quinta-feira, 6 de abril de 2023

Manga (estilo de banda desenhada oriunda do Japão) virada para adultos

Sueca, filha de pai português, Natália Batista é um dos nomes europeus de referência da manga - um estilo de banda desenhada oriunda do Japão. E lançou um livro de manga que não é aconselhável a crianças.

Muitos de nós crescemos a ver filmes animados de origem japonesa. "Marco" e "Heidi" foram dos primeiros grandes exemplos de grande sucesso deste estilo de desenho - manga -, que conquistou os mais novos nos quatro cantos do Mundo. Um estilo que marcou gerações de crianças e que continua a ser uma marca da escola japonesa, mas que se alargou a muitos outros países, nomeadamente na Europa. Muitas das crianças de ontem são, hoje, dedicados desenhadores de manga. Em alguns países da Europa, como na Suécia, a exemplo do Japão, surgiram escolas com cursos especializados em desenho manga, permitindo o surgimento de uma nova geração de cartunistas.

É o que acontece com Nátalia Batista, uma jovem sueca de 23 anos, filha de pai português e mãe polaca. Natália é mesmo considerada uma das principais desenhadoras do movimento "euromanga", que envolve um largo número de cartunistas europeus. Recentemente, lançou um livro de banda desenhada, "A song for Elise", que está a alcançar grande êxito, mas também alguma polémica, pois a publicação é dedicada aos adultos, isto num estilo de desenho associado ao público infantil e adolescente.

Embora a manga proibida a crianças não seja novidade, pois existem filmes e livros com manga erótica e pornográfica - o que, aliás, acontece com todos os géneros de banda desenhada -, esta variante é vista pela comunidade internacional de desenhadores como algo quase pirata, que não é devidamente reconhecido. Mas com "A song for Elise", Nátalia Batista lança "pela primeira vez" um livro de manga para adultos, mas com uma temática completamente diferente, elogiado e reconhecido pelos "puristas". Um novo estilo temático, que até já tem nome, japonês, naturalmente: "Yaoni manga".

"Cresci a ler e a ver filmes de manga, mas como as crianças crescem, a manga, naturalmente, também deve evoluir", comentou ao JN Nátalia Batista, admitindo que "a manga é sempre associada às crianças", pelo que o seu livro surpreende, mas "pode levar até aos jovens assuntos que os interessam, num estilo de desenho de que sempre gostaram".

A sua paixão pela manga é de inteira dedicação: estudou este estilo numa escola de artes sueca, em Malmo, e profissionalizou-se neste tipo de desenho. O estudo da língua e cultura japonesas é outro dos seus principais interesses, pois "a manga continua a ser uma imagem de marca japonesa". Mas também com uma larga legião de seguidores na Europa. O movimento "euromanga" já chegou a Portugal, sobretudo através das publicações "NCreatures".

Em "A song for Elise", a autora aborda questões como o suicídio e a homossexualidade, construindo uma história à volta de três personagens, Andi, Marcus e Elise, que, revelou, se baseia "em situações semelhantes" vividas por amigos seus. O livro, "o primeiro deste tipo a ser publicado na Europa", pretende ser "um reflexo das questões actuais da nossa sociedade, envolvendo ambientes e situações próprias dos jovens de hoje". Com desenhos a preto e branco e texto em Inglês, "A song for Elise" está disponível na Internet, em asongforelise.smackjeeves.com.

A comunidade de desenhadores de manga é crescente na Europa, "contactamos uns com os outros", e Portugal não é excepção. Já com uma publicação traduzida para Português, "Only you", Natália Batista espera que este novo livro possa chegar a um largo número de jovens adultos, pois a sua manga cresceu como eles, prolongando nos desenhos os seus sonhos e ansiedades.

jn 21 Agosto 2009

TAP: T de trafulhices, A de asco e P de promiscuidade

João Miguel Tavares

Publico

O conjunto de trapalhadas desta maioria absoluta, que tem apenas – convém recordar – um ano de vida, atingiu níveis inenarráveis de aldrabice, abuso de poder e incompetência.

