quinta-feira, 11 de junho de 2026

O início eufórico que antecipa a repetição como antecâmara da obsessão.

O início da minha saga com a colecção do Mundial da Panini confrontou-me com uma realidade pouco compatível com a fantasia pueril que acompanha estas aventuras: perante a minha escassez de tempo, manifesta inexperiência e absoluta falta de treino logístico nesta matéria, depressa percebi que o entusiasmo, por si só, não bastaria para impedir o colapso organizacional.

Uma coisa é abrir saquetas com a jubilação de um rapaz de doze anos; outra, bem diferente, é gerir de forma racional um universo de 980 cromos, dispersos por dezenas de selecções, variantes especiais e armadilhas estatísticas concebidas para humilhar a memória humana.

Percebi assim, com inquietante rapidez, que não posso confiar na memória. Seria o caminho mais curto para acreditar que aquele lateral suplente da Costa Rica, acabado de emergir de uma saqueta com a solenidade de um presságio, era novidade absoluta, quando, afinal, já repousava, duplicado ou triplicado, algures entre outros enganos semelhantes.

Também me pareceu pouco sensato proceder à colagem imediata na caderneta. Não por falta de entusiasmo patriótico ou devoção coleccionista, mas porque o acto exige uma combinação improvável de paciência beneditina, precisão cirúrgica e unhas adequadas à delicada operação de separar aquele microscópico intervalo entre o papel de cobertura e a película autocolante do cromo.

Assim, fiel a impulsos que por vezes me fazem parecer um funcionário prussiano com tendências estatísticas, optei por uma organização germânica: matriz em Excel, países por ordem alfabética, jogadores numerados de 1 a 20 por selecção, especiais devidamente assinalados, e siga. Uma arquitectura de dados digna de quem, em vez de brincar, simula um ensaio clínico multicêntrico.

A minha estreia consumista fez-se com dois conjuntos em caixa, totalizando 112 cromos. Sem qualquer analíse estatística, este resultado, confesso, pareceu-me auspicioso. Apenas três repetidos, o que significa 109 cromos únicos logo na primeira investida. Traduzido em percentagem — porque todo o vício respeitável merece uma falsa camada de racionalidade quantitativa —, arranquei com 11,1% da colecção completa preenchida. 

Para uma primeira incursão deste género, explica-me a Estatística, o expectável seria algo próximo dos seis repetidos. Saí, portanto, com metade do infortúnio previsto. A probabilidade de obter um resultado tão favorável ou melhor andaria, grosso modo, pelos 12%, o que, não sendo um milagre mariano nem uma intervenção directa da FIFA nos assuntos terrenos, configura um começo simpático. Querem lá ver que a Panini afinal é bondosa?

Em todo o caso, a aleatoriedade tratou de exibir as suas excentricidades. Dei por mim com sete uruguaios, seis sauditas, cinco neozelandeses, e pequenos contingentes de belgas, colombianos, equatorianos, egípcios, marroquinos, mexicanos e escoceses, como se estivesse a montar um congresso diplomático desorganizado. Portugueses tenho três.

Em contrapartida, a França comportou-se como um sindicato em greve, a Suécia pura e simplesmente não compareceu, a Turquia evaporou-se, a Bósnia-Herzegovina manteve prudente neutralidade, e a Argélia recusou participar sem apresentar justificação formal.

Foi então que entrei na fase menos romântica da aventura: a da Matemática cruel. No primeiro dia, praticamente cada cromo surgia com elevada probabilidade de novidade, dado que eu partia de um admirável vazio estatístico. Agora, porém, já tenho 109 lugares ocupados, o que significa que cerca de 11% do universo possível se encontra preenchido. Em português corrente: a máquina probabilística da Panini vai começar a conspirar contra mim.

Cada nova compra passa, assim, a aumentar a probabilidade de me oferecer aquele prazer agridoce, quase litúrgico, de abrir uma saqueta com expectativa infantil, ver surgir um brilho promissor, e descobrir, com melancolia administrativa, que se trata de um senhor paraguaio que já possuo em duplicado.

