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domingo, 21 de junho de 2026

Eu diria que Portugal não tem falta de leis contra a corrupção.

Pode ser uma imagem de texto que diz "o MELHOR DA VIDA SÃO os AMIGOS E AS EMPRESAS DOS FILHOS. OSFILHOS EMPRES CONSTRÓI CONSTRÓIMAIS,LDA. MAIS, LDA. PUBL FUTUROCERTO,LDA FUTUROCERTO, LDA. TORIA TÉGICA INOVATUDO,LDA. INOVA TUDO, LDA. PLANOS AFINS AFINS,LDA PLANOS&AFINS,LDA. LDA GLOBAL GLOBALSOLUTIONS,LDA. SOLUTIONS,L CONTRATOS PÚBLICOS AOSERVIC"

Em Portugal, toda a gente sabe o que é corrupção. Toda a gente conhece os nomes, os esquemas, os contratos adjudicados as empresas que nasceram três semanas antes do concurso. Toda a gente sabe. Sendo assim, porque é que ninguém é condenado?

O problema começa no desenho do crime. Para que um político seja condenado por corrupção, é preciso provar a troca directa: este dinheiro, por este acto concreto, com esta intenção. Sem isso, não há crime. Há coincidência.
Mas até a corrupção evoluiu. Já ninguém é assim tão grosseiro.
Há a corrupção imaterial. O político não recebe nada directamente: não há dinheiro, não há viagem, não há envelope. O que há é um emprego para o filho numa empresa que depende de contratos públicos. Uma cadeira num conselho de administração para a mulher. Um lugar num projecto europeu para o cunhado. Tecnicamente, o político não recebeu nada. Recebeu o familiar. A lei prevê que a vantagem pode ir para terceiros, mas provar que o emprego do filho foi a contrapartida de uma decisão política específica é uma tarefa que quase nunca produz condenações. Todos vemos os filhos dos políticos em cargos de destaque, e todos sabemos que não é por terem genes particularmente bons. Pelo contrário, alguns até são comentadores televisivos e conseguimos claramente ver o nível das criaturas. Mas coisa diferente é provar qual foi o favor político em concreto que está a ser pago com aquele lugar.

Depois há os circuitos. O esquema mais sofisticado (e o mais comum) não deixa rastos directos entre o político e o dinheiro. Funciona assim: o Estado paga a uma empresa privada, por um serviço ou obra, um valor muito acima do preço de mercado. Essa empresa, uma vez recheada com o nosso dinheiro, subcontrata outra empresa, que pertence à mulher do presidente da câmara, ao filho do ministro, ou ao sócio do secretário de Estado. É, por exemplo, a sociedade de advogados que recebe honorários inexplicáveis e depois contrata a agência de comunicação da mulher do presidente para organizar eventos que, muitas vezes, nem organizaria e que nenhuma rentabilidade lhe trazem.

Mas assim, o dinheiro saiu do Estado. Chegou à família. Mas entre os dois há sempre uma ou duas empresas privadas que funcionam como camuflagem.

Para provar a corrupção neste esquema, é preciso ligar cada elo da cadeia: provar que a adjudicação foi intencional, que o preço foi exagerado (quase impossível em serviços como advocacia), e que a contratação posterior da empresa da mulher foi a contrapartida acordada. E ainda que o político sabia e quis tudo isto.
Cada elo é difícil. A cadeia inteira é quase impossível.

E a lei sabe disso. Ou melhor: foi construída de modo a saber disso.

A lei portuguesa prevê que a vantagem pode ser não patrimonial: um emprego, uma promoção, um favor. Prevê que pode ir para terceiros. Prevê figuras como o tráfico de influências e a participação económica em negócio. Mas cada uma destas figuras exige a sua própria cadeia de prova. E cada elo que falta é uma absolvição garantida.

O Ministério Público sabe disto melhor do que ninguém. Por isso, grande parte destes processos nem chega a julgamento. É arquivada antes. Não porque não aconteceu nada. Mas porque a lei foi desenhada para exigir exactamente aquilo que nunca existe: o recibo da troca, assinado e datado.

Quem desenhou a lei assim? Quem a manteve assim durante décadas? Quem bloqueou as reformas, complicou o que podia ser simples, e garantiu que cada elo da cadeia fosse tratado como um crime separado e isolado, impossível de provar em conjunto?

Os mesmos que a lei protege: o Bloco Central.