Sejamos honestos: se o primeiro-ministro português se chamasse Pedro Santana Lopes, o Presidente da República estaria neste momento a preparar a queda do Governo e a dissolução do Parlamento. Dispenso essa dissolução, porque o PS deve, por uma vez, beber o cálice até ao fim. Mas o conjunto de trapalhadas desta maioria absoluta, que tem apenas – convém recordar – um ano de vida, atingiu níveis inenarráveis de aldrabice, abuso de poder e incompetência. Eu já esperava que a comissão de inquérito à TAP revelasse jogadas de bastidores e golpadas políticas em barda. Mas confesso que não estava preparado para este Evereste de trafulhices, asco e promiscuidade.

O espaço desta página não chega para descrever as inúmeras barbaridades que ouvimos na passada terça-feira. Mas posso resumi-las em duas palavras: todos mentiram. Christine Ourmières-Widener não dava um passo na TAP sem o Ministério das Infra-estruturas ser informado. A CEO disse no Parlamento que “não estava à espera de tão alta pressão política” e que ela impediu a TAP de “concentrar-se no seu negócio”. O menor vestígio de independência na sua actuação era alvo de raspanetes por parte do secretário de Estado das Infra-estruturas. “Christine, outra vez”, escreveu Hugo Mendes, exasperado, “TODAS as questões relacionadas com o Governo devem ser encaminhadas através de nós. A TAP é a única empresa que se comporta assim. Não há ligações directas entre a TAP e outros ministérios.”

Hugo Mendes é a caricatura do boy socialista: licenciado em Sociologia pelo ISCTE (claro); assessor da ministra da Educação entre 2006 e 2009; adjunto do secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro entre 2009 e 2011; assessor do Grupo Parlamentar do PS entre 2011 e 2015; adjunto do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares entre 2015 e 2019; chefe de gabinete do ministro das Infra-estruturas entre 2019 e 2020; secretário de Estado entre 2020 e 2022. Na expressão “secretário de Estado”, a palavra a reter é “secretário” – o secretário de Pedro Nuno Santos. Informava Pedro Nuno de tudo e aprovou tudo com a bênção de Pedro Nuno.

Hugo Mendes chegou a este ponto inconcebível: após o indigno comunicado conjunto dos ministérios das Finanças e das Infra-estruturas de 26 de Dezembro de 2022, no qual era exigido à TAP esclarecimentos sobre a indemnização a Alexandra Reis, Hugo Mendes convocou uma reunião com a CEO da companhia para redigir o esclarecimento por si exigido. Vale a pena repetir: o Ministério das Infra-estruturas não sabia de nada à hora do almoço, e ao final da tarde o secretário de Estado estava a ajudar a administração da TAP a responder àquilo que era suposto ele não saber.

Percebem o asco? Então agora juntem-lhe a promiscuidade das reuniões promovidas por assessores do Governo e deputados do PS para instruir o depoimento de Christine Widener em vésperas de audição parlamentar. Acrescentem as mentiras do CFO da TAP. Somem os fretes do inspector-geral das Finanças (onde ninguém fala inglês) ao patrão. Adicionem o marido da CEO a querer vender equipamentos à companhia gerida pela mulher. Completem com o voo comercial de Maputo que Hugo Mendes quis alterar para dar graxa ao Presidente da República, porque ele é o “principal aliado político” do PS e, “se o humor dele mudar, tudo se perde”. Este é o estado miserável do país. Este é o estado miserável do PS. A TAP devia oferecer um bilhete de avião a cada português, para podermos fugir daqui para fora.

https://www.publico.pt/2023/04/06/opiniao/opiniao/tap-t-trafulhices-asco-p-promiscuidade-2045173


Se for anunciado para você online, você provavelmente não deveria comprá-lo. Aqui está o porquê.



