quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Entrevista a Cavaco Silva: “O Estado voltar a ficar com a maioria na TAP foi um erro muito grande”

Em entrevista, Cavaco Silva diz que governo PSD com apoio do Chega nos Açores é melhor do que Governo PS. Critica actuação de Governo na TAP e diz que devolução de rendimentos começou com Passos Coelho.

Cavaco Silva deu a entrevista ao programa Sob Escuta, da Rádio Observador, no gabinete de trabalho que tem como Ex-Presidente no Convento do Sacramento. Mesmo durante a pandemia, o antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República  faz questão de ir todos os dia trabalhar ao gabinete, que não fica muito longe da sua casa nem dos dois palácios (Belém e S. Bento) que ocupou na chefia do governo e do Estado. Diz não ter saudades de nenhum dos cargos e que se sente bem afastado da política activa, mas deixa várias críticas ao Governo de António Costa. Uma das suas actividades pós-presidenciais é escrever livros e já vai no vigésimo quarto. “Uma experiência de social-democracia moderna“, é um livro editado pela Porto Editora que foi pretexto para esta entrevista.

O antigo Presidente da República cita “analistas” para dizer que o actual Governo “como se viu” no Orçamento do Estado para 2021 “depende de uma força política que de democracia tem pouco“. Era um tiro ao PCP. Diz que, por muito que procure, não encontra nenhuma reforma feita pelo Governo de Costa e acrescenta que a “tão falada devolução de rendimentos foi iniciada por Passos Coelho“. A via reformista, defende, só volta quando o PSD voltar a ser Governo. Rui Rio terá mãos para isso? Sobre isso não fala, pois já seria a tal política activa. Na mesma linha, recusa dizer se apoia Marcelo Rebelo de Sousa.

Cavaco Silva não hesita, porém, em apontar “grandes erros” ao Governo socialista na redução das 40 para as 35 horas na função pública, na reversão da privatização da TAP e mais: diz que “nunca imaginou” que Vítor Caldeira não fosse reconduzido como Presidente do Tribunal de Contas. Rejeita a comparação entre André Ventura e Sá Carneiro, mas não tem a “mínima dúvida” que a coligação de direita nos Açores apoiada pelo Chega é muito melhor do que a continuidade de um Governo socialista na região.

Sobre a nova vida, que lhe dá mais tempo para assistir a séries e filmes na Netflix, tem uma nova paixão, embora não jogue xadrez: a série Gambito de Dama e em particular a prestação da actriz Anya Taylor-Joy no papel da personagem de ficção Beth Harmon.

“Não guardo saudades dos lugares políticos que ocupei”

Vem todos os dias trabalhar para o Convento do Sacramento. Num raio de poucos quilómetros tem o Palácio S. Bento e o Palácio de Belém, tudo isto próximo da sua casa. Qual dos percursos tem mais saudades de fazer?
Venho todos os dias trabalhar para o Convento do Sacramento, o gabinete que me foi atribuído depois de terminar as funções de Presidente da República. Foi-me fornecida uma lista de edifícios do Estado que estavam desocupados e eu quis ficar próximo de minha casa, próximo do bairro de Campo de Ourique a que estou muito ligado e também aqui no bulício da cidade. Não guardo saudades dos lugares políticos que ocupei, nem do ministério das Finanças, nem do gabinete de primeiro-ministro, nem do Palácio de Belém. Desempenhei essas funções no tempo que me coube e fiz o melhor que podia, colocando toda a minha experiência acumulada ao longo do tempo e procurando servir da melhor forma o interesse nacional.

Em nenhum dia sentiu saudades?
Não. Foram 10 anos primeiro-ministro, 10 anos de Presidente da República e a certo momento sentimos que precisamos de outro ambiente. É uma outra fase da nossa vida e senti-me bem ao iniciá-la, é uma fase mais próximo da minha família, com mais tempo para ler, com mais tempo para ver alguns filmes em casa que estavam adiados para poder fazer mais facilmente viagens até ao meu Algarve, onde tenho uma casa e onde gosto de descansar de vez em quando. Portanto, nenhumas, nenhumas saudades.

Já tinha escrito 23 livros, este é o 24º. Porque sentiu necessidade de escrever este 24?
Em primeiro lugar porque pensei que era importante recordar algumas linhas fundamentais do pensamento do Francisco Sá Carneiro, porque foi pela mão dele que eu entrei na vida política, ele levou-me para ministro das Finanças e do Plano, sem isso eu não seria conhecido dos portugueses e nunca teria sido primeiro-ministro, nunca teria ganho eleições e nunca teria sido Presidente da República. E queria fazer isso, precisamente, quando se completavam 40 anos da sua morte, que foi a 4 de Dezembro de 1980. Por outro lado, porque entendi que era importante dar o meu testemunho sobre alguns projectos e obras de grande vulto que foram realizadas no tempo dos meus três governos, entre 1985 e 1995, que são projectos com que os portugueses contactam quase diariamente, mas que não se sabe qual o processo político de decisão que esteve por detrás desses projectos que eu considero que foram fundamentais para o desenvolvimento económico e a justiça social no nosso país e que não houve tempo para contar nas autobiografias políticas que publiquei.

“Essas forças, incluindo o PS, não têm nada a ver com social-democracia”

Na primeira parte desse livro fala da experiência social-democrata e a obra tem mesmo como o título “Uma experiência de social-democracia moderna”. Hoje em dia, a social-democracia parece estar na moda: Rui Rio afirma-se como social-democrata e Marisa Matias e Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, também. São mesmo todos social-democratas ou é uma força de expressão
Surpreende-me que algumas pessoas invoquem em tempos de eleições, devemos sublinhar isso, que são da social-democracia procurando-se afastar daquelas ideologias que estão muito longe da social-democracia. Quer dizer que, em tempo de eleições, eles querem mostrar aos portugueses que afinal não são extremistas, no sentido que têm uma ideologia próxima do comunismo e do marxismo, e que preferem dizer ou dar a entender que estão mais próximos das ideologias que consideram a economia de mercado, a livre iniciativa ou a concorrência como os grandes motores do crescimento económico. Quando essas pessoas, sabemos, são contra a livre iniciativa na saúde, contra a medicina privada e contra as escolas privadas com que existiam acordos de associação. Penso que seria muito fácil escrever um livro a demonstrar que essas forças políticas, incluindo o Partido Socialista, não têm nada a ver, pelo menos em Portugal, com a social-democracia.

Portanto, nem o PS, nem o Bloco de Esquerda são sociais-democratas no entendimento que faz da social-democracia.
São forças políticas que defendem a estatização da economia, mesmo agora temos um prova muito clara disso [a TAP] que é agora debatida quase todos os dias. Eles secundarizam a concertação social, são contra a iniciativa privada na saúde, na educação, defendem um Estado grande, impostos muito elevados. Portanto, não têm quase nada ou muito pouco a ver com a moderna social-democracia, que foi aquela que eu tentei implementar em Portugal, inspirado em Francisco Sá Carneiro no período entre 1985 e 1995. Mas mostra bem como a designação social-democracia é apelativa, é atractiva. Pensam que atrai mesmo votos, criando ilusões e enganando os cidadãos.

No livro diz que os seus executivos acabaram por ser a única experiência governativa portuguesa em que se aplicou verdadeiramente uma social-democracia moderna. Com mais tempo, o segundo Governo de Passos Coelho, a que deu posso, teria conseguido lá chegar e ser um Governo social-democrata?
O Governo presidido pelo dr. Passos Coelho teve de implementar em Portugal um programa da troika, negociado pelo Governo do engenheiro Sócrates, do Partido Socialista, por forma a tirar Portugal da situação de quase bancarrota em que se encontrava. Passos Coelho fez um trabalho de grande coragem, muito difícil e, quando chegou a 2014, consegue uma saída limpa sem precisar de um segundo resgate e deixando a economia portuguesa já numa trajectória de crescimento económico que o Governo que  se seguiu não soube aproveitar bem. É essa a razão pela qual Portugal está a decair na escala que o compara com outros países na Zona Euro. Neste momento, apenas dois países estão abaixo de Portugal nos 19 países da Zona Euro, quando fazemos a comparação em termos de rendimento per capita em paridades de poder de compra. É uma coisa que me deixa profundamente triste porque, de acordo com um estudo do Banco de Portugal publicado no fim do ano passado, o rendimento per capita dos portugueses em 2018 era inferior àquele que eu deixei em 1995 quando eu era primeiro-ministro. Nessa altura Portugal estava aí em 11º entre os 19 países que agora fazem parte da União Económica e Monetária e agora está em 17º.

“A devolução de rendimentos de que muito se fala foi iniciada por Passos Coelho”

Pedro Passos Coelho naquele segundo Governo tinha então margem para chegar a essa social-democracia moderna ou pelas circunstâncias do tempo não chegaria lá?
O dr. Passos Coelho seguia a via reformista e tentou bastante avançar nesta via que é o método decisivo da social-democracia. O que nós sabemos é que hoje temos mais globalização e mais integração do que tínhamos no meu tempo, o que condiciona a governação, mas não altera a adopção dos princípios básicos da social-democracia. Estou convencido que se ele continuasse com o Governo, na coligação que tinha, e essas coligações impõe sempre alguns compromissos, que ele daria passos importantes na aplicação da social-democracia moderna no domínio da justiça social. Aliás, a devolução dos rendimentos de que muito se fala já foi iniciada pelo dr. Passos Coelho.

Tem aqui no seu escritório um astrolábio da nau Santíssimo Sacramento, do século XVII, que naufragou no Brasil, em Salvador. É também o astrolábio que aparece representado na capa do seu livro. Sabemos que este astrolábio lhe foi oferecido pelo primeiro-ministro. Hoje aprecia mais as qualidades de navegar de António Costa do que na altura em que lhe deu posse?
Fui eu próprio que escolhi o astrolábio para este livro porque dele próprio resulta claramente que os Governos a que tive a honra de presidir tinham um rumo para alcançar objectivos muito claros. A princípio era como que um objectivo ético o crescimento económico, para criar condições para a justiça social, para depois conseguir um desenvolvimento económico, social, ambiental e cultural. E eu penso que isso seria tido em conta, estou convencido, nesse Governo do dr. Passos Coelho. Quanto ao astrolábio, o primeiro-ministro, muito simpático, e de acordo com a Constituição, convidou-me a presidir ao último Conselho de Ministros que teve lugar durante o meu mandato de Presidente da República. Foram dois ou três dias antes de eu terminar o segundo mandato como Presidente da República, num Conselho de Ministros que teve lugar em S.Julião da Barra e o tema foi o mar. E como eu, como Presidente da República, tinha feito múltiplos discursos a defender a sustentabilidade do mar, que Portugal se devia voltar mais para o mar, o aproveitamento das grandes riquezas do mar, ele simpaticamente no fim ofereceu-me o Astrolábio, que de facto eu guardo: está aqui no meu gabinete na sala ao lado. Foi uma nau que naufragou em Salvador no século XVII e também já sabia nessa altura que eu vinha para o Convento do Sacramento.

