quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Matava-se por ideias que não se compreendiam...

O juiz fitou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, sem elevar a voz:
— Por que você o matou?
— Porque ele era seglar.
O silêncio que se seguiu pesava mais que a sentença.
— O que significa "seglar"? — insistiu o juiz.
O assassino engoliu em seco.
— Não sei.
Em outra sala, outro julgamento. O réu tentara matar o escritor Naguib Mahfouz.
— Por que o esfaqueou?
— Porque escreveu um romance contra a religião.
— Você leu o livro?
— Não.
Em um terceiro tribunal, mais um homem, acusado de assassinar o intelectual Farag Fouda.
— Por que você o matou?
— Porque ele não tinha fé.
— Como sabe?
— Está nos livros dele.
— Em qual livro?
Silêncio.
— Eu não sei. Nunca os li.
— Por quê?
O homem baixou a cabeça, como quem confessa o que o mundo inteiro já sabe.
— Eu não sei ler nem escrever.
Três julgamentos. Três mortes. Um único padrão.
Matava-se por ideias que não se compreendiam.
Condenava-se por palavras que jamais foram lidas.
Odiava-se conceitos que nem sequer se sabiam definir.
Não era convicção.
Era repetição.
Não era fé.
Era eco.
Não era certeza.
Era obediência cega.
A violência não nasceu do pensamento.
Nasceu da sua ausência.
O ódio não se propaga pelo conhecimento.
Espalha-se onde o conhecimento não chega.
E toda vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorantes.
Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atiram, mas estão dispostas a fazê-lo.
Este é o preço invisível da ignorância.

E, invariavelmente, quem o paga é alguém que nada fez para merecer.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Top10 jogadores mais valiosos do mundo em 2025

Jogador - Equipa - Valor (em milhões de euros)

1. Lamine Yamal Barcelona 200 milhões

Erling Haaland Manchester City 200 milhões

Kylian Mbappé Real Madrid 200 milhões

4. Jude Bellingham Real Madrid 160 milhões

5. Vinícius Júnior Real Madrid 150 milhões

6. Pedri Barcelona 140 milhões

7. Jamal Musiala Bayern de Munique 130 milhões

Michael Olise Bayern de Munique 130 milhões
Bukaya Saka Arsenal 130 milhões

10. Cole Palmer Chelsea 120 milhões

Federico Valverde Real Madrid 120 milhões
Declan Rice Arsenal 120 milhões
Alexander Isak Liverpool 120 milhões

As reservas de petróleo, no mundo

domingo, 4 de janeiro de 2026

12 resoluções de Ano Novo.

Onze firmes propósitos antes de suspender temporária e intencionalmente toda a actividade cerebral para acreditar no décimo segundo.

03 jan. 2026, Alberto Gonçalves

1. Votar à distância nas eleições presidenciais. Manter a distância ao assunto após as eleições, incluindo a distância ao candidato que só escolherei no momento de fazer o "X" e, sobretudo, ao candidato que infelizmente ameaça ganhar. Confirmar a impressão de que, numa singela década, o prof. Marcelo foi capaz de duas proezas: a) reduziu a dignidade do cargo a escombros; b) devido a a) tornou indiferente a competência do sucessor, que com vantagem poderia ser um psiché ou pior (será pior).

2. Deixar de falar ou de sequer reconhecer a existência de criaturas que usam a palavra "resiliência" fora da conotação latina original ("ricochetear") ou da mecânica dos materiais. A borracha é resiliente, as pessoas não. Quando muito, as pessoas poderiam ser "resistentes", mas não resistem a torturar a língua.

3. Enfiar nesta cabeça dura que não se pode confundir "anti-sionismo" com "anti-semitismo". "Anti-sionismo" consiste apenas em abominar a criação de Israel, criticar as políticas de qualquer governo de Israel, reprovar a pretensão dos judeus em viver em Israel, condenar reacções violentas de Israel a ataques de terroristas genocidas, apelar a boicotes de tudo o que é israelita ou judeu, insultar e perseguir e agredir israelitas ou judeus, tolerar israelitas ou judeus desde que se criem condições para nos vermos livres deles, etc. Anti-semitismo é uma coisa diferente.

