sábado, 6 de junho de 2026

Ser advogado.

Como advogado, não tenho direito a grande parte dos apoios sociais de que outros portugueses beneficiam. Não tenho baixa nos mesmos termos. Não tenho subsídio de desemprego. Não tenho uma rede garantida à minha espera se amanhã tudo correr mal. Se quero ganhar dinheiro para pagar as contas, tenho de sair da cama, trabalhar, produzir, resolver problemas e aguentar.
Não digo isto com orgulho heroico. A situação dos advogados é profundamente injusta. Pagamos, contribuímos, suportamos riscos, trabalhamos anos sem protecção e, quando a vida aperta, descobrimos que o Estado gosta muito de nós quando pagamos, mas tem uma memória selectiva quando passamos a precisar dele.
Mas há uma coisa que posso dizer com absoluta honestidade: em certos momentos da minha vida, essa ausência de direitos salvou-me.
Também tive os meus dias em que não me apetecia sair da cama. Também tive momentos em que enfrentar o mundo parecia uma tarefa absurda. Também conheci aquela sensação de cansaço em que uma pessoa acorda e pensa: “hoje não consigo”. Sou apenas humano.
A diferença é que eu não tinha escolha. Tinha contas para pagar. Tinha responsabilidades. Tinha processos. Tinha clientes. Tinha pessoas à espera. Tinha filhas. Tinha de me levantar porque ninguém se ia levantar por mim. E, muitas vezes, foi precisamente essa obrigação brutal que me impediu de afundar.
A necessidade obrigou-me a mexer. A mexer mesmo quando não queria. A trabalhar mesmo sem vontade. A aparecer mesmo quando preferia desaparecer. E foi esse movimento forçado que me manteve à tona.
Não estou a defender que todos devam viver assim. Seria absurdo. Uma sociedade deve proteger quem está doente, quem perde o emprego, quem atravessa uma crise séria, quem precisa de tempo para recuperar. Os apoios sociais são necessários e a situação dos advogados não é justa (evito queixar-me, porque a verdade é que acabo por estar melhor do que muitos dos que têm direitos e agradeço essa bênção. Apenas pretendo ilustrar que as obrigações também salvam).
Mas também é preciso dizer a parte que ninguém quer dizer: um apoio sem deveres, sem esforço, sem um caminho de regresso e sem exigência mínima pode transformar-se numa armadilha.
Não para o Estado, mas para a pessoa. Porque receber dinheiro sem ter de fazer nada pode parecer protecção, mas também pode retirar estrutura, retirar rotina e retirar propósito. Pode retirar a obrigação saudável de sair de casa, de estar com outros, de ser necessário, de sentir que se tem utilidade. E quando uma pessoa perde isso durante tempo suficiente, o problema deixa de ser apenas económico. Passa a ser existencial.
Ficar em casa com dinheiro a cair todos os meses, sem objectivos, sem horários e sem responsabilidade pode parecer descanso. Mas depressa se transforma noutra coisa: isolamento, perda de hábitos, perda de energia, perda de auto-estima, perda de capacidade de voltar.
E depois vem o ciclo maravilhoso da modernidade: sofá, batatas fritas, TikTok. O ciclo do qual é difícil sair quando se entra.
A questão não é castigar os pobres. A questão não é humilhar quem precisa.
A questão é outra: ajudar não pode significar estacionar pessoas na dependência.
Um apoio social deve ser uma ponte, e não uma sala de espera eterna. Deve ajudar a atravessar uma fase difícil, mas também deve criar condições para a pessoa recuperar autonomia, rotina, competências, dignidade e sentido de utilidade.
O trabalho social obrigatório, se for sério, proporcional e bem organizado, pode cumprir essa função. Não deve ser exploração. Não deve ser humilhação pública. Não deve ser trabalho gratuito para substituir empregos pagos. Mas pode ser uma forma de devolver estrutura, responsabilidade e ligação à comunidade a quem está há demasiado tempo afastado de tudo isso.
Porque há uma verdade simples: o ser humano precisa de ser necessário para ter motivo para sair da cama.
Precisa de sentir que a sua existência produz alguma coisa. Que tem uma função. Que faz falta.
Os apoios sociais são importantes. Mas, quando desligados de deveres, podem deixar de ser uma rede de segurança e passar a ser uma cama demasiado confortável para quem já não tem forças para se levantar. Em vez de darem dignidade, podem ser uma fonte invisível de problemas de saúde mental. Haja o bom senso de evitar isso.