Acha que hoje o país mantém esse rumo?
São muitos os analistas e comentadores que dizem que falta rumo a este Governo que depende, como se viu, bastante de uma força política que de democracia tem pouco e que é anti-europeia, mas em grau bastante forte. Não sei se isso condiciona totalmente a falta de rumo que tem vindo a ser demonstrada, mas há uma coisa que me parece clara: abandonou totalmente a via reformista que caracteriza a social-democracia. Tem alguns laivos de social-democracia. Porque a via fundamental, que vem desde [Eduard] Bernstein quando escreveu o seu o seu livro 1899. Sobre as tarefas da social-democracia disse que a social-democracia é movimento. Bernstein rompeu com o marxismo. A social-democracia é movimento no sentido que é reformista: fazer reformas graduais, mas seguindo a indicação do voto. Um modelo que foi mais tarde consagrado pelo modelo Bad Godesberg do SPD alemão em 1959, em que adoptam a iniciativa privada, a concorrência, a livre iniciativa como o pilar fundamental do crescimento económico, mas sem considerar que o mercado é um dogma sempre a defender. O Estado tem um papel fundamental a desempenhar na social-democracia, mas a fonte do crescimento económico está na iniciativa privada, está na concorrência e na liberdade de actuar dos indivíduos.

Portugal não está a fazer reformas neste momento? Está parada?
Não sei se me consegue apontar uma reforma. Eu tenho muito dificuldade em encontrar alguma reforma significativa. Pelo contrário o que vejo é a tentativa de desmontar reformas que foram feitas no passado. O caso da saúde é claro. Quando foi feita a Lei de Bases da Saúde, que durou durante 29 anos.

“O maior erro deste Governo foi a redução das 40 para as 35 horas”

A Lei de Bases do seu Governo, aliás.
O Governo fez um claro ataque à actuação privada na área da medicina e depois comete aquilo que considero o maior erro cometido por este Governo que foi a redução do horário semanal de trabalho de 40 para 35 horas. Redução que foi responsável em boa parte pela degradação da qualidade dos serviços de Saúde. Por isso podemos dizer que o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda que apoiaram essa medida são claramente responsáveis pela degradação da qualidade dos serviços de saúde e eu considero que isso foi um verdadeiro ataque ao Serviço Nacional de Saúde porque é sabido que em Portugal nunca poderia haver qualidade da prestação de serviços sem a existência de um sector privado complementar do SNS. Isso era claro.

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa teve um papel nessas duas decisões que foi em sentido contrário. No caso da Lei de Bases impediu que fosse mais longe e não falasse do privado, nas 35 horas, pelo contrário, aceitou as 35 horas, dizendo que ia estar atento à possibilidade de isso ter reflexos orçamentais, mas, na realidade, tudo se manteve.
Não faço comentários sobre o senhor Presidente da República, o que ele fez ou que ele afirmou. A redução de 40 para 35 horas começou a ser preparada quando eu era Presidente da República. Eu disse ao primeiro-ministro aquilo que ia acontecer. Precisamente aquilo que aconteceu: a degradação dos serviços de saúde ou um aumento substancial da despesa. Como não houve aumento brutal da despesa, houve sim cortes substanciais e subfinanciamento do serviço de saúde, nós tivemos uma degradação substancial da qualidade dos serviços de saúde. Eu disse na altura ao primeiro-ministro numa reunião que teve comigo.

Num tempo de pandemia não quererá falar de questões relacionadas com a resposta à pandemia. Mas os privados deviam ter sido envolvidos nesta resposta e, por exemplo, no plano de vacinação que aí vem?
Ninguém gostaria de ser primeiro-ministro e Governo nestes tempos de pandemia. Os dramas que atingem boa parte da população, o número de mortes que se tem vindo a verificar é de tal forma que nós temos que aceitar, discordando aqui e acolá, de todos os esforços que o Governo tem vindo a fazer. E eu, embora não concorde com muitas coisas, tenho evitado e evitarei fazer comentários em público porque tudo deve ser feito para melhorar a situação em que nos encontramos em comparação com outros países e tentar diminuir o número de mortes que se tem vindo a verificar que nas últimas semanas tem sido demasiado elevado. Portanto, permitam-me que não aborde esse tema. Deixem-me dizer que este livro que está aqui foi escrito antes da pandemia. Terminei de escrevê-lo no fim de 2019, mas depois, devido à crise pandémica, a sua apresentação foi adiada durante vários meses.

Além da crise sanitária temos também económica e social. Como economista quando é que prevê que Portugal saia desta crise?
Portugal vai receber, espero que em breve, empréstimos da União Europeia e apoios do Banco Central Europeu em biliões que nunca se verificaram. De tal forma que até se fala em bazuca. O que eu espero é que esses muitos biliões de euros não sejam atirados para cima dos problemas, mas sejam utilizados para resolver os problemas. Acima de tudo, actuar por forma a que Portugal não continue a evoluir no sentido de ser a lanterna vermelha do desenvolvimento dos países da zona Euro, uma coisa que me entristece bastante. Portanto, é altura de pensar de pensar na tal via reformista que eu defendo da social-democracia e tentar fazer uma boa utilização dos dinheiros públicos e apontando um rumo claro. Não sei se é isso que vai acontecer. Não quero fazer neste momento previsões, apenas manifestar uma certa esperança de que as coisas possam evoluir em matéria de governação e de rumo de governação diferente daquilo que tem sido nos últimos tempos.

No seu livro fala da forma como tentou aplicar os fundos europeus no seu Governo, responde às críticas que foram feitas àquilo a que se chamou política de betão. Naquela altura essa foi a aplicação dos fundos europeus. Agora com esta bazuca europeia, de que forma é que acha que isso pode ser bem aplicado e não ser desperdiçado?
É uma ideia errada falar do betão. O betão foi fundamental para o desenvolvimento do nosso país porque significou obra e obra fundamental. Mas boa parte dos recursos que Portugal beneficiou nessa altura e que os Governos que me sucederam beneficiaram em montante ainda superior — e agora nem se fala, são muito muito mais biliões do que nessa altura — foram utilizados para o desenvolvimento social, para o desenvolvimento ambiental e para o desenvolvimento económico. Desde logo quero sublinhar a Autoeuropa, que teve e tem uma influência decisiva na indústria portuguesa e na nossa capacidade de exportação. Nunca mais ocorreu em Portugal um investimento estrangeiro daquela dimensão. O contributo para o emprego, directo e indirecto, para as exportações, para os ganhos cambiais, é de um montante enorme. Gigantesco, mesmo. Os dinheiros europeus foram utilizados também para criar a Fundação de Serralves, o museu do Siza Vieira, foi financiado em parte com dinheiro vindo da UE. O dinheiro europeu daquela altura foi utilizados para fazer as obras e os projectos que eram fundamentais fundamentais para o desenvolvimento do país. Um desenvolvimento equilibrado a nível económico, social, cultural e ambiental e que abrisse perspectivas para a consolidação da nossa democracia e para a afirmação de sectores que até aí tinham alguma dificuldade em aguentar-se na concorrência de um mercado único, como era a agricultura, como era a indústria. Portanto, espero que agora também se consiga, e com um volume muito maior de recursos, que se avance na preparação da competitividade da nossa economia, que é um dos maiores problemas que temos, na produtividade da nossa economia — muito mais baixa do que noutros países — que é de facto a única forma de nos conseguirmos aproximar do nível médio de desenvolvimento da União Europeia.

Escreve aliás, no prefácio do seu livro, que Portugal desceu no ranking europeu de desenvolvimento.
Doze pontos percentuais na aproximação ao nível de rendimento per capita da União Europeia. Nunca mais se avançou na aproximação à Europa a um ritmo como aquele que se verificou entre 1985 e 1995.

Na forma como ultrapassar isto falava há pouco na via reformista e que era preciso mudar o actual rumo. Vê possibilidades para isso naquilo que se perspectiva na mudança de Governação nos próximos anos?
Portugal precisa de investimento estrangeiro. É fundamental. Falta capital em Portugal. E precisamos de investimento directo estrangeiro que traga capital, que traga tecnologia, capacidade de inovação e capacidade de penetração de outros mercados. Precisa de facto, disso. Sabe o que se diz muito lá fora quando se fala de investimento em Portugal? Da incerteza jurídica, e é defendido que é preciso uma reforma do nosso sistema de justiça; é referida a incerteza fiscal. Nós temos impostos brutais. Compare com outros países que estão ao nosso lado na Europa: os impostos são muito mais baixos, a despesa é muito mais baixo, no entanto o crescimento económico é maior e a justiça [social] é maior. Portanto, algo está errado em Portugal. Se Portugal tem um nível de despesa tão elevado, tem impostos tão elevados, e tem menos crescimento económico e menos justiça social do que os países com que se compara, algo está errado. O nosso sistema fiscal é caótico, não tem o mínimo de coerência. Descobre-se um adicional para aqui, outro adicional para acolá.

São as chamadas taxas e taxinhas.
É verdade. Um sistema fiscal o que deve visar? O sistema fiscal tem um função, de acordo com a social-democracia, que é a equidade na distribuição do rendimento. Portanto, contrariamente aos neoliberais, ou os conservadores, ou o liberalismo clássico, a social-democracia não aceita o sistema fiscal como um instrumento fundamental da redistribuição do rendimento. A segunda função é a eficiência na afectação de recursos: não pôr o dinheiro aqui ou acolá, não pôr facilmente o dinheiro, sei lá, na TAP, sem interrogar sobre o custo de oportunidade de colocar o dinheiro aí. A outra função é o crescimento económico e a criação de emprego. Quando olhamos para o nosso sistema fiscal, que tem a tributação do rendimento, a tributação do património e do consumo, não vemos que isto seja tido em consideração minimamente. E nunca vi num debate no Parlamento interrogar quem suporta a carga dos impostos. Por exemplo: um imposto sobre as sociedades, quem é que suporta? São os accionistas sob a forma de menos lucros, são os trabalhadores sob a forma de menos salários ou são os clientes sob a forma de preços maiores? Nunca ninguém se preocupou com o fenómeno fundamental da tributação que é a repercussão. Porque aquilo que suporta a carga do imposto, não é muitas vezes aquele que entrega o recurso financeiro à Autoridade Tributária. É quase impossível classificar o nosso sistema fiscal.