Se você viu recentemente um anúncio no Facebook do Jeremy's Razors, que se autodenomina um aparelho de barbear "sem acordar" para homens, você pode muito bem ser pai de crianças em idade escolar que gostam de Ultimate Fighting, chocolate Hershey's, caça ou Johnny Cash. Isso está de acordo com [a biblioteca de anúncios do Facebook] , que descreve o público para o qual os profissionais de marketing direccionam seus anúncios.
Eu posso ver por que Razors de Jeremy está concentrando seus dólares em anúncios em homens que podem apreciar sua mensagem hipermasculina. Mas o inverso não é tão claro: esses homens estão em melhor situação por terem recebido uma navalha “anti-acordada”?
No mundo da média tradicional, os anúncios são vendidos no contexto da área em que as publicações são vendidas: talvez a Jeremy's Razors possa favorecer a publicidade na revista Deer & Deer Hunting, por exemplo. Mas online, muitos anúncios são vendidos com base nos muitos detalhes que os anunciantes colectaram sobre seu comportamento e interesses com base em sua actividade online.

As empresas de tecnologia rastreiam quase todos os cliques de um site para outro, desenvolvendo perfis detalhados de seus interesses e desejos e disponibilizando esses dados para os anunciantes. É por isso que você recebe aqueles anúncios assustadores em seu feed do Instagram ou em sites que parecem saber do que você está falando.A capacidade de rastrear pessoas tornou-se uma vantagem imbatível para a indústria de publicidade online, que cresceu para um mercado de US$ 540 bilhões em todo o mundo, de acordo com a agência de média GroupM, superando todas as outras formas de publicidade, incluindo TV, rádio e jornais. Ele impulsionou o crescimento maciço do Google e do Facebook, bem como de centenas das chamadas empresas “adtech” que actuam como intermediárias entre os compradores e vendedores de informações de segmentação.

Mas a ascensão do microtargeting veio com um preço exorbitante. “Há evidências limitadas que sugerem que os ganhos de eficiência e eficácia para anunciantes e editores desse sistema superam o impacto social”, conclui um estudo de 274 páginas publicado pela Comissão Europeia no início deste ano. Ele exige a reforma do modelo de negócios de vigilância.

Já sabemos que o rastreamento da web dizimou os editores. Isso foi particularmente devastador para os meios de comunicação tradicionais: a receita global de jornais caiu de US$ 107 bilhões em 2000 para quase US$ 32 bilhões em 2022, de acordo com o GroupM. Isso é um golpe para a democracia: estudos mostram que a votação diminui e a corrupção aumenta em comunidades sem veículos de notícias fortes.

O microtargeting também permitiu que os anunciantes discriminassem de maneiras difíceis de serem detectadas pelos reguladores. É ilegal, por exemplo, que os anunciantes usem linguagem em seus anúncios sugerindo que empregos, moradia ou oportunidades de crédito estão sendo oferecidos a pessoas de uma determinada raça, sexo, idade ou outras características protegidas. Mas a segmentação de anúncios significa que os anunciantes podem ocultar suas preferências no algoritmo. O Facebook demonstrou repetidamente ter activado a publicidade discriminatória . (A empresa sempre argumentou no tribunal que não é responsável pelas escolhas que os anunciantes fazem em sua plataforma e, desde então, concordou em mudar seu sistema de entrega de anúncios.)

O microtargeting também permite que os políticos transmitam mensagens divisivas directamente a grupos de nicho. Em 2019, a equipe de campanha do presidente Donald Trump inundou o Facebook com anúncios direccionados com mensagens inflamatórias. Em 2016, uma investigação do Senado descobriu que agentes russos espalharam anúncios no Facebook direccionados a negros americanos com o objectivo de desencorajá-los a votar. Além de tudo isso, os anúncios direccionados também não estão ajudando os consumidores. No ano passado, pesquisadores da Carnegie Mellon e da Virgínia Tech apresentaram um estudo sobre as implicações dos anúncios direccionados para o bem-estar do consumidor. Os resultados foram tão surpreendentes que eles repetiram para garantir que suas descobertas estivessem correctas.

