Palíndromos = Um palíndromo, como deve saber, é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.
Exemplos: OVO, OSSO, RADAR. O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido: SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, você leu a frase de trás p'ra frente), tomámos a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões... Se você souber de algum, acrescente e passe adiante.
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ
o namoro romano
E já agora
Você sabe o que é tautologia? É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:
- elo de ligação - acabamento final - certeza absoluta - quantia exacta - nos dias 8, 9 e 10, inclusive - juntamente com - expressamente proibido
- em duas metades iguais - sintomas indicativos - há anos atrás - vereador da cidade - outraalternativa
- detalhes minuciosos - a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo - todos foram unânimes
- conviver junto - facto real - encarar de frente - multidão de pessoas - amanhecer o dia - criação nova - retornar de novo - empréstimo temporário - surpresa inesperada - escolha opcional - planear antecipadamente
- abertura inaugural - continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto - propriedade característica - demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal - exceder em muito .
Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.
Piddington cria modelo para ajudar outras pequenas paróquias obrigadas a
abrigar milhares de requerentes de asilo.
Uma onda de resistência comunitária contra os campos de migrantes está
prestes a se espalhar por todo o país.
Na terça-feira, Piddington, em Oxfordshire, realizará um referendo
simbólico sobre a saída do Reino Unido, em protesto contra os planos de
transferir até1.250 requerentes de asilo do sexo masculino para um
antigo quartel do exército
<https://www.telegraph.co.uk/news/2026/09/14/fighting-plans-1256-male-asylum-seekers/>perto
da vila de 350 habitantes.
A paróquia foi procurada por centenas de outras vilas e cidades em todo
o país em busca de conselhos sobre como replicar a campanha, que
conquistou o apoio dos Conservadores e do Partido Reformista.
Além da votação,os moradores de Piddington
<https://www.telegraph.co.uk/news/2026/08/15/bicester-piddington-burnham-middle-class-asylum-plans/>elaboraram
planos para instalar uma rede de câmeras de segurança sem fio, um
sistema de alerta de emergência e equipes de patrulha de segurança,
devido ao receio de estarem em desvantagem numérica de quase quatro para um.
AnúnciEm entrevista ao The Telegraph na véspera dTim McNally, presidente
do conselho paroquial de Piddington, afirmou que centenas de outras
áreas queriam seguir seu plano para combater os acampamentos de migrantes.
Mulheres que moram em Piddington disseram que planejam fazer aulas de
autodefesa por medo da chegada de imigrantes.
Mulheres que moram em Piddington dizem que planejam fazer aulas de
autodefesa por medo da chegada de imigrantes.Crédito: Joe Giddens/PA
Ele disse: “Temos trabalhado nos bastidores com outras áreas que
compartilham da nossa opinião, que sentem que não foram representadas e
que foram atropeladas.O que aconteceu com a nossa política
<https://www.telegraph.co.uk/news/2026/01/23/labour-contempt-for-democracy-is-on-display-in-crowborough/>para
permitir que isso acontecesse?”
“Quando publiquei o plano pela primeira vez, recebi mais de 500
consultas de todo o Reino Unido, de vereadores e conselheiros
municipais.O objetivo do nosso referendo
<https://www.telegraph.co.uk/news/2026/07/20/oxfordshire-village-passport-to-pimlico/>é
que eles mesmos o façam.”
O partido de Nigel Farage prometeu apoiar quaisquer outras áreas que
desejem realizar votações.
Suella Braverman, deputada do Reform UK, que visitou Piddington na
segunda-feira, disse ter ouvido "em primeira mão de mulheres que estão
absolutamente aterrorizadas com o que este centro de acolhimento para
migrantes significará para as suas famílias e para a sua comunidade".
Ela acrescentou: “Este é um governo impondo sua vontade à população
local e esperando que ela simplesmente a aceite. É um abuso de poder
terrível.”
“A Reform UK apoia incondicionalmente qualquer comunidade que o Partido
Trabalhista planeje atingir com essa medida. Deteremos e deportaremos
todos os imigrantes ilegais e priorizaremos os interesses e a segurança
das comunidades britânicas.”
Piddington
Se os planos forem adiante, mais de 1.000 solicitantes de asilo serão
alojados nesta antiga instalação militar perto de Piddington.Crédito:
Hannah McKay/Reuters
Piddington, perto de Bicester, é o local deum dos três novos campos de
refugiados propostos
<https://www.telegraph.co.uk/politics/2026/08/13/labour-mp-rachael-maskell-attacks-migrant-barracks-plan/>em
antigas bases militares.
