Mostrar mensagens com a etiqueta Industria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Industria. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Mozilla: “Até os brinquedos sexuais oferecem melhor proteção de dados do que os carros”

 

Por: SØREN KRAGBALLE

Mozilla: “Até os brinquedos sexuais oferecem melhor proteção de dados do que os carros”




Os carros modernos são os piores infratores quando se trata de transmissão de dados confidenciais e privados.

Os proprietários de automóveis modernos praticamente não têm qualquer controlo sobre os dados pessoais que os fabricantes de automóveis recolhem e potencialmente transmitem a terceiros.

“Os carros são oficialmente a pior categoria de produtos quando se trata de proteção de dados privados”, afirma um novo relatório da Mozilla Foundation, uma organização global sem fins lucrativos.

Todas as 25 marcas de automóveis testadas pela organização não cumpriram os padrões mínimos de proteção de dados da Mozilla. Isso inclui marcas como Ford, Toyota, VW, BMW e Tesla.

Ao longo de vários anos, a Mozilla testou e avaliou vários produtos para o processamento dos dados coletados, e a indústria automotiva oferece a menor proteção de todas, escreve The Verge .

84 por cento das marcas de automóveis testadas partilham os dados pessoais dos utilizadores dos automóveis com outras pessoas. Incluindo empresas que revendem dados, bem como potenciais negócios duvidosos.

76 por cento afirmam mesmo ter o direito de revender dados pessoais e 56 por cento. das marcas estão dispostas a compartilhar as informações do usuário com as autoridades e a polícia, se solicitado.

Assim, a protecção de dados das fábricas de automóveis é pior do que com aplicações que têm a ver com saúde mental e fabricantes de brinquedos sexuais – dois grupos que são notoriamente conhecidos pela fraca protecção de dados.

Como adendo ao relatório, a Mozilla também publicou uma visão geral explicando como as montadoras coletam e compartilham dados dos usuários.

Ele pode incluir tudo, desde o nome, endereço, número de telefone e endereço de e-mail do usuário até dados mais íntimos, como fotos, informações de calendário e até detalhes sobre a raça do motorista, informações genéticas e status de imigração.

A Mozilla afirma que as montadoras não cumpriram os padrões mínimos de segurança da organização para criptografia de dados e proteção antirroubo. 

Na verdade, a Mozilla afirma que os aplicativos de namoro normalmente fornecem informações de segurança de dados mais detalhadas sobre seus produtos do que os carros. 

https://finans.dk/erhverv/ECE16415948/mozilla-selv-sexlegetoej-giver-bedre-databeskyttelse-end-biler/?st=1


sexta-feira, 17 de março de 2023

As grandes fortunas das antigas colónias

Tiveram os maiores barcos de Angola, fizeram corridas de carros em Jaguares, mandaram erguer igrejas com santos e bispos vindos da metrópole, a mesma metrópole de onde chegaram a enviar governantas para casas com ares condicionados instalados por portugueses. Na África de todas as oportunidades, alguns montaram negócios nunca vistos – como os pioneiros da cerveja e do whisky local –, outros enriqueceram com algodão, fazendas de gado e abacaxi ou conservas de atum.


Índice
1 O império de Manuel Vinhas
2 Whisky made in Angola
3 O prédio mais alto do Império
4 Uma missa para 3 mil pessoas
5 Os quatro irmãos Quintas
6 Angola, “querida Angola”

Nos anos 60, quando a Baía Farta ainda não tinha sequer banco, José Domingues Antunes já pagava milhares de contos em salários aos funcionários da fábrica de conservas Atlântico. O dinheiro vinha de Benguela, a 35 quilómetros de distância, em duas camionetas que faziam vários serviços para a empresa angolana.
Um dia, além do habitual pacote de notas, as famosas Austin e Scania trouxeram uma segunda embalagem, aparentemente igual mas recheada de carne – em vez de dinheiro. “Só que houve um engano e puseram o dinheiro no frigorífico e a carne no cofre. Isto aconteceu numa sexta-feira e na segunda toda a gente comentava o cheiro horrível que andava pelo edifício”, lembra divertido Armando Cardoso, de 75 anos, antigo funcionário da companhia.
O patrão, um português de Proença-a-Nova, era “um pioneiro que vivia numa das melhores (e poucas) casas de primeiro andar de Benguela”. Um reclame da época anuncia que mandou construir aquele que chegou a ser o maior barco de Angola, o primeiro a congelar peixe em alto mar quando nas antigas colónias ainda ninguém o fazia.
Foi também ele que, depois de uma viagem à Europa, decidiu importar uma caixa frigorífica de Itália para fazer igual na Baía Farta. “Levou-a para a carpintaria, mandou desmanchar e copiar. A primeira desfez-se toda na estrada. ‘Bem, vamos lá ver onde é que erramos e tentar de novo’, disse aos funcionários. E foi assim que começaram a circular camionetas com caixas frigoríficas na Baía Farta”, acrescenta Armando Cardoso.


