entre as partes chegou por via extrajudicial em 2021. O valor manteve-se inalterado, mas a Globo conseguiu mais tempo para pagar, abrindo mão da exclusividade dos direitos digitais, apesar de manter o exclusivo na transmissão em canais abertos e canais pagos de televisão. A Globo acabou a abrir a porta do galinheiro. A FIFA entregou as negociações para encontrar novos operadores da transmissão digital à LiveMode, que acabou a ficar com os direitos, o que resultou em acusações — sem consequências — de conflitos de interesse. O mercado brasileiro mudou a partir de 2022. Os jogos, no Qatar 2022, já não foram um exclusivo da Globo — que acabou mesmo a perder o maior pacote no Mundial deste ano. 

*Com pais portugueses, Casimiro é o nome que dá origem à Cazé TV* Na mesma altura que Globo e FIFA disputavam os pagamentos dos direitos em tribunal, numa casa do Rio de Janeiro o /streamer/ Casimiro Miguel ganhava fãs. Em plena pandemia, usava a plataforma Twitch para reagir (nas redes sociais são os chamados ‘reacts’) a vários temas, desde culinária, lancheiras, casas milionárias, reality shows, até ao futebol. Tinha começado a sua vocação de “streamer” a transmitir jogos de computador, como o Among Us, FIFA 21, League of Legends. Mas foi a comentar quase tudo que se tornou famoso e conseguiu chegar a todos os públicos e é hoje o rosto de vários memes com as /punchlines/ ‘meteu essa?’, ‘que papinho, hein?’ e ‘ih, mané!’. Em 2021 foi a Personalidade do Ano no Prémio eSports Brasil. Chamado pelos fãs de “Casimito” tornou-se um fenómeno na internet, com muitos milhões de seguidores. Em janeiro de 2022 pôs mais de 500 mil pessoas a acompanhar a sua transmissão a comentar o primeiro episódio do documentário de Neymar na Netflix. Foram noites em claro a fazer emissões de streaming. Ganhou dinheiro, ao ponto de dar aos seus pais, emigrantes portugueses, a “reforma”, e de permitir casar-se com Anna Beatriz Lima que conheceu através de uma página de humor dedicada ao Vasco da Gama, o seu clube de coração (a aliança foi gravada com a Cruz de Malta, símbolo vascaíno, e muitas das músicas associadas ao clube carioca foram cantadas no copo de água). Dinheiro que lhe permitiu, segundo contou ao UOL, fechar uma sala de cinema para poder assistir com os amigos ao filme Homem-Aranha. Tudo começou no canal Esporte Interativo, como estagiário, primeiro a gerir redes sociais, depois a participar nas transmissões e criou o canal de humor “De Sola” no Youtube dessa empresa. Pedro Certezas, que partilhava o canal com Casimiro, contou à UOL que tudo começou porque eram “os engraçadinhos” e começaram a falar para um público jovem de modo próprio. Daí passou a comentador no SBT Rio. A Esporte Interativo foi fundada em 2014 por Sérgio Lopes e Edgar Diniz, que começaram a garantir direitos de transmissão de jogos de futebol. O canal cresceu e foi vendido ao grupo americano Turner em 2015, que mais tarde o tornou em TNT Sports. Os dois empresários saíram da empresa e, em 2017, fundaram a LiveMode. Não esqueceram o estagiário “engraçadinho”. No início de 2022 já estavam, em conjunto, a transmitir jogos do campeonato carioca — Flamengo-Portuguesa, atingiu um pico de 200 mil espetadores simultâneos, e Botafogo-Bangu. Para chegar ao final do ano a transmitir na internet jogos do Mundial de 2022. A LiveMode, responsável por negociar o contrato de direitos digitais em nome da FIFA, acabou a ficar com o negócio e decidiu dar nome ao canal — assim nasceu a Cazé TV. “Acho que ele vai ser um dos maiores comunicadores do Brasil nos próximos anos. Ele já é. Mas vai crescer ainda mais. Muito fo… tu conhecer um moleque que era só um nerd e hoje ele molda a opinião brasileira”, tinha declarado, em 2022, Pedro Certezas ao UOL <https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/a-saga-do-uol-esporte-em-busca-de-uma-entrevista-com-casimiro/#page11>. No mesmo artigo, Maurício Portela, sócio da LiveMode, é citado explicando que tinham conhecido Casimiro há mais de oito anos. “Convivemos juntos no Esporte Interativo e sempre reparámos no talento e na capacidade de manter uma conversa com a linguagem que engaja nas redes sociais.* Compartilhamos com ele o sonho de revolucionar as transmissões desportivas para o ambiente digital.* Temos convicção que a união do talento do Cazé com a nossa capacidade de levar os direitos desportivos para onde os consumidores estão criará grandes projetos para o futebol e todo o desporto”. De um início no Qatar até ter todos os jogos do Mundial de 2026 No Qatar 2022 a Cazé TV <https://twitter.com/Casimiro/status/1588524603877380096> pôde transmitir vários jogos (um por dia), entre eles todos os da seleção brasileira. Um pacote de 22 jogos custou à LiveMode 3 milhões de dólares, segundo a imprensa brasileira. O jogo do Brasil contra a Croácia, que ditou a eliminação da canarinha, teve 6,9 milhões de visualizações, estabelecendo, então, um novo recorde nas transmissões em direto no Youtube no Brasil. Foi o que bastou para o passo seguinte. O Mundial de 2026 garantiu à Cazé TV os direitos digitais de todos os jogos do campeonato. Nunca a transmissão de um mundial foi, no Brasil, tão repartida: a Globo e a SBT ficaram com direitos para a televisão aberta; Sportv e N Sports para canais por assinatura e Cazé TV para o Youtube — 104 partidas. Em 20 dias, segundo a imprensa brasileira, a Cazé TV vendeu todas as quotas publicitárias (11) amealhando *2 mil milhões de reais (340 milhões de euros), o mesmo conseguido pela Globo.