Os acampamentos em Crowborough, Sussex
<https://www.telegraph.co.uk/news/2025/11/16/migrants-barracks-crowborough-training-camp-east-sussex/>,
e Wethersfield, Essex, já foram abertos, enquanto o Partido Trabalhista
busca realocar milhares de migrantes de hotéis e encontrar acomodações
para os 17.000 migrantes que atravessaram o Canal da Mancha e chegaram
este ano.
Atualmente, os migrantes alojados em bases militares e hotéis têm
permissão paracircular livremente
<https://www.telegraph.co.uk/politics/2026/04/17/detention-camp-migrants-banned-from-heading-into-town-under/>pelas
aldeias e cidades vizinhas.
Prostests against the Crowborough migrant camp
O Sr. McNally afirmou que o Governo não forneceu quaisquer dados sobre a
criminalidade dos migrantes, deixando os moradores das aldeias no escuro
e com medo do pior.
Ele reclamou que a vila teve apenas 10 dias para responder a um
documento de planejamento de 1.000 páginas para o local, cuja possível
conversão em um acampamento foi autorizada pelos poderes da Coroa,
ignorando o conselho. "Fomos confrontados com uma total falta de
democracia", disse ele. "Nenhuma consulta."
O plano do Sr. McNally descreve em oito etapas como organizar um
referendo local, desde a conversa com os conselhos paroquiais até o
envio do resultado da votação aos parlamentares.
Tim McNally, presidente do conselho paroquial, disse que centenas de
outras áreas queriam se juntar à luta contra os acampamentos de migrantes.
Tim McNally, presidente do conselho paroquial, disse que centenas de
outras áreas queriam se juntar à luta contra os acampamentos de
migrantes.Crédito: Jamie Lorriman para o The Telegraph.
Incentivando outros a seguirem o exemplo de Piddington, ele escreve:
“Uma única aldeia que expressa insatisfação pode ser facilmente descartada.
“Várias comunidades que realizam discussões democráticas devidamente
organizadas e registram seus resultados de forma independente criam algo
diferente.”
Antes da votação, as mulheres de Piddington se reuniram no centro da
vila para encontrar Chris Philp, o secretário de Estado sombra para
Assuntos Internos, Joy Morrissey, a ministra sombra para Mulheres e
Igualdade, e as deputadas do Reform UK, Sarah Pochin e Sra. Braverman.
O Sr. Philp afirmou que o Partido Trabalhista "desrespeitou a democracia
local, usando os poderes da Crown Estate para excluir completamente o
conselho do processo".
Ele acrescentou: “As comunidades não precisam ficar de braços cruzados e
aceitar que o Partido Trabalhista as oprima. As mulheres de Piddington
estão mostrando que existem maneiras legais e democráticas de contestar
essas decisões, e sua corajosa postura deve dar esperança a outras vilas
e cidades que observam isso e temem ser as próximas.”
“Chegou a hora de Andy Burnham e seus deputados trabalhistas defensores
de fronteiras abertas prestarem atenção às pessoas decentes em todo o
país que estão fartas da imigração ilegal em massa.”
A Sra. Pochin disse: “Minha preocupação é que não há nada para eles [os
requerentes de asilo] fazerem aqui. Nenhuma instalação. Nenhuma loja.
Nenhum centro esportivo. É uma receita para o desastre.”
'Estou absolutamente apavorado'
Gina Perkins, de 37 anos, mãe de três meninos de sete, cinco e dez
meses, disse: "Estou absolutamente apavorada."
“Nós viemos jogar futebol aqui algumas vezes por semana. Não me sentiria
confortável em deixar meus filhos descerem a pé para visitar os avós na
aldeia.”
“Isso vai mudar completamente a forma como vivemos nossas vidas. Seria
irresponsável deixar nossos filhos continuarem como estão, com homens
andando livremente por aí.”
Victoria Hubbocks, de 39 anos, mãe de três meninos de 11, 9 e 5 anos,
disse que as aulas de autodefesa dariam às mulheres conselhos sobre o
que fazer caso se sentissem ameaçadas pelos migrantes que chegassem,
caso o acampamento fosse construído.
“São coisas simples. O que você pode fazer se se sentir ameaçada? É algo
muito básico. É algo que qualquer pessoa pode fazer, sejam mulheres
jovens ou idosas. Inicialmente, estamos oferecendo isso às mulheres, mas
também será oferecido aos homens”, disse ela.