A família de José Domingues Antunes (o primeiro da esquerda) no Sobrainho, em 1939.Arquivo pessoal

Quando o Presidente da República Américo Tomás visitou Angola, em 1963, desembarcou no cais da empresa. “A Atlântico era, na altura, uma das maiores fábricas de conservas da África Austral”, garante à SÁBADO Alexandre Soares, sobrinho-neto de José Domingues Antunes.
A primeira pescaria tinha sido inaugurada em 1940, nessa altura com barcos feitos de madeira portuguesa. “O meu avô cortava a madeira em Proença-a-Nova, a madeira ia de barco para Lisboa no rio Tejo e daí seguia para Angola. Foi assim que começaram a construir barcos de pesca. Mais tarde o meu avô, a minha avó e os filhos também foram para lá.
No início viviam numa praia desabitada, a 20 quilómetros de Benguela, numa barraca de madeira. Depois começaram a pescar cada vez mais, a fazer barcos maiores e a madeira já não ia daqui. A dada altura separaram os negócios: o meu avô ficou com uma pecuária e o meu tio-avô com a pescaria” que transformou nas conservas Atlântico.
“Quando cheguei, em 1963, já era uma fábrica muito grande, com seis ou sete barcos de pesca de atum, duas traineiras e esse arrastão, a jóia da coroa, que estava certificado para navegar no mar do Norte”, recorda Armando Cardoso. Ao lado da conserveira nasceu um estaleiro naval, depois uma carpintaria, várias oficinas e fábricas, salinas próprias e um bairro onde os trabalhadores viviam – os solteiros em quartos, os casados em casas com mobília, portas e janelas também elas fabricadas na Baía Farta.

O Pioneiro, da Fábrica de Conservas Atlântico, chegou a ser o maior barco de Angola

arquivo pessoal
Uma economia a crescer
Em 1967, quando adoeceu com papeira durante o serviço militar, Armando Cardoso pediu para ser retirado de Nova Lisboa para o hospital da Atlântico. “Estive lá um mês internado. Antes de fazer o hospital, o Sr. José Domingues Antunes já tinha oferecido um posto médico com condições para fazer pequenas cirurgias, como uma operação à apendicite, a Sobrainho dos Gaios, a terra onde nasceu. Pagava o médico, a enfermeira e a maior parte dos medicamentos.”
Anos mais tarde, além de Angola, a Atlântico passou a exportar para Itália e para os Estados Unidos e teve um representante na Beira, em Moçambique, onde a mulher do famoso jogador de futebol Eusébio, Flora, chegou a trabalhar, assegura Armando Cardoso.
E em 1973, pouco antes da revolução, Domingues Antunes estava a negociar a compra de pelo menos dois helicópteros para fazer o balizamento dos cardumes de atum. “Em vez de os barcos andarem no mar a fazer isso, podia-se fazer uma busca por avião e depois transmitir aos navios. A compra não avançou por causa do 25 de Abril”, explica o antigo funcionário.

Até 1974, nada fazia prever que José Domingues Antunes – e muitos outros portugueses – abandonassem Angola e Moçambique, terras onde tinham feito negócios e fortuna. Como os muitos portugueses que para lá emigraram – entre 1940 e 1960 só a população de Luanda passou de 60 mil para mais de 220 mil pessoas – o dono das conservas Atlântico foi à procura de oportunidades que não encontrava em Portugal.
E eram muitas: entre 1960 e 1970 a indústria cresceu sempre a dois dígitos e em alguns casos, como aconteceu com a extracção de diamantes e de ferro, acima dos 170%. Foram tempos de criação de novas empresas, com muito mais capital investido (mais 600% entre 1960 e 1972). Uma época em que o PIB disparou – entre 1970 e 1974 Angola cresceu em média 7,8% por ano – e em que se assistiu ao nascimento de vários novos empresários. E de muitas histórias, como as que vai continuar a ler aqui.


O emblemático hotel Presidente, em Luanda. Em 1971, Angola tinha 927 hotéis e 239 pensões. Os maiores em Luanda, Nova Lisboa e Sá da BandeiraJean-Charles Pinheira
O dono do Jaguar amarelo


Apesar de se ter feito rico, José Domingues Antunes não era dado a extravagâncias. Gostava de ir às termas ao fim de semana, mas não frequentava o Lobito Sports Club ou outros clubes onde os portugueses se juntavam, e continuou sempre a conduzir um Volkswagen Carocha.
Já o pai de Francisco Guedes, que em Angola todos conheciam como Farrobilha Guedes, apaixonou-se pelas corridas de carros e pelo autódromo de Luanda. “Foi durante vários anos corredor de automóveis. Começou com um Triumph TR4, muito famoso na altura e depois teve um Jaguar amarelo. O meu pai e o Manuel Vinhas [o milionário dono das cervejas Cuca] tinham dos melhores carros de Angola”, conta o seu único filho.
Luís Farrobilha Guedes chegou a Luanda em 1961, numa altura em que ninguém sabia o que eram frigoríficos. “Nem havia rede eléctrica, era preciso trabalhar a petróleo”, conta o filho. Ao fim de um ano, decidiu lançar-se por conta própria e abriu a Frigoríficos Polo Norte.
“Um dos nossos maiores clientes foi o Estado português, através das Forças Armadas. Vendemos milhões de frigoríficos e de arcas congeladoras para o exército português em Angola. Para as messes, quartéis, para todo o lado. Em 1967 já tínhamos 95 empregados e em 1970 abrimos uma filial em Moçambique.”
Dois anos depois, voltaram a inovar: “Fizemos a primeira linha de montagem de ares condicionados totalmente angolana em Angola”, acrescenta o filho, que ainda se ri quando recorda um dos slogans da marca – “Durma com a Amana e durma melhor.” A mãe, Albertina, foi essencial para o sucesso da empresa. “Não pode falar do meu pai sem falar da minha mãe”, garante o filho. “Era ela que comandava as oficinas. O meu pai liderava a parte comercial.”
Juntos construíram uma “fortuna considerável”, que além da casa no bairro de Alvalade, um dos melhores de Luanda, incluía um prédio de 16 andares que sempre arrendaram. “Todos os frigoríficos e ares condicionados que o primeiro Presidente de Angola [Agostinho Neto] tinha, era o meu pai que lhos oferecia. Eram amigos pessoais”, acrescenta.