* Ambev, Coca-Cola, Itaú, Ifood, Mercado Livre, Vivo, Bet365 foram alguns dos patrocinadores que aceitaram pagar 185 milhões de reais (cerca de 32 milhões de euros) para se associarem às transmissões no Brasil do mundial deste ano. “Esta Copa do Mundo, com o marco de se poder ver todos os 104 jogos apenas pela CazéTV, fecha um ciclo de quatro anos em que a empresa da LiveMode sai de uma alternativa para um *agente forte no setor de transmissões desportivas*, disputando com grupos como Globo, Disney e Warner Discovery. Se para a Copa de 2022 o Grupo Globo acreditava que a exclusividade digital não era relevante, passou a ser e custará mais nas próximas negociações”, explica ao Observador Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que integra a Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte e o Observatório das Transmissões de Futebóis. “Com a CazéTV, a transmissão pelo Youtube *virou uma janela importante para público, marcas e campeonatos exibidos*“, acrescenta, recordando que, por isso, a Globo reestruturou o seu canal Ge TV para transmitir eventos desportivos, aproveitando “o modelo de linguagem da CazéTV, uma mudança relevante”. Já a Warner também garantiu, no contrato da UEFA para a Liga dos Campeões, a transmissão de alguns jogos no seu canal no Youtube para o Brasil. Ou seja, a CazéTV mudou o panorama televisivo e com isso está a pressionar a resposta dos outros operadores. Não é por acaso. Anderson Santos indica ao Observador que, com base nos dados anuais da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar – Contínua do IBGE, *“percebe-se a diminuição do acompanhamento da televisão tradicional e o aumento do uso da internet nos últimos 12 anos”, ainda que *“a maior parte da população ainda acompanhe/tem mais a televisão gratuita que assinatura de /streaming/ (cerca de 93% a 44% dos domicílios, respetivamente, em dados de 2025)”. No entanto, “o investimento publicitário passou a equiparar-se nessas duas mídias ao longo deste período, sinalização importante de como o mercado vê o consumo audiovisual”. Porém, “acredito que, para ‘destronar’, vai depender bastante de o /streaming/ conseguir campeonatos de forma exclusiva”, considerando, mesmo, que “*a linguagem mais voltada ao público jovem e a qualidade da internet ainda são barreiras relevantes* quando é o mesmo jogo nas duas plataformas”. No Brasil, o atraso na transmissão pela internet, cerca de 30 segundos, também foi um dos temas. Mas nestas mudanças não há que esquecer que a própria televisão aberta está a adotar novos modelos, caminhando “para um novo cenário convergente, adaptando-se ao modelo dos aplicativos”, acrescenta o mesmo professor. *A Cazé TV tem, atualmente, 39,4 milhões de subscritores no Youtube.* Começou com o Mundial no Qatar, expandiu-se no Mundial de 2026, e pelo meio transmitiu Jogos Olímpicos de 2024, Liga Europa e Liga Conferência, Mundial de Futebol Feminimo 2023 e alguns jogos do campeonato brasileiro. Já assegurou o Mundial Feminino de 2027 e manterá a Liga Europa e a Liga Conferência. Detém também os direitos da La Liga por seis temporadas. E terá emissões dos Jogos de Los Angeles 2028. A entrada em Portugal pelo Mundial O Brasil foi a rampa de lançamento da Cazé TV, associação entre Casimiro Miguel e a LiveMode. Uma rampa que trouxe o projeto para Portugal. Entrou pela porta grande, pelo campeonato de mundo de futebol coorganizado pelos Estados Unidos, Canadá e México. A LiveModeTV assegurou um* total de 34 jogos*, um jogo por dia, entre eles todos os da seleção portuguesa. Conforme prometido pela empresa, “além do jogo do dia de cada jornada, terá várias horas de programação dedicada ao Campeonato do Mundo 2026, contando com cerca de 8 horas diárias”. Gratuitamente. A LiveMode ainda fez um acordo com a Prime Video, que coloca na sua oferta as transmissões que correm no Youtube, mas não se sabe também o valor deste acordo. Hoje tem 915 mil subscritores no Youtube. As emissões têm tido a participação de ex-jogadores como Ricardo Quaresma e Ricardinho, os /streamers/ Diogo da Silva, conhecido como MoveMind, e Os Primos (dupla de Iuri Pina e Rui Costa) e comentadores externos convidados como Tomás da Cunha e Mário Cagica. Todo o ambiente de transmissão é distinto do que acontece nos canais de televisão tradicionais. Diogo da Silva, ou MoveMind, que já tinha o seu público como streamer, sonhava, em miúdo, relatar jogos de futebol. Começou em 2017 no Twitch com os jogos profissionais de portugueses de FIFA (jogo de computador). Do mundo virtual passou para o real quando a Sport TV o convidou para relatar um jogo da liga italiana. Até chegar à LiveMode TV, onde esteve com a equipa da empresa que esteve nos Estados Unidos a acompanhar a seleção portuguesa. A famosa peruca com que se apresenta até foi “roubada” pelo “amigo” João Félix num dos golos de Portugal. <https://www.instagram.com/reel/DZ8D8eKkeSo/?utm_source=ig_embed&utm_campaign=loading> Luigi Mesquita e Luana do Bem são outros dos nomes que ocupam a emissão da LiveMode TV neste mundial. Ao Observador, a empresa recusou dar o número de pessoas a trabalhar para a LiveMode durante este mundial, não especificando inclusive quantos jornalistas. No site que reúne os jornalistas no ativo da Comissão da Carteira de Jornalistas encontra-se inscrito, por exemplo, Mário Cagica