O resultado do referendo é esperado para a manhã de quarta-feira.
Um porta-voz do Ministério do Interior disse: “O governo está fechando
todos os hotéis para requerentes de asilo, economizando aos
contribuintes mais de £ 1 bilhão em apoio a solicitantes de asilo desde
as eleições.
Joy Morrissey, ministra-sombra para as mulheres e a igualdade, ouve os
receios das mulheres locais junto à cerca que delimita o local proposto
para o centro de acolhimento de migrantes.
Joy Morrissey, ministra-sombra para as mulheres e a igualdade, ao
centro, ouve os receios de mulheres locais junto à cerca que delimita o
local proposto para o centro de acolhimento de migrantes.Crédito: Joe
Giddens/PA
“Estamos trabalhando para alojar de forma justa os requerentes de asilo
em todo o país, transferindo-os para acomodações alternativas, incluindo
antigos locais militares projetados para serem autossuficientes, a fim
de reduzir o impacto na comunidade local.
“Como parte do processo, interagimos com as autoridades locais e as
forças policiais para garantir a segurança e a proteção daqueles que
residem na área circundante.”
https://www.telegraph.co.uk/news/2026/09/14/villages-join-piddington-revolt-over-migrant-camps/
A caminho dos cinco anos de existência, olho para o PÁGINA UM e vejo um jornal bastante diferente daquele que começámos a construir em finais de 2021. Não nos afastámos da génese; pelo contrário, fomos encontrando novas formas de a concretizar.
Conseguimos adaptar-nos a uma diversidade temática que, há cinco anos, dificilmente imaginaria: investigação, saúde, Justiça, política, economia, imprensa, contratação pública, cultura, opinião, crónica, livros, podcasts e até futebol. Esta última semana é um bom retrato dessa transformação: na mesma edição convivem uma investigação económica sobre a dívida pública, uma incursão pelos media sérvios, uma batalha judicial sobre financiamento político e uma crónica escrita em Alvalade.
Mas, se tivesse de escolher um trabalho recente para explicar aquilo que considero ser a essência do PÁGINA UM, talvez não escolhesse uma das notícias que mais polémica gerou, nem uma daquelas que conseguem milhares de partilhas nas redes sociais. Escolheria uma investigação longa, cheia de números, gráficos e comparações, que publicámos no passado dia 30 de Agosto: “Raio-X às vacinas em Portugal: as doenças que desapareceram, as que regressaram e as que mudaram de idade”.
Este é daqueles trabalhos que, precisamente por serem extensos, podem passar despercebidos a muitos leitores. Mas pessoalmente orgulha-me fazer este tipo de jornalismo. Peguei em 25 anos de dados hospitalares, analisei 11 doenças preveníveis por vacinação, contabilizei 61.601 internamentos e 6.183 óbitos nos hospitais do SNS entre 2000 e 2024. O retrato não foi construído para defender uma tese prévia, fosse ela pró-vacinas ou anti-vacinas.
Os dados mostram aquilo que mostram: poliomielite, difteria e rubéola tornaram-se residuais; a doença meningocócica caiu 91% e a hepatite B 89%; ao mesmo tempo, o pneumococo continua a concentrar a esmagadora maioria da mortalidade analisada, a tosse convulsa voltou com força em 2024 e, em várias patologias, o peso da doença grave deslocou-se progressivamente para idades mais avançadas. É isto que entendo por olhar para a realidade sem escolher antecipadamente a conclusão.
E esta investigação só foi possível por causa de outro projecto de que muito me orgulho: o CORPUS — Observatório de Dados em Saúde. Talvez muitos leitores ainda não tenham percebido inteiramente aquilo que está ali. O CORPUS é uma ferramenta de análise da maior base de dados sobre o SNS: cerca de 38,5 milhões de episódios hospitalares ocorridos entre 2000 e 2024, com diagnósticos, procedimentos, idade, sexo, hospital, duração do internamento, destino após a alta e mortalidade intra-hospitalar. A estrutura permite estudar doenças ao longo de 25 anos, comparar sexos e grupos etários, hospitais, concelhos, distritos e regiões, calcular taxas com denominadores populacionais do INE, analisar reinternamentos, sazonalidade, tendências e alterações no perfil das doenças.