O novo estudo , publicado online esta semana, confirmou os resultados: os anúncios direccionados exibidos para outro grupo de quase 500 participantes estavam lançando produtos mais caros de fornecedores de qualidade inferior do que produtos idênticos que apareceram em uma simples pesquisa na web.

Os produtos exibidos em anúncios direccionados eram, em média, cerca de 10% mais caros do que os que os usuários poderiam encontrar pesquisando online. E os produtos tinham duas vezes mais chances de serem vendidos por fornecedores de qualidade inferior, conforme medido por suas classificações pelo Better Business Bureau.

“Ambos os estudos destacaram consistentemente um problema generalizado de fornecedores de baixa qualidade em anúncios direccionados”, escrevem os autores, Eduardo Abraham Schnadower Mustri, Ph.D. da Carnegie Mellon University. aluno, Idris Adjerid, professor da Virginia Tech, e Alessandro Acquisti, professor da Carnegie Mellon. Os autores postulam que os anúncios direcionados podem ser uma maneira de fornecedores menores alcançarem os consumidores – e “uma parte considerável desses fornecedores pode, de fato, ser indesejável para os consumidores porque são de qualidade inferior”.

A qualidade parece ser um problema com a Jeremy's Razors, que gastou mais em publicidade no Facebook durante o período de 30 dias encerrado em 26 de março, gastando mais de US$ 800.000. Quando verifiquei as avaliações de Jeremy no Facebook, muitos clientes disseram que gostaram mais da mensagem política do produto do que da própria navalha. “Se você gosta de navalhas que dão a sensação de que alguém está puxando seus pelos faciais com uma pinça, uma de cada vez, então as navalhas de Jeremy são as suas navalhas”, escreveu um deles . A navalha tem uma classificação de 2,7 estrelas (de 5) com base em mais de 280 avaliações. O governo pode finalmente estar começando a tomar medidas para conter a vigilância comercial. O Congresso está considerando um projeto de lei de privacidade abrangente , a Comissão Federal de Comércio está redigindo novos regulamentos de privacidade e uma improvável coalizão de senadores, incluindo Ted Cruz e Elizabeth Warren, propôs na semana passada um projeto de lei que encerraria conflitos de interesse entre empresas de rastreamento de anúncios.

A indústria publicitária está se preparando para a guerra. “Os extremistas estão vencendo a batalha por corações e mentes em Washington DC e além”, declarou o CEO da associação comercial de mídia digital e marketing em janeiro no elegante retiro anual da indústria em Marco Island, Flórida. “Não podemos deixar isso acontecer.”

Em março, uma coalizão de organizações comerciais e empresas, incluindo grupos de publicidade – que se autodenomina Privacy for America – enviou uma carta ao Congresso alertando que qualquer dano ao modelo de negócios de vigilância “responsável orientado por dados” poderia custar aos consumidores US$ 30.000 em valor econômico cada. ano.

No entanto, o número de US$ 30.000 vem de um estudo publicado em 2019 , no qual os pesquisadores pediram aos participantes que considerassem perder o acesso a serviços de internet como mecanismos de busca, mapas digitais e e-mail. Em seguida, foi perguntado aos participantes quanto eles pagariam para manter o acesso a esses serviços por um ano. Os participantes estavam dispostos a pagar mais de US$ 17.000 para manter o acesso à pesquisa, mais de US$ 8.000 para manter o acesso ao e-mail e mais de US$ 3.000 para manter o acesso aos mapas, constatou o estudo.