de Oliveira, fundador do Bola na Rede, mas que está apenas no canal apenas como comentador externo convidado, não fazendo parte da equipa de informação. A LiveMode limita-se a indicar ao Observador que a sua operação para o Mundial “envolve uma equipa multidisciplinar, ajustada a um projeto digital e multiplataforma”, pelo que “os intervenientes são *essencialmente produtores e criadores de conteúdo, comentadores e convidados*, num formato que assenta em entretenimento desportivo, comentário informal e interação com a comunidade”. Ao Eco <https://eco.sapo.pt/entrevista/somos-a-boca-do-funil-se-estivesse-do-lado-da-sport-tv-teria-comprado-patrocinio-na-livemode/> indicou que em Portugal tem cerca de 50 pessoas, “pelo menos uns 30 funcionários e depois pessoas contratadas para este projeto específico, durante o Mundial — que é um projeto mais curto e exige muito mais mão de obra do que vamos ter depois”. Afinal o que que serviço dá a LiveMode? A disputa com a ERC Na interação com a ERC, a LiveMode iniciou o pedido de registo como web tv, o que exigiria determinados requisitos, como um responsável de informação com carteira profissional. Mais tarde a LiveMode alterou o projeto, de forma a que o regulador da comunicação social considerou que se tratava de um serviço audiovisual a pedido, para o qual era exigido registo. “As características do modelo atual enquadram-no juridicamente como serviço audiovisual a pedido, sustentado por publicidade (Advertising Video On demand- AVOD), através de plataformas de terceiros (OTT – over the top)”, tendo sido tornados públicos contratos com vários patrocinadores — associando-se a marcas como BPI, Coca-Cola, Vichy, EDP, Bwin, Betclic, Sagres e McDonald’s, dizia a ERC, numa deliberação de 22 de junho, na qual dava 72 horas para a LiveMode apresentar os elementos exigidos. A empresa garante que o fez, ainda que continuando a não concordar com o enquadramento que a ERC pretende dar ao serviço. “A LiveModeTV irá apresentar a documentação detalhada à ERC sobre o modelo atual do seu projeto, demonstrando que a sua atividade não se enquadra na categoria de serviço audiovisual a pedido. A empresa fá-lo confiante de que, tal como aconteceu com a classificação como serviço de televisão web, a análise destes elementos levará a ERC a concluir que a LiveModeTV não se enquadra nessa categoria”. A LiveMode considera que faz “a mera disponibilização de conteúdos numa plataforma de partilha de vídeos”. “Na sua configuração atual, a LiveModeTV consiste numa operação digital de disponibilização de conteúdos audiovisuais relacionados com eventos desportivos específicos (…) através de plataformas digitais de terceiros, às quais os utilizadores acedem individualmente, por sua própria iniciativa”, declarou à ERC, assumindo que a sua atividade “não tem caráter permanente, estrutural ou contíguo. É temporária, circunscrita ao período de duração do torneio e dependente, em cada momento, dos direitos de transmissão disponíveis e das condições das plataformas utilizadas”. Também não terá uma grelha de programação nem “uma lógica de canal editorial permanente”. A LiveMode garantiu <https://www.erc.pt/document.php?id=ZjIxOTRmZTItNmVlZC00MTNiLWI5YmYtY2RkMGZhNDFjZGU5> ainda à ERC não tencionar operar em Portugal como operador televisivo, nem órgão de comunicação social, não tendo, assumidamente, informação jornalística ou envolvendo jornalistas. Por outro lado alega que uma vez que transmite através de plataformas terceiras não tem qualquer controlo editorial ou técnico sobre a difusão. O caso ainda não encerrou. Ao Observador a empresa garante que “tem mantido diálogo com a ERC”, e que “apresentou os elementos solicitados – por razões cautelares e face ao prazo apertado fixado pelo regulador -, e tem procurado manter uma postura de colaboração com o mesmo”, dizendo pautar-se por uma conduta de “total transparência e cooperação”. E assume que a “LiveModeTV continua a ser o mesmo projeto desde o início do Mundial: uma experiência digital, multiplataforma, participativa e centrada no entretenimento desportivo”. A transmitir em plataforma de terceiros, assumindo a LiveMode que se serve do Youtube conforme as condições aplicáveis aos criadores de conteúdos, ou seja, ganhando pelas visualizações, mas nada do acordo é revelado. A LiveMode diz ao Observador que, “como qualquer projeto digital, disponibiliza os seus conteúdos através de plataformas tecnológicas de terceiros, incluindo o Youtube, *em conformidade com os termos e condições aplicáveis.* Essa utilização faz parte da operação normal de um projeto digital e multiplataforma, cujo foco é assegurar que os conteúdos chegam à comunidade de forma estável, acessível e participativa”. Contactado pelo Observador, o Youtube também nada revela sobre a ligação, mas admite haver uma parceria. “Temos orgulho em estabelecer uma parceria com a LiveModeTV para levar experiências emocionantes de streaming desportivo aos espectadores do Youtube. *Embora os detalhes do nosso acordo de licenciamento permaneçam confidenciais,* o nosso foco em comum é oferecer transmissões acessíveis e de alta qualidade aos fãs de desporto”. Um projeto digital que entrou pelo campeonato dos grandes e a FIFA gostou A LiveModeTV “é, acima de tudo, um projeto digital de entretenimento desportivo. O formato combina acompanhamento de eventos – por via das lives ou por via de conteúdos para as redes