Esta, afinal, é a velha maldição das colecções. O início é euforia, o meio é repetição e o fim transformará homens razoáveis em criaturas obcecadas com a localização exacta de um obscuro defesa-central da Coreia do Sul, cuja ausência passa a parecer uma falha intolerável na ordem do universo.

Terei em breve o segundo dia de compras. Veremos se a sorte persiste ou se a teoria das probabilidades decide, com a habitual frieza académica, recolocar-me no meu devido lugar.

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https://paginaum.pt/2026/05/16/o-inicio-euforico-que-antecipa-a-repeticao-como-antecamara-da-obsessao

Pedro Almeida Vieira



O encobrimento: um dossiê enterrado para evitar o escândalo. Inglaterra.

O documento estava concluído em 2023. Encomendado pelo Cabinet Office, o departamento que apoia diretamente o primeiro‑ministro, depois de se terem descoberto os primeiros indícios de fraudes nos pacotes de resgate da pandemia.
O relatório era para ser partilhado com a Foreign Office e os altos funcionários do governo. Mas, depois de verem os números e as conclusões, os responsáveis da anterior administração conservadora decidiram que o documento nunca deveria sair da gaveta.
O arquivo foi classificado como secreto – alegadamente para não causar “embaraço político” – e permaneceu enterrado até 8 de Junho de 2026, quando o diário britânico The Telegraph o revelou ao mundo.
O que o documento descreve é uma catástrofe de proporções épicas na gestão do dinheiro público. Entre 2015 e 2021, mais de 28 mil milhões de libras (cerca de 37,5 mil milhões de dólares) em fundos dos contribuintes britânicos terão sido desviados para organizações criminosas, grupos terroristas e Estados hostis, através de programas de ajuda externa e dos empréstimos de emergência concedidos durante a pandemia. As falhas nos controlos foram tão profundas que o dinheiro chegou às mãos do Estado Islâmico na Síria, de redes ligadas à Rússia e até a entidades associadas ao exército chinês.
As conclusões do dossiê são avassaladoras.
Mostram que o Estado, a máquina mais poderosa da sociedade, foi sistematicamente incapaz de proteger o dinheiro dos contribuintes. E, mais grave, que a verdade foi intencionalmente escondida para poupar a reputação de quem estava no poder.
O sistema que falhou – e quem foi atingido
A investigação do Telegraph identificou três grandes vulnerabilidades que foram exploradas em larga escala.
A primeira e mais grave foi o programa de empréstimos Bounce Back Loan, criado para ajudar as pequenas empresas a sobreviver durante a pandemia. As verbas eram desembolsadas com verificações mínimas para que o dinheiro chegasse rapidamente a quem precisava, mas essa urgência abriu uma janela de oportunidade para a fraude em massa. Um relatório ao Parlamento em Dezembro de 2025 concluiu que os contribuintes perderam cerca de 10,9 mil milhões de libras em fraudes e erros nos esquemas de apoio à pandemia, e que apenas 1,8 mil milhões tinham sido recuperados até à data.
O dossiê do Cabinet Office vai mais longe e revela casos concretos que lembram um thriller de espionagem: empréstimos Covid canalizados para membros do Estado Islâmico na Síria, subsídios concedidos a empresas ligadas ao Estado russo, e fundos de combate ao terrorismo que acabaram nas mãos de extremistas anti‑ocidentais.
Há registo de investimentos em projectos de investigação associados ao exército chinês, e de redes criminosas ligadas à imigração ilegal que receberam fundos através de subsídios de habitação e abonos de incapacidade, num esquema orquestrado com o apoio de uma potência estrangeira para fomentar a migração ilegal para o Reino Unido. Fontes próximas dos serviços de segurança indicaram que existia um “grande overlap” entre algumas destas redes criminosas e Estados hostis.