Os funcionários Publicos

Uma das reações mais curiosas aos meus textos anteriores veio de funcionários públicos indignados por eu afirmar que uma parte significativa dos seus salários é paga pelos pobres.
A indignação era genuína, e a argumentação também. “Mas nós pagamos impostos.”
Imaginem. O Estado cobra dinheiro ao empregado de mesa, à empregada de limpeza, ao motorista da Uber, ao operário da construção civil, ao pequeno empresário, ao mecânico, ao eletricista e a milhões de outros portugueses.
Com esse dinheiro, o estado paga salários. Depois retira uma parte desses salários sob a forma de impostos e contribuições. E daí conclui-se que o funcionário público financia o seu próprio salário.
É uma teoria económica tão sofisticada que, se estivesse correta, teríamos finalmente descoberto a solução para todos os problemas nacionais. Bastava despedir toda a gente do setor privado e contratar os 11 milhões de portugueses para a Administração Pública.
Infelizmente, existe um pequeno problema. O dinheiro tem de entrar antes de sair.
Antes de existir salário público, teve de existir riqueza produzida por alguém. Antes de existir imposto pago pelo funcionário público, teve de existir um salário pago pelo Estado. E antes de existir o Estado a distribuir, teve de existir alguém a criar.
É por isso que a frase “eu também pago impostos” falha completamente o alvo e demonstra um preocupante desconhecimento sobre como funciona o país por parte de alguns grevistas. Acreditam mesmo que o dinheiro dos salários públicos surge por geração divina. A realidade, contudo, é bem mais terrena.
O Estado português arrecada cerca de 132 mil milhões de euros por ano e emprega cerca de 750 mil funcionários públicos.
Gasta mais de 21 mil milhões de euros anuais apenas em salários da Administração Pública.
Ao mesmo tempo, cerca de 850 mil a 900 mil portugueses recebem o salário mínimo nacional, e cerca de 3,7 milhões recebem até 1.000 euros brutos por mês. Cada trabalhador no salário mínimo custa cerca de 1.151 euros à empresa, recebe cerca de 828 euros líquidos e gera, direta e indiretamente, entre 400 e 500 euros por mês para o Estado.
São precisamente estes trabalhadores que geram uma parte gigantesca da receita pública através das contribuições sociais, do IVA e dos restantes impostos que pagam todos os dias. Sabem quanto? Os tais 21 mil milhões que pagam os salários da administração pública. São contas fáceis de fazer. 500€ vezes 3.7 milhões de pessoas x 12 meses = 22.2 mil milhões. Se contarmos os demais impostos pagos por quem vende bens e serviços aos pobres, e que acaba por repercutir sempre isso nos preços, o valor é ainda mais pornográfico, mas mais difícil de calcular.
Por isso, quando constato que existe uma administração pública rica sustentada pelos pobres, não estou a denegrir os funcionários públicos. Estou apenas a descrever uma realidade contabilística, facilmente constatável através de mera aritmética, e que é profundamente imoral, por ser ela própria a antítese do Estado Social.
O que me surpreende não é a discordância. É a irritação.
Porque ela revela algo mais profundo: uma enorme dificuldade, por parte de alguns, em reconhecer quem paga verdadeiramente a conta.
A verdade é que vivemos no país do Robin dos Bosques ao contrário.
Diariamente, milhões de trabalhadores com rendimentos modestos financiam uma máquina pública gigantesca através dos seus descontos e dos impostos que pagam em praticamente tudo o que compram, e que já pouco lhes oferece em troca. Certamente muito menos do que o esforço que lhes exige.
E quando alguém o recorda, a reação não é discutir os números. É fingir que a empregada de limpeza que ganha 930 euros por mês, quando ganha, é afinal uma privilegiada que vive à custa do técnico superior da repartição.
É fingir que as greves da função pública são contra uns ricos que nem sequer aqui são tributados, e não contra os pobres que não têm como fugir.
Há sátiras que não precisam de ser escritas. Limitam-se a acontecer.
O socialismo sempre foi isto: a classe trabalhadora pobre a financiar uma classe burocrática que só olha para os seus próprios interesses e vê os trabalhadores como meros NIF's.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Diário da nossa selecção. :)