sociais -, com comentário informal, que é feito por criadores de conteúdos, ex-jogadores, convidados e pela interação da comunidade, numa experiência pensada para plataformas digitais. Em suma, somos, e queremos continuar a ser, uma nova forma de viver e acompanhar o futebol em ambiente digital”. A declaração ao Observador mostra como a empresa quer distinguir-se dos tradicionais operadores de televisão que transmitem os jogos de futebol e os eventos desportivos. A Globo abriu a porta à LiveMode/Cazé, que se virou, agora, para a Europa, entrando por Portugal. E a FIFA gostou. Para os mundiais, a poderosa FIFA abre concursos para entregar os direitos televisivos. Ao Observador, o organismo assume que “as plataformas digitais não são apenas complementares à transmissão televisiva tradicional. São uma parte importante da forma como os adeptos descobrem, experienciam e interagem com o campeonato do Mundo da FIFA”, e, por isso, “o nosso objetivo é servir os adeptos onde quer que escolham consumir conteúdo, preservando, ao mesmo tempo, o valor e o alcance dos nossos parceiros oficiais de media”. Em respostas escritas ao Observador, através do gabinete de imprensa, a FIFA diz acreditar que, para este mundial, “construímos o que *provavelmente é o ecossistema de mídia mais diversificado* da história do torneio, *combinando emissoras líderes, serviços de streaming, plataformas sociais, criadores de conteúdo e novas experiências imersivas.* Em mais de 220 territórios, a nossa estratégia foi concebida para maximizar a acessibilidade, aprofundar o engajamento e aproximar o torneio dos torcedores de maneiras que não eram possíveis há poucos anos”. E claro, o encaixe financeiro, que a FIFA não assume como objetivo, não revelando também os valores. Para a FIFA, os adeptos “*transitam cada vez mais com fluidez entre televisão, streaming, redes sociais e conteúdo de criadores ao longo do dia.* O nosso papel é garantir que o Mundial esteja presente em toda essa jornada”. O streaming, acrescenta, “tornou-se uma das formas preferidas de muitas pessoas acompanharem o desporto, e estamos particularmente satisfeitos com os resultados alcançados pela LiveMode no Brasil e, mais recentemente, em Portugal”. Mas como cada mercado é diferente, nomeadamente em termos de regulamentações, infraestrutura, acessibilidade e hábitos do público, a FIFA não aplica um modelo universal. “Analisamos cada mercado individualmente e decidimos pela abordagem que melhor atende tanto à competição quanto aos adeptos” na venda de direitos televisivos e de streaming. “As emissoras continuam a ser a base da cobertura do Mundial da FIFA”, uma vez que “oferecem a experiência da partida ao vivo, a qualidade de produção, a expertise jornalística e o alcance em larga escala que permanecem essenciais para o sucesso do torneio”. Mas, ao mesmo tempo, “os criadores de conteúdo consolidaram-se como poderosos contadores de histórias que engajam o público de maneiras diferentes, muitas vezes alcançando comunidades e faixas demográficas mais jovens que consomem conteúdo desportivo de forma distinta”. Para a FIFA o objetivo “é ajudar esses mundos a trabalharem juntos”. Em Portugal, os direitos para canais fechados para o Mundial foram garantidos, para os 104 jogos, pela Sport TV — que assim acaba a ter 20 em cotransmissão com os canais abertos e LiveMode e mais 14 com o streaming. Os direitos abertos foram entregues aos três canais — RTP, SIC e TVI — que foram forçando os valores envolvidos e acabaram a perder o streaming, que a FIFA viu como mais uma oportunidade. Essa fatia foi garantida pela LiveMode. Não se conhecendo o valor que a LiveMode pagou (nem a Sport TV), sabe-se apenas que pelos 20 jogos, SIC, TVI e RTP pagaram 5,6 milhões de euros. A nível global, a FIFA projetou <https://observador.pt/especiais/o-tortuoso-e-exorbitante-caminho-para-comprar-bilhetes-para-mundial-e-o-risco-de-estadios-meio-cheios/> arrecadar perto de 4,3 mil milhões de euros com a venda dos direitos de transmissão do Mundial 2026. “A entrada do modelo LiveMode provoca alterações profundas no mercado das transmissões desportivas ao oferecer *emissões digitais gratuitas* em plataformas como o YouTube. Focaliza comunidades digitais e utiliza uma linguagem mais informal e próxima dos criadores de conteúdos. Não elimina os direitos da televisão tradicional, mas *retira o monopólio da exclusividade”, *realça ao Observador Mário Teixeira, professor de Gestão do Desporto da Universidade de Évora, para quem, “face à nova realidade, os canais de televisão precisam de se adaptar e repensar a oferta”. Para este professor, “a partir daqui nada será como antes”. “Os novos modelos de transmissão televisiva em formato digital constituem uma excelente oportunidade para públicos, media, empresas e promotores de megaeventos desportivos como o Mundial FIFA ou os Jogos Olímpicos, entre outros. Permitem uma experiência de visualização inovadora num ecossistema interativo, digital e maioritariamente gratuito”. As mudanças no valor dos direitos desportivos Apesar dos números relativos aos direitos desportivos estarem quase sempre envoltos em secretismo, não se sabendo, por exemplo, quanto custou à LiveMode ou à SportTV os direitos do Mundial, Mário Teixeira admite que, “tendencialmente, o *valor de mercado dos direitos desportivos aumentará globalmente* devido à maior fragmentação e redistribuição das janelas de