Define-o como caótico.
Ele é caótico. A ideia que temos é que surge um político e diz: ‘Vamos tributar aquele sector, tributar aquele banco, o sector a, b ou c, é o que vem à cabeça’. Portanto, eu como primeiro-ministro fiz uma reforma fiscal, um imposto sobre o rendimento das pessoas (o IRS), o imposto sobre as sociedades (o IRC), o imposto sobre o consumo (o IVA) e depois os chamados impostos especial, sobre a gasolina. A coerência desse sistema fiscal foi totalmente destruída porque foram feitas modificações avulso, sem se estudar as consequências das medidas que se tomam. Portanto, não é nada fácil atrair o investimento estrangeiro nestas condições. E depois, quem sabe, há um certo enviesamento no Governo e nalgumas forças que o apoiam quanto ao sector privado. Aqui, a sensação que há é que o Bloco de Esquerda, o PC e alguma ala do PS odeia as grandes empresas. Ora, quando um país não tem nenhuma grande empresa controlada por cidadãos portugueses cotada na bolsa, é menos respeitado na cena internacional. Tudo o que é grande empresa é odiado por certas forças políticas quando nos outros países é acarinhado, como é óbvio no princípio da subordinação do poder económico ao poder político. Isso não está em causa. Portanto, Portugal tem algumas dificuldades.

“Continuo a acreditar que predomina no PSD a via reformista”

Na sua opinião, só com o regresso do PSD ao poder é que eventualmente seria possível fazer esse caminho de maior respeito pelo sector privado e pela economia privada?
Com certeza. Muito mais. Não tenho a mínima dúvida. Continuo a acreditar que a via reformista predomina dentro do PSD.

E também vê Rui Rio como alguém capaz de gerir um governo desses?
Quanto a isso não faço julgamentos. Estou afastado da vida política activa.

Há dois novos partidos que surgiram nas últimas eleições e que em matéria fiscal defendem a chamada flat tax, a taxa única. Acha quer podia ser uma boa medida?
Como social-democrata, discordo. Sei que os neoliberais e os conservadores a defendem e que ela existe num ou outro país europeu. Mas eu considero que os objectivos fundamentais da social-democracia, desde os seus primórdios, são a justiça social e a solidariedade social. E há instrumentos fundamentais para os realizar. Um deles é a política fiscal, com impostos progressivos, em que se paga uma taxa mais elevada quando aumenta o rendimento. Outra forma de realizar justiça social é através da política de segurança social. Ou através de políticas de igualdade de oportunidades, em particular a educação. A flat tax não realiza esse princípio da social-democracia de que eu sou um aderente muito forte.

Um dos poucos momentos em que se pronunciou sobre uma polémica pública desde que deixou de ser Presidente da República foi quando se deu a substituição da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. Falou das preocupações com o combate à corrupção. Vem muito dinheiro para Portugal, com a “bazuca europeia”. Sabemos que esta área dos fundos europeus por vezes pode levar a situações dessas — houve casos nos anos 80 e 90 e há o receio de que possa haver casos hoje em dia. Fala-se da criação de um portal que permita monitorizar a aplicação dos fundos. Como é que se consegue evitar que uma parte desse dinheiro vá para onde não devia ir?
No livro de memórias que escrevi sobre o meu tempo como Presidente da República dediquei um capítulo à escolha do procurador-geral da República. Não conhecia Joana Marques Vidal, mas considero que fez um trabalho notável. Não quero agora, que estou fora da vida política activa, dizer que tenho as soluções. Mas, em relação a esse tema, quero dizer-lhe que o presidente do Tribunal de Contas que foi afastado, o juiz-conselheiro Vítor Caldeira, foi por mim condecorado com uma das condecorações mais altas que existem em Portugal, a Grande Cruz da Ordem Militar de Cristo — a mesma que se dá aos primeiro-ministros. Não o conhecia. E porque é que o fiz? Porque ele tinha sido o presidente do Tribunal de Contas europeu, eleito três vezes. Mais nenhum país alguma vez teve alguém do seu país eleito três vezes para aquele cargo. Eu disse: “Tem que ser um homem de grande valor”. E quando António Costa o propôs para para presidente do Tribunal de Contas português eu aplaudi.

Teve pena que Vítor Caldeira não fizesse um segundo mandato?
É óbvio que tive. Nunca imaginei que não fosse reconduzido. Mas repito: desculpe, não quero entrar em detalhes da vida política actual em público.

No seu livro, fala extensamente sobre Francisco Sá Carneiro, que reconhece ter sido uma inspiração política. Fala também da sua morte em Camarate. Passaram agora 40 anos dessa data e o actual Presidente da República disse ter a convicção de que a queda do avião foi um atentado. Concorda?
Não tenho informação suficiente para tomar posição sobre isso. É uma matéria de tal forma delicada que entendo que não devo tomar posição porque não tenho informação suficiente.

No seu livro, defende que a divisão direita-esquerda serve a “partidos mais ideológicos” como “instrumento de radicalização do discurso”. No seu tempo como primeiro-ministro não teve que lidar com o fenómeno recente dos partidos populistas. Como vê o crescimento destes partidos em vários países, nomeadamente em Portugal?
É difícil responder. Nesse domínio, as coisas são um pouco diferentes daquele que foi o tempo que vivi como primeiro-ministro. Mas penso que alguma responsabilidade haverá dos partidos tradicionais. Acho que devem ter sido muito eles — os democratas-cristãos, os sociais-democratas também, os socialistas, os comunistas, os mais marxistas ou menos marxistas — que, pela forma de atuarem e de responderem às aspirações da população foram criando esse espaço. O que é fundamental na governação? Falar verdade, cumprir as promessas feitas, trabalho — muito trabalho —, estudar bem os problemas, procurar responder às verdadeiras preocupações das pessoas, não ter medo de seguir a via reformista, não criar ilusões, não mentir às pessoas, elas não se sentirem enganadas. Penso que, nesse sentido, eles foram um pouco responsáveis pelo aparecimento destes partidos que, de alguma forma, também procuram criar ilusões e medos a uma parte dos cidadãos. Mas não quero expressar a solução para esse problema neste momento.

Açores. “Não tenho a mínima dúvida” que coligação de direita é melhor que PS

O líder de um desses partidos populistas, André Ventura, já se comparou com Sá Carneiro. Vê alguma semelhança entre os dois?
Sá Carneiro era um social-democrata convicto. A resposta é esta e não precisa de mais nada. Inspirava-se na social-democracia sueca e alemã. E o que eu procurei fazer enquanto primeiro-ministro foi dar continuidade às orientações que Sá Carneiro imprimiu ao seu governo. Para Sá Carneiro, o critério básico da governação era a defesa do interesse nacional. Eu também sempre coloquei isso em primeiro lugar. Ele dizia algumas vezes: “Nós temos apenas dois ou três meses para culpar o governo anterior por aquilo que não está bem”. E eu dizia o mesmo quando fui primeiro-ministro — e a situação que herdámos era difícil. Quando cheguei a primeiro-ministro, o défice orçamental era de 11%, a inflação era de 20%, o desemprego era elevado e havia muita injustiça social. Procurei utilizar os métodos que Sá Carneiro usava na governação. Primeiro, a importância do Conselho de Ministros — debater tudo com grande franqueza. Depois, reunir frequentemente com os ministros — ouvir com atenção aquilo que não só recolhia do contacto com as populações, mas também do debate com os ministros. Portanto, Sá Carneiro era um social-democrata.

Fez parte desses governos da Aliança Democrática nos anos 80 e agora, com a passagem dos 40 anos da morte de Sá Carneiro, a AD tem sido muito lembrada. Até nesta solução governativa nos Açores: chamaram-lhe “nova AD”. Essa solução governativa junta PSD, CDS e PPM com o apoio da Iniciativa Liberal e do Chega. As duas experiências são comparáveis?
Não, não são comparáveis de forma nenhuma. A Aliança Democrática foi o entendimento, primeiro, entre o PSD e o CDS, a que se juntou o PPM e um grupo chamado Reformadores. Era um conjunto com muito mais coerência e proximidade ideológica do que talvez o que se verificou no Açores. Mas, sabe, conheço os Açores. Visitei todas as ilhas — e mais do que uma vez. E acho que os Açores precisavam de uma mudança, de forma inequívoca. E não estou a criticar o líder do PS que perdeu as eleições, Vasco Cordeiro — tenho, aliás, muito respeito por ele. As coisas que não estavam bem nos Açores tinham raízes anteriores à chegada dele ao governo. Eu vi uma afirmação de alguém do PS dos Açores que dizia que uma sondagem muito próximo das eleições dava mais de 50% ao PS — e depois o partido teve 39%. Dá ideia de que havia um sentimento de medo acumulado na população que a impedia de exteriorizar as suas preferências eleitorais — e que depois, no segredo da câmara de voto, se libertou e votou.

Esta solução de mudança é preferível a termos tido uma continuação de um governo do PS nos Açores?
Não tenho a mínima dúvida. Não conheço José Manuel Bolieiro, mas as informações que me chegam são extremamente positivas. Não tenho um conhecimento aprofundado da actual realidade política açoriana, mas tenho uma confiança muito forte de que é um contributo para a melhoria do funcionamento da vida democrática nos Açores. Temos que aguardar.

Mesmo com este polémico apoio do Chega?
Esse foi o entendimento que nos Açores foi encontrado por parte do líder do PSD. Não quero criticá-lo por isso. Acho que não o devemos criticar por isso. Ele conhece melhor os Açores do que qualquer um que aqui o criticou. Não tenho dúvidas quanto à afirmação que faço de que era tempo de mudar.

“Maioria do Estado na TAP foi erro muito grande”

Há pouco falávamos da AutoEuropa e, há dias, o ministro da Economia disse que “deixar desaparecer a TAP era como deixar desaparecer a Autoeuropa”. Acha que são duas realidades comparáveis?
Não. Discordo totalmente disso. Tem-se falado muito deste programa de reestruturação da TAP. Eu não sei se é positivo ou não e estou convencido que nenhum membro do governo e nenhum político sabe se esta decisão do governo é positiva ou negativa. Porque quando se discute um projecto onde se tem de colocar muitos biliões de euros, tem que se perguntar: qual é o custo de oportunidade? O que é que se deixa de fazer no país pelo facto de aquele montante tão elevado de recursos ser colocado na TAP? O que é que tem mais valor social? É o plano de reestruturação ou é aquilo que se faria se o dinheiro não fosse colocado na TAP? Até agora, nada foi dito sobre o custo de oportunidade — e existem técnicas de análise para calcular quanto vale aquilo que se faria com esses 4 biliões de euros se não fossem colocados na TAP. É óbvio que pode existir aquilo a que nós em economia chamamos os intangíveis. Podemos dizer assim: “O valor social da TAP é superior a outro investimento porque há uns aviões no ar a voarem com a bandeira de Portugal”. Bem, então ficamos a saber em quanto é que o poder político valoriza esse intangível que é o de ter um avião com uma bandeira de Portugal. Mas ninguém fez ainda este cálculo: o que é que se conseguiria fazer no país utilizando os mesmos biliões de euros noutro lado?