Não é uma ferramenta feita apenas para jornalismo, mesmo se a imprensa mainstream tenha ignorado por completo o manancial de informação que comporta o CORPUS. Gostaria, aliás, que médicos, investigadores, epidemiologistas, estudantes, professores e cidadãos a utilizassem muito mais do que nós próprios. Uma parte da informação e todos os estudos publicados permanecem acessíveis gratuitamente; as funcionalidades avançadas, sobretudo as que permitem interrogar a base em linguagem natural e recorrer a inteligência artificial para construir análises e relatórios, implicam subscrição, porque processamento, capacidade computacional, inteligência artificial e manutenção têm custos reais. O objectivo não é substituir investigação científica por uma máquina que debita respostas: o sistema deixa os critérios, métodos e consultas auditáveis, para que os resultados possam ser verificados e reproduzidos.
Há ainda uma história por detrás desses 38,5 milhões de registos. Eles não nos caíram no colo. O acesso à Base de Dados de Morbilidade Hospitalar resultou de uma batalha jurídica que se prolongou durante anos contra o secretismo administrativo. E talvez aqui esteja outra parte importante do ADN do PÁGINA UM: quando uma informação é pública e relevante e o Estado decide escondê-la, nem sempre aceitamos o primeiro "não". Às vezes insistimos. Às vezes recorremos. E às vezes vamos mesmo para tribunal. Foi assim que nasceu o CORPUS.
Essa teimosia congénita do PÁGINA UM tem sido o nosso pilar. E é visível em muitos outros casos. Voltou a estar presente numa batalha que pode ser relembrada em “PS e Bloco recusam esconder identidade dos doadores e deixam Entidade das Contas isolada na batalha judicial com o PÁGINA UM”. Fomos o único órgão de comunicação social (e muitos têm recursos financeiros que nós não temos) que decidiu não aceitar que a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos ocultasse a identidade dos doadores dos partidos e levámos a questão ao Tribunal Administrativo. Agora, chamados pela juíza a pronunciarem-se como contra-interessados, PS e Bloco de Esquerda rejeitaram a posição da própria Entidade das Contas. Às vezes, uma batalha pela transparência demora; isso não significa que não valha a pena travá-la.
Às vezes, uma investigação nasce simplesmente de ler aquilo que outros não lêem até ao fim. Foi assim com “Elevadores da Bica e do Lavra só estarão operacionais em 2030 (ou mais tarde)”. A Carris não anunciou formalmente esse calendário, mas deixou-o inscrito num concurso de seguros: Bica e Lavra surgem como equipamentos inactivos em 2027, 2028 e 2029. Por vezes, a fonte de uma notícia não é um denunciante secreto; é um documento público que estava à vista de toda a gente.
E houve CHEGA. Em “CHEGA ameaça fechar a Lusa, mas jornal do partido vai buscar à agência 57% das ‘suas’ notícias”, confrontámos os insultos de Pedro Frazão aos profissionais da agência e a promessa de a extinguir com um dado bastante mais interessante: numa análise às últimas 500 publicações da Folha Nacional, o órgão oficial de comunicação do partido de André Ventura, 57% tinham origem total ou parcial precisamente na Lusa.
E aqui deixo uma nota que considero importante. Sempre que publicamos uma notícia desfavorável ao CHEGA, surge nas redes sociais uma torrente de críticas de pessoas que até à véspera elogiavam o PÁGINA UM por investigar o PS, o PSD ou o Governo. O mesmo fenómeno, em sentido inverso, aparece quando investigamos outros partidos. Isso preocupa-me muito mais do que a crítica propriamente dita. Este jornal não tem ideologia nas notícias. Tem autores com opiniões, naturalmente; mas uma notícia não pode mudar porque o protagonista veste a camisola política de que um leitor gosta. Quem só considera bom jornalismo aquele que confirma as suas simpatias não está, no fundo, a pedir jornalismo: está a pedir conforto. E esse é um serviço que o PÁGINA UM não pretende prestar a ninguém. Se um dia o PÁGINA UM tiver de fechar portas porque deixou de haver apoios dos leitores porque abordamos ou não abordamos um partido, farei isso com orgulho.
Essa independência também nos levou esta semana para fora de Portugal. Em “Empresários portugueses já estão a limpar o humor incómodo para o poder na Sérvia” acompanhámos Pedro Vargas David e Luís Santos na administração do grupo de media ANN e o afastamento do programa de Zoran Kesić, um dos humoristas que mais incomodam o presidente Aleksandar Vučić. A administração invoca razões económicas; o poder sérvio recebeu, pelo menos, um benefício político evidente. Interessa-nos particularmente acompanhar estas situações porque a independência do jornalismo também se joga na propriedade dos media e nas pressões que começam muito antes de alguém ordenar directamente que uma notícia seja retirada.