O império de Manuel Vinhas

O apartamento que o empresário Manuel Vinhas mandou fazer em Luanda, no segundo piso da fábrica da Cuca, era um dos que à época já tinha ar condicionado. Quase de certeza fornecido por Farrobilha Guedes, adianta o filho. “Eram muito amigos”.
Ao contrário de Farrobilha Guedes, Manuel Vinhas não vivia em Luanda, mas passava cerca de seis meses por ano em Angola. Tempo suficiente para lá ter não só motorista, mas também governanta. Era a Dona Gracinda, que se mudou de Lisboa para Angola, quem se ocupava da casa com seis suítes, casa de jantar e uma sala envidraçada com ligação ao terraço.
Apesar de ser um dos homens mais ricos de Portugal, e herdeiro da fábrica de cervejas Portugália, foi em Angola que Vinhas mais fez crescer o seu império. Em 1972, no auge do império que construiu, tinha 53 empresas no País. Só a Companhia União de Cervejas de Angola (Cuca) dava emprego a 3.500 funcionários e faturava um 1,2 milhões de contos por ano (hoje mais de 300 milhões de euros).

Manuel Vinhas (ao centro) com a filha Rita e um amigo na Herdade do Zambujal, onde organizou grandes caçadasarquivo pessoal

“Em 1952 iniciámos em Angola a actividade cervejeira e por isso legitimamente reivindicamos para nós o título de pioneiros de uma indústria que, passados 20 anos, ainda é a primeira indústria transformadora de Angola”, disse Manuel Vinhas na assembleia-geral anual da Cuca desse mesmo ano.
Cerveja era Cuca”, garante à SÁBADO José Marques Leandro, 93 anos, que chegou a ser presidente da câmara de Nova Lisboa (hoje Huambo). “Havia três cervejeiras grandes em Angola: a Cuca, a Cristal e a Nocal. Mas só a Cuca era sinónimo de cerveja. Dizia-se muito: ‘Traz-me uma Cuca, mas de preferência Nocal ou Loira Tropical.” Não é que não se bebesse cerveja antes de Manuel Vinhas chegar a Angola – bebia-se, e muito – mas era importada e, por isso, mais cara.
Com o sucesso na cerveja, Manuel Vinhas foi abrindo novos negócios. Em 1965, para aproveitarem as borras que sobravam da produção de cerveja, começaram a produzir rações. Mais tarde tiveram participações em fábricas de caixas de cartão, de caricas e de vidro; produziram sumo de maracujá e vegetais, aventuraram-se na pecuária e na avicultura (com, em tempos, um milhão de galinhas); entraram nos meios de comunicação social de Angola.
Além de casas e de um grupo cultural e desportivo, os filhos dos funcionários tinham direito a creche – um dos brinquedos era a primeira camioneta de distribuição de cerveja que o empresário teve em Angola.
Vigiado pela PIDE desde que, em 1962 escreveu o livro Para um Diálogo sobre Angola, Vinhas nunca discriminou funcionários. Pelo contrário, conta-se ainda hoje em Luanda: quando percebeu que o bar América não aceitava negros ou mestiços, abriu outro, na mesma rua, com o cartaz “Servimos todas as raças”. Ali, só não se vendia vinho, a bebida preferida do maior industrial de cervejas de Angola, que já antes do 25 de Abril tinha uma das mais importantes fortunas portuguesas e uma das principais colecções de arte.
Nas 999 verbas listadas no inventário da sua herança, a que a SÁBADO teve acesso, cerca de 600 são quadros. Há duas colagens de Paula Rego, dezenas de quadros de Júlio Pomar (que fez o retracto do próprio Manuel Vinhas), Almada Negreiros, Cruzeiro Seixas, entre muitos outros pintores portugueses e estrangeiros.
Outra das suas grandes paixões eram as caçadas, que fazia em Angola, mas também em Moçambique. Chegou a viajar milhares de quilómetros de carro para perseguir elefantes, leões e muitos outros animais. Na época, os safáris liderados por portugueses duravam vários dias e tinham uma logística complexa. Numa das vezes em que foi a Moçambique com a mulher, Maria Alice Bustorff, que tratava por Concha, e os oito filhos, o camião que levava o material de apoio viajou 24 horas antes da família Vinhas.