Pesquisa, mapas e e-mail não justificam anúncios assustadores. A pesquisa e os mapas são financiados principalmente por anúncios contextuais - anúncios relacionados à consulta que os usuários digitam no mecanismo de pesquisa ou no mapa. Enquanto isso, a maioria dos serviços de e-mail é gratuita para uso limitado, mas ganha dinheiro com a venda de recursos adicionais. Existem alguns anúncios em e-mail gratuito, mas não é uma grande parte do ecossistema de publicidade. Acontece que esse número de $ 30.000 é um argumento melhor para o valor da publicidade contextual do que da publicidade de vigilância.

Jeremy's Razors não precisa saber sua estrutura familiar, seu desporto favorito ou o nome do seu cantor favorito. A Jeremy's poderia simplesmente colocar os seus anúncios anti-despertar perto do conteúdo anti-despertar.

Não é hora de considerarmos um futuro que não envolva empresas espionando-nos?

Por: Julia Angwin

https://www.nytimes.com/2023/04/06/opinion/online-advertising-privacy-data-surveillance-consumer-quality.html

terça-feira, 4 de abril de 2023

Braço direito de Pedro Nuno avisou CEO da TAP que "única porta de entrada no Governo" era o seu Ministério. A defesa de Christine Widener.

Resposta de Christine Widener a contestar demissão da TAP diz que Hugo Mendes a avisou de que não devia falar com outros ministérios. Observador teve acesso à contestação da gestora francesa.

A presidente executiva da TAP foi repreendida pelo Ministério das Infraestruturas por abordar outros ministérios e foi avisada de que não devia comunicar ou contactar com outras áreas do Governo para além do gabinete comandado por Pedro Nuno Santos que tinha o pelouro operacional da empresa.

Numa nota incluída na audiência prévia de Christine Ourmières-Widener, no quadro do processo de demissão desencadeado pelo Governo na sequência da auditoria da Inspeção-Geral das Finanças à saída de Alexandra Reis na TAP, a gestora revela uma mensagem que recebeu do então secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Mendes, depois de ter sabido de um contacto seu feito para o Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

“Mas Christine, outra vez: TODAS as questões relacionadas com o Governo devem ser encaminhadas através de nós. Isto já aconteceu tantas vezes que já não sabemos o que dizer. A TAP é a única empresa que se comporta assim. O MIH (Ministério das Infraestruturas e Habitação) é a única porta de entrada no Governo. Não há ligações diretas entre a TAP e outros ministérios”. A mensagem imputada a Hugo Mendes data de junho de 2022 e é citada no documento entregue na semana passada à Direção-Geral do Tesouro e Finanças, a que o Observador teve acesso.

Nesta audiência prévia exercida por escrito, a CEO acusa o atual Governo de seguir um simulacro jurídico e uma estratégia política para lhe atribuir culpas, para além de a deixar sem instruções para liderar a empresa neste momento sensível. Revela que a TAP pagou só no último ano 35 indemnizações superiores a 200 mil euros a trabalhadores, incluindo 12 acima dos 250 mil euros euros e um de 330 mil euros. E acusa o acionista da TAP de a ter despedido em direto.

Forçoso é concluir que o Governo degradou a audiência prévia a uma mera formalidade não essencial, desprovida de qualquer sentido útil, sendo irrelevante tudo o que a requerente possa vir aqui dizer. Um pró-forma para cumprir calendário, um mero simulacro jurídico destinado a dar aparente cobertura legal a uma decisão política – essa sim prévia e definitivamente já tomada – comunicada publicamente, através de conferência de imprensa, a 6 de março de 2023, pelos ministros das Finanças e das Infraestruturas, com a absoluta perversão do direito da requerente a participar na decisão do procedimento”, escreve a defesa da ainda CEO da TAP.