A pedido de muitas famílias deixo a manhã da nossa Seleção neste Mundial amigos😂❤️:
2h30 - João Félix desliga o PlayStation, e apaga mais uma mensagem de Rui Costa pedindo o seu retorno ao Benfica.
3h10 - Rui Costa liga para Roberto Martinez para saber se ele tem planos para o pós Campeonato do Mundo.
4h45 - Cristiano toma o seu terceiro banho de gelo matinal e promete chegar ao Mundial de 2030.
5:00 - Bernardo Silva garante que vai voltar ao Benfica, só não sabe situar o século.
7h30 - Rúben Dias faz mais um comunicado pedindo privacidade pelo fim do relacionamento, enquanto segue mais algumas ex-participantes de Love Island e Secret Story.
8h - João Neves e Madalena Aragão estão encerrando a chamada de bom dia, mas não conseguem porque juraram que quem desligar por último será quem ama mais. Por fim decidem desligar simultaneamente.
9h15 - João Palhinha e Pedro Gonçalves combinam entre si onde vão assistir ao jogo de Portugal.
9h16 - Ronaldo aproveita para fazer abdominais, enquanto pergunta ao grupo se é o mais lindo. Rúben Dias não fica convencido.
9h30 - Começa o treino com uma corrida ao redor do relvado. Samu vai as cavalitas do Nuno Mendes para não atrasar o grupo.
9h45 - Gonçalo Inácio fica triste por não encontrar um grupo com a qualidade de futebol do seu Sporting.
9h47 - Hjulmand aparece do nada e pede penálti para o Sporting, Bruno Fernandes diz que bate o penálti mas Ronaldo pega a bola.
9h48 - Cristiano marca e diz que os 1000 golos estão cada vez mais próximos. Dalot comemora efusivamente. Cristiano pergunta se os 150M de Florentino serão para ele.
9h58 - William termina a corrida de preparação para a Eurocopa de 2016 e junta-se aos colegas, mas estranha apenas encontrar Ronaldo.
10h0 - Rui Costa fica confuso ao ler que Otamendi deixou o Benfica, e pergunta a Bernardo Silva se ele quer ser o capitão do Benfica na próxima temporada.
10h08 - Ronaldo diz aos colegas que foi Campeão da Premier League Saudita, que é uma das melhores do Mundo. Os jogadores riem-se muito.
10h10 - Roberto Martinez entoa o Hino Nacional enquanto também diz que os jogadores se devem inspirar na garra da Padeira de Aljubarrota, e na coragem de Cristiano por ter vencido a Champions da Arábia Saudita.
10:12 - Bruno Fernandes chuta de fora da área e marca um golaço. Cristiano jura que a bola lhe raspou na ponta do cabelo.
10h13 - Perguntam a Rafael Leão porque está a sorrir, mas o jogador diz que não sabe parar de sorrir.
10h25 - A selecção começa o treino de cobranças de falta, Cristiano que voltou a campo pega as bolas. Diogo Costa, Rui Silva e José Sá aproveitam para descansar.
10h27 - O Seleccionador Jorge Mendes pede aos seus jogadores para reunirem no centro do terreno para decidir que jogadores serão vendidos.
10h30 - João Neves dá conselhos a Bernardo e Bruno Fernandes e garante que com os anos esse nervosismo pré-jogo tende a diminuir.
10h32 - Bruno Fernandes e João Neves perguntam se algum dia poderão marcar um livre ou penálti pela Seleção.
10h40 - O grupo divide-se e joga um meinho. Bernardo Silva, Vitinha e Matheus Nunes divertem-se trocando a bola entre si sem que William consiga tocá-la.
11h10 - Jorge Mendes diz a Diogo Costa que Paris será uma excelente oportunidade para ele, e as casas são mais baratas que no Porto.
11h12 - Madalena Aragão liga para João Neves pois está preocupada com a química que ele tem com Vitinha.
11h30 - Jorge Jesus observa treino e fica satisfeito por ter várias opções para lateral-esquerdo, como Nuno Mendes, Nelson Semedo ou Bernardo Silva.
12h00 - Frederico Varandas diz que o Porto não joga nada, que o seu Presidente sabe porque foi treinador, e que dificilmente vão vencer este Mundial.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

E vão 12 greves gerais em Portugal, mas 10 delas ocorreram quando o PSD estava no governo...

João Miguel Tavares no Público
“(…) Desde o 25 de Abril de 1974, houve 12 greves gerais em Portugal. (…)
10 delas ocorreram quando o PSD estava no governo. (…)
Este desequilíbrio ainda é mais extraordinário por duas razões.
Em primeiro lugar, porque desde 1974 o PS esteve mais anos no governo do que o PSD.
Em segundo lugar, porque das três vezes que o FMI foi chamado a intervir em Portugal, quem o chamou foram primeiros-ministros socialistas (…).
As greves gerais em Portugal não servem para defender os direitos dos trabalhadores, nem para sinalizar momentos particularmente catastróficos no domínio económico.
Servem como uma arma política que a esquerda utiliza a seu bel-prazer para desgastar a direita. (…)
As duas primeiras greves gerais em Portugal foram convocadas em 1982, (…) quando Francisco Pinto Balsemão era primeiro-ministro.
Na década de 1980 houve mais uma: em 1988, no início da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva e do período de maior prosperidade económica da democracia portuguesa (…).
Nos anos 90 não houve greves gerais. (…)
António Guterres não teve direito a uma única nos sete anos em que foi primeiro-ministro. 
Durão Barroso teve, logo em 2002. 
Seguiu-se José Sócrates, (…) o único primeiro-ministro socialista, até hoje, a sofrer greves gerais (duas).
Seguiu-se o governo de Passos Coelho, que (…) foi premiado com quatro greves gerais (…)
Felizmente, depois chegou António Costa, [que] governou oito anos e meio e foi bafejado com… zero greves gerais. (…)
Até que o PSD regressou ao governo pelas mãos de Luís Montenegro, e com ele regressaram o quê?
Adivinharam: as greves gerais.
Já vai em duas (…).
Os jornais enchem páginas e páginas com reflexões sobre a causa das greves e os direitos dos trabalhadores (…).
[Mas] isto é luta partidária pura e simples.
Os trabalhadores são apenas o adereço.”
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Com os meus cumprimentos
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Rui Xisto
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