No limite, poderia ser preferível a TAP entrar em insolvência?
Um governo deve escolher o que tiver maior valor social. Neste momento, nós não sabemos. Eu não sou capaz de dizer se a decisão do governo tem mais valor social do que teria a aplicação da mesma importância de outra forma. É isso que falta. E isso não pode deixar de ser feito quando temos investimentos desta dimensão. E há outro ponto. Sabe porque é que eu tenho também dúvidas? Porque não vejo o Estado a gerir uma empresa que tem concorrência internacional. Já imaginou a AutoEuropa, que também concorre internacionalmente — na produção de automóveis — a ser gerida pelo Estado? Uma coisa é o Estado gerir os transportes colectivos ,ou o metropolitano, ou a fábrica de produzir notas de euro no Banco de Portugal. Mas uma empresa que concorre a nível mundial com outras companhias?

Mas seguramente que discorda da posição maioritária do Estado na TAP.
Já agora, quero-lhe dizer: eu avisei o primeiro-ministro, quando isso foi feito em 2016. Tudo começou aí. O erro está aí. Disse-o claramente quando numa jogada meramente politico-ideológica, o Estado que tinha apenas 36%, quis ficar com 50% da TAP. Não digo que seja um erro na mesma dimensão das 35 horas, mas agora se calhar revela-se tão má como essa. Foi um erro muito grande. Aliás, muitos cidadãos apelaram a que o Governo fizesse isso e eu sei bem que o PC e o Bloco de Esquerda defenderam isso e pressionaram. Eles são responsáveis por aquilo que está a acontecer. As coisas seriam muito diferentes hoje, muito diferentes se não tivesse sido tomada essa decisão em 2016. E, portanto, eu já referi isso.

Estamos a poucos dias das eleições presidenciais e já se perfilaram quase todos os candidatos. Sei que não vai fazer um balanço do actual Presidente, mas vai apoiar Marcelo Rebelo de Sousa?
É uma regra que tem vigorado em Portugal dos Ex-Presidentes da República não se pronunciarem sobre os actos eleitorais relacionados com a Presidência da República. Eu farei isso e penso que o mesmo irá acontecer com os outros Presidentes da República.

Mas vai votar?
É um dever cívico. Eu tenho sempre cumprido os meus deveres cívico.

“O que adorei na Netflix foi o xadrez. Oh my…”

Disse numa entrevista recente que costuma ver a Netflix. Não sei se já viu a última temporada de The Crown, que tem sido muito criticada pela forma como retrata Margaret Thatcher,, que conheceu muito bem.
Conheci muito bem. Estou muito desiludido com esta temporada. É muito pior que as outras anteriores. Não só conheci a Margaret Thatcher como me encontrei mais do que uma vez também com a princesa Diana. E até me encontrei com ela em Edimburgo num jantar oferecido pela Rainha numa cimeira que teve lugar em Edimburgo, quando foi anunciada a separação entre a Diana e o príncipe Carlos. Mas Margaret Thatcher era a ministra da Educação quando eu estudava em Inglaterra. Portanto, comecei por conhecê-la como ministra da Educação. Não participava nas manifestações que ocorriam na universidade com toda a ordem e que terminavam sempre no pub contra Margaret Thatcher, mas depois ela sentava-se ao meu lado nos Conselhos Europeus. E, portanto, a imagem que se tentou passar logo no início de que Margaret Thatcher não se sabia comportar quando estava com a família real, não conduz com alguém que já tinha sido ministra da Educação e deputada durante 20 anos. Era uma mulher muito inteligente que defendia com muita garra os interesses britânicos, mas nunca lhe passou pela cabeça tirar o Reino Unido da União Europeia, mas defendendo muito os interesses da Grã-Bretanha. Está muito mal e injustamente retratada. Era uma mulher de uma grande firmeza. Eu discordava de algumas das políticas dela, mas ela tinha muita simpatia por mim por eu ter sido estudante na Universidade de York e ela invocava sempre isso.

Tem alguma história?
Não me esqueço quando foi a aprovação do PEDIP, o programa de apoio à indústria portuguesa em 500 milhões de contos, ela sentava-se ao meu lado e, quando o chanceler Khol submeteu à votação ela disse: “Mas o que é isso? O que é isso? O que é isso?” E tentou levantar a mão a pedir a palavra e eu segurei-lhe no braço e não deixei levantar o braço e o chanceler Khol disse: “Está aprovado”. E, de facto, passou. Quanto à princessa Diana, a atriz [de The Crown] é muito boa. Em termos de imagem é o mais próximo que alguma vez eu vi. Ela está ali, não está? [Cavaco Silva aponta para moldura com fotografia em que está ao lado da princesa Diana no Porto] Está ali comigo no Porto. Foi uma conversa interessante.

Mas também não está bem retratada na série.
O comportamento dela não está bem retratado, mas a imagem é ela. Parece que estamos a vê-la. Esta série é bastante mais fraca do que as anteriores. O que adorei na Netflix foi o xadrez.

O Queen’s Gambit.
Oh my… Essa prende do princípio ao fim. Eu não sei jogar xadrez, não sei, mas aquela atriz que não sabia nada de xadrez é notável na representação. Na forma como mexe as peças e, segundo dizem os especialistas, aquilo que está lá está correto.

Também gostou da parte de vencer a União Soviética?
Aquilo tinha de terminar com uma vitória americana. Sabe, na televisão, a minha preferência vai sempre para os programas da natureza. Isso aí eu vejo tudo. O [David] Attenborough conhece-o desde os tempos que vivi em Inglaterra. Acho um homem notável na defesa do ambiente a nível global e, como o meu Governo também foi aquele que colocou o Ambiente na agenda política nacional. O primeiro secretário de Estado do Ambiente e Recursos Naturais fui eu que nomeei, o primeiro ministro do Ambiente e Recursos Naturais fui eu que o nomeei, fui eu que assinei o protocolo das alterações climáticas, o Plano Nacional do Ambiente. Isto é, que sujeito os grandes projetos à aprovação do impacto ambiental e, portanto, tenho uma grande satisfação por ter colocado desde a primeira hora em que cheguei ao Governo em 1985 a defesa do Ambiente e do Ordenamento do Território como uma parte central do desenvolvimento económico sustentável do país.

https://observador.pt/especiais/entrevista-a-cavaco-silva-o-estado-voltar-a-ficar-com-a-maioria-na-tap-foi-um-erro-muito-grande/

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Fez-se Justiça em Portugal, finalmente!!!

A justiça portuguesa está de parabéns!

            * Depois de anos e anos a batalhar eis que surgem os primeiros resultados:

             · Desde a morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia,

             · Ao desaparecimento de Madeleine McCann,

             . Ao caso Casa Pia,

             . À saída do processo de Paulo Pedroso, sem sequer chegar a julgamento.

             · Do caso Portucale,

             · Da compra dos Submarinos,

             · Às escutas ao primeiro-ministro,

             . Ao caso Freeport,

             . Ao curso tirado a um domingo,

             - Ao Caso TVI,

             - Ao Caso Figo - Tagus Park,

             . À Falência da Empresa de que Sócrates era sócio com Armando Vara,

             . À licenciatura de Armando Vara e ascensão meteórica até vice-presidente     da CGD e Millennium.

             · Do caso da Universidade Independente,

             · Ao caso da Universidade Moderna.

             - Do Futebol Clube do Porto,

             · Ao Apito Dourado (Azulado?).

             · Da corrupção dos árbitros

             · À corrupção dos autarcas,

             · De Fátima Felgueiras

             · A Isaltino Morais.

             · Da Braga Parques

             · Ao grande empresário Bibi.

             · Das queixas tardias de Catalina Pestana

             · Às de João Cravinho,

             . Aos doentes infectados por acidente (e negligência de Leonor Beleza) com     o vírus da sida.

             . Do processo Costa Freire / Zézé Beleza (quem não se lembra ?)

             · Ao miúdo electrocutado no semáforo,

             · Do outro afogado num parque aquático,

             · Das crianças assassinadas na Madeira,

             . Do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico.

             · Do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do     Instituto de Medicina Legal,

             · A miúda desaparecida em Figueira,

             · As famosas fotografias de Teresa Costa Macedo, em que ela reconheceu imensa gente 'importante', jogadores de futebol, milionários e políticos,

             · Aos crimes de evasão fiscal de Artur Albarran,

              · Os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal.

             · O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins  da Cruz, apeado    por causa dum pequeno crime sem importância: o da cunha para a sua filha.

             · E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado     doentes por negligência.

             - O caso BPN e os inefáveis Dias Loureiro, Oliveira e Costa,

             - Os Vistos Gold,

             - A Operação Marquês, etc etc..

             Pois é... a justiça portuguesa está de Parabéns!

             Depois de anos e anos a batalhar eis que surgem os primeiros resultados:

             Leia com atenção, por favor.

    MULTADO POR GUIAR BURRA, EMBRIAGADO.

            O agricultor que há uma semana foi apanhado a conduzir embriagado uma carroça puxada por uma burra, na EN 17, em Celorico da Beira, foi condenado, em processo sumário, a pagar 450 euros de multa, pena que pode ser substituída por trabalho comunitário (pois este sr. trabalha e não vive com qualquer subsídio do governo).

             Foi-lhe ainda aplicada, como pena acessória, a inibição de conduzir qualquer veículo motorizado por um período de sete meses.

             A pena exclui a proibição de o arguido guiar a carroça puxada pela burra, o meio de transporte que mais utiliza, pese embora ter licença, segundo o próprio, para conduzir tractores e motociclos.

             Até que enfim.... e em tempo recorde: 8 dias depois, julgado e condenado !!!!!!!!!!!!!!

             YEAAAAAAAAH!...

             Agora sim, sinto-me mais seguro!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Bom dia, Lenine!

Observador/premium

Rui Ramos

A interpretação comunista do regime é hoje a mais elucidativa de todas: este é um país onde mandam as famílias socialistas, e quem quer ter poder em Portugal tem de estar com essas famílias.

O congresso do PCP serviu, este ano, para toda a gente aludir ao filme Adeus, Lenine: eis um fóssil, mais ou menos alheio ao mundo de hoje, a fingir que o dia 9 de Novembro de 1989 nunca aconteceu. Ninguém reparou, todavia, no êxito que os comunistas têm tido no suposto fingimento: quem é que, em Novembro de 1989, imaginou que ainda estaríamos a falar em Portugal do PCP em 2020, a não ser em algum curso de história do século XX? Creio, aliás, que o fóssil percebe muito melhor o mundo de hoje do que os que, muito satisfeitos consigo próprios, escarnecem do seu revolucionarismo fora de moda ou se indignam com a sua insistência em abrir excepções ao confinamento. De facto, a leitura comunista do regime é hoje a mais interessante de todas. Só que não está no que o PCP diz, mas, como sempre, no que o PCP faz. Aí, ainda teremos alguma coisa a aprender com Lenine antes de lhe dizer adeus.

O PCP foi, como os outros partidos similares, uma organização financiada pela União Soviética, com activistas profissionais que eram, de facto, funcionários soviéticos. Nesse sentido, sim, o PCP perdeu a razão de ser. Hoje, é uma espécie de embaixada de um país que já não existe. Mas a máquina ficou, com todas as posições adquiridas, e com a sua cultura estratégica. E continuou, como antes de 1989, a tentar perceber uma só coisa, e a agir em conformidade: onde está o poder em Portugal? Desde 1974, o PCP nunca quis estar contra o poder; e fez tudo, com razoável sucesso, para estar com o poder.

Em 1974, o PCP percebeu que, como então se costumava dizer, o trunfo era espadas. Primeiro, tentou o general Spínola, mas logo identificou, assediou e passou a controlar, com maior proveito, os oficiais que viriam a compor a  chamada “esquerda militar”. Foi assim que, em 1975, um partido com 12% de votos pôde dominar o governo, as autarquias, os organismos corporativos, e quase toda a comunicação social, incluindo a única estação de televisão, e ainda recortar no território do país uma espécie de feudo medieval, no Alentejo. Porquê? Porque esteve com quem, durante mais de um ano, teve o poder em Portugal, a “esquerda militar”. E porque é que, depois do colapso da “esquerda militar”, em 25 de Novembro de 1975, o PCP, sem aumentar os votos, continuou no VI Governo Provisório e conseguiu até que a Assembleia Constituinte, que até então desprezara, consagrasse as nacionalizações e a reforma agrária? Porque o PCP, ao contrário da lenda do Adeus, Lenine, nunca perdeu de vista o que estava a acontecer. A “esquerda militar” abriu-lhe as portas para uma influência com que o PCP nunca sonhara, mas o PCP não teve a mínima hesitação em deixá-la cair e em procurar novos interlocutores quando percebeu que a “esquerda militar” já não mandava.

Desde 1976, o PCP continuou à procura do poder e julgou identificá-lo na presidência da república. Em 1976, o presidente da república era o general Eanes, um dos vencedores da “esquerda militar” e o oficial que, à frente do Estado Maior do Exército, desmobilizou o exército que fez a revolução. O PCP devia odiá-lo. Não o odiou. Pelo contrário. Percebeu que o general Eanes ia confrontar-se com os partidos que o tinham elegido em 1976 (o PS, o PSD e o CDS), e tornou-se, contra todas as expectativas, o mais fiel companheiro de estrada do chefe do 25 de Novembro. Nunca, jamais, Cunhal, se permitiu irreverências contra o presidente, como se permitiram Soares e Sá Carneiro, mesmo quando o presidente nomeou um governo de “recuperação capitalista” como o de Mota Pinto. Para o PCP, Eanes não valia apenas como o presidente da Constituição de 1976, antes da sua revisão em 1982. Valia como um político que, pela sua origem militar, representava um factor bonapartista, capaz de impedir o regime de evoluir no sentido das democracias da Europa ocidental. Era o que importava ao PCP, para manter a sua influência. Por isso, em 1985, o PCP juntou-se aos eanistas na campanha presidencial de Salgado Zenha, e em 1987, aos eanistas e ao PS de Vítor Constâncio, na tentativa de formar uma maioria de esquerda para suceder no governo a Cavaco Silva. Só graças a Mário Soares, é que a “geringonça” não aconteceu em 1987. E Mário Soares não a impediu por causa do PCP, mas precisamente por causa do general Eanes.

O PCP talvez tenha andado perdido depois do fim do eanismo, que por, por acaso, coincidiu mais ou menos com o fim da União Soviética. Mas agora, o PCP não anda perdido. Sabe onde está o poder. Muita gente olha para o PCP como o apoio parlamentar de um governo minoritário do PS. E por isso, muita gente espera do PCP os cálculos e as jogadas típicas desses apoiantes. É uma análise errada, porque ignora a realidade que o PCP contempla muito lucidamente. O PCP não apoia um governo minoritário: o PCP parasita, como sempre fez, o poder em Portugal, e esse poder é agora o das famílias socialistas que há vinte e cinco anos colonizaram o Estado e, a partir do Estado, controlam a sociedade. É esse poder que hoje, em Portugal, dá poder ao PCP, e lhe permite ignorar os confinamentos e fazer comícios, festas e congressos, tal como foi o poder da “esquerda militar”, em 1975, que  lhe permitiu ignorar a legalidade e ocupar as terras alentejanas.

Nas suas memórias, Carlos Brito conta que, nas primeiras reuniões para preparar eleições, Álvaro Cunhal fazia sempre questão de surpreender os seus camaradas com a declaração de que o PCP era “um partido revolucionário”, para quem os resultados eleitorais não tinham assim tanta importância. Era, segundo Carlos Brito, uma rábula que muito divertia Cunhal. No entanto, continha algo de sério. Cunhal era um revolucionário. Só que o seu partido não era, ao contrário da mitologia do revolucionarismo ingénuo, um partido para morrer nas barricadas. Era um partido de estalinistas dos anos 1930, para quem a missão principal era manipular o poder no seu país a favor dos interesses soviéticos, o que nem sempre significava imitar o Lenine de 1917. Esse foi sempre um grande equívoco em relação a Cunhal, e que por vezes também baralhou os seus camaradas, sobretudo em 1975. O importante não era subir aos tanques, mas manter a organização de revolucionários profissionais junto ao poder, tragando todos os sapos que viessem na ementa. O PCP foi sempre um partido dependente de quem tem poder. Por isso, como costuma dizer António Barreto, já não me lembro se citando alguém, “os comunistas fazem tudo o que lhes consentem, e consentem tudo o que lhes fazem”.

Eis porque a interpretação comunista do regime é, hoje, a mais elucidativa de todas. É uma interpretação despida de idealismos jurídicos ou de ilusões políticas: este é um país onde manda uma clique instalada no Estado, muito atreita a desenhar linhas vermelhas para os outros, e sem noção de ter linhas vermelhas para si própria, como se tem visto nos entendimentos de António Costa com Viktor Orban, ou nas negociações dos deputados do PS com o Chega. São os socialistas que ocupam o Estado numa sociedade que é fraca. São os socialistas que vão distribuir o dinheiro dos alemães numa economia que está descapitalizada. A isso, chama-se poder. Não há outro, tal como durante muitos meses, em 1975, não havia outro, a não ser o que andava em chaimites. Quem está com os socialistas, está bem; quem está contra eles, está mal, não faz reuniões durante o confinamento nem vai à televisão. Cunhal teria certamente mandado os seus camaradas colarem-se a António Costa, engolindo os sapos que fossem precisos. Aos verdadeiros revolucionários, importa o poder. E o poder, em Portugal, é das famílias socialistas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A farsa equivalência

Pelo planeamento sem falhas, via-se bem que estávamos num congresso comunista organizado durante a pandemia. Pelas intervenções, dir-se-ia que a pandemia era a gripe espanhola de 1918.

01 dez 2020, José Diogo Quintela , ‘Observador’

O Congresso do Partido Comunista Português foi um evento impressionante. Pelo planeamento sem falhas, pelo respeito escrupuloso do afastamento social, pelo zelo no uso das máscaras e na aplicação das medidas de higiene, via-se bem que estávamos num congresso comunista organizado durante a pandemia. Pelas intervenções, dir-se-ia que a pandemia era a gripe espanhola de 1918. Montaram um grande aparato de segurança, mas sem necessidade. Os comunistas estão imunes ao contágio, uma vez que a Covid está em 2020 e os comunistas em 1920.

Devo dizer que foi com grande satisfação que passei uma tarde a ouvir os delegados. Na espiral de incerteza em que vivemos, é reconfortante saber que ainda há faróis de coerência por onde nos podemos nortear. O comunismo nunca muda e os comunistas não têm pejo em afirmá-lo. Gabo-lhes a constância dos princípios. São contra a propriedade privada e também contra a impropriedade privada: tudo o que têm a dizer que seja inconveniente, dizem-no em público.

Gostei de todos os discursos. Cada qual, à sua maneira, contribuiu com uma camada de mofo para aquele sabor a antigo com que fiquei no fim da sessão. No entanto, tenho de salientar a comunicação do camarada Albano Nunes, membro da Comissão Central de Controlo (a CCC do PCP é uma espécie de polícia interna, ou seja, fiscaliza os comunistas como os comunistas gostavam de nos fiscalizar a nós).

No início, confesso que tive receio. Ao ser apresentado, anunciaram que Albano Nunes iria “intervir sobre a actualidade da ideologia marxista-leninista”. Pensei: “Olha! Tu queres ver que há novidades? Que actualizaram o marxismo-leninismo e chegaram a novas conclusões? Substituíram por uma versão mais moderna? Espero que não estraguem!”

Mas não tinha com que me preocupar. Felizmente, Albano Nunes é, segundo o site do PCP, um “intelectual”. Ora, para os comunistas, o “Intelectual” é o responsável por, através da repetição, decorar a doutrina e passá-la à próxima geração de “intelectuais”. “Marxismo-leninismo” e “novidades” são antónimos. Eis alguns dos destaques:

Como escreve Marx ‘a arma da critica não pode substituir a critica das armas. O poder material tem de ser derrubado por poder material.’

Tal não desmente que os grandes avanços e transformações revolucionárias do século XX estejam indissoluvelmente ligadas à acção revolucionária das forças que têm o marxismo-leninismo como base teórica e ao papel da URSS e do campo socialista.

Mas o capitalismo não cai por si, tem de ser derrubado pela força. Também aqui a prática confirma as grandes teses do marxismo-leninismo, relativas à revolução, a teoria da luta de classes, (…) ao Estado como questão central da revolução, à socialização dos grandes meios de produção, ao internacionalismo proletário.

Muita conversa sobre derrubar coisas à força, muita saudade da URSS. Enfim, comunistas a serem comunistas. Num dia, a aprovarem orçamentos burgueses no Parlamento, no dia seguinte, a quererem pegar em armas para abolirem parlamentos, burgueses e orçamentos.

Em Portugal há uma complacência com o comunismo que tem a ver com o nome. “Comunismo” soa mesmo bem. Traz uma mensagem tão linda, como é que quem o propõe pode fazer malfeitorias? Só por azar. Se o PCP se chamasse antes Partido De Bater Com Um Pau Nas Costas e organizasse um congresso, é certo que também ia aparecer alguém a dizer “olhem que o Partido De Bater Com Um Pau Nas Costas já não defende que se bata com um pau nas costas”, mas ia ser mais difícil convencer o resto das pessoas. Se mantivessem no nome e nos estatutos o bater com o pau nas costas; se louvassem o inventor da doutrina que advoga o bater com o pau nas costas; se mostrassem com orgulho o pau com que querem bater nas costas; se se queixassem de quem não acha boa ideia bater com paus nas costas; se lembrassem com saudade os grandes batedores de paus nas costas de antanho; se saudassem os actuais batedores de paus nas costas que brilham no estrangeiro; e se dissessem que, actualmente, não há condições para bater com paus nas costas em Portugal, por causa das leis contra bater com paus nas costas, mas é inevitável que um dia haja condições, a histórica caminha para lá; então, de certeza, que ninguém lhes virava as costas nas imediações de um pau.

Há quem esperasse que, ao fim de 46 anos de convivência com moderados (principalmente desde 2015), o PCP tivesse moderado os seus ímpetos. Pelos vistos, não só não moderou como, pelo contrário, foram os moderados que, no convívio com os extremistas, extremaram as suas posições.

Isso já se nota no PS, que guinou à esquerda. Basta ver que Pedro Nuno Santos e Fernando Medina, futuros candidatos a PM, ultimamente parecem dois pequenos comissários dos sovietes. Um nacionaliza a TAP, todo contente por o Estado ficar dono de uma companhia aérea que, ao que tudo indica, ficará em breve reduzida a uma rota, e que vai para o galheiro. O outro propõe criar uma empresa de entregas de comida para levar as que operam no mercado à falência, só por pirraça contra a iniciativa privada. Não contente com isso, quer também ilegalizar um partido com representação parlamentar.

Era esperado. Os radicais, como o nome indica, têm raízes no seu extremo. Não é fácil arrancá-los de lá. Se vai haver aproximação, é mais provável que sejam os moderados, que não estão presos a nada, a irem ter com eles.

É, aliás, o que já está a acontecer ao PSD por causa do Chega. Nem há um mês começaram a entender-se nos Açores e Rui Rio já está a extremar discurso e posições, com bocas aos habitantes de Rabo de Peixe que “não querem ir ao mar” e votações irresponsáveis no

Essa foi uma das razões pelas quais assinei o texto “A clareza que defendemos”, por não querer a minha área política aliada ao Chega. Para saber que foi a decisão certa, basta prever como será um país em que o Chega governe com maioria absoluta. É ouvir o que o Chega diz, ver quem costuma e quem costumava dizer as mesmas coisas, as acções de quem se associa ao Chega, os amigos estrangeiros do partido, as suas referências históricas. A partir daí é fácil imaginar Portugal ao fim de um ano de Governo Chega. Um país em que proíbe que se ofendam magistrados, polícias e órgãos de soberania, ou seja, onde há censura política. Um país onde os ciganos estão confinados em reservas, primeiro por causa da Covid, depois por causa do sarampo, depois por causa das cáries, depois porque já é hábito. Os ciganos e as pessoas que não gostam de sapos, só para garantir. E as que cantam o “Bamboléo” dos Gipsy Kings. E os romenos, que fazem lembrar ciganos. E os moldavos, que aquilo é tudo igual. Um país que expulsa portugueses nascidos noutros países ou nascidos cá, mas filhos de cidadãos de outros países. Um país onde só não se retiram os úteros às mulheres que abortam porque o aborto é proibido. As que conseguem abortar, são presas. Um país onde os abusadores sexuais são castrados e os ladrões só não são manetas porque precisam das mãos para trabalhos forçados nas prisões. E em que não podemos filmar nenhum destes abusos, que é a última tolice proposta pelo Chega. No fim, obviamente, somos expulsos da UE, portanto somos ainda mais pobres.

É um bom exercício, este de imaginar Portugal governado por um partido. Como seria o país se o PCP mandasse? Albano Nunes deu um lamiré. “Ah, é só um velhinho!”, dirão. Ok. E a jovem que saudou os povos da Síria, da Bielorrússia, da Coreia do Norte, de Cuba e da Venezuela? Ou estava a gozar com os povos, acenando-lhes enquanto está repimpada numa democracia; ou estava mesmo a saudar Assad, Lukashenko, Kim Jong-un, Castro e Maduro.

Também não é difícil prever um Portugal comunista. Por mais que, por exemplo, Pacheco Pereira diga que o “programa activo” do PCP se afasta da tradição histórica, ela está lá. É a base, a basesinha. E, se hoje, o que esses partidos dizem parece adaptado à realidade democrática, numa situação hipotética como a que imaginei com o Chega, seria diferente. É aplicar o modelo ético e económico de sociedade que continuam a defender e deixar marinar. Em cinco anos, com o fim da economia privada e fora da UE, estamos a passar fome como na Venezuela. E com a larica, as garantias democráticas que o PCP dá agora perdem a validade.

Porque o povo manifesta-se, as manifestações reprimem-se, as cadeias enchem-se, os cemitérios também e o exílio volta a estar na moda. Não houve uma única vez em que o modelo marxista-leninista, quando aplicado com precisão pelos admiradores de Marx e Lenine, não tenha acabado assim. Eu sei que os portugueses são pouco rigorosos a respeitar instruções, mas o comunismo é como se fosse uma guilhotina do IKEA: seguindo os desenhos, qualquer um consegue montar a máquina de matar. Até os intelectuais bonacheirões do PCP.

(Quem diz o PCP, diz o Bloco. Quando Mariana Mortágua ameaça que “temos de perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular”, não está a exagerar. A sanha anti-capitalista e anti-democracia burguesa, presente em sub-grupos bloquistas como o Climáximo, mostra que o BE é tão contra o nosso sistema como o PCP. E como o Chega).

Portanto, os comunistas passam três dias a louvar uma doutrina que, nos sítios onde foi aplicada, matou sempre e querem-nos convencer que, em tendo oportunidade, não aplicavam cá a tal maravilha.

O estranho não é haver gente à direita a assinar aquela carta, é não haver ninguém à esquerda a assinar uma carta do mesmo género sobre o PS se aliar à esquerda radical. É que – e isto pode parecer surpreendente – é possível condenar-se vários extremismos ao mesmo tempo. A sério.

A 5 de Março de 1946, no Missouri, Churchill proferiu o seu famoso discurso sobre a “Cortina de Ferro” que já se estendia do Báltico ao Adriático. O então ex-PM britânico avisou o mundo, recém-saído da devastação da Segunda Guerra Mundial, para a ameaça soviética que se levantava. Disse que as democracias ocidentais tinham falhado ao não evitar a ascensão do Nazismo e que não podiam repetir o mesmo erro com o Comunismo.

A 6 de Março de 1946, no Facebook, vários comentadores disseram: “Vergonha! A comparar nazismo e comunismo!” ou “Falsa equivalência! Diz uma coisa que os nazis tenham feito que os comunistas façam igual!”

A 7 de Março, de 1946, no Twitter, Churchill pede desculpa por ter comparado os dois regimes e retira o que disse.

É pilhéria! Não aconteceu nada disso. Provavelmente, houve críticas. Mas não tem grande interesse referi-las. É que Churchill estava certo. Como se veio a confirmar, o comunismo era perigoso e era preciso combatê-lo como se combateu o nazismo. A verdade é se podem reprovar dois extremismos ao mesmo tempo, sem antes ter de fazer um Excel com tudo o que os assemelha e os distingue, para decidir qual o menos mau. É possível fazer multitasking ético. Sem medo que nos dêem com um pau nas costas.

'Os humanos são uma das espécies mais violentas com suas fêmeas'

  • Norberto Paredes - @norbertparedes
  • BBC News Mund
  • Protesto
    Para Picq, violência de gênero é um problema social e cultural que tem solução

    A violência de gênero é um problema cultural ou genético? Após uma pesquisa exaustiva, o paleoantropólogo francês Pascal Picq concluiu que isso certamente não está em nossos genes.

    "Dentro da família dos hominídeos (que inclui os humanos), há diferenças: chimpanzés e homens são muito violentos com suas fêmeas, mas os bonobos não."

    Professor no prestigioso Collège de France, em Paris, Picq é autor de vários livros que investigam as múltiplas características da espécie humana, das quais ainda existem muitas incógnitas não resolvidas.

    Em seu último trabalho, Et l'evolution créa la femme (E a evolução criou a mulher, em tradução livre para o português), ele aborda a questão das relações entre homens e mulheres nas primeiras sociedades humanas.

    E depois de comparar o homo sapiens com seus primos mais próximos, gorilas e macacos, ele faz uma declaração que pode surpreender a muitos: os humanos são a espécie de primata mais violenta em relação ao sexo feminino.

    Confira abaixo os principais trechos da entrevista de Picq à BBC News Mundo, o serviço de notícias da BBC em espanhol, na qual ele detalha como chegou à essa conclusão e quanto levaria para acabarmos com a coerção das mulheres e o domínio do sexo masculino que ainda é muito presente na maioria das sociedades ao redor do mundo.

    BBC News Mundo: O que levou o senhor a investigar em profundidade as relações entre homens e mulheres nas primeiras sociedades humanas?

    Pascal Picq: Várias coisas. Primeiro, de uma maneira geral, sempre falamos sobre a evolução do homem. Sabemos que isso inclui homens e mulheres, mas, na verdade, sempre falamos sobre a evolução na perspectiva dos homens.

    Em todas as imagens que representam a evolução da linhagem humana vemos que são os homens que criam as ferramentas, que são os homens que caçam, etc. As mulheres são invisíveis na pré-história.

    Quase nunca houve um estudo científico que fala sobre a evolução, não do lado das mulheres, mas com as mulheres.

    A segunda é que, especialmente no mundo ocidental, herdamos a ideia de que existe apenas uma visão de evolução e que isso deve necessariamente levar ao domínio do Ocidente sobre o resto do mundo; isso é conhecido como evolução cultural.

    A evolução cultural é uma concepção do século 19, muito coercitiva e altamente discriminatória em relação às mulheres, por isso as mulheres se tornaram invisíveis. Nunca as vemos em teorias evolutivas ou reconstruções da história humana.

    E outra coisa importante é que recentemente cresceu o interesse em fazer estudos sobre as relações entre homens e mulheres de diferentes espécies, porque na etologia, no estudo do comportamento, o gênero feminino também foi um pouco negligenciado.

    BBC News Mundo: De onde vem a coerção contra as mulheres de que o senhor fala em seu livro?

    Picq: Os humanos pertencem ao grupo dos mamíferos e nos mamíferos existe um grande desequilíbrio no processo reprodutivo: são as fêmeas que engravidam e gestam, produzem leite e também aquelas que por vezes protegem os pequenos dos machos da sua espécie.

    No caso dos macacos, esse desequilíbrio é ainda mais acentuado porque as fêmeas dão à luz apenas um filhote por vez. Depois de uma longa gestação, dão à luz a uma única fêmea, depois vem a amamentação. O desmame ocorre após dois, três, às vezes quatro anos.

    Normalmente, nas outras duas populações humanas, com exceção do Ocidente, um bebê é gerado a cada quatro a cinco anos. É uma taxa de reprodução muito baixa, que os machos tendem a querer controlar.

    BBC News Mundo: Como isso varia entre as diferentes espécies de primatas?

    Picq: Em geral, em mamíferos, há muito pouca coerção sexual contra as mulheres.

    Não existem muitas espécies em que os machos sejam muito violentos ou muito violentos com as fêmeas. Algumas são de cavalos, algumas de antílopes e golfinhos.

    Quando chegamos à nossa ordem zoológica, a dos primatas, os lêmures, os macacos, os primatas e é claro nós, notamos que os lêmures de Madagascar, por exemplo, são um grupo bastante homogêneo em que os machos dominam as fêmeas. São poucos os casos em que não há violência contra o sexo feminino.

    Agora, nos macacos da América do Sul, também há pouca coerção sexual. Existe muita monogamia. Existe a poliandria, ou seja, uma fêmea que vive com vários machos. Existem alguns grupos, como os macacos-aranha, em que os machos são um pouco coercitivos, mas não muito violentos.

    Mas quando se trata de macacos do velho mundo, África, Ásia e alguns da Europa, como macacos, babuínos etc., as espécies são muito mais coercitivas, na média.

    Algo interessante é que as fêmeas são chamadas de sexo ecológico: elas tendem a ficar juntas a vida toda para controlar seu território, seus recursos, mas também para estar com suas mães, irmãs e primas. Isso permite que formem uma coalizão e resistam à pressão masculina.

    Em geral, a monogamia não está relacionada à coerção, exceto em humanos. Os gibões são macacos que vivem em pares monogâmicos e não são coercitivos.

    Pascal Picq

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    Legenda da foto,

    Pascal Picq assegura que mesmo em espécies muito violentas, como os chimpanzés, não há assassinatos de fêmeas, portanto o feminicídio é um fenômeno "peculiar" ligado à espécie humana

    BBC News Mundo: E quanto a nós, humanos?

    Picq: Nós, os grandes macacos africanos, hoje definidos como hominídeos, somos espécies patrilocais, ou seja, os machos permanecem juntos a vida inteira e as fêmeas migram na adolescência para se reproduzir. 95% das sociedades humanas funcionam dessa forma.

    Dentro da família dos hominídeos (que inclui os humanos), existem diferenças: os chimpanzés e os homens são muito violentos com as mulheres, mas os bonobos não. Portanto, pode-se dizer que os humanos estão entre as espécies mais violentas com suas fêmeas.

    A violência contra as mulheres é principalmente uma questão social e cultural, não é genética. Não há nada ligado ao ecossistema ou relacionado ao fato de a sociedade ser matrilocal ou patrilocal.

    Depende muito da história de cada espécie e isso significa que pode mudar rapidamente, mas também pode ser mantida por muito tempo.

    BBC News Mundo: Falando de nossos ancestrais, as mulheres de Neandertal também sofreram violência de gênero?

    Picq: É claro que, considerando que temos uma origem comum com os chimpanzés, pode-se pensar que nossa linhagem é coercitiva e violenta. Mas também estamos relacionados aos bonobos, que não são.

    Pode ter havido muitas sociedades onde havia pouca coerção masculina e mais equilíbrio de poder entre homens e mulheres.

    Mas no momento não temos elementos suficientes para responder a essa pergunta. Sabemos que os neandertais formaram sociedades patrilocais. Agora, quando olhamos para seus túmulos, é muito difícil ver se havia uma diferença de status entre homens e mulheres.

    Perto do final da pré-História, sociedades muito mais complexas aparecem e em algumas vemos diferenças entre homens e mulheres que mais tarde se tornarão mais e mais acentuadas em sociedades mais recentes.

    BBC News Mundo: Casos em que fêmeas são mortas por machos são vistos apenas na espécie humana?

    Picq: Mesmo em espécies muito violentas, como chimpanzés ou alguns tipos de macacos, não temos assassinatos de fêmeas. Não estou dizendo que elas são amáveis, mas não sabemos se houve assassinatos.

    Em orangotangos, existem muitas agressões. É um pouco complicado como elas acontecem, mas os estupros são raros na natureza e aí também, ao contrário do que acontece conosco, não há assassinatos de fêmeas após o estupro.

    Isso mostra que o feminicídio é um fenômeno bastante peculiar, particularmente ligado à nossa espécie.

    Neste sentido, é bastante assustador que o ambiente familiar ou o ambiente normal em que as mulheres vivem, que deveria ser um ambiente mais protetor, seja onde mais mulheres são mortas.

    BBC News Mundo: Como o papel das mulheres evoluiu na história da humanidade?

    Picq: Sempre foi tão importante quanto o papel do homem, é claro, exceto que o ignoramos completamente.

    As mulheres nunca deixaram de participar de eventos como a Revolução Francesa ou a 1ª Guerra Mundial, mas tivemos que esperar até a 2ª Guerra Mundial para poder olhar a história pela perspectiva das mulheres.

    Tiveram um papel muito importante, mas que ainda não foi elucidado e já é tempo de o começarmos.

    BBC News Mundo: Alcançaremos uma igualdade real entre homens e mulheres? Quanto tempo vai demorar?

    Picq: Na biologia evolutiva, temos uma grande teoria desde os anos 1980, chamada Teoria do Equilíbrio Pontuado. Isso significa que a evolução passa por fases de relativa estabilidade e períodos de rápida mudança.

    Na Espanha, por exemplo, há 20 anos havia muita violência de gênero e em 15 anos eles quase resolveram o problema.

    Embora ainda exista a imagem de uma cultura muito machista, agora a Espanha está entre os países mais avançados em matéria de igualdade de gênero, justiça, etc. Então, sim, é algo que pode mudar muito rapidamente.

    De modo geral, a sociedade avançou nesse aspecto, mas há muito trabalho ainda a ser feito.

    Na maioria dos países, o acesso aos cuidados de saúde e à educação para homens e mulheres é quase igual.

    Mas, por outro lado, podemos perceber que ainda existem muitas desigualdades no mundo econômico e social, principalmente nas oportunidades de carreira.

    Vemos que as mulheres que têm opção de estudos agora estão mais voltadas para profissões que hoje são menos remuneradas, principalmente em comparação com outras.

    Em profissões emergentes, como ciência de dados, inteligência artificial, etc., as mulheres estão menos presentes. Elas tendem a escolher carreiras mais voltadas para o lado humano, como educação, justiça, medicina e serviço social, enquanto os empregos "masculinos", que são mais técnicos, tendem a pagar melhor.

    Pascal Picq

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    Legenda da foto,

    Picq conclui que, ao longo da evolução, caminhamos para uma maior coerção contra as mulheres e que houve muitas outras experiências sociais durante a evolução da linhagem humana, com sociedades muito mais igualitárias do que hoje

    Mas vemos as principais desigualdades no campo político. Na Inglaterra e em outros países do norte da Europa, estamos acostumados a ver mulheres líderes, primeiras-ministras, imperatrizes, não é o caso no sul da Europa nem no resto do mundo.

    Mesmo nesses países, vemos que em termos de representação no Parlamento ou em outras instituições, as mulheres ainda são muito menos predominantes do que os homens.

    BBC News Mundo: Por que o senhor acha que as mulheres tendem a escolher esse tipo de profissão?

    Picq: Ainda existem hábitos culturais por meio dos quais, mesmo quando as mulheres são melhores do que os homens em média no ensino médio, especialmente em Ciências, tendem por razões históricas e antropológicas a escolher ofícios relacionados a pessoas em vez de empregos tecnológicos ou financeiros.

    Mesmo agora, quando as condições de acesso a todas as profissões são quase iguais, ainda existem escolhas arcaicas ou pressões sociais e culturais das quais as mulheres estão mais ou menos conscientes.

    BBC News Mundo: Por fim, a que outras conclusões o senhor chegou depois de lançar seu livro?

    Picq: O resultado final é que, ao longo da evolução, caminhamos para uma maior coerção contra as mulheres e que houve muitas outras experiências sociais durante a evolução da linhagem humana, sociedades muito mais igualitárias, mais matrilineares, mais matrilocais e ainda mais matriarcais.

    E, acima de tudo, que entender essas questões é absolutamente fundamental para o futuro, visto que vivemos transformações consideráveis em nossa sociedade, com grandes mudanças no que é o conceito de paternidade, por exemplo.

    Outras questões também surgiram sobre o conceito de gênero ou as novas relações entre homens e mulheres, sejam em casais heterossexuais ou homossexuais.

    Hoje vivemos grandes convulsões em nossas sociedades, econômica e politicamente, por isso seria muito interessante se, sem rejeitar completamente certos aspectos do patriarcado que podem ser interessantes e não necessariamente coercitivos, percebêssemos que não existe um caminho único para o amanhã e que não inventamos tudo ainda.

    O sábio que introduziu algarismos arábicos no Ocidente e nos salvou de multiplicar CXXIII por XI

    Jim Al-Khalili, físico

    Da série da BBC "Ciência e Islão"

    29 Novembro 2020

    Estátua de Al-Khwarizmi

    Al-Khwarizmi nos deixou como legado a álgebra e a palavra algoritmo


    Galileu, Newton, Einstein… são três grandes nomes da ciência ocidental.

      Segundo historiadores, o principal legado do grande matemático italiano Leonardo Pisano, mais conhecido como Fibonacci, foi ajudar a Europa a abandonar o antigo sistema de algarismos romanos e adoptar os numerais indo-arábicos.Eles constam em seu Liber Abaci ("Livro de Cálculo"), que escreveu em 1202 após estudar com um professor árabe.

      Na mesma obra, há uma referência a um texto anterior chamado Modum algebre et almuchabale, e na margem está escrito Maumeht, que é a versão em latim do nome Mohamed.