A segunda vulnerabilidade foi a ajuda externa britânica. Os números oficiais mostram que o orçamento para ajuda externa cresceu de 12,1 mil milhões de libras em 2015 para 15,2 mil milhões em 2019. O dossiê concluiu que a devida diligência sobre os beneficiários era insuficiente, permitindo que milhões de libras fossem para organizações ligadas ao crime organizado ou ao extremismo.
A terceira vulnerabilidade diz respeito aos próprios subsídios e benefícios sociais. O documento aponta que redes de crime organizado, incluindo traficantes de seres humanos, reclamaram fraudulentamente abonos de habitação e de incapacidade, usando o dinheiro para financiar operações ilegais em grande escala.
“Se há uma lacuna, qualquer um pode usá-la – criminosos, terroristas, qualquer pessoa que queira ganhar dinheiro rápido”, sintetizou Tom Keatinge, director do Centro para o Crime Financeiro e Estudos de Segurança do think tank RUSI, citado pelo Telegraph. Keatinge já em 2021 co‑assinara um relatório a alertar para o problema, classificando como “cada vez mais perversa” a falta de atenção dada à fraude no diálogo de segurança nacional, e pedindo um “maior papel para a arquitetura de inteligência do governo”.
O encobrimento: um dossiê enterrado para evitar o escândalo
O dossiê foi encomendado em 2023 por responsáveis de segurança que queriam uma fotografia exacta da dimensão da fraude nos fundos públicos. O documento era para ser partilhado com o Foreign Office e outros altos funcionários.
Mas quando ficaram prontos, os resultados eram tão politicamente explosivos que a administração conservadora da época decidiu não o divulgar. Fontes citadas pelo Telegraph disseram que o relatório nunca foi tornado público “para evitar o embaraço político de revelar a enorme escala dos fundos mal direccionados”.
A decisão de enterrar o documento lança uma sombra pesada sobre a transparência do Estado britânico. O próprio governo recuperou cerca de 7,5 mil milhões de libras em poupanças no combate à fraude – mas o valor perdido, de acordo com o dossiê, é muito superior. A oposição trabalhista, agora no poder, ainda não disse se irá investigar as alegações e tentar recuperar os fundos desviados.
As reacções dos especialistas: “É guerra económica, e temos sido ingénuos”
Rebecca Harding, do Centro para a Segurança Económica, foi citada pelo Telegraph a fazer um alerto grave: o dossiê deve servir como um “chamado à atenção” para a realidade da guerra económica.
“Um dos problemas é que assumimos que todos querem a mesma coisa que nós”, afirmou Harding. “O que não percebemos é que, quando se trata de outros países, alguns querem projectar o seu poder económico de uma forma que prejudica o nosso poder económico. É guerra económica, e temos sido ingénuos em relação a tudo isto.”
Nicholas Ryder, antigo conselheiro da Comissão de Assuntos Internos do Parlamento britânico, classificou a dimensão do desvio como “surpreendente”, acrescentando que “a ligação entre a fraude e o financiamento do terrorismo é muito clara”.
A conclusão dos serviços de segurança britânicos é inequívoca: o Estado falhou repetidamente na proteção dos cofres públicos, e esses erros foram deliberadamente explorados por atores maliciosos durante anos.
Portugal: o mesmo padrão de fragilidade, as mesmas consequências
O caso britânico não é um episódio isolado.
É o reflexo de um problema estrutural que atravessa a Europa.
Em Portugal, onde a discussão pública se tem concentrado na idade da reforma e nas contas da Segurança Social, a realidade da fraude com fundos públicos – em especial com dinheiro comunitário – continua a sangrar, muitas vezes longe dos holofotes.