Na resposta à DGTF, Christine Ourmières-Widener envolve o ainda administrador financeiro da TAP, Gonçalo Pires, no conhecimento de detalhes da solução de saída de Alexandra Reis. Christine é ouvida esta terça-feira na comissão parlamentar de inquérito à gestão pública da TAP, onde o CFO da TAP já foi ouvido e um dia antes de os deputados questionarem Alexandra Reis.

[Já saiu: pode ouvir o quarto episódio da série em podcast “O Sargento na Cela 7”. E ouça também o primeiro episódio, o segundo episódio e o terceiro episódio. É a história de António Lobato, o português que mais tempo esteve preso na guerra em África.]

A mensagem de reprimenda de Hugo Mendes é uma das “provas” invocadas para justificar porque é que a presidente executiva da TAP não estabelecia contacto com o Ministério das Finanças, quem tinha a missão de exercer a função acionista na empresa e que não terá sido informado da decisão de fevereiro de 2022 de pagar uma indemnização de meio milhão de euros para Alexandra Reis abandonar o cargo de administradora da empresa antes do fim do mandato.

Em regra, refere o contraditório, as suas comunicações com o Ministério das Finanças eram feitas com o conhecimento de Hugo Mendes e de Gonçalo Pires. Christine indica ainda o chairman, Manuel Beja como estando envolvido nestas comunicações.

A gestora reafirma o que já disse no Parlamento que a sua relação com a tutela era quase na totalidade estabelecida com o Ministério das Infraestruturas, nas pessoas de Hugo Mendes e de Pedro Nuno Santos. As trocas de mensagens remetidas em anexo à audiência prévia são reveladoras do grau de envolvimento dos dois antigos governantes na solução que resultou no pagamento de meio milhão de euros, com a atribuição ao ex-ministro (através de uma mensagem enviada por Hugo Mendes à presidente da TAP) de uma posição considerando que o valor de 560 mil euros (antes de se chegar ao valor final) mais férias por gozar era demasiado alto.

Em nome também de Pedro Nuno Santos, o então secretário de Estado, manifesta a preocupação: “Queremos tratá-la (Alexandra Reis) com justiça, mas não queremos causar demasiada disrupção quando as pessoas souberem destes números”.

As Finanças não terão, assim, sido informadas nem pelo Ministério então liderado por Pedro Nuno Santos, que se demitiu, tal como o seu secretário de Estado, Hugo Mendes, no final do ano passado, na sequência deste caso; nem pela TAP. Sendo que o afastamento de Alexandra Reis sem o conhecimento das Finanças e sem uma assembleia geral são algumas das irregularidades apontadas pela Inspeção-Geral de Finanças numa auditoria cujas conclusões foram usadas como argumento para demitir, em direto e por conferência de imprensa, a presidente executiva da TAP e o chairman, os administradores da empresa que assinaram o contrato de rescisão.

Na defesa conduzida pela sociedade de advogados Vasconcelos, Arruda & Associados, Christine Ourmières-Widener alega não ter tomado qualquer decisão material relevante, tendo-se limitado a receber a informação do advogado da TAP (César Sá Esteves da SRS Legal) e submeter todas as decisões para aprovação da tutela. E para o confirmar anexa uma longa lista de mensagens trocadas, sobretudo com Hugo Mendes, sobre o valor e detalhes da negociação. Exemplo desses pormenores é a troca de mensagens a propósito do número de férias por gozar (e que teriam de ser remuneradas no acordo) e o facto de Alexandra Reis ter dispensado uma compensação para não ir trabalhar para a concorrência.

Mensagens mostram que Gonçalo Pires foi informado de parte da negociação

Sobre as férias por gozar de Alexandra Reis, Christine confessa em mensagens que não quer colocar a pergunta ao departamento de recursos humanos da TAP para não levantar suspeitas. E esta foi precisamente uma das matérias com as quais trocou mensagens com o administrador financeiro que, nas declarações prestadas aos deputados na semana passada, insistiu na desvalorização do seu papel em todo o processo: “Não tive qualquer envolvimento na preparação, elaboração, negociação, decisão ou fecho de qualquer valor”.

O CFO foi poupado na auditoria da IGF, e ainda se encontra em funções, o que suscita incompreensão da parte da ainda presidente executiva.

“A IGF achou pertinente ouvir, conforme resulta do Projeto de Relatório, o CFO, Gonçalo Pires. Existe apenas uma referência a este depoimento e consta de uma nota de rodapé do Projeto de Relatório. (…) No Relatório final, desaparece a referência ao depoimento do CFO. Ou seja, a IGF achou pertinente ouvir o CFO, mas bastou-se com a mera indicação de que CFO não esteve envolvido no processo de cessação de funções ou no Acordo celebrado e, por esse motivo, não informou o Ministério das Finanças”. Sobre o CFO a defesa de Christine, numa nota de rodapé da audiência prévia, ainda atira: “Parece pouco credível que a IGF não o tenha questionado sobre se a requerente [Christine] lhe tinha dado conhecimento de todo o processo? Parece pouco credível que o mesmo tenha respondido negativamente, pois, como se demonstrará, existem inúmeras provas que a requerente manteve sempre o CFO informado de tudo”.

Segundo a troca de mensagens anexas entre os dois, Gonçalo Pires saberia desde 22 de janeiro de 2022 da intenção de Christine de mudar a composição da comissão executiva com uma alteração dos pelouros atribuídos a Alexandra Reis, mas também da sua provável saída da administração, tendo defendido que o tema não devia ser discutido em comissão executiva porque não seria bom para a dinâmica da equipa.

O CFO também foi questionado sobre o número de férias por gozar da sua então colega de administração e cujo valor (mais de 100 mil euros) fez parte do pacote final do acordo. Não há, no entanto, nas mensagens que Christine coloca na sua defesa uma referência expressa sobre o montante da indemnização que o administrador financeiro alegou desconhecer (disse mesmo que só conheceu os valores pelas notícias saídas no final do ano passado). O CFO no Parlamento explicou que apesar de ter a tutela do departamento de tesouraria que efetuou o pagamento, o valor da indemnização tinha cabimento orçamental e não precisava da sua autorização,

Nas mais de cinco horas em que foi questionado, Gonçalo Pires reconheceu ter sabido antes do acordo (mas não do valor) final de 4 de fevereiro da saída de Alexandra Reis da empresa que foi comunicado formalmente a todo o conselho de administração, mas não se recordou do quando (nas mensagens incluídas na audiência prévia Christine revela um email de Manuel Beja para os administradores executivos e não executivos a anunciar a saída de Alexandra Reis e esse email tem data de 4 de fevereiro de 2022 às 22h55).

A 2 de fevereiro, há uma troca de mensagens entre Christine e o seu CFO reveladora de um grau de confiança entre os dois, nas quais Gonçalo Pires é informado da existência de um acordo (sem referência a valor), ao qual responde com emojis e a indicação “pensava que ia demorar mais tempo. Parabéns”.

Esta cumplicidade é espelhada em outras mensagens trocadas já a 4 de fevereiro de 2022 a propósito da exigência de Manuel Beja de assinar o acordo de saída de Alexandra Reis presencialmente e não através de uma assinatura digital. “O que é que ele quer agora?”, questionou Gonçalo Pires para receber respostas (algumas com emojis) sobre essa exigência. Christine, aliás, dá conta que se recusou a adiar o acordo, insistindo para que ficasse fechado a uma sexta-feira, 4 de fevereiro (não deixando o caso arrastar-se para a segunda seguinte).