Eu diria que Portugal não tem falta de leis contra a corrupção. Tem excesso de leis feitas por quem precisa de não ser apanhado por elas, e que por isso as desenhou para se safar. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

AS “MULHERES DE CONFORTO”

Pode ser uma imagem a preto e branco de criança
Pode ser uma imagem de texto
Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "정부서울청사(발관) (불관) 알림판 SMa"
AS “MULHERES DE CONFORTO”: UMA DAS MAIORES TRAGÉDIAS HUMANAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
A expressão “mulheres de conforto” pode soar suave para quem a ouve pela primeira vez.
Mas por trás dessas palavras existe uma das histórias mais dolorosas e controversas do século XX.
Durante as décadas de 1930 e 1940, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de mulheres e meninas foram submetidas à exploração sexual sistemática pelo Exército Imperial Japonês em territórios ocupados pela expansão militar do Japão na Ásia.
O termo foi criado na época para descrever as vítimas que eram enviadas aos chamados “postos de conforto”, instalações controladas ou supervisionadas pelas forças militares.
Na prática, porém, o que existia era um sistema organizado de violência, coerção e abuso.
Muitas dessas jovens eram adolescentes.
Algumas tinham apenas 13 ou 14 anos.
A maioria vinha da Coreia, então ocupada pelo Japão, mas também houve vítimas na China, Filipinas, Taiwan, Indonésia, Malásia, Mianmar, Timor-Leste e outros territórios asiáticos.
Muitas foram enganadas com promessas de emprego em fábricas, hospitais, cozinhas ou serviços administrativos.
Outras foram recrutadas sob pressão.
E algumas simplesmente foram sequestradas e levadas contra a própria vontade.
Uma vez nos postos militares, perdiam praticamente toda a liberdade.
Viviam sob vigilância constante.
Eram forçadas a atender soldados diariamente, enfrentando violência física, abusos repetidos, doenças, fome e condições extremamente precárias.
Muitas não sobreviveram.
Outras carregaram sequelas físicas e emocionais pelo resto da vida.
Para inúmeras sobreviventes, o sofrimento não terminou com o fim da guerra.
Ao regressarem para casa, muitas encontraram rejeição, vergonha e silêncio.
Em sociedades profundamente conservadoras, várias vítimas foram estigmatizadas, culpadas ou excluídas, apesar de terem sido submetidas à violência contra sua vontade.
Algumas nunca conseguiram formar família.
Outras passaram décadas escondendo aquilo que viveram.
Durante muito tempo, o assunto permaneceu praticamente ausente dos livros escolares, dos debates públicos e das narrativas oficiais.
Somente a partir das décadas de 1980 e 1990 muitas sobreviventes começaram a relatar publicamente suas experiências.
Os seus testemunhos chocaram o mundo.
Mulheres já idosas apareceram diante de câmeras, tribunais e organizações internacionais para contar histórias que haviam permanecido guardadas por quase meio século.
Elas não buscavam vingança.
Buscavam reconhecimento.
Queriam que o mundo soubesse o que aconteceu.
Queriam preservar a memória das vítimas.
Queriam que futuras gerações não esquecessem.
Desde então, historiadores, organizações de direitos humanos e instituições acadêmicas passaram a documentar extensivamente o sistema das chamadas “mulheres de conforto”.
Monumentos, memoriais e museus foram criados em vários países para homenagear aquelas que sofreram durante o conflito.
Ao mesmo tempo, o tema continua sendo objeto de debates políticos e diplomáticos, especialmente em relação ao reconhecimento histórico e às formas de reparação às vítimas.
Mas independentemente das disputas políticas, existe um fato que permanece incontestável:
Milhares de mulheres e meninas tiveram suas vidas destruídas por um sistema que transformou seres humanos em instrumentos de guerra.
A história das mulheres de conforto não é apenas uma página dolorosa do passado.
É um alerta para o presente.
Ela nos lembra até onde a desumanização pode chegar quando a guerra, o poder e a discriminação se unem.
Lembrá-las não significa reviver o ódio.
Significa honrar a dignidade daqueles que sofreram.
Significa ouvir vozes que durante décadas foram silenciadas.
E significa garantir que tragédias semelhantes jamais sejam tratadas como simples consequências inevitáveis dos conflitos.
📖 MORAL DA HISTÓRIA:
Quando a dignidade humana é ignorada, a violência encontra espaço para crescer. Preservar a memória das vítimas não muda o passado, mas ajuda a proteger o futuro.
🤔 REFLEXÃO FINAL:
Uma sociedade demonstra sua maturidade não apenas ao celebrar suas vitórias, mas também ao reconhecer os seus capítulos mais dolorosos. Esquecer pode ser confortável. Lembrar exige coragem.
❓PERGUNTA PARA REFLEXÃO:
Você acredita que preservar e ensinar histórias difíceis como esta é essencial para evitar que erros semelhantes se repitam nas futuras gerações?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Cada vez mais estrangeiros vêm para Portugal para serem tratados à borla no SNS. Não é "turismo de saúde", são "redes organizadas".

 

Há mulheres que chegam ao nosso país já perto do parto e procuram os hospitais públicos para ter o filho. Há também outros casos e os deputados de PSD e CDS querem mudar isso

“Tudo indica que existem redes organizadas” que facilitam o acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) por parte de cidadãos estrangeiros não residentes em Portugal. Quem o diz é o deputado Miguel Guimarães, vice-presidente do PSD, que rejeita a definição de “turismo de saúde” e se recusa a atribuir este “fenómeno” à imigração. Antes, fala num “uso indevido do SNS” e, por isso, quer alterar a lei para apertar as regras no acesso ao serviço público.

Segundo Miguel Guimarães, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, há cada vez mais cidadãos estrangeiros não residentes que se “deslocam ao nosso país com o propósito de beneficiarem de cuidados de saúde ou tratamentos médicos proporcionados pelo SNS”.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro prometeu o combate aos “abusos e fraudes” no acesso ao SNS, depois de o presidente da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), André Trindade, ter admitido, na Comissão Parlamentar da Saúde, que as medidas que têm vindo a ser tomadas para evitar estas situações “são inócuas nos casos em que o que está em causa são redes informais organizadas que facilitam a vinda ao nosso país de estrangeiros que só pretendem uma utilização sem custo para os próprios.”

Em declarações à CNN Portugal, Miguel Guimarães explica que estas situações não são ilegais do ponto de vista da Lei de Bases da Saúde que, diz, tal como está redigida, “potencia claramente” a “procura indevida do SNS”. É por isso que PSD e CDS-PP apresentaram esta quinta-feira um projeto de lei que visa apertar as regras ao acesso do SNS por estrangeiros não residentes em Portugal.

Quantos estrangeiros não residentes em Portugal foram tratados no SNS?


Só no ano passado, mais de 100 mil cidadãos estrangeiros não residentes em Portugal foram assistidos no SNS, segundo o mais recente relatório da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS).

O número tem vindo a aumentar de ano para ano. Segundo o mesmo relatório, desde 2021 a 30 de setembro último, foram atendidas, ao todo, quase 330 mil pessoas nesta situação - 46.091 em 2021; 89.371 em 2022; 102.182 em 2023; 92.193 até ao final de setembro deste ano.

Em julho, antes de serem conhecidos estes números, a ministra da Saúde já reconhecia no Parlamento que há doentes estrangeiros que vêm para Portugal apenas com o objetivo de serem assistidos no SNS.

Esta quarta-feira, o presidente da ACSS foi chamado ao Parlamento para falar precisamente sobre o tema, confirmando “o acesso a cuidados de saúde de cidadãos estrangeiros fora do contexto do que está atualmente regulamentado, ou seja, sem estarem abrangidos pelos acordos e pelas regras previstas e sem que tenha havido lugar à cobrança devida”.

É o chamado "turismo de saúde"?

Miguel Guimarães recusa que este fenómeno seja “confundido” com o chamado “turismo de saúde” e nega que esteja relacionado com a imigração, demarcando-se assim da posição do Chega, que apresentou um projeto de lei sobre o mesmo tema. 

“Este fenómeno não tem nada que ver com a imigração, já que se refere a estrangeiros não residentes em Portugal, nem se confunde com o chamado ‘turismo de saúde’, pois trata-se de uma utilização abusiva do SNS”, declarou, em conferência de imprensa conjunta com o deputado João Almeida, do CDS.

O que se sabe das "redes organizadas" que facilitam o acesso ao SNS?

Segundo o vice-presidente do PSD Miguel Guimarães, “tudo indica que existem redes organizadas” que facilitam o acesso ao SNS por parte de cidadãos estrangeiros não residentes em Portugal. 