Whisky made in Angola

Em Luanda, os fins de tarde eram muitas vezes passados nas esplanadas da Portugália e do Calhambeque, no bar do hotel Continental ou no Baleizão, famoso sobretudo pelos gelados. Além de imperiais e cervejas bebia-se muito gin tónico e whisky. Whisky que, a dada altura, também podia ser nacional.
“O primeiro whisky de Angola foi feito por um português e chegou a ser exportado para a África do Sul”, lembra Marques Leandro. “Era o whisky mais barato que havia, mas era uma mixórdia. Bebia-se muito com Seven Up”, recorda Floripo Salvador, responsável pela publicação virtual Recordações de Luanda. Marques Leandro concorda.
“Era uma aguardente wiskada, mas não era grande coisa. A empresa chamava-se Sociedade de Bebidas Espirituosas do Lobito (SBELL), mas depois inventaram-se outros nomes a brincar com as iniciais [e com a qualidade da bebida]. Os mais famosos eram: Se Beberes Este Líquido Lixas-te e Salazar Bebeu Este Líquido e Lerpou”, lembra divertido.


O whisky Sbell era produzido na cidade do Lobito, a 500 quilómetros de Luanda.

Além de uma moradia na fazenda do Lubango, Mário Ventura mandara arranjar uma casa no centro do Lobito. “Era um casarão enorme. Ele vivia no primeiro andar e o rés do chão estava alugado ao Banco Pinto & Sotto Mayor”, controlado por António Champalimaud, acrescenta Jorge Briosa.

O prédio mais alto do Império

O crescimento da banca foi, aliás, um dos reflexos da aposta de Portugal em Angola e Moçambique. “O número de dependências e agências bancárias em todo o território angolano, que era de 17 em 1960 (pertencentes a dois bancos), foi acrescido, entre 1961 e 1968, de 91 estabelecimentos suplementares pertencentes agora a cinco bancos”, escreveu Adelino Torres em Estratégia Colonial Portuguesa e Estruturas Económicas de Angola nos Anos 1960 e 1970.
Além do Pinto & Sotto Mayor, de António Champalimaud, estavam em Angola instituições financeiras como o Banco de Crédito Comercial e Industrial (BCCI), de Miguel Quina, que controlava um dos sete maiores grupos empresariais portugueses da época.
Tal como Miguel Quinta, também Artur Cupertino de Miranda já era rico antes de investir nas antigas colónias. “Foi pioneiro da banca em Angola e em Moçambique. O banco de Moçambique foi uma derivação do Banco Comercial de Angola (BCA), o primeiro banco privado de Angola, criado em 1956.”
A 28 de Janeiro de 1967, o BCA inaugurou uma nova sede naquele que seria, durante anos, o maior arranha-céus do império, com 87 metros de altura e 26 pisos. Para o evento, a administração encomendou um bolo à pastelaria mais famosa da cidade, a Paris-Versailles, que tinha fama de fazer bolos em forma de edifícios, conta Rita Garcia no livro Luanda como Ela Era.
“O bolo era tão grande que não cabia nas portas nem nos elevadores do BCA. Foi preciso descobrir uma forma de o içar para o terraço”, descreve. Para isso, teve de se pedir uma grua aos Serviços Municipalizados de Água e Electricidade. Na inauguração, que contou com um discurso de Cupertino de Miranda estava, claro, a elite de Luanda, que subiu ao 21º piso para beber champanhe.

António Champalimaud, com o Pinto & Sotto Mayor, foi um dos milionários portugueses que investiu na banca em Angola


De acordo com o livro Angola: Estrutura Económica e Classes Sociais, de Henrique Guerra, a “camada de colonos ricos” teria, então, “entre uma e duas centenas de famílias”. Juntos, os influentes empresários controlavam as maiores empresas agrícolas e pecuárias de Angola, mas também “a maior parte das indústrias de pesca e grande parte das indústrias transformadoras”, empresas de transportes, diversões e muitas outras. “As primeiras companhias de seguros foram criadas por esta camada.”
Venâncio Guimarães Sobrinho, sogro de Cardoso e Cunha, ministro da Agricultura e Pescas dos governos de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão, foi outro dos empresários que teve uma grande influência na economia de toda a Angola. Antes do 25 de Abril as suas empresas já tinham um avião bimotor Piper, usado para deslocações mais longas.
O maior produtor de gado do Sul de Angola teve uma influência decisiva sobretudo no desenvolvimento dos distritos da Huíla e Cunene (Moçâmedes). “O Grupo Venâncio Guimarães estendia a sua actividade do comércio [incluindo o Jornal da Huíla], à indústria, agricultura e pecuária, passando pela pesca e pela exploração de carreiras rodoviárias. Esta última actividade teve um papel fundamental no desenvolvimento do Sul e Centro de Angola, porque [anos depois deu origem à EVA (Empresa de Viação de Angola) que durante muito tempo foi o único meio de transporte do comum das pessoas e de grande parte das mercadorias em trânsito, de e para o Huambo, Benguela e Cunene”, escreveu Fernando Cerviño Padrão, em A Colonização do Sul de Angola: 1485 a 1974.
Nascido em São Pedro do Sul em 1933, Venâncio Guimarães Sobrinho foi para Angola depois de sair da Escola Naval. Começou por trabalhar para a Venâncio Guimarães & Companhia, no Lubango, detida por um tio com quem partilhava o nome. Quando a parceria terminou, fez uma empresa concorrente, com o mesmo nome, que se tornou ainda maior e mais famosa.
Para o genro, Cardoso e Cunha, que se juntou a ele nos anos 60, Venâncio Guimarães sempre foi “o comandante”. Tal como acontecia com Manuel Vinhas, as chefias da empresa tinham casa no mesmo edifício onde funcionavam os escritórios. Alguns, como acontecia por vezes com Cardoso e Cunha, chegavam a descer de pijama para ir resolver assuntos de trabalho – e logo a seguir regressar a casa.