No final de 2025, a Procuradoria Europeia realizou buscas na área de Lisboa por suspeitas de fraude envolvendo fundos da União Europeia e branqueamento de capitais, no âmbito do programa Portugal 2020, num esquema relacionado com a produção de equipamentos de proteção contra a Covid-19. Em Maio de 2026, a Operação Saco Roto – desenvolvida pela Polícia Judiciária em articulação com a delegação do Porto da Procuradoria Europeia – culminou na detenção de três pessoas, na realização de 26 buscas domiciliárias e não domiciliárias, e na apreensão de cerca de 100 mil euros em numerário.
A investigação incide sobre 30 operações cofinanciadas maioritariamente por fundos comunitários, num valor global de apoio aprovado superior a 1,8 milhões de euros. As empresas envolvidas, algumas criadas “ficticiamente para o efeito”, surgem repetidamente associadas à elaboração de candidaturas, consultas ao mercado, contratação de recursos humanos e faturação, maioritariamente entre elas, para obter o financiamento.
Em Abril de 2026, três pessoas foram detidas por suspeita de fraude de 15 milhões de euros com fundos europeus. Em Fevereiro de 2026, a PJ fez buscas por suspeitas de fraude de 3,6 milhões na Madeira, em projectos de reflorestação financiados por fundos europeus, tendo a Procuradoria Europeia constituído arguidos três funcionários públicos.
E em Dezembro de 2025, a Operação Navis visou a Transtejo por suspeitas de fraude na obtenção de subsídios comunitários no valor de 17 milhões de euros para renovação da frota, envolvendo adjudicações por ajustes directos a empresas do Grupo ETE.
A Procuradoria Europeia (EPPO), criada precisamente para proteger o orçamento da UE, tem sido cada vez mais acionada em Portugal, mas os números continuam a ser preocupantes. Até 2026, tinham sido detetados cerca de 350 casos de fraude com fundos europeus na zona euro, sendo Portugal responsável por oito desses casos – um número reduzido, mas que contrasta fortemente com os milhares de milhões de euros em ajudas comunitárias que o país recebe e que, em boa parte, continuam a escapar aos mecanismos de controlo.
Conclusão: a cultura do encobrimento, do Tejo ao Tamisa
A investigação do Telegraph revelou uma verdade incómoda: o Estado britânico entregou milhões de libras a terroristas e criminosos, enterrou o relatório que documentava o escândalo e só agora, anos depois, a verdade vem ao de cima.
Em Portugal, o padrão é o mesmo. Os mecanismos de controlo existem, mas são frequentemente ignorados. As auditorias existem, mas são desprezadas. Os alertas existem, mas são abafados. E quando a verdade começa a emergir, o sistema reage com operações policiais isoladas, algumas detenções, e uma narrativa oficial de que “algo está a ser feito”.
Mas o dinheiro – o dinheiro dos contribuintes, o dinheiro que devia construir escolas, hospitais e estradas – continua a desaparecer, canalizado para empresas de fachada, para offshores e, em alguns casos, para financiar redes que trabalham activamente contra o interesse nacional.
A questão central, tanto em Londres como em Lisboa, não é técnica. É política. A questão é saber quem beneficia com a opacidade. E a resposta, por mais desconfortável que seja, é a mesma nos dois lados do Canal da Mancha: beneficiam os mesmos partidos que escrevem as regras, os mesmos interesses instalados, os mesmos intermediários que engordam à sombra do Estado.
Enquanto essa cultura permanecer, os números continuarão a piorar. E os contribuintes continuarão a pagar – não uma, mas duas vezes. Primeiro, quando descontam para o sistema. Depois, quando esse dinheiro é canalizado para quem o quer destruir. A pergunta que fica no ar, tanto para o eleitor britânico como para o português, é a mesma: até quando vão continuar a acreditar que “algo está a ser feito”?
Pode ser uma imagem de texto que diz "3 @ూ. WHISTLEBLOWER.PT - စ်ချု THE TELEGRAPH REVELA: 28 MIL MILHÕES DE LIBRAS DE DINHEIRO PÚBLICO BRITÂNICO FINANCIARAM TERRORISTAS, CRIMINOSOS E ESTADOS HOSTIS"
Nenhum patrocínio. Nenhuma narrativa institucional. Apenas os factos.
Fontes e links directos: