
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
O antigo presidente da Mauritânia, Moktar Ould Daddah.

terça-feira, 16 de setembro de 2025
#AgapórnisEmCopaD
Quando se é Médico, quando se ouve sem preconceito, é inevitável que se acumulem histórias, algumas das quais justificam registo.
De início, quando comecei a atividade profissional via tudo pela lente do conhecimento, do saber e de uma ética ditada pelos princípios, os meus princípios. Estava então longe de compreender que os valores dos outros não eram forçosamente os meus. Como um qualquer recém-licenciado sentia-me "endeusado", demasiado dono do meu umbigo. Não era verdadeiramente Médico. Para o ser teria, não de "julgar" as pessoas, mas de as compreender e aceitar por mais estranhas que as suas ações ou motivações parecessem. Teria de crescer, de aprender não medicina, mas a ser Médico, algo que não resulta só do estudo ou da aplicação do conhecimento. Só quando este acrescento ocorre e dita a bonomia com que ouvimos e compreendemos o outro, só então somos Médicos. Ser-se Médico é ajudar o outro, "o doente" e, para isso, não basta saber medicina, é preciso sair do pedestal da ciência e conhecer as pessoas e sua cultura – "quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe" (José de Letamendi in Curso de Clínica General ó Canon Perpetuo de la Práctica Médica; volume II, Madrid, 1894 – pag. 20).
Por entre a rotina, tanta coisa igual, as pessoas são sempre diferentes, sempre com características singulares e uma luminosidade própria e encantadora. E quando se é Médico, quando se ouve sem preconceito, é inevitável que se acumulem histórias, algumas das quais justificam registo. É uma dessas que aqui trago hoje.
Era uma tarde de outono. Um fim de tarde meio chuvoso, embrulhado num frio húmido de incómodo maior que o registado no termómetro. E sim estava frio, mas um frio entranhado, alojado nos ossos, um frio que não era bem um frio, era mais um desaconchego que não dava tréguas a camisolas e casacos.
As tardes já estavam mais curtas, mas nem por isso a rotina permitia que o ritmo biológico se adaptasse ao inverno que se aproximava. O trabalho continuava e as exigências faziam-se sentir sem olhar a uma luminosidade que se encurtava a cada dia. As rotinas são assim, fazem-se demasiadas vezes sem sobressalto e em módulo automático, como se o universo tivesse de se adaptar. No "juízo final" todos fomos "métro, boulot, dodo". Assim era essa tarde, fria desconfortável e preenchida por "rotinas" que se desempenhavam sem grande sobressalto. Estava em consulta desde as 16 horas e a D. Joana seria a sexta que nesse fim-de-tarde estava marcada.
Em regra, e creio que isto se passa na maior parte das consultas de ambulatório, os doentes procuram o médico por problemas menores, que, só são menores depois de saberem que o são, até lá são sempre problemas.
Assim era o caso da D. Joana. Tinha uma rinite alérgica bem controlada, que nos últimos meses se tinha agravado e se acompanhava de urticária – uma erupção sempre incomodativa pelo prurido que quase invariavelmente se lhe associa.
A urticária é uma doença, ou melhor, é a forma como muitas situações clínicas se expressam, independentemente das causas subjacentes. E é uma "entidade" ingrata, em particular quando se estende no tempo, porque apesar de frequente, raramente se lhe encontra uma causa que a justifique.
É curioso constatar, tal como em muitas outras situações da vida, também na doença as pessoas tendem a penitenciar-se, atribuindo a si ou aos seus atos a causa dos seus males. Numa lógica semelhante os doentes com urticária tendem a atribuir os sintomas ao que fizeram antes do rash. Questionam-se se não foi a refeição anterior, a roupa que usaram nesse dia ou do detergente com que a lavaram a causa da sua maleita? Algumas veem os sintomas como uma forma de punição e atribuem-nos, por vezes com razão, a estados de maior ansiedade ou melancolia. Enfim, há na relação entre a causa e a consequência, um simbolismo do pecado, onde as pessoas procuram numa teleonomia ou num castigo culposo dar sentido ao que lhes vai sucedendo.
E a associação entre doença e culpa não é apenas fruto de uma imaginação supersticiosa. Ela corresponde à procura pelo homem de um sentido para tudo o que lhe acontece, sobretudo para eventos dolorosos ou inexplicáveis. É desta forma que a doença muitas vezes é vista como uma punição numa narrativa que o doente constrói e onde a "dor" deixa de ser um mero acaso biológico e passa a ser uma consequência moral. Essa penitência oferece, paradoxalmente, algum conforto – se o sofrimento tem como causa as minhas ações, então existe ordem e lógica e talvez haja redenção.
Contudo, esse mesmo raciocínio é também cruel, porque transforma o indivíduo em juiz e réu de si mesmo. E assim, uma urticária, que poderia ser entendida como um episódio, passageiro e independente da vontade, converte-se numa falha pessoal que, em vez de encontrar alívio nas causas, acaba por encontrar nas explicações um reforço da ansiedade e do sentimento de culpa. É como se a pele, ao inflamar-se, exprimisse no corpo um pecado onde a punição se tornou visível.
Este modo de pensar ecoa na tradição e nos arquétipos culturais. Na tragédia grega, em Édipo Rei, Sófocles mostra como a peste que assolou Tebas foi assumida como a culpa moral de uma falha cuja revelação seria a purga redentora. Já na era cristã, Santo Agostinho, via na dor e na doença os vestígios do pecado original, marcas indeléveis de uma humanidade em queda, enquanto para Nietzsche, em "A Genealogia da Moral", a culpa era um sentimento que convertia a dor em memória e penitência.
Já mais contemporaneamente, Susan Sontag denunciou a insistência de se transformar a doença numa metáfora moral, como se cada febre ou ferida fosse a confissão de uma qualquer falha íntima. E, para citar um autor português, Saramago em Ensaio sobre a Cegueira, a epidemia que assolou a população, não era apenas uma desordem física, mas uma metáfora com que descreveu uma humanidade que tropeçava na própria culpa.
Quando alguém se interroga se o desconforto resulta da última refeição, da roupa ou do estado de espírito, a causa que procura para o rubor não fala apenas de si. Insere-se numa tradição milenar onde o sofrimento precisa de explicação e no caso, o corpo se oferece como palimpsesto para uma culpa escrita a vermelho e transformada em castigo.
E a D. Joana, a sexta doente dessa tarde, inseria-se nessa longa tradição de culpa, mas trar-me-ia também algo de inusitado e verdadeiramente insólito.
A sua urticária arrastava-se há um par de meses. Já a tinha visto em consulta umas três vezes e, como acontece na maioria destes casos, a procura de uma causa única é quase sempre uma demanda impossível. Nestes doentes, a opção passa por controlar os sintomas e ficar menos focado na procura de uma causa. E por isso, invariavelmente, a consulta começa por questionar como andou nos últimos meses, se teve sintomas e fez a medicação conforme prescrito.
Nesse dia, a D. Joana tinha entrado no consultório, com um ar mais pesado que o habitual. A sua pele estava "limpa" sem vestígios da vermelhidão, mas o seu semblante era carregado e bem diferente do habitual. Quando lhe perguntei como tinha andado, disse-me que não estava pior – o que me deixa sempre desconcertado, mas o seu rosto denotava uma preocupação que eu teria de perceber.
Disse-me que os sintomas iam e vinham de forma idêntica ao habitual, mas que, quando tomava a medicação ficava assintomática ou praticamente sem sintomas.
Quando tomava a medicação? Perguntei de forma mais impositiva, pois já lhe tinha explicado que necessitava de a fazer regularmente para ter qualidade de vida.
Sabe como é, disse-me ela enquanto ajeitava a gola da blusa, quando ando bem paro a medicação para ver se isto já se foi de vez. Aliás, e não se esqueceu de frisar, não quero tomar a medicação muito tempo porque acho que me faz engordar.
Lá lhe expliquei, mais uma vez, que a referida medicação não tinha "cortisona" – receio universal de todos os doentes, e que algum aumento de peso que apresentasse dependia mais dos hábitos alimentares e menor atividade física, que de um efeito secundário da medicação.
Explico sempre isto, assim como insisto no cumprimento da medicação como forma de controlar os sintomas. Insisto sempre, mas falho sempre da mesma maneira pois só à terceira ou quarta insistência é que os doentes aderem à medicação, aquilo que pomposamente descrevemos como "compliance". Não cumprir o esquema terapêutico não era novidade, mas também não me parecia ser a causa do mal-estar espelhado no rosto.
Quando lhe perguntei se entre consultas tinha encontrado alguma causa para os sintomas, ou tinha suspeitado de algo, disse-me que não, que não os relacionava com nada, contudo, o seu rosto continuava a espelhar preocupação.
Mantivemos uma conversa afável e enquanto a questionava sobre pormenores do seu dia a dia que pudessem estar relacionados com a doença o desconforto acentuava-se na forma como se sentava ou na sua obsessão em ajeitar a gola da camisa.
Contudo, e apesar do interrogatório exaustivo, e quiçá, intrusivo, o certo é que continuava sem causa, nem para a urticária, nem para o desconforto.
Preparava-me para passar a receita dos anti-histamínicos para os próximos meses, frisando mais uma vez a importância da toma regular, quando a Joana, coçando a mão esquerda, disse – Dr. posso fazer-lhe uma pergunta?
Claro que sim respondi-lhe de imediato – o Dr. acha que a minha urticária pode ser dos agapórnis?
Devo ter feito uma cara de tal perplexidade que ela me devolveu com um brilho no olhar e um esboço de sorriso – então, o Dr. não sabe o que são agapórnis?
Não, disse-lhe eu que devia ter continuado com cara de ignorante! E não, é que não fazia mesmo a menor ideia do que pudesse ser ou significar "agapórnis".
Aí, e vendo pela minha cara que não fazia ideia do que estava a falar, disse – quer que eu lhe mostre?
Claro que sim! Nem sei bem se cheguei a dar a resposta ou apenas a pensei! Mas enquanto esperava que me mostrasse uma foto, ou recorresse ao telemóvel para me esclarecer, vejo-a a desabotoar dois botões da camisa e a fazer o ruído universal de chamamento de "bichos" – "pss-pss; pss-pss; pss-pss", e estava ela a ciciar de forma doce, quando vejo sair do peito, com manifesta volúpia, dois exuberantes pássaros, um de cada seio, ambos belos e com uma plumagem sumptuosa e colorida, os pássaros.
Nunca esquecerei esta imagem. Claro está que nas doentes que vou vendo com urticária não pergunto se alojam "pássaros" nos seios, mas lembro-me desta história e aguardo sempre, nestes doentes, que algo de insólito possa ocorrer.
A D. Joana acomodou aqueles lindos papagaios noutra divisão do corpo ou da casa pois, os agapórnis nunca mais os vi, nem a D. Joana voltou a ter urticária apesar de já não tomar a medicação e continuar a engordar.
José Torres da Costa
Médico
Pbservador
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
Dan Brown regressa com O segredo dos segredos
O escritor norte-americano Dan Brown, autor do fenómeno editorial global O código Da Vinci, regressa às livrarias a 10 de setembro com um novo romance: O segredo dos segredos. O livro chega a Portugal pela Planeta de Livros e será lançado simultaneamente em 17 países, como, por exemplo, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Brasil, confirmando Brown como um dos nomes maiores e mais influentes do thriller contemporâneo.
Descrito pelo autor como «o livro com o enredo mais complexo e ambicioso que escrevi até hoje – e também o mais divertido», e referido pela editora como «uma obra-prima explosiva, sinuosa e instigante que irá entreter os leitores, como só Dan Brown consegue fazer», o romance marca o regresso de Robert Langdon, o professor de simbologia que se tornou um ícone da cultura popular depois de ter sido interpretado no cinema por Tom Hanks.
Desta vez, Robert Langdon, estimado professor de simbologia, viaja para Praga para assistir a uma palestra inovadora de Katherine Solomon – uma proeminente cientista com quem recentemente começou um relacionamento. Katherine está prestes a publicar um livro que contém descobertas surpreendentes sobre a natureza da consciência humana e que ameaça perturbar séculos de crenças estabelecidas. Mas um assassinato brutal transforma a viagem em caos, e Katherine desaparece, tal com o seu manuscrito. Langdon vê-se o alvo de uma poderosa organização e perseguido por uma personagem arrepiante, saído da mais antiga mitologia de Praga. À medida que a trama se estende para Londres e Nova Iorque, Langdon procura desesperadamente por Katherine. E por respostas.

Com mais de 250 milhões de exemplares vendidos e livros traduzidos em 56 idiomas, Dan Brown consolidou um modelo narrativo que mistura enigmas históricos, ciência de ponta e intriga esotérica. Obras como Inferno, Origem ou Anjos e demónios tornaram-se best–sellers imediatos e alimentaram debates sobre a fusão entre ficção, mito e história. Agora, em O segredo dos segredos, a tensão narrativa parece centrar-se no cruzamento entre neurociência e tradições místicas, dois campos que Brown já vinha a ensaiar em romances anteriores.
O lançamento em Portugal será acompanhado de uma festa na Fnac do Colombo, em Lisboa, no dia 9 de setembro, às 21h, numa sessão que permitirá aos leitores serem os primeiros a adquirir o livro. No YouTube, Dan Brown deixou uma mensagem em vídeo a antecipar o entusiasmo desta estreia internacional.
https://www.ruadebaixo.com/dan-brown-regressa-com-o-segredo-dos-segredos.html
sábado, 6 de setembro de 2025
Pagar com dinheiro ou com cartão
Vale a pena pensar 🤨 nisto!
Porque razão os bancos pressionam os clientes a mudarem as operações de pagamento em dinheiro, para o formato digital?
PAGAS COM CARTÃO E PERDES DINHEIRO, NÃO PERCEBES A LÓGICA DA RAZÃO, PORQUE OS BANCOS FACILITAM OS ATM'S?
Porque razão os pagamentos digitais, estão a ser cada vez mais facilitados?
VAMOS LÁ PERCEBER AS RAZÕES!
Porquê pagar em dinheiro em todo o lado, em vez de um cartão de débito?
Pense neste exemplo: com uma nota de 50 euros a circular na economia.
- Tenho uma nota de 50 euros no bolso, levo-a a um restaurante e pago o meu jantar.
- O dono do restaurante, usa os mesmos 50 euros para pagar uma conta na lavagem do seu carro.
- O dono da lavagem de carros, paga um corte de cabelo no seu barbeiro.
- O cabeleireiro usa estes 50 euros para fazer compras no mercado.
Depois de um número ilimitado de pagamentos, a nota de 50 euros, continua a ser uma nota de 50 euros, cumpriu o circuito que lhe estava destinado, cumpriu o propósito a todos aqueles que a utilizaram, como meio de pagamento.
O banco não teve interferência, por forma que, não ganhou nada com nessas transações.
BOM, E SE?
- SE eu for a um restaurante, pagar digitalmente com cartão de débito, o que acontece?
- o custo do pagamento digital, cobrado pelo proprietário do restaurante, incluindo os custos de transação em percentagem, é em média 2,5%, o que significa 1,25 EUR por cada transação de pagamento subsequente.
(ISTO SIGNIFICA QUE CADA OPERAÇÃO DE PAGAMENTO DIGITAL, CUSTA 1,25€ CADA)
- a mesma taxa, aplica-se quando o dono do restaurante paga a sua conta digital na lavagem de carros,
- a mesma taxa, aplica-se quando o dono da lavagem de carros, pagou ao cabeleireiro,
- esta operação repete-se, consecutivamente, nos próximos pagamentos, etc.
Assim, temos que depois das primeiras 36 transações, os 50€ caíram para apenas 5€ e os restantes 45€, tornaram-se propriedade dos bancos...
Anulemos, (TODAS), todas as transações e impostos digitais em cartão!
Além disso, o custo de um cartão de débito, é em média 2,25€ por mês, portanto 50€ após um mês de poupança é de apenas 47,75€.
Agora pensem em biliões de pessoas em biliões de transações.
Os bancos são os melhores exemplos de que o dinheiro pode ser feito do nada!
Ao mesmo tempo causa um prejuízo enorme, retiram o dinheiro do circuito e permite o surgimento da inflação.
Vamos TODOS ou o maior número possível de pessoas, usarmos o DINHEIRO vivo, nas nossas transações.
Vamos comprar os nossos artigos, ao máximo possível de conhecidos, amigos, vizinhos e agricultores locais.
Vamos TODOS trocar serviços.
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
Ainda e sempre, a imigração
Por António Barreto
23.8.2025
O direito a viajar, emigrar, deslocar-se e estabelecer-se é de todos. Mas isso não implica o dever de receber imigrantes. Os países de acolhimento, os Estados que dão abrigo e os povos que concedem refúgio têm o direito e o dever de escolher, de aceitar ou de condicionar a chegada de pessoas de outras nacionalidades. Por mais universal que queiramos que sejam os valores de civilização e de humanidade, a verdade é que a democracia e a legalidade têm uma geografia. Existe um atlas da liberdade. Por isso as ditaduras não recebem imigrantes. Não reconhecem o direito de deslocação e viagem. Não aceitam os direitos de livre circulação.
Os povos, os Estados e os governos dos países de acolhimento têm o direito e o dever de tornar públicos os seus critérios de acolhimento. Que género de imigrantes estão mais dispostos a receber? Em que condições reconhecem um refugiado e um perseguido? Até que ponto definem a distinção entre imigrantes económicos e candidatos a refugiados? Portugal tem o direito e o dever de adoptar uma política de preferência, por exemplo, por falantes de língua portuguesa, habitantes das ex-colónias e europeus. Também pode, evidentemente, garantir que não tem qualquer preferência e que as condições de acolhimento são exactamente iguais para todos. Mas tal não é verdade.
Portugal tem o direito e o dever de estabelecer prioridades e preferências de carácter social, económico e profissional, de acordo com as suas necessidades e o equilíbrio familiar e demográfico. Esses critérios devem ser anunciados e elaborados com a participação das populações através de todas as maneiras conhecidas de associação dos cidadãos às decisões que lhes interessam.
Portugal tem o dever de zelar pela igualdade de condição entre cidadãos residentes e naturais, imigrantes, naturalizados e refugiados. As pessoas comportar-se-ão como entenderem, mas as entidades públicas não podem acordar privilégios nem estabelecer condições de cidadania de segunda ordem. As instituições oficiais devem cuidar por que os grandes serviços públicos de saúde, segurança social, educação, habitação e transporte respeitem uma absoluta igualdade entre naturais, imigrantes e naturalizados.
As autoridades portuguesas não têm o direito de transformar a política de imigração ou de nacionalidade em instrumento de domínio. As instituições públicas não têm o direito, por exemplo, de utilizar a nacionalidade, original ou obtida, como arma de submissão ou critério de participação. Fere as regras básicas de moral e de humanidade, assim como as da constitucionalidade que temos, a ideia de utilizar a nacionalidade como instrumento de repressão. Não é aceitável que existam critérios de legalidade penal diferentes para os nacionais originários e os naturalizados. A nacionalidade obtida é igual à original, não tem valor diferente.
As autoridades portuguesas têm o direito e o dever de tornar públicas as regras legais que condicionam as autorizações de trabalho e residência. É legítimo que existam vários escalões de autorização de residência, por exemplo, provisório, de curta duração, anual, de longa duração ou definitivo. Mas é indispensável que esses critérios sejam públicos.
É legítimo e recomendável que as autoridades portuguesas aprovem, pelas vias democráticas, as regras de procedimento, designadamente as associadas à residência de imigrantes. É direito e dever impedir, proibir e punir o trabalho ilegal, a fuga ao fisco, a residência ilegal, o recrutamento de trabalho ilegal e clandestino e a fuga às obrigações civis seja por parte dos imigrantes, seja pelos empregadores, senhorios ou intermediários.
Pelo que se sabe através da história, é evidente que Portugal, um qualquer Estado democrático, não consegue regular a evolução demográfica, a livre circulação de pessoas e a mobilidade espacial. Mas é indispensável que as autoridades tentem planear e prever o movimento migratório, de acordo com as necessidades e as capacidades de acolhimento. Como é um dever e um direito lutar firmemente contra a ilegalidade, a clandestinidade, a exploração e o abuso da precariedade.
As autoridades têm o direito e o dever de proibir e reprimir os comportamentos tão conhecidos relativos à clandestinidade, à ilegalidade e ao mercado negro de residências falsas, de alojamento infra-humano, de trabalho clandestino e de aluguer ilegal de carros, de habitação e de título de residência. Assim como combater os que organizam os circuitos ilegais de candidatos à imigração, incluindo os aviões de turismo, os barcos de transporte, os botes improvisados e os autocarros disfarçados.
As autoridades portuguesas têm o direito e o dever de controlar os reagrupamentos familiares, a fim de impedir que tais dispositivos se transformem num incitamento à ilegalidade. É dever reprimir e não tolerar o mercado de noivas e de maridos, o aluguer de crianças e de filhos, os casamentos disfarçados, a poligamia camuflada e outras formas de escapar à lei e de introduzir dolosamente novos procedimentos na vida civil.
Se cada povo tem o direito de escolher a quem oferece as melhores condições de acolhimento, a inversa não é verdade: um povo não tem o direito de ir para onde quiser obrigando os residentes a aceitá-los. Os imigrantes não têm os mesmos direitos do que os nacionais ou naturalizados. A começar pelo direito de voto em eleições que impliquem a criação e a escolha dos órgãos de soberania, a revisão e a aprovação da Constituição, a declaração de guerra e paz ou as decisões sobre o Estado de sítio. Mas a naturalização cria a total igualdade de condição.
O Estado português tem o direito e o dever de proibir práticas que infrinjam as leis vigentes, mas também os costumes que contrariem direitos fundamentais, como nos casos do incesto, do vestuário que contraria direitos da pessoa humana, da violência paterna ou materna e da crueldade marital. Ou ainda da excisão, do casamento forçado ou contratado, do uso de véu e Burca, da justiça pelas próprias mãos e da negação de direitos às mulheres e às crianças.
As comunidades imigrantes que vivem fechadas em guetos ou bairros monocolores mais ou menos segregados, são ameaças à liberdade e à cultura, nossas e deles, dos residentes e dos imigrantes. A legalização e a integração dos imigrantes, a igualdade de direitos e o respeito pelas leis vigentes são os instrumentos fundamentais para obter o equilíbrio social e a dignidade humana.
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terça-feira, 2 de setembro de 2025
indústria da ajuda na Palestina
A indústria da ajuda na Palestina
Desde os Acordos de Oslo, em 1993, mais de 51 mil milhões de euros chegaram à Palestina em forma de ajuda humanitária e ao desenvolvimento; milhares de organizações não governamentais (ONG) foram criadas. Trinta anos depois, para onde foi o dinheiro? Que avanços permitiu este apoio internacional na resistência contra o apartheid? Esta investigação explora a relação entre a comunidade internacional de doadores, ONG e a sociedade civil e governo palestinianos, centrando-se nas consequências que a agenda de instituições internacionais tem na perpetuação da ocupação colonial por parte do Estado.
https://fumaca.pt/a-industria-da-ajuda-na-palestina/