António Cardoso e Cunha trabalhou muito tempo com o sogro, Venâncio Guimarães Sobrinho, em Angolad.r.
Leston Bandeira foi trabalhar para Venâncio Guimarães Sobrinho pouco antes da independência de Angola, como director da Rádio Comercial. E acabou a ser despedido – tal como a restante direcção – pelo empresário português. “Fomos os 4 despedidos porque o Venâncio Guimarães Sobrinho disse uma frase muito engraçada: ‘Eu não pago para que digam bem de mim, mas seguramente também não lhes pago para que digam mal.’”
E a Rádio, admite Leston Bandeira, “dizia mal de toda a gente”, incluindo do partido no poder, o MPLA. “Foi a primeira rádio livre em que trabalhei. Nós éramos todos marxistas, só mais tarde percebemos que o marxismo era uma coisa do século XIX. E acabámos obviamente por ser demitidos.” Venâncio Guimarães Sobrinho era, diz, “um homem soft e sóbrio, que investia muito em Angola e era membro do conselho legislativo do País”. A dada altura entrou, também, no negócio das cervejas. “Criou, com capitais sul-africanos, a fábrica da N’gola.”
Leston Bandeira voltaria a trabalhar para ele depois da Independência de Angola, quando o MPLA o colocou como administrador de uma fábrica de farinha do empresário. “Nessa altura eu ainda fazia parte da direção política do Sul do MPLA e os meus colegas pediram-me que fosse para lá.” Quando chegou ao Lubango começou logo a ter problemas com um dos cinco administradores colocados pelo MPLA.
Estávamos numa reunião, eu distribui um documento e vi que ele estava a lê-lo de pernas para o ar. Chamei o Santos, que me tinha convidado e disse-lhe: ‘Olha, aquele fulano, mandei-o para a escola, porque ele é analfabeto. E para administrar uma fábrica como esta é preciso gente competente, senão não estou aqui a fazer nada.”

Uma missa para 3 mil pessoas


Quando as havia, as excentricidades dos colonos não se limitavam a Jaguares ou a caçadas longínquas. Podiam, também, ser religiosas. Quando o telegrama chegou a Sisal do Bocoio, a 80 quilómetros do Lobito, em Angola, o gerente da enorme herdade onde José Lopes Ferreira dava emprego a 2 mil pessoas, a maior parte delas em plantações de abacaxi, entrou em pânico.
A ordem do patrão, um velho colono que indiferente ao calor vestia sempre fato de linho branco e gravata, era muito clara: “acaba a capela rapidamente porque eu vou no barco e levo uma imagem igual à da Nossa Senhora do Mont’Alto para pôr aí”, lembra José Marques Leandro, que na altura trabalhava na câmara do Lobito. “O gerente ficou muito aflito e chegou a pedir ajuda ao empreiteiro da câmara. ‘Eu pago, eu pago’”, acrescenta.

A inauguração do santuário do Mont'Alto, num artigo de três páginas d'A Comarca de Arganil


Apesar de todos os esforços, quando o comendador chegou – acompanhado pelo Bispo de Coimbra e pela imagem – a capela que mandara construir à semelhança da que havia na terra onde nascera, no concelho de Arganil, ainda não estava pronta.
Nem por isso a inauguração foi adiada: no dia 15 de agosto de 1964, pela primeira vez na história, celebrou-se missa na colina que viria a ser conhecida por Mont’Alto. A imagem que chegara de Portugal foi colocada num andor construído propositadamente para a ocasião no Lobito. Para o carregar, organizaram-se três turnos, de quatro pessoas cada (Marques Leandro integrou o primeiro).
Depois da procissão, a que assistiram mais de 3 mil pessoas e seis sacerdotes, seguiu-se um enorme banquete. “Qualquer pessoa vulgar desistiria de dar almoço a todos os que naquela hora se encontravam no Mont’Alto de Angola. Mas o comendador José Lopes Ferreira não é uma pessoa vulgar. E, assim, deu ordens para que fossem mortos bois, porcos, galinhas, sem calculismo de quem tem medo de desperdícios. Fez transportar para o local camionetas carregadas com pipas de vinho, cerveja, whisky e muitas outras bebidas. De véspera, pedira a pessoas da Sarnadela [a terra onde nasceu] que fossem para o Mont’Alto a tempo de prepararem torresmos à maneira de Santa Quitéria, em Pombeiro da Beira”, escreveu o jornal Comarca de Arganil a 22 de agosto de 1964.
“Agora entronizada entre nós, rogamos-vos, Nossa Senhora do Mont’Alto: amparo, proteção, bênção e paz para todos os habitantes de Angola”, rezou o comendador José Lopes Ferreira.
Nos dias seguintes, as obras continuaram. Não apenas da igreja: ao lado da capela foi construída uma escola destinada não só aos quase 2 mil operários que trabalhavam naquela fazenda, como a outras pessoas que vivessem nas redondezas. Ao lado do Santuário, onde passou a haver missa todos os domingos, ficou também a casa do chamado “ermitão”, o homem que dia e noite velaria por aquele local sagrado.
José Lopes Ferreira era tão católico que costumava dizer que as mulheres mais caras que tivera na vida eram freiras. “As freiras de um colégio que ele ajudava”, conta divertido Marques Leandro. Quando chegou a Angola, vindo da Sarnadela, dificilmente imaginaria que ia fazer fortuna com plantações de abacaxi.
“À noite, quando regressei ao Lobito com o filho [tinha, além deste, duas filhas], parámos no meio do caminho na casa comercial onde o pai tinha começado a trabalhar. O velho soba disse-lhe: ‘Quando vieste para cá tinhas as meias rotas e agora tens muito dinheiro.’”
Outra empresa muito grande, acrescenta Marques Leandro, era a Jomba. “Tinha a concessão de uma água mineral que exportava com grande êxito principalmente para a África do Sul, que tem muita água, mas não tem minerais. Mas a maior atividade era uma fábrica de bombons e rebuçados.”
O dono da Jomba e da Ossi, Lisboa Fernandes, chegou a ser vice-presidente da câmara do Lobito. “Dizia que em Angola tinha açúcar, coisa que em Portugal não havia, e mão de obra. Só faltavam os técnicos, que levou para lá. O grande importador era a Favorita, que a dada altura quis comprar a empresa. Mas ele não vendia, era muito empreendedor”, acrescenta.