O ex-bastonário da Ordem dos Médicos explica à CNN Portugal que são os próprios profissionais de saúde que relatam esse fenómeno, uma vez que assistem ao mesmo caso várias vezes, dando o exemplo de grávidas em situações irregulares que chegam ao país já perto do parto e que procuram o SNS para o efeito. Casos que, diz o deputado social-democrata, são conhecidos através da comunicação social.

Já na quarta-feira, o presidente da ACSS falou em “redes informais organizadas que facilitam a vinda ao nosso país de estrangeiros que só pretendem uma utilização sem custo para os próprios”. Palavras repetidas mais tarde pelo primeiro-ministro, que, no debate quinzenal no Parlamento, admitiu que há “um problema” no acesso ao SNS, “com alguns cidadãos estrangeiros que procuram uma resposta que o Estado português de boa-fé garante, em virtude de redes organizadas e, portanto, com princípios de fraude que lhes estão subjacentes, para aproveitar o humanismo das nossas leis.”

Estas situações são ilegais?

Como explica Miguel Guimarães à CNN Portugal, estas situações não são ilegais, uma vez que são até “potenciadas” pela Lei de Bases da Saúde, tal como está redigida. “No entender do PSD e do CDS-PP, esta procura indevida do SNS tem sido claramente potenciada pela formulação da atual Lei de Bases da Saúde”, aprovada em 2019 por PS, PCP e BE, assumiu.

O que propõem PSD e CDS?

Os grupos parlamentares do PSD e CDS pretendem alterar a base 21 da Lei de Bases da Saúde, que define quem são os beneficiários do SNS. Segundo a formulação atual, além de “todos os cidadãos portugueses”, podem aceder ao SNS  “os cidadãos, com residência permanente ou em situação de estada ou residência temporárias em Portugal, que sejam nacionais de Estados-Membros da União Europeia ou equiparados, nacionais de países terceiros ou apátridas, requerentes de proteção internacional e migrantes com ou sem a respetiva situação legalizada.”

Na proposta hoje apresentada, PSD e CDS querem alterar este ponto de modo a que, além de “todos os cidadãos portugueses”, sejam beneficiários do SNS os cidadãos “em situação de permanência regular em território nacional ou em situação de estada ou em situação de residência temporária em Portugal, que sejam nacionais de Estados-membros da União Europeia ou equiparados, nacionais de países terceiros, bem como apátridas ou requerentes de proteção internacional”. Nesta nova versão, ficaria assim excluída a hipótese de “migrantes com ou sem a respetiva situação legalizada”.

Todos aqueles que não se incluam nestas situações veem o seu acesso ao SNS condicionado “à apresentação de comprovativo de cobertura da prestação de cuidados de saúde e da documentação necessária para adequada identificação e contacto no estrangeiro”, acrescenta Miguel Guimarães.

Isso significa que há cidadãos que vão ficar sem tratamento?

Tanto o Governo como o PSD e CDS garantem que isso não vai acontecer. O primeiro-ministro quis deixar claro na quarta-feira que nunca será negado “um cuidado de saúde a um ser humano em dificuldade” nem recusada assistência quer aos cidadãos nacionais quer aos estrangeiros que trabalham ou estão integrados em Portugal.

Também Miguel Guimarães frisou esta quinta-feira que “aqui ninguém morre por falta de cuidados de saúde, isso aí tratamos qualquer pessoa, seja quem for”. 

A ideia é moldar a lei de modo a garantir “mecanismos de combate ao abuso e à fraude” e evitar situações de “injustiça” para com os contribuintes. Segundo o ex-bastonário da Ordem dos Médicos, estas situações “acarretam inegáveis consequências negativas para os utentes do SNS, deterioram as condições de trabalho dos profissionais de saúde e constituem um encargo acrescido para o erário público.”

Quando será votada a alteração à lei?

Miguel Guimarães e João Almeida querem ver o projeto-lei discutido “o mais rapidamente possível”, o que poderá acontecer já na próxima quinta-feira, caso o Chega aceite arrastar a iniciativa da AD para um debate previamente proposto por André Ventura sobre “Turismo de Saúde”.

“Neste momento, esperamos contar com o apoio de todos os partidos políticos que têm assento na Assembleia da República", afirmou o vice-presidente do PSD, ressalvando que, caso a iniciativa seja aprovada apenas com os votos do Chega, não houve qualquer tipo de "conluio com ninguém".

cnnportugal