transmissão”. Acredita que “as entidades desportivas (FIFA e IOC) optarão por substituir a venda dos direitos a um único canal de TV por um valor astronómico e exclusivo pela venda mais vantajosa a múltiplas plataformas em simultâneo como a TV aberta, canais fechados de subscrição (Sport TV e DAZN) e plataformas de streaming digital”, o que leva Mário Teixeira a concluir que “os novos modelos complementam e acrescentam, gerando ainda mais valor à indústria do desporto em mudança acelerada pela revolução tecnológica”. Ao Eco, o diretor geral da LiveMode Portugal acredita que não é a empresa que está a inflacionar direitos desportivos em Portugal que, diz, “já está altamente inflacionado há um bom tempo. Acho que o nosso impacto é completamente marginal”. A LiveMode entrou, em Portugal, pelo Mundial, mas já garantiu a transmissão em Portugal de 25 partidas do Mundial feminino de 2027. E a LiveMode vai também emitir o primeiro jogo do Benfica no Estádio da Luz nesta época. A segunda pré-eliminatória da Liga Europa vai ser disputada com os suíços do St. Gallen, com a segunda mão, em casa, a acontecer a 30 de julho às 20 horas. E terá transmissão na BTV, SIC e LiveMode. É a primeira incursão da LiveMode em Portugal com um clube nacional, numa altura em que se prepara a centralização de direitos televisivos <https://www.ligaportugal.pt/pages/centralizacao>, a partir da época 2028/2029. GettyImages-2284949168 Novos investidores para estes projetos… e CR7 Há vários fatores a contribuir para aumentar o bolo das receitas ligadas às transmissões. Mário Teixeira apontam pelo menos três: “o maior alcance ao atrairmos novos públicos de faixas etárias mais jovens e a um volume de espetadores muito superior; a monetização publicitária inovadora ao substituirmos a dependência da exclusividade ou subscrições (/paywall/) por patrocínios em massa, publicidade integrada e parcerias com marcas; e a aposta dos investidores ao reconhecerem o potencial deste mercado acabam por elevar a valorização e a expansão destas empresas, com envolvimento financeiro de grandes investidores globais e figuras do desporto”. Já aconteceu. A LiveMode em Portugal garantiu como acionista o jogador português Cristiano Ronaldo. O braço brasileiro que tem como sócio Casimiro Miguel (que trocou os seus 49% na CazéTV por uma posição na holding) e os fundos XP Investimentos e General Atlantic. A LiveModeTV Portugal “integra o ecossistema global da LiveMode, estando a sua estrutura societária refletida e atualizada nos registos competentes”. Uma consulta ao Portal da Justiça revela que a LiveMode é uma sociedade unipessoal por quotas, constando como gerente Bashir Karim Vakil que, ao Observador, explica que enquanto elementos de uma sociedade de advogados “ajudámos na constituição da empresa”. Indica que foi “gerente interino e, como é pratica em casos semelhantes, fui substituído pelo gerente de facto, estando o registo pendente”. Tem um capital social de mil euros e foi constituída em outubro do ano passado com o nome Dinusaurdecade, tendo alterado a designação para LiveMode Portugal já este ano. A empresa diz ao Observador, apenas, que, “enquanto sociedade unipessoal por quotas, a LiveMode Portugal dispõe de um gerente, nos termos da lei”. Criada em 2017, a LiveMode começou a internacionalização por Portugal e nada melhor do que garantir como sócio Cristiano Ronaldo. Foi em maio que se anunciou a entrada do português no capital da LiveMode, não se indicando o valor da compra nem a percentagem de participação. O comunicado referia apenas Cristiano Ronaldo como “sócio estratégico e acionista da empresa”, que deterá uma “participação relevante”. “Em conjunto, Cristiano Ronaldo e a LiveModeTV pretendem ampliar o alcance do desporto, aproximando-se das audiências através do canal de Youtube e das redes sociais da LiveModeTV, de uma forma cada vez mais social, interativa e integrada”, lê-se na nota divulgada. Aliás, a participação de Cristiano Ronaldo neste universo empresarial foi aproveitada por dois dos rostos mais mediáticos da LiveMode TV junto da seleção portuguesa nos Estados Unidos — Luana do Bem e Tiago Almeida, quando, numa oportunidade de o entrevistar, pediram aumentos salariais. João Mesquita, diretor geral da LiveModeTV em Portugal (e que passou parte da sua carreira no Brasil), ao Eco salientou que Cristiano Ronaldo “é um sócio de referência que nos agrega um elemento muito importante, poucas pessoas entenderão melhor a dimensão global de medias sociais e a forma de falar de desporto, e com jovens, como o nosso sócio consegue fazer”, e admite que “adoraria ver uma participação maior, até no longo prazo, no próprio desenvolvimento do negócio. Há um valor agregado que ele e a sua equipa podem trazer no desenvolvimento do nosso negócio pela Europa, por exemplo”. Os números da LiveMode do Mundial Seja pelo fator gratuito, seja pela forma como se apresentam os conteúdos, as transmissões da LiveMode reúnem milhões. No Brasil, nos Jogos Olímpicos de 2024, o comentador (também surfista) Pedro Scooby <https://www.tiktok.com/@castta_oficial/video/7398504101853531397> tentou declarações de concorrentes brasileiros dentro de água. Teve uma reprimenda do Comité Olímpico. “Ele quebrou todos os protocolos. O Comité Olímpico nos disse que não podíamos fazer aquilo, mas que foi muito legal”, declarou Casimiro Miguel à Exame <https://exame.com/revista-exame/os-donos-da-copa/?


utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento>. No Mundial de clubes em 2025, apareceu na CazéTV um comentador vestido de ketchup <https://www.instagram.com/reel/DLixeLEJvxC/?hl=en>, no Fluminense-Inter de Milão. Casimiro Miguel diz à mesma reportagem que “não queremos fazer nada proibido, mas acreditamos que algumas coisas podem ser repensadas. Isso aproxima o público das equipas, dos jogadores, e aproxima os jogadores do público. Não precisamos ser amigos dos jogadores, mas eles entendem que estão num ambiente seguro para falar”. Mario Teixeira As entrevistas, a própria forma como o jogo é transmitindo, em que se vê sempre em várias janelas a reação dos comentadores marcam a diferença. Há quem goste, há quem não goste. Uma coisa é certa, capta novos públicos. Em Portugal, a LiveModeTV “tem chegado sobretudo a espectadores interessados em futebol, entretenimento desportivo e formatos digitais mais interativos. O conceito que usamos muitas vezes é o de público ‘jovem de espírito’, que gosta de ver futebol de forma mais divertida, leve, participativa e próxima”, diz ao Observador a empresa em respostas escritas, recusando dar uma entrevista presencial. De acordo com dados fornecidos pela empresa, considerando informações até ao último jogo dos oitavos-de-final do Mundial FIFA 2026, *71% da audiência da LiveModeTV pertenceu à faixa etária dos 18 aos 44 anos*, tendo a plataforma alcançado 91% da população portuguesa nesse segmento. Ao longo da competição, as transmissões chegaram a mais de *4,3 milhões de dispositivos únicos,* “um resultado que demonstra a capacidade do modelo digital da LiveModeTV para envolver uma audiência ampla e altamente interativa”. A empresa diz mesmo que “mais do que assistir aos jogos, os espectadores interagem em direto, participam nas polls, comentam e acompanham a transmissão como uma experiência coletiva. É precisamente essa combinação entre futebol, entretenimento e participação que tem permitido à LiveModeTV criar uma relação muito próxima com a sua comunidade”. É por isso que o delay de uma transmissão na internet acaba por não ser valorizado por esses espectadores. Admitindo que uma transmissão em direto em plataformas digitais “pode envolver naturalmente um ligeiro atraso técnico, como acontece em muitos serviços online”, a LiveMode TV acredita, no entanto, que “com base no /feedback/ que temos recebido, *um possível */*delay*/* não altera a experiência do utilizador em direto*: a comunidade acompanha o jogo em tempo real no ambiente digital, reage, comenta e interage durante a transmissão. O foco da LiveModeTV é precisamente proporcionar essa experiência coletiva e participativa em torno do evento”. O tempo médio de visualização por espetador nas /lives/ dos jogos dos playoffs foi de 1h05, tendo o jogo Brasil x Noruega sido a partida com maior alcance (1,4 milhões de dispositivos únicos) e o maior pico de audiência (855 mil dispositivos em simultâneo), seguido pelo Brasil-Japão com 603.966 dispositivos e pelo Argentina- Cabo Verde com 465.995. Nunca se assumindo como substituto dos canais de televisão, a LiveMode definiu-se ao Eco como “complemento” e até sugeriu à SportTV comprar uma quota de patrocínio na LiveMode, “porque nós somos a ‘boca do funil’. (…) Somos o melhor lugar onde um segmento novo de clientes – que tem estado afastado do mundo da TV paga e até da TV aberta, que tem uma linguagem própria, gosta de desporto, mas não tinha encontrado o lugar ideal para recomeçar a assistir – pode ser encontrado”. As estações de televisão não estão tão otimistas. Vêem no horizonte alguma transferência do mercado publicitário, ainda para mais quando os limites da publicidade impostos às televisão não se aplicam às transmissões na internet. “Eles podem fazer aquilo que querem, nós não podemos fazer nem um décimo. (…) Temos de repensar e redefinir o que é a intervenção regulatória, do Estado e das instituições europeias. Há uma necessidade premente de corrigir as assimetrias regulatórias. Se não o fizermos rapidamente, as consequências podem ser muito complicadas”, alertou, no congresso da APDC, Francisco Pedro Balsemão, presidente da Impresa, dona da SIC. Observador <https://observador.pt/especiais/nada-sera-como-antes-como-a-livemode-esta-a-mudar-a-forma-de-ver-futebol-em-portugal/#title-0>

domingo, 12 de julho de 2026

Sobre a falta de água no Concelho de Almada

A Associação Ambiental “Seixal Mais Verde” tem vindo a acompanhar as recentes notícias sobre a falta de água em várias localidades do Município de Almada, que será um problema recorrente, mas que se tem agravado nas últimas semanas. Entre as várias causas desse problema, já foi referido pelos próprios serviços da Câmara Municipal de Almada a necessidade de abrir mais furos de captação de água. Muito preocupante tendo em conta que tivemos um Inverno muito chuvoso. De acordo com o Plano de Segurança de Água de Almada disponível na internet (2012), “… a água é extraída de 32 furos de captação subterrâneos, maioritariamente localizados no concelho do Seixal” A parte norte e central da Península de Setúbal está massivamente urbanizada. A única zona ainda com escala para recarga de aquífero, é a ZEC Fernão Ferro e Lagoa de Albufeira: • O Munícipio de Almada depende da extração de água do Munícipio do Seixal • A Câmara do Seixal (e a de Sesimbra) pretendem esventrar a ZEC Fernão Ferro e Lagoa de Albufeira, para aí se construírem mega-urbanizações. • Ao urbanizar, a capacidade de recarga do aquífero vai diminuir brutalmente. A “Seixal Mais Verde” vê com grande preocupação que as Câmaras do Seixal e de Sesimbra pretendam urbanizar o que funciona não só como o último reduto de vida natural do Norte e Centro da Península de Setúbal – já reconhecido em legislação da Rede Natura 2000 desde 2000 - mas também estrangulando ainda mais a capacidade de regeneração do aquífero na Península de Setúbal. A “Seixal Mais Verde” pede à Câmara Municipal de Almada que divulgue a verdadeira situação das captações de água (níveis hidrostáticos e níveis hidrodinâmicos) que permitem aferir sobre a produtividade real de cada um dos furos – com os dados históricos de pelo menos desde há 25 anos até à atualidade, e que tal seja publicado mensalmente, online. Pedimos também à Câmara do Seixal para divulgar os mesmos dados. Haja transparência, e um verdadeiro planeamento sustentável para o futuro das populações.

O projeto da Grande Muralha Verde.

Pode ser uma imagem de texto que diz "2 @CURIOSONAUTA Um estudo mostrou que as 66 bilhões de árvores plantadas pela China estão crescendo mais rápido do que as florestas naturais."

A China atingiu um feito monumental em sua estratégia ambiental ao registar o plantio de aproximadamente 66 bilhões de mudas desde o final da década de setenta, iniciativa que ficou mundialmente conhecida como o projeto da Grande Muralha Verde. O objetivo central sempre foi combater o avanço da desertificação e criar uma barreira natural contra as mudanças climáticas. Surpreendentemente, as conclusões de um estudo recente trouxeram um dado que chama ainda mais atenção: essas florestas criadas pelo ser humano estão apresentando um ritmo de crescimento superior ao observado em matas formadas naturalmente.
De acordo com os especialistas responsáveis pela pesquisa, esse desenvolvimento acelerado das árvores plantadas traz benefícios diretos para o meio ambiente, especialmente no curto prazo. O crescimento mais rápido indica que, nas primeiras décadas de vida, esses ecossistemas artificiais possuem uma capacidade ampliada de absorver o dióxido de carbono da atmosfera. Em um momento global de busca urgente por soluções que ajudem a reduzir os efeitos do aquecimento do planeta, a eficiência com que essas áreas florestais filtram o carbono é vista como um trunfo estratégico.
Embora o plantio em larga escala seja um passo fundamental para a recuperação da cobertura vegetal, o estudo também abre espaço para importantes discussões sobre a gestão desses novos bosques. O desafio agora é entender como garantir que essa velocidade de crescimento se traduza em uma floresta robusta e sustentável a longo prazo, mantendo a saúde do solo e a biodiversidade local. O projeto chinês, que já é considerado um dos maiores esforços de reflorestamento da história, continua sendo observado de perto pela comunidade científica internacional, funcionando como um laboratório gigante para medir até onde a intervenção humana pode colaborar com a recuperação dos sistemas naturais do planeta.

sábado, 11 de julho de 2026

Portugal entre os países com a eletricidade mais cara do mundo em 31º. A EDP vendida aos chineses...

A realidade dos números apresentados confirma, de forma crua, a falência do modelo de transição energética que nos foi vendido.
Este gráfico, que coloca Portugal entre os países com a eletricidade mais cara do mundo, não é apenas um indicador económico; é a prova material de que o sistema elétrico foi capturado por interesses que ignoram a capacidade contributiva das famílias e a viabilidade da economia nacional.
O que estes dados revelam, quando cruzados, é a total desconexão entre a narrativa oficial — focada na "abundância de energia limpa" — e a realidade da sua carteira.
A eletricidade é cara em Portugal não porque a produção de energia eólica ou solar seja dispendiosa, mas porque o sistema foi estruturado para suportar ineficiências históricas, custos de rede mal geridos e opções políticas de licenciamento que privilegiaram o volume em vez da eficiência.
A comparação que coloca a taxa de esforço do salário mínimo em Portugal face a outros países europeus, expõe a face mais cruel desta política.
Quando se introduz no preço final da eletricidade uma vasta gama de taxas de acesso, custos de sistema e encargos que não variam com a eficiência da produção, o resultado é este: a eletricidade torna-se um bem de luxo.
Quando o sistema fica saturado e ineficiente, não se revê a estratégia; aumenta-se a tarifa ou criam-se mecanismos que garantem a manutenção das margens dos grandes operadores, mantendo o consumidor como a variável de ajuste.
Ignora-se qualquer métrica de rendimento real ou taxa de esforço das famílias, utilizando a "transição" ou a "sustentabilidade" como escudo para justificar preços que, num contexto de salários estagnados, são insustentáveis.
O problema de fundo é sistémico e político.
Não é um acidente de mercado que a eletricidade seja mais cara em Portugal do que em países com economias mais robustas.
É o resultado de um sistema desenhado para ser rígido, pouco competitivo e altamente dependente de custos estruturais que ninguém tem vontade política de auditar ou de reduzir.
Enquanto o debate político se mantiver nos "ganhos" da transição energética e não na reestruturação profunda dos custos que compõem a sua fatura, o gráfico partilhado continuará a ser a prova viva de um fracasso anunciado.
O consumidor português não está apenas a pagar pela energia que consome; está a pagar pelo erro de cálculo, pela falta de investimento em redes e pela complacência com um modelo de negócio que prefere o lucro garantido à eficiência real.
A promessa de uma transição energética verde, barata e eficiente está a desmoronar-se perante os nossos olhos, revelando um padrão de gestão pública que já nos é tristemente familiar.
À semelhança do que tem sido denunciado com a crise da gestão das águas e os investimentos polémicos em Almada — onde os interesses de planeamento e a transparência financeira parecem ter sido relegados para segundo plano —, o setor da eletricidade em Portugal está a seguir exatamente o mesmo caminho perigoso.
Em ambos os casos, assistimos à pressa política de apresentar grandes obras e metas vistosas, enquanto as infraestruturas básicas e a verdadeira eficiência sistémica são ignoradas.
O resultado desta miopia estratégica, quer na água quer na energia, é sempre o mesmo: um sistema disfuncional, investidores alarmados com a falta de rentabilidade e uma fatura pesadíssima que acaba sempre por ser paga pelo bolso do cidadão comum.
Descubra na análise detalhada abaixo por que razão a eletricidade continua a não baixar em Portugal, num artigo que expõe as entranhas de um modelo de licenciamento desenhado à pressa e refém do curto-prazismo político.
Porque não baixa a electricidade em Portugal?
O sistema elétrico ibérico encontra-se numa encruzilhada perigosa. Enquanto Espanha começa a lidar com os primeiros sinais de um colapso na rentabilidade da energia solar — onde a oferta excessiva, sem a devida capacidade de armazenamento, conduz a preços negativos que ameaçam afastar investidores —, Portugal assiste ao mesmo fenómeno com uma inquietante passividade.
A pergunta que se impõe é simples, mas a resposta é um labirinto de decisões políticas e estratégias corporativas: se a energia renovável, abundante e gratuita, está a inundar a rede, porque é que o consumidor final não vê esse benefício refletido na fatura mensal?