Em casa de Marques Leandro, os bombons da Jomba eram uma das guloseimas mais procuradas. “De vez em quando levava-me umas caixas de muitas variedades. Os meus filhos eram miúdos e andavam sempre à procura dos chocolates.”

Os quatro irmãos Quintas


Quando os portugueses começaram a investir em Angola, o petróleo da época era o café, que entre 1946 e 1972 foi a principal exportação do País, recorda Onofre dos Santos. “Grandes exportadores de café portugueses, como os Mota, eram uns cinco ou seis. Depois havia importantes empresários agrícolas, como o Venâncio Guimarães Sobrinho, e outros que diversificaram muito os negócios, como o Manuel Vinhas e o Mabílio de Albuquerque. No comércio, por exemplo, os Armazéns do Minho, que ainda lá estão, até tinham uma peça feita pelo famoso artista português Querubim Lapa numa das fachadas. E os Quintas & Irmão tinham lá um grande e muito emblemático estabelecimento comercial”, o maior de Luanda.
A Quintas & Irmão era uma das lojas mais concorridas da baixa da capital. Pertencia não a um, mas a quatro irmãos, que além de um estabelecimento comercial multiproduto tinham uma grande distribuidora de gás (Gás Quintas), uma fábrica de tintas e metade do capital da cervejeira Eka.
“Dois viviam em Luanda, o António e o Júlio, os outros dois [Joaquim e Armando] mais em Portugal”, confirma à SÁBADO uma pessoa próxima da família. Vendiam de tudo: de frigoríficos a muitos outros eletrodomésticos, passando por talheres, porcelanas, cristais ou canetas Dupont e Parker. No Natal, era ali que os portugueses iam comprar brinquedos – alguns feitos em Angola, outros importados. Como também se importava o bacalhau que os portugueses continuaram sempre a comer (tal como a feijoada e o cozido à portuguesa) e a roupa.

Porque só “após 1966 foi permitida a instalação nas colónias do setor têxtil, até então interdito com receio de forte concorrência à indústria da metrópole”, escreve-se em A Evolução Económica de Angola Durante o Segundo Período Colonial, de Nuno Valério e Maria Paula Fontoura. Quatro anos depois, em 1970, o têxtil era já a segunda maior indústria de Angola.

Um dos maiores empresários do setor era Manuel Lagos, tio da jurista Rita Amaral Cabral, a mais famosa namorada de Marcelo Rebelo de Sousa. “Tinha, além de algodão, várias fazendas em Angola”, diz uma fonte próxima.


O interior do Pão de Açúcar, em Luanda, o primeiro hipermercado em todo o território português.DR


Foi a negociar algodão que o Entreposto, à época a maior companhia de Moçambique, começou a fazer-se grande. A mais antiga empresa do grupo, a Companhia Nacional Algodoeira, foi criada em 1926 numa sociedade entre José Dias da Cunha, pai de António Dias da Cunha, antigo presidente do Sporting, e o seu companheiro de caça, Joaquim Palhinha.

Mais tarde, com a semente do algodão, começaram a fazer óleos comestíveis. Depois vieram os carros, (primeiro com a representação da Mercedes, Peugeot e Massey-Ferguson) e a importação e exportação de vários produtos, incluindo petróleo. Só em 1967 o Grupo Entreposto, que nasceu em Moçambique, expandiu a sua atividade para Portugal, onde começou por vender carros Nissan (na altura Datsun).

