"Os Países Baixos não podem negar seu papel na crise venezuelana"

A atuação dos Estados Unidos na Venezuela não pode ser compreendida sem levar em conta o papel histórico da Holanda em alimentar as tensões na região, escreve o historiador Thomas van Gaalen.
No sábado, 3 de janeiro, as tensões no Caribe explodiram repentinamente. Depois que os Estados Unidos afundaram mais de 20 barcos e abordaram à força vários petroleiros, a situação culminou no que só pode ser descrito como um golpe de Estado.
O exército americano bombardeou cidades importantes e bases militares na Venezuela e sequestrou o presidente Nicolás Maduro. Num um discurso posterior, Trump chegou a anunciar que os Estados Unidos "governariam" a Venezuela por tempo indeterminado.
A preocupação com a situação vinha crescendo nas ilhas vizinhas de Aruba, Bonaire e Curaçao há algum tempo. O governo holandês expressou agora sua preocupação, mas o tom até o momento tem sido evasivo e cauteloso. Parece que os Países Baixos preferem observar de fora.
Essa é uma posição estranha e até inadequada, visto que a Holanda desempenhou um papel fundamental na promoção da ganância de nações estrangeiras pelo petróleo bruto da Venezuela e nas subsequentes intervenções de nações ocidentais na política nacional do país.
Os folhetos turísticos holandeses retratam Curaçao como um balneário, convenientemente omitindo a estrutura metálica da refinaria de petróleo que se ergue sobre Willemstad. Mas, durante muito tempo, a ilha abrigou uma das maiores refinarias de petróleo do mundo. Sua localização geográfica permitia a distribuição de petróleo bruto da Venezuela para os aliados holandeses na América do Norte e na Europa.
Até meados da década de 1970, a Shell, empresa holandesa proprietária do petróleo, lucrou enormemente com a insaciável demanda europeia e americana por petróleo e com a disposição dos políticos venezuelanos em trocar petróleo por poder e apoio político. A refinaria americana fundada em Aruba em 1928 estreitou ainda mais os laços entre a Holanda e os Estados Unidos.
Proteger a indústria petrolífera
Os dois países frequentemente cooperavam para salvaguardar as reservas de petróleo venezuelanas, por vezes em detrimento da população da região. A indústria petrolífera tinha de ser protegida e a oposição política reprimida a todo o custo.
Antes da Segunda Guerra Mundial, as autoridades holandesas entregaram refugiados políticos, incluindo dirigentes sindicais e ativistas pela democracia, que buscaram asilo em Curaçao para escapar do regime venezuelano. Muitos acabaram em condições bárbaras em prisões ou morreram durante trabalhos forçados.
A violência ocorreu inclusive em território colonial holandês. Em 1929, o ativista venezuelano Hilario Montenegro foi assassinado a tiro em plena luz do dia nas ruas de Willemstad.
Quando, naquele mesmo ano, uma união de ativistas e trabalhadores do petróleo venezuelanos e curaçauenses organizou uma expedição explosiva para depor o ditador venezuelano Juan Vicente Gómez, o regime colonial holandês entrou em ação. Com o auxílio e incentivo dos Estados Unidos, as autoridades prenderam migrantes venezuelanos, que foram interrogados e deportados sem direito a amparo legal.
A polícia também interrogou moradores que se haviam manifestado sobre a situação, a censura foi intensificada e as associações e reuniões políticas independentes foram ainda mais restringidas.
Vitória de Chávez
A eleição do candidato de esquerda Hugo Chávez em 1999 pode ser vista em parte como uma reação à longa história de intervenção e à cobiça ocidental pelo petróleo. Chávez – antecessor de Maduro – prometeu acabar com a pobreza e jurou limitar a intervenção estrangeira.
O seu governo apoiou as tentativas em curso de nacionalizar as reservas de petróleo, e não foi surpresa que algumas das críticas fossem dirigidas a Haia, que, segundo o presidente socialista, estava em conluio com os Estados Unidos numa campanha contínua de "agressão e intervenção" .
A situação atual não é a mesma de á um século atrás. A Shell deixou o Caribe em 1985 e o governo holandês não está tão envolvido nas recentes intervenções na Venezuela como estava no passado.
No entanto, o papel histórico desempenhado pelos Países Baixos na região deve ser reconhecido. O governo neerlandês cessante ainda não condenou o ataque à Venezuela e o sequestro de Maduro, ambos atos ilegais, segundo especialistas em direitos humanos.
As ilhas ABC ainda abrigam duas bases aéreas americanas , o que reforça ainda mais a suspeita dos apoiadores de Maduro de que a Holanda esteja prestes a intervir.
Aruba, Bonaire e Curaçao – e não Haia – estão em risco. Os políticos fariam bem em reconhecer o passado de intervenção holandesa na América do Sul e renunciá-lo de uma vez por todas.
Este artigo foi publicado originalmente pelo Volkskrant.
https://www.dutchnews.nl/2026/01/the-netherlands-cannot-deny-its-role-in-the-venezuelan-crisis/
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