Na Economia, publicámos hoje “Inflação engordou receitas e ajudou a reduzir a dívida no ‘brilharete’ de Medina, diz estudo”. Um estudo de Mislav Brkić ajuda a perceber que a forte queda do rácio da dívida portuguesa no pós-pandemia resultou sobretudo do crescimento nominal da economia — alimentado também pela inflação — combinado com um custo médio da dívida ainda baixo, enquanto o contributo dos saldos primários foi bastante menor. A inflação que fez subir o custo de vida também engordou receitas fiscais e ajudou mecanicamente as contas públicas. A economia raramente cabe num slogan.
O PÁGINA UM não vive apenas de investigação e notícia. Assim escrevi “Novo código dos contratos públicos: o regabofe vai aumentar”, sobre uma reforma do CCP que me preocupa em particular por ampliar o espaço dos ajustes directos e reduzir a concorrência. Bruno dos Santos Pereira regressou com “A casa também joga: parte II”, desta vez entrando no território da manipulação das competições, das apostas e daquilo que chama, com razão, a verdade desportiva.
No Dedo na Ferida, Elisabete Tavares voltou a conversar com Miguel dos Santos Pereira em “Injunção: utilidade versus abusos”, sobre um mecanismo pensado para cobrar dívidas com rapidez mas que também pode transformar-se num instrumento de abuso. Frederico Duarte Carvalho recuperou em “O momento que mudou a vida a José Mourinho” uma história de 1996 que, vista três décadas depois, ganhou outro sabor. O médico Jorge Amil Dias, colaborador pontual do PÁGINA UM, escreveu “À vontade ou à vontadinha?”, interrogando a distância entre aquilo que a lei permite e aquilo que a responsabilidade ética deveria impor.
E Tiago Salazar escreveu “Do tédio” enquanto o Sporting ia vencendo o Nacional. O resultado não o convenceu a perdoar a falta de intensidade, a escassez de jogo e o futebol administrado a ansiolíticos; entre saudades de Gyökeres, o patuá das bancadas e a licença para fumar um charuto, ficou a pergunta sobre a raça leonina.
Por fim, Brás Cubas voltou a fazer aquilo que um defunto pode fazer com particular liberdade: não poupar os vivos. Em “Luís Osório, águia entre os áulicos, lagartixa entre os louvaminheiros”, encontrou no entusiasmo encomiástico de Luís Osório matéria para revisitar uma das artes mais resistentes da vida pública portuguesa: a bajulação. Brás Cubas não perdoa, mas também não lhe pagamos para perdoar.
Enfim, talvez seja isto, afinal, o PÁGINA UM a caminho dos cinco anos: um jornal onde cabe uma base de dados com 38,5 milhões de episódios hospitalares e um charuto em Alvalade; uma intimação no Tribunal Administrativo e uma viagem aos bastidores dos media sérvios; uma análise científica às vacinas, uma investigação sobre a imprensa e uma sátira de Brás Cubas. Não porque queiramos falar de tudo, mas porque não queremos decidir antecipadamente onde pode estar uma história que mereça ser contada.
Nada disto se faz sem dinheiro, e muito menos sem leitores. Não temos um grande grupo económico por detrás, nem queremos que uma dependência financeira dite aquilo que se investiga ou aquilo que se publica. O CORPUS, as batalhas em tribunal, as horas gastas em bases de dados e documentos, as deslocações, a tecnologia e o próprio funcionamento quotidiano do jornal têm custos. Por isso, a quem já nos apoia, o meu profundo agradecimento. E a quem considere que este tipo de jornalismo merece continuar, pode apoiar directamente o PÁGINA UM. O princípio continua a ser o mesmo: o jornalismo independente só pode depender dos leitores.
E termino com uma promessa sem desvendar ainda demasiado: aproximam-se novidades. Algumas do PÁGINA UM; outras minhas. Os próximos tempos vão trazer novos projectos e novas formas de continuar aquilo que começámos há quase cinco anos. Contarei tudo quando chegar o momento.
Obrigado por estarem desse lado — aos que nos apoiam, aos que partilham, aos que criticam de boa-fé e, sobretudo, aos que continuam a achar que vale a pena existir um jornal que não pergunta primeiro de que partido é o protagonista antes de decidir se uma história merece ser investigada.