Outra empresa muito grande, que ainda hoje se mantém em Moçambique, surgiu com João Ferreira dos Santos, que nasceu em Baraçais, no Bombarral, em 1878, e veio para Lisboa ainda miúdo. Foi na capital, onde começou por trabalhar numa farmácia, que ouviu pela primeira vez falar das potencialidades de África. A 24 de janeiro de 1897, na altura com 19 anos, embarcou no cargueiro Zaire com destino à Ilha de Moçambique.

Ainda estava no barco quando conheceu José António dos Santos, também do Oeste, que lhe deu emprego numa pequena loja da Ilha de Moçambique. Ao fim de oito meses, lançou-se por conta própria. E foi assim que começou a construiu um império com várias áreas de negócio – além do algodão há chá, castanhas e amêndoas de caju, investimentos na pecuária e na indústria, projetos imobiliários, de energia, metalomecânica, automóvel e até fábricas de bicicletas.
Quando o neto – com o mesmo nome – morreu, em 2015, a João Ferreira dos Santos era uma das 10 maiores empresas portuguesas em Moçambique. Continua, até hoje, nas mãos da mesma família.

Angola, “querida Angola”

Tal como os Ferreira dos Santos, também Francisco Guedes mantém a Frigoríficos Polo Norte. “Com o 25 de Abril, os meus pais venderam a atividade em Moçambique e ficaram só com a de Angola, da qual sou herdeiro. Os frigoríficos Polo Norte têm, agora, cerca de 15 funcionários. Nas outras empresas somos uns 140”, diz à SÁBADO. Outros, como Manuel Vinhas, tiveram que abandonar o país depois das independências.

Antes da Revolução, os cinemas de Luanda já passavam os grandes êxitos de HollywoodJean-Charles Pinheira
A 19 de agosto de 1975, já exilado no Rio de Janeiro, e depois de uma ida ao estádio do Maracanã, o empresário escreveu (no livro Profissão Exilado) um relato emotivo sobre Angola. E sobre um regresso que não chegou a acontecer.
“Nas bancadas, um gigantesco batuque africano que me transporta à outra margem do Atlântico. Onde jogadores também morenos fazem as mesmas imaginosas, astuciosas, diabólicas piruetas; onde acontecem as mesmas imprevistas e desconcertantes mudanças de ritmo; onde, sem comunicação telepática e só por obediência às raízes, se desenham os mesmos gestos dos passistas de samba. Onde é Angola. Onde voltarei um dia, quando for governada por angolanos, livre, como espero, das proibições, dificuldades e ameaças a que fui sujeito antes por extremistas da direita, e agora por extremistas da esquerda. Onde continua a ser terra de esperança, e me recuso a aceitar que seja de desilusão. Onde pedi para ser enterrado, quando há alguns anos a minha vida perigou, mas, sobretudo, onde desejaria viver. Querida Angola.”

António Champalimaud com a família e amigos numa caçada em Moçambique. Em cima, João F. Mayer, Cristina Lino, João Champalimaud, Isabel L. Marques; em baixo: Luís e António Champalimaud e Maria da Luz Abreuarquivo pessoal


Champalimaud, o colosso dos cimentos
O milionário António Champalimaud ainda não tinha 27 anos quando embarcou para Moçambique para reconstruir os Cimentos da Matola. Antes de lá chegar, fez escala em Angola e começou a cimenteira do Lobito.
“A Companhia dos Cimentos de Angola tinha uma grande fábrica no morro fronteiro à cidade do Lobito”, recorda Marques Leandro. “Também tinham fábricas em Luanda e na Beira [em Moçambique] e controlava a Siderurgia Nacional de Angola. Exportavam cimento para todo o lado”, acrescenta o antigo presidente da câmara de Nova Lisboa.
Além da indústria, o grupo português estava nos seguros (com a Companhia de Seguros Fidelidade Atlântica), era acionista da Nocal (Empresa de Cervejas de Angola) e do jornal O Comércio, e controlava o Banco Pinto & Sotto Mayor, uma das instituições financeiras que mais crédito concedia em Angola e que estava, também, em Moçambique. António Champalimaud era um apaixonado por África.


Espírito Santo, os donos do açúcar
Em 1970, o Grupo Espírito Santo (GES) era dono da maior fazenda de café do mundo, na Gabela, responsável por cerca de 10% do café produzido em Angola. Também era do GES o monopólio da produção de açúcar, através da Companhia Agrícola do Cassequel e da Companhia do Açúcar de Angola, que controlavam muitas outras empresas de menor dimensão, nomeadamente fazendas de sisal e de bananas.
Tinham, além disso, uma empresa na área da construção, a Cimianto de Angola. Em 1973, participaram na fundação, em Luanda, do Banco Interunido, uma filial comum do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL) e do First National City Bank, do milionário americano John D. Rockefeller.
Foi também com Rockefeller e com o grupo colonial Motta Veiga que criou a Companhia de Fosfatos de Angola (COFAN). José Maria do Espírito Santo, Manuel Ribeiro e António Espírito Santo foram os maiores impulsionadores dos negócios em África.