      Fibonacci

      Assim como Fibonacci, estudiosos europeus dos séculos 12 a 17 se referem com frequência a textos islâmicos e nomes árabes em manuscritos sobre diversos temas, da medicina à cartografia.


      No caso, a referência é especificamente para Abu Ja'far Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, conhecido como Al-Khuarismi, que viveu aproximadamente entre os anos 780 e 850.

      Foi graças a ele que os intelectuais europeus souberam da existência dos numerais indo-arábicos.


      Dos hindus ao Oriente Médio, de Bagdá à Europa

      A obra de Al-Khuarismi aborda um aspecto crucial de toda nossa vida.

      Por causa dela, o mundo europeu percebeu que sua maneira de fazer conta — ainda essencialmente baseada em algarismos romanos — era irremediavelmente ineficiente e atrapalhada.

      Se eu pedir para você multiplicar 123 por 11, você consegue calcular até de cabeça. A resposta é 1.353.

      Agora tente fazer isso com algarismos romanos: você tem que multiplicar CXXIII por XI. Pode ser feito, claro. Mas não é nem um pouco fácil.

      Em seu Livro de adição e subtração, de acordo com o cálculo hindu, Al-Khuarismi descreveu uma ideia revolucionária: a possibilidade de representar qualquer número com apenas 10 símbolos simples.

      Essa ideia de usar apenas dez símbolos — os dígitos de 1 a 9, além do símbolo 0 — para representar todos os números de um ao infinito, foi desenvolvida por matemáticos hindus por volta do século 6, e sua importância é inestimável.

      Evolução dos números

      E assim os algarismos foram evoluindo, da direita para a esquerda


      Separador decimal

      Al-Khuarismi e seus colegas fizeram mais do que traduzir o sistema hindu para o árabe: eles criaram o separador decimal — que em alguns países é o ponto e em outros, como o Brasil, é uma vírgula.

      Sabemos disso graças à obra do matemático Abu'l Hasan Ahmad ibn Ibrahim Al-Uqlidisi.

      O livro Kitab al-fusul fi al-hisab al-Hindi, dos anos 952-3 — o manuscrito mais antigo em que é proposto um tratamento de frações decimais, escrito apenas um século depois de Al-Khwarizmi — mostra que o mesmo sistema decimal pode ser ampliado para descrever não apenas números inteiros, mas também frações.

      A ideia do ponto decimal (ou da vírgula, no caso do Brasil) é tão familiar para nós que é difícil entender como vivíamos antes dele — parece incrivelmente óbvio depois de ser descoberto.

      Número de Euler (ou constante de Euler)
      O zero e o ponto decimal nos levaram ao infinito. Um ótimo exemplo é a constante de Euler, um dos números mais importantes da matemática


      Quem foi Al-Khuarismi ?

      Al-Khuarismi, o grande matemático que deu ao Ocidente os números e o sistema decimal, também era astrônomo — e levou seu conhecimento para a corte do califa al-Mam'un, em Bagdá.

      Ele era um emigrante da Pérsia oriental e um homem do seu tempo, a Idade de Ouro Islâmica.

      Sua forma de pensar era ousada, e ele gozava de um grande luxo: vivia rodeado por livros.

      Estátua de Al-Khwarizmi
      Al-Khwarizmi é um dos grandes ícones do Império Islâmico

      Graças ao Movimento das Traduções, que reuniu trabalhos científicos de todo o mundo conhecido até então, no fim do século 9, um importante corpus matemático grego — que incluía obras de Euclides, Arquimedes, Apolônio de Perga, Ptolomeu e Diofanto — foi traduzido para o árabe.

      Da mesma forma, a matemática babilônica e hindu antigas, assim como as contribuições mais recentes de sábios judeus, estavam disponíveis para estudiosos islâmicos.

      Al-Khuarismi estava na posição privilegiada de ter acesso a diferentes tradições matemáticas.

      A grega abordava principalmente a geometria, ciência de formas como triângulos, círculos e polígonos, que ensina a calcular área e volume. A hindu havia inventado o sistema decimal de dez símbolos que tornava as contas muito mais simples.

      Ao combinar a intuição geométrica com a precisão aritmética, imagens gregas e símbolos hindus, ele inspirou uma nova forma de pensamento matemático que hoje chamamos de álgebra.

      Al-Khuarismi foi tão importante para a matemática no ocidente que a própria palavra "algarismo" tem origem em seu nome.

      Al-Khwarizmi
      Al-Khwarizmi é considerado o pai da álgebra


      Al-Jabr

      No livro Al-Jabr w'al-Muqabala, de autoria de Al-Khuarismi, é a primeira vez que a palavra Al-Jabr ("álgebra") aparece.

      Ele começa dizendo: "Descobri que as pessoas necessitam de três tipos de números: unidades, raízes e quadrados."

      E mostra a seguir como resolver equações usando métodos algébricos.

      Equações quadráticas (ou de segundo grau) já eram resolvidas nos tempos da Babilônia. A diferença é que não havia fórmulas, e cada problema era resolvido individualmente:

      "Pegue a metade de 10, que é 5, e o quadrado, que é 25"; e mais tarde, outro diria: "Pegue a metade de 12, que é 6, e o quadrado, que é 36."

      E assim sucessivamente, eles passavam pelo mesmo processo repetidas vezes com números diferentes, conforme o caso.

      Fórmula matemática
      As fórmulas são libertadoras porque permitem resolver os mesmos tipos de problemas sem ter que começar do zero toda vez


      Para Al-Khuarismi,, a solução não estava nos números que precisávamos descobrir, mas em um processo que pudéssemos aplicar.

      Ou seja: o quadrado significa fazer a raiz quadrada e multiplicá-la por ela mesma. E essa fórmula é verdadeira qualquer que seja a raiz quadrada. Se for 5, é 5 vezes 5, que é 25; se for 3, é 3 vezes 3...

      Não usar números, mas símbolos, acabou sendo uma ideia incrivelmente libertadora, permitindo que você resolva problemas sem se prender a cálculos numéricos bagunçados.


      'Algoritmi de numero Indorum'

      Ao abandonar temporariamente a relação com números específicos, você manipula os novos elementos (x, y, z) de acordo com as regras que explica em seu livro: uma série de fórmulas.

      Os números que os símbolos representam em seu problema específico aparecerão milagrosamente no final.

      Pense em algo simples e cotidiano, era o que Al-Khuarismi queria ajudar a resolver:

      Ahmed morre e deixa 80 moedas de herança. Para um amigo, ele destina um quarto delas; para sua viúva, um oitavo; o resto é para seus três filhos. Cada fração corresponde a quanto?

      Al-Khwarizmi fez com que a incógnita fosse parte da equação: o que chamamos de X em álgebra.

      Equação simples

      O tratado escrito por Al-Khuarismi por volta de 825 sobre o sistema numérico indo-arábico foi traduzido no século 12 com o nome Algoritmi de numero Indorum, que significa "Algoritmi sobre os números hindu"; "Algoritmi" foi a tradução para o latim do nome Al-Khuarismi.

      Na obra, ele nos apresenta a essas fórmulas que, devido à tradução do seu nome, acabaram sendo chamadas de algoritmos.

      Al-Khuarismi permitiu que a álgebra existisse como uma área da matemática por mérito próprio, e se tornasse um fio condutor para quase todas as outras. A álgebra nada mais é do que uma série geral de princípios e, se você os compreender, a entenderá.


      Qual é a verdadeira importância da álgebra?

      Ela foi usada ao longo do tempo para resolver todos os tipos de problemas.

      Se a massa de uma bala de canhão for 'm' e a distância que tem que percorrer, 'd', você usa a álgebra para calcular o ângulo ideal para apontar o canhão.

      É o tipo de conhecimento que vence guerras.

      Ou podemos chamar a velocidade da luz de 'c', a mudança na massa de um núcleo atômico de 'm', e assim calcular a energia liberada com esta simples fórmula:

      Fórmula de Einstein
      A famosa equação de de Einstein determina a equivalência entre massa e energia


      Esse tipo de conhecimento é poderoso. Os números arábicos e a álgebra foram uma contribuição inestimátivel para a ciência ocidental, que permitiu desde a ida do homem à lua ao desenvolvimento do dispositivo com o qual você está lendo esta reportagem.

      A farsa equivalência.

      Pelo planeamento sem falhas, via-se bem que estávamos num congresso comunista organizado durante a pandemia. Pelas intervenções, dir-se-ia que a pandemia era a gripe espanhola de 1918.

      O Congresso do Partido Comunista Português foi um evento impressionante. Pelo planeamento sem falhas, pelo respeito escrupuloso do afastamento social, pelo zelo no uso das máscaras e na aplicação das medidas de higiene, via-se bem que estávamos num congresso comunista organizado durante a pandemia. Pelas intervenções, dir-se-ia que a pandemia era a gripe espanhola de 1918. Montaram um grande aparato de segurança, mas sem necessidade. Os comunistas estão imunes ao contágio, uma vez que a Covid está em 2020 e os comunistas em 1920.

      Devo dizer que foi com grande satisfação que passei uma tarde a ouvir os delegados. Na espiral de incerteza em que vivemos, é reconfortante saber que ainda há faróis de coerência por onde nos podemos nortear. O comunismo nunca muda e os comunistas não têm pejo em afirmá-lo. Gabo-lhes a constância dos princípios. São contra a propriedade privada e também contra a impropriedade privada: tudo o que têm a dizer que seja inconveniente, dizem-no em público.

      Gostei de todos os discursos. Cada qual, à sua maneira, contribuiu com uma camada de mofo para aquele sabor a antigo com que fiquei no fim da sessão. No entanto, tenho de salientar a comunicação do camarada Albano Nunes, membro da Comissão Central de Controlo (a CCC do PCP é uma espécie de polícia interna, ou seja, fiscaliza os comunistas como os comunistas gostavam de nos fiscalizar a nós).

      No início, confesso que tive receio. Ao ser apresentado, anunciaram que Albano Nunes iria “intervir sobre a actualidade da ideologia marxista-leninista”. Pensei: “Olha! Tu queres ver que há novidades? Que actualizaram o marxismo-leninismo e chegaram a novas conclusões? Substituíram por uma versão mais moderna? Espero que não estraguem!”

      Mas não tinha com que me preocupar. Felizmente, Albano Nunes é, segundo o site do PCP, um “intelectual”. Ora, para os comunistas, o “Intelectual” é o responsável por, através da repetição, decorar a doutrina e passá-la à próxima geração de “intelectuais”. “Marxismo-leninismo” e “novidades” são antónimos. Eis alguns dos destaques:

      Como escreve Marx ‘a arma da critica não pode substituir a critica das armas. O poder material tem de ser derrubado por poder material.’

      José Diogo Quintela

      Observador