4. Desenvolver uma consciência ambiental e dedicar-me ao escrutínio das alterações climáticas. Quero ver se as temperaturas estão de facto a aumentar. Sobretudo, quero "torcer", como os adeptos da bola, para que aumentem, já que a cada ano se me encolhe a tolerância e a paciência para com o frio. Também gostava de torcer, não metaforicamente, o pescoço ao primeiro sujeito que garantiu vivermos num clima temperado.

5. Ouvir com a maior atenção as sucessivas declarações dos "líderes" europeus sobre a inabalável coesão da UE. Inventariar a quantidade de anúncios de "projectos", "iniciativas", "planos", "programas", "missões", "roadmaps" (estrangeiro), "estratégias" e "agendas" destinados a afirmar o continente enquanto potentado económico, militar, cultural e eclesiástico. De seguida, pretendo abrir a boca de pasmo e repetir quatrocentas e trinta e sete vezes a frase: "Felizmente a Europa acordou!" Depois da tampinha agarrada à garrafa, não tarda espantaremos a Terra com a invenção de uma garrafa agarrada à tampinha. O futuro é nosso.

6. Emoldurar o artigo da "The Economist", que elegeu Portugal como "a economia do ano". Pendurá-lo ao lado do comunicado de imprensa do Movimento Raeliano Português, em que se avisa para a chegada iminente de extraterrestres e se exige com urgência "enquadramento internacional pacífico e responsável, independente de qualquer especulação sensacionalista".

7. Arranjar uma "causa" ou uma teoria da conspiração. Aborrece-me ver tanta gente empenhada em coisas que me escapam. Não gostaria que continuassem a escapar-me. Preciso de abraçar um propósito, a lutar em prol dos "direitos trans" ou contra os hebreus que manipulam o mundo, a apoiar o feminismo que defende a burca ou a desmascarar a "ida" à Lua. O importante é que possa fingir-me virtuoso ou imaginar-me inteligente. Quero encontrar um desígnio e abrir conta naquelas redes sociais tão alternativas que ninguém as conhece. Quero sentir-me acima dos demais. Quero integrar-me, em suma.

8. Passar mais tempo a ver espécimes que vêem vídeos verticais sem parança, com o dedinho matreiro pronto a deslizar no vidro do telemóvel. Analisar-lhes as reacções ou a falta delas. Medir-lhes a frequência de piscadelas. Submetê-las a TAC e ressonância magnética, se possível. Deixar-me fascinar.

9. Viajar, como costumo, até aos Estados Unidos. Tentar não ser detido no aeroporto de chegada, onde, segundo relatos de quem à cautela nunca saiu de Carcavelos, as autoridades locais desataram a deter cidadãos inocentes aos milhares, quiçá milhões, para interrogatório, devassa da privacidade digital e desaparecimento sumário. Tentar não escutar os gritos lancinantes das vítimas. Esforçar-me cobardemente por não criticar Trump em público, ao contrário de 96,4% dos meus colegas de comentário, os quais não receiam exprimir a sua opinião individual – por acaso igualzinha à de todos os outros. Ponderar substituir a América por um passeio a um país realmente livre e civilizado, como o Reino Unido ou a Venezuela.

10. Estudar com minúcia as listas de livros, discos, filmes e receitas de bacalhau à Zé do Pipo que peritos elaboraram no final de 2025, de modo a evitá-los criteriosamente em 2026 e nos quarenta anos subsequentes.

11. Elogiar os imigrantes, sejam quem forem e quantos forem. Quanto ao "quem", são sempre maravilhosos, excepto se vierem do Ocidente e trouxerem dinheiro. Quanto ao "quantos", quantos mais melhor, visto que (quase) todos chegam emprenhados de duas ideias fixas: salvar a nossa segurança social e estimular a nossa economia. Chega a ser comovente – e incompreensível – que um desgraçado se dê ao trabalho de sair do Paquistão, percorrer sete mil quilómetros e se estabelecer numa cave esconsa da Amadora com o único objectivo de nos ajudar. Mas acontece.

12. Suspender a actividade cerebral de forma a acreditar piamente que a descida voluntária das sociedades ocidentais rumo um lugar mais irracional, mais opressivo, mais perigoso, mais ignorante, mais escuro, mais vigiado, mais primitivo, mais feio, mais triste e menos ocidental é para o nosso bem.