Esperemos que continue a considerar que aqui encontra informação de relevo e análises que obriguem a uma reflexão sobre temas da actualidade fundamentais a todos nós.
Para que possamos continuar a fazer-lhe chegar notícias de qualidade, mais e com a mesma qualidade desde que nascemos em Dezembro de 2021, apelamos a que, dentro do que lhe for possível, continue a apoiar o PÁGINA UM e a fazer parte deste jornal que vive apenas de e para os seus leitores.
O jornalismo independente DEPENDE dos leitores.
Obrigado por todo o seu apoio.
A Direcção do PÁGINA UM
Match-fixing, jovens atletas e a erosão silenciosa da verdade desportiva
No artigo anterior, a questão ficou colocada no plano da publicidade, dos patrocínios e da normalização das apostas dentro do espectáculo desportivo. Aí, o problema era sobretudo este: até que ponto pode o desporto vender a sua credibilidade simbólica a uma indústria que vive da aposta repetida, do impulso e, muitas vezes, da vulnerabilidade do apostador?
Mas essa é apenas a primeira parte do problema.
Porque as apostas não estão apenas à volta do jogo, podem tentar entrar dentro dele.
E é aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre patrocínio, publicidade ou dependência familiar, para passar ao território mais sensível do direito do desporto – a verdade desportiva.
E depois há a outra face, talvez ainda mais grave para o direito do desporto: a captura do atleta.
As apostas desportivas não ameaçam apenas quem aposta, ameaçam também quem joga.
Sobretudo quando falamos de jovens atletas, jogadores de escalões inferiores, modalidades com menor visibilidade, contratos precários, prémios baixos e carreiras frágeis. É aí que a promessa de dinheiro rápido se torna mais perigosa. Não é preciso comprar uma final europeia; basta comprar um ponto, uma dupla falta, um cartão amarelo, um canto, uma substituição, uma derrota discreta num torneio menor ou num campeonato periférico.
A corrupção moderna do desporto nem sempre entra pela porta principal.
Não precisa de alterar um campeonato inteiro, basta manipular um momento estatisticamente apostável.
Esse é o perigo das apostas contemporâneas. Já não se aposta apenas no resultado final. Aposta-se em tudo, golos, cantos, cartões, faltas, pontos,sets,substituições, intervalos, micro-eventos. Quanto mais se fragmenta o jogo em mercados de aposta, mais se multiplicam as oportunidades de manipulação.
Aliás, o legislador português já deu nome a esta realidade. A Lei n.º 14/2024, de 19 de janeiro, chama «incidências» às acções ou acontecimentos susceptíveis de aposta, incluindo o vencedor, o resultado, os golos ou pontos, os cartões, os cantos e os livres, finais ou parciais. E define a manipulação de competições como a alteração irregular do resultado ou do próprio desenrolar da competição destinada a eliminar, no todo ou em parte, a sua natureza imprevisível para obter uma vantagem indevida. O direito percebeu, portanto, que não é preciso comprar o resultado final para corromper o jogo.
O direito do desporto tem de abandonar a ingenuidade.
A verdade desportiva não é um ornamento dos regulamentos, mas o centro de tudo. Sem verdade desportiva não há competição; sem competição leal não há mérito; sem mérito não há resultado digno desse nome e, sem confiança pública no resultado, o desporto deixa de ser desporto e passa a ser encenação.
A manipulação de competições não prejudica apenas a casa de apostas, o clube ou a federação. Prejudica o adversário, o adepto, o patrocinador, o colega de equipa, o jovem que treina honestamente, o treinador que prepara o jogo, o clube que investe, a competição que se organiza e o próprio fundamento jurídico da actividade desportiva.
Quando um atleta é aliciado para manipular um jogo, não está apenas perante uma tentação individual – está perante uma rede e, quem entra numa rede destas, raramente sai limpo.
A primeira aceitação compra mais do que um lance: compra silêncio, vulnerabilidade e o futuro. Quem cede uma vez pode ser chantageado na segunda. Quem aceitou dinheiro para manipular um momento passa a viver com a ameaça permanente da exposição. As redes criminosas ligadas à manipulação de apostas não compram apenas resultados, compram pessoas.
É por isso que falar de apostas desportivas apenas como patrocínio é pouco – o patrocínio é a montra; o problema é o sistema que floresce à sua volta.