CUF, o monopólio da navegação
A CUF, o maior grupo industrial português, dominava o negócio da navegação em Angola, através da Companhia Nacional de Navegação. Tinha, além disso, vários outros negócios no País: o milionário Alfredo da Silva era dono de fábricas de sabões e de óleos, de empresas de pesca e de roças de palmares, mas também de participações em produções de gado e de tabaco.
No comércio, era acionista dos supermercados Pão de Açúcar, uma parceria com investidores brasileiros. Desde 1966 estava também na banca, com o Banco Totta Standard de Angola e na fábrica de sacaria (de sacos, portanto) SIGA. Em Moçambique estava igualmente no negócio da navegação e na indústria. No fim dos anos 60, começou a investir no turismo dos dois países, com a Navetur.


Cupertino de Miranda, pioneiro da banca
Era acionista fundador do Banco Comercial de Angola, o primeiro banco privado do País, com 50% do capital. Em 1970, o BCA internacionalizou-se para Moçambique, com agências em Lourenço Marques, Beira e Nampula.
Era através desta instituição financeira que Cupertino de Miranda controlava participações maioritárias numa dezena de empresas, como a Algodoeira de Fomento Colonial, a Alumínio Português (Angola) e a Vidrul. Era, também, o principal acionista privado de uma das maiores têxteis de Moçambique, a Text’África, que tinha aeroporto, avião, 350 casas para os trabalhadores e até um caçador.
“A equipa de futebol da Text’África foi a primeira campeã nacional de Moçambique e a equipa de tiro aos pratos campeã de Portugal”, conta Frederico Magalhães, filho de Manuel Magalhães, que geriu a empresa.


O famoso prédio azul da Cuca, em Luanda, com 12 pisos, onde o empresário Manuel Vinhas fez um apartamentoJean-Charles Pinheira
Uma saída atribulada
José Domingos Antunes pegou em quatro barcos com os trabalhadores e famílias que quiseram embarcar, e rumou à África do Sul . “Um dos navios foi vendido lá, para pagar as despesas da viagem”, diz à SÁBADO o antigo funcionário Armando Cardoso.
A ideia era ficar em Lisboa mas, como não os deixaram atracar, seguiram para o Brasil.” Do outro lado do Atlântico, e sem autorização para trabalhar em águas territoriais brasileiras, pescavam ao largo e vendiam em alto mar, o que não era rentável – os navios acabaram por ser vendidos.

Ana Taborda

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/as-grandes-fortunas-das-antigas-colonias

quarta-feira, 8 de março de 2023

Bateria inovadora de CO2 consegue armazenar energia solar e eólica

Adriana Santos – Outubro/2022

E se o dióxido de carbono, um dos grandes vilões do século XXI, puder ser usado para apoiar a transição energética, ajudando a que se consiga atingir a neutralidade carbónica?

A Energy Dome, uma empresa italiana, tem vindo a desenvolver uma bateria de CO2 que utiliza o composto químico para guardar energia.

Bateria de CO2 da Energy Dome

Bateria de CO2 da Energy Dome© AWAY magazine
A bateria de CO2 é um sistema de armazenamento de energia de longa duração, criado com
o objectivo de ser uma solução flexível para garantir que as energias verdes são mais estáveis.
Como funciona esta bateria? Em primeiro lugar, é importante sublinhar que não é um
elemento pequeno, como as baterias dos telemóveis ou dos veículos. Esta proposta da Energy
Dome é de grande escala e é apoiada por uma instalação composta por vários elementos,
como uma cúpula e recipientes para armazenar o dióxido de carbono.

Bateria inovadora de CO2 consegue armazenar energia solar e eólica© Fornecido por Away
O dióxido de carbono circula dentro desta construção, passando do estado gasoso para o
líquido quando está a retirar energia da rede e do estado líquido para o gasoso quando está a
injectar na rede. Quando não está a ser usada, a energia fica armazenada no CO2 em estado
líquido.
Uma das grandes vantagens desta tecnologia, refere a empresa italiana, é que todos os
elementos para a sua construção estão disponíveis no mercado, o que permite uma
implantação rápida da bateria.
Além disso, o CO2, pelas suas características, é um fluído que armazena energia sem ter um
custo muito elevado e que passa do estado gasoso para o líquido sob pressão à temperatura
ambiente, sem haver necessidade de serem atingidas temperaturas extremas.

Bateria inovadora de CO2 consegue armazenar energia solar e eólica© Fornecido por Away
De acordo com a Energy Dome, a instalação não provoca danos no local onde é instalada e
garante uma grande eficiência energética.
A primeira bateria de CO2 da Energy Dome foi inaugurada na Sardenha, em Itália, em
Junho deste ano e marcou o início da fase de comercialização do produto.
Bateria de CO2 vai ser testada em ambiente real com energias renováveis
No final de Setembro, a Energy Dome e a Ørsted, empresa de energia verde, anunciaram um
memorando de entendimento para estudar a instalação de uma bateria de CO2 com
capacidade de armazenamento de 20 MW/200 MWh num dos parques de renováveis da
Ørsted. O projecto prevê a possibilidade de a tecnologia ser usada em outras localizações.
O projecto tem como objectivo ajudar a mitigar as oscilações de fornecimento de energia,
inerente às renováveis, e garantir estabilidade na rede.
A construção da primeira bateria de CO2 num parque de energia renovável da Ørsted
deverá começar na segunda metade de 2024 e apesar de não ter sido divulgada a localização
certa, já se sabe que será na Europa.


(Imagens: Energy Dome)