Para compreender este mistério, é preciso desconstruir o funcionamento do mercado elétrico.
Existe um mecanismo técnico chamado merit order. Em teoria, a eletricidade deve ser mais barata quando produzida por fontes com custo marginal zero, como o sol e o vento. Sempre que estes recursos entram na rede, empurram para fora as fontes fósseis, como o gás natural, que são mais dispendiosas.
O resultado deveria ser uma queda substancial nos preços grossistas.
O que observámos no primeiro trimestre de 2026, com uma produção renovável a cobrir 79% do consumo em Portugal, foi precisamente essa descida no mercado grossista. Contudo, quando essa eletricidade chega à casa do consumidor, ela já não é a mesma.
O preço final é composto por uma fatura onde a energia em si representa apenas uma parte da equação. O restante, que se mantém rígido e frequentemente insensível a estas flutuações, inclui as taxas de acesso à rede, os custos de manutenção das infraestruturas e os impostos.
Enquanto a Europa celebra a descarbonização, os gestores do sistema elétrico nacional ignoraram o elefante na sala: a rede de transporte e distribuição.
É como ter um supermercado cheio de comida fresca e barata, mas com as portas de saída trancadas.
Se não podemos escoar a energia para onde ela é necessária, nem armazená-la para quando não há sol, o excedente torna-se um peso morto, ou pior, um custo para o sistema.
A corrida ao licenciamento e o Decreto-Lei 15/2022
O problema não foi um erro de azar, foi um erro de cálculo estratégico desenhado em gabinetes.
A promulgação do Decreto-Lei n.º 15/2022, foi o ponto de viragem.
O governo, pressionado pela necessidade de cumprir metas de descarbonização e absorver fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), abriu as comportas a um licenciamento acelerado.
O objetivo político era claro: mostrar Gigawatts instalados.
O que aconteceu, no entanto, foi uma ocupação especulativa de capacidade.
Promotores privados, atraídos por lucros rápidos e incentivos europeus, reservaram pontos de injeção na rede sem que houvesse uma obrigação clara de investimento em infraestruturas de apoio, como baterias ou reforço de subestações.
O Estado, em vez de atuar como um planeador central vigilante, comportou-se como um facilitador passivo.
A corrida ao ouro verde beneficiou quem chegou primeiro, mas deixou a fatura da estabilização do sistema para quem fica: os cidadãos.
Ao permitir que a rede fosse sobrecarregada com projetos que não trazem flexibilidade ao sistema, criámos um cenário onde a produção renovável, em vez de ser um ativo estratégico, tornou-se um fator de instabilidade que exige medidas corretivas dispendiosas.
Não é necessário recorrer a teorias da conspiração para encontrar os interesses que moveram este processo.
Trata-se de um alinhamento de conveniências.
Para o poder político, a métrica de sucesso é a contagem numérica: quantos parques foram inaugurados?
Quantos estão para ser ainda ?
Para os grandes fundos de investimento e promotores, a lógica é o retorno imediato sobre o capital. Investir em baterias de grande escala ou em tecnologia de armazenamento é um processo de longo prazo, tecnicamente complexo e com margens de lucro mais apertadas e incertas.
Ao não condicionar o licenciamento à integração obrigatória de armazenamento desde a fase de projeto, o Estado permitiu que estes atores sociais transferissem o risco para o sistema público.
A rede elétrica tornou-se um bem escasso que foi distribuído sem critérios de eficiência sistémica. Hoje, temos mais produção do que a rede consegue gerir, e os custos desse desequilíbrio — o chamado custo do congestionamento — acabam por ser diluídos na fatura de todos os consumidores, através das tarifas de acesso.
O futuro incerto
A situação espanhola, descrita recentemente como uma ameaça ao boom solar, funciona como um espelho para Portugal.
Se continuarmos a focar exclusivamente na expansão da capacidade de injeção, sem investir agressivamente na rede de transporte e, sobretudo, no armazenamento, estaremos a construir um castelo de cartas.
O preço da eletricidade não baixa porque o sistema, na sua estrutura atual, prefere pagar pela gestão do desequilíbrio e pela manutenção de ativos obsoletos do que modernizar-se para acomodar a nova realidade renovável.
A transição energética foi vendida como uma promessa de independência e preços baixos. No entanto, a forma como foi implementada em Portugal transformou-a num processo administrativo de alta velocidade que atropelou a realidade da engenharia.
Enquanto o debate se mantiver preso na simplificação burocrática e no cumprimento de metas visuais, o consumidor continuará a pagar o preço de um sistema que foi desenhado para crescer depressa, mas não para ser eficiente.
Para quem quiser analisar os dados concretos do setor e as decisões que moldam a nossa tarifa, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos disponibiliza relatórios detalhados sobre a estrutura dos custos que compõem a fatura, muitas vezes ignorados pelo discurso político oficial: https://www.erse.pt
O sistema elétrico é um organismo vivo.
Quando se força o crescimento de um membro — a produção — sem alimentar o corpo que o sustenta — a rede — o resultado é inevitavelmente a inflamação e a doença.
O colapso na rentabilidade é apenas o sintoma; a causa é, e continua a ser, uma estratégia de curto prazo que transformou um bem essencial num ativo de especulação.
Fontes :
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE)
O portal funciona como a fonte primária para consulta de tarifas e regulamentação do setor elétrico em Portugal.
Diário da República (Decreto-Lei n.º 15/2022)
Redes Energéticas Nacionais (REN)
O site da REN é a fonte técnica para dados sobre a rede de transporte de energia e necessidades de investimento.
Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG)
O portal é o local oficial para verificar as estatísticas nacionais sobre o mix energético e o consumo.
Operador do Mercado Ibérico de Eletricidade (OMIE)
A página permite aceder aos preços horários do mercado grossista, sendo essencial para monitorizar a volatilidade do MIBEL.