A Netflix tem explorado esta realidade em documentários sobre corrupção desportiva. A sérieBad Sportcruza crime real e desporto para revisitar escândalos globais, incluindo manipulação de jogos, corrupção no futebol e queda de atletas envolvidos em redes ilícitas.Caught Out: Crime. Corruption. Cricket.aborda o grande escândalo de manipulação de resultados no críquete indiano. Estes documentários não são prova jurídica de nada, naturalmente. Mas são úteis porque mostram ao grande público aquilo que o direito do desporto já devia saber há muito tempo: a corrupção desportiva raramente nasce apenas da ganância individual. Nasce de vulnerabilidade, oportunidade, silêncio, medo, dinheiro e redes que sabem escolher bem as suas vítimas.
No ténis, o caso de Marco Trungelliti é especialmente revelador. O tenista argentino denunciou uma abordagem corrupta recebida de terceiro à antiga Tennis Integrity Unit. A própria entidade internacional de integridade do ténis veio esclarecer que Trungelliti comunicou voluntariamente essa abordagem; não foi investigado, acusado ou sancionado, não recebeu pagamento pela informação prestada e actuou com integridade. A imprensa internacional relatou depois o custo pessoal dessa denúncia: hostilidade, ameaças, isolamento e saída da Argentina.
Este tipo de caso mostra o paradoxo mais cruel da integridade desportiva – pede-se ao atleta que denuncie, mas muitas vezes deixa-se o denunciante sozinho.
A mensagem oficial é: denunciem.
A mensagem real, demasiadas vezes, parece ser outra: denunciem e aguentem.
Portugal, pelo menos no plano legal, já não parte do zero. A mesma Lei n.º 14/2024 impõe aos agentes desportivos que comuniquem imediatamente ao Ministério Público os comportamentos de que tenham conhecimento ou de que suspeitem e que possam afectar fraudulentamente uma competição ou o seu resultado. Garante a confidencialidade da identidade do denunciante e proíbe ameaças, actos hostis e práticas laborais desfavoráveis ou discriminatórias contra quem denuncia. A lei reconhece, assim, uma evidência que o caso Trungelliti torna quase dolorosamente clara: pedir coragem ao atleta sem lhe garantir protecção é apenas transferir para ele o risco que o sistema devia assumir.
E a arquitectura institucional também existe. A Lei criou a Plataforma Nacional destinada ao tratamento da manipulação de competições desportivas, que funciona junto da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária. Cabe-lhe coordenar a luta contra a manipulação, centralizar e analisar informação sobre apostas irregulares ou suspeitas, emitir alertas, transmitir elementos às entidades competentes e articular autoridades judiciárias, policiais, desportivas e de regulação do mercado do jogo. A pergunta, portanto, já não é se Portugal precisa de inventar uma entidade. É mais incómoda: a estrutura que criámos tem meios, rapidez e capacidade operacional para chegar antes da chantagem, antes da carreira destruída e antes do resultado manipulado?
Ora, um sistema sério de integridade não pode viver apenas de cartazes, códigos de conduta e sessões de formação no início da época. Precisa de proteção efectiva: canais seguros, acompanhamento psicológico, apoio jurídico, mecanismos de denúncia credíveis, resposta disciplinar rápida e cooperação entre federações, ligas, operadores, reguladores, autoridades policiais e Ministério Público.
A integridade não se defende com slogans; defende-se com arquitetura institucional.
Grande parte da manipulação de competições pode ser prevenida se existirem regras claras para todos: estruturas de cumprimento nos clubes e nas organizações desportivas, combate real ao jogo ilegal, protecção efectiva dos denunciantes, monitorização de mercados suspeitos, partilha célere de informação e uma Plataforma Nacional dotada de meios para exercer as competências que a lei já lhe atribuiu.
É também necessário não misturar realidades diferentes. Um operador de apostas licenciado não é, por definição, aliado de quem manipula uma competição. Também ele é prejudicado pela fraude e pode ter um papel decisivo na detecção de padrões e apostas suspeitas. A própria lei prevê circulação de informação relativa a operadores licenciados e não licenciados e coloca o regulador do jogo dentro da arquitectura de cooperação. As redes criminosas, o jogo ilegal, os operadores licenciados e os patrocinadores não são a mesma coisa.
