— Por que você o matou?
— Porque ele era seglar.
O silêncio que se seguiu pesava mais que a sentença.
— O que significa "seglar"? — insistiu o juiz.
O assassino engoliu em seco.
— Não sei.
Em outra sala, outro julgamento. O réu tentara matar o escritor Naguib Mahfouz.
— Por que o esfaqueou?
— Porque escreveu um romance contra a religião.
— Você leu o livro?
— Não.
Em um terceiro tribunal, mais um homem, acusado de assassinar o intelectual Farag Fouda.
— Por que você o matou?
— Porque ele não tinha fé.
— Como sabe?
— Está nos livros dele.
— Em qual livro?
Silêncio.
— Eu não sei. Nunca os li.
— Por quê?
O homem baixou a cabeça, como quem confessa o que o mundo inteiro já sabe.
— Eu não sei ler nem escrever.
Três julgamentos. Três mortes. Um único padrão.
Matava-se por ideias que não se compreendiam.
Condenava-se por palavras que jamais foram lidas.
Odiava-se conceitos que nem sequer se sabiam definir.
Não era convicção.
Era repetição.
Não era fé.
Era eco.
Não era certeza.
Era obediência cega.
A violência não nasceu do pensamento.
Nasceu da sua ausência.
O ódio não se propaga pelo conhecimento.
Espalha-se onde o conhecimento não chega.
E toda vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorantes.
Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atiram, mas estão dispostas a fazê-lo.
Este é o preço invisível da ignorância.
E, invariavelmente, quem o paga é alguém que nada fez para merecer.

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