O problema do patrocínio é outro, e é suficientemente sério sem precisarmos de lhe acrescentar culpas que não tem. Quando o desporto se torna financeiramente dependente de uma indústria com a qual tem de cooperar, mas que simultaneamente tem de manter à distância da decisão desportiva, cria-se um problema de independência institucional e de aparência de independência. A cooperação é necessária, a dependência é perigosa. E a pergunta decisiva permanece: devem competições e clubes ser patrocinados por casas de apostas?
Esta pergunta devia estar no centro do debate português.
Não basta perguntar se as casas de apostas cumprem a lei.
É preciso perguntar se a lei cumpre a sua função.
E a função da lei não é apenas licenciar operadores, cobrar receita e punir abusos depois de ocorrerem. É prevenir danos previsíveis. É proteger vulneráveis. É preservar a integridade das competições. É assegurar que a necessária cooperação com o mercado regulado não transforma o desporto num braço emocional da indústria do jogo.
O problema não é uma casa de apostas existir.
O problema é a camisola de um clube parecer uma extensão da casa de apostas.
O problema é um adolescente ver o jogo e receber, ao mesmo tempo, a mensagem de que perceber de futebol é apostar em futebol.
O problema é transformar o adepto em apostador e o jogo em carteira aberta.
O problema é convencer uma geração de que emoção desportiva sem aposta é experiência incompleta.
A publicidade às apostas já tem proibições relevantes. Mas a pergunta é se isso basta.
Porque o menor pode não estar dentro da escola. Pode estar no sofá de casa, ao lado do pai, a ver o jogo. Pode estar no estádio. Pode estar nas redes sociais. Pode seguir um antigo jogador. Pode ouvir um podcast. Pode ver uma camisola. Pode decorar o nome de uma casa de apostas antes de perceber verdadeiramente o que é uma aposta.
A proteção de menores não se esgota em afastar publicidade da porta da escola. A escola hoje é também o ecrã. O recreio é também o telemóvel. O estádio é também a página inicial de uma rede social. A publicidade deixou de ser apenas geográfica, passou a ser comportamental, emocional e algorítmica.
É aqui que a comparação com o tabaco volta a fazer sentido.
Durante anos, a sociedade tolerou que o tabaco comprasse glamour desportivo. Depois percebeu que a associação era tóxica. Hoje, corremos o risco de repetir o mesmo erro com as apostas, só que com uma diferença: o cigarro exigia compra, fogo e consumo físico. A aposta exige apenas um clique.
O tabaco adoecia o corpo do adepto; as apostas, quando invadem o coração competitivo do desporto, adoecem o próprio jogo.
A verdade desportiva não se protege apenas punindo quem manipula competições. Protege-se impedindo que o ambiente económico, publicitário e emocional do desporto se torne favorável à manipulação.
A integridade começa antes do crime.
Começa na coragem de perguntar se a indústria que mais lucra com a imprevisibilidade do desporto deve estar colada à imagem institucional do próprio desporto.
Pierre de Coubertin via no desporto uma escola de esforço, lealdade, superação e respeito pela regra. Podemos discutir, com justiça, as limitações históricas e sociais dessa visão. Mas há um núcleo que permanece: o desporto só tem valor se o resultado for verdadeiro.
Quando o adepto começa a perguntar se aquele cartão foi natural, se aquela dupla falta foi azar, se aquele canto foi apenas consequência do jogo, se aquele erro foi humano ou encomendado, a competição perde a inocência mínima de que precisa para existir.
O desporto pode sobreviver ao erro do árbitro, à falha do guarda-redes, ao azar do ressalto e à injustiça do resultado. Não sobrevive bem à suspeita permanente de encenação.
Por isso, talvez esteja na altura de dizermos com as apostas aquilo que um dia tivemos de dizer com o tabaco – o facto de uma indústria ter dinheiro não lhe dá direito natural a ocupar o imaginário do desporto.
O desporto não tem de fingir que as apostas não existem, mas também não pode continuar a fingir que são apenas mais uma marca na camisola.
A dependência do jogo destrói famílias.
A manipulação de competições destrói carreiras.
A normalização das apostas dentro do desporto ameaça destruir a confiança no próprio resultado.
E quando se destrói a confiança no resultado, destrói-se aquilo que nenhuma casa de apostas, nenhum patrocinador e nenhum contrato televisivo conseguem comprar: a alma competitiva do jogo.
Sem verdade desportiva, não há vencedor; há apenas um guião com camisolas.
Bruno dos Santos Pereira é advogado e sócio na sociedade SPASS . É pós-graduado em Direito do Desporto.