Comunicação intensa e um ponto de interrogação sobre as eleições legislativas

O anexo ao contraditório revela que entre WhatsApps, SMS, e emails terão sido trocadas mais de 100 mensagens entre os principais protagonistas do lado da TAP em pouco menos de um mês com especial foco para a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro de 2022 e o facto do processo negocial ter atravessado o período das eleições não foi ignorado. Quando se aguardava uma resposta de Alexandra Reis à última proposta da TAP a 30 de janeiro, o advogado da TAP pergunta “hoje temos um grande ponto de interrogação”. Do outro lado, Christine responde com outra pergunta: “Eleições?” Ao que o advogado responde sim e a gestora diz que está a ver os resultados na televisão. Nas legislativas desse domingo, o PS ganhou com a maioria absoluta e a negociação prosseguiu até ao acordo obtido a 4 de fevereiro.

Sobre a violação das regras do estatuto do gestor público de uma solução negociada para um acordo de saída (não prevista neste normativo e das normas estatutárias da TAP de que é acusada, e que consiste no fundamento para a sua demissão), a defesa de Christine lembra que o desconhecimento sobre a violação dessas regras legais foi partilhado com muitas pessoas, algumas  das quais se mantêm em funções: como o administrador financeiro da TAP, mas também a então chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos (que está com o atual secretário de Estado das Infraestruturas); o administrador não executivo da TAP (Patrício Castro), e o departamento jurídico da TAP que “recebeu o acordo, conhecia os valores envolvidos e agilizou a formalização da renúncia”.

Neste exercício de audiência prévia, a defesa de Christine Ourmières-Widener mostra ainda surpresa pelo facto de a reunião em que estiveram presentes (segundo a IGF foi por Teams) o ex-secretário de Estado, Hugo Mendes, a antiga chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, Maria Araújo, e o assessor jurídico da TAP (César Sá Esteves) onde foram apreciados os termos finais do acordo estar a ser “sucessivamente desvalorizada ao longo de todo o processo”. Apesar de “ter sido a reunião determinante para o então ministro, Pedro Nuno Santos, ter tomado a decisão final de aprovar os termos e condições do acordo de saída da Engª Alexandra Reis que os advogados haviam alcançado”.

Uma palavra ainda para o papel do consultor jurídico da TAP neste processo, e com quem a empresa entretanto terá rescindido a avença para a área laboral que existia desde 2020. A gestora diz que o ex-ministro Pedro Nuno Santos “recorreu novamente à assessoria jurídica da SRS Legal” quando convidou para presidente executiva da NAV Alexandra Reis, quatro meses depois de ter validado a sua saída paga da TAP. A resposta vai ao ponto de indicar que a contratação para a NAV “foi operada pelo ministro Pedro Nuno Santos, coadjuvada pelo Dr. César Sá Esteves”.

Este advogado da SRS Legal também tinha um contrato com a NAV para a área laboral, mas não há indicação na auditoria da IGF de que terá assessorado o ministro. Uma das ilegalidades apontadas pela IGF foi a não devolução por parte de Alexandra Reis de uma parte da indemnização recebida da TAP aquando da sua ida para a NAV, como determina o estatuto do gestor público. A gestora argumenta que ninguém a avisou que o teria de fazer e mostrou-se publicamente disponível para devolver tudo o que foi declarado ilegal na auditora da IGF.

https://observador.pt/especiais/braco-direito-de-pedro-nuno-avisou-ceo-da-tap-que-unica-porta-de-entrada-no-governo-era-o-seu-ministerio-a-defesa-de-christine-widener/

sexta-feira, 31 de março de 2023

Há mais um caso Alexandra Reis. Ex-administrador da TAP recebeu 1,35 milhões de pré-reforma. E é ilegal.

Opinião:

Mário José Gomes de Freitas Centeno, como ministro das finanças e Pedro Nuno de Oliveira Santos, como Ministro das Infra-estruturas e da Habitação, e António Luís Santos da Costa, como primeiro ministro, e ainda Catarina soares Martins pelo BE, Jerónimo Carvalho de Sousa pelo PCP, Heloísa Augusta Baião de Brito Apolónia, por “Os verdes” e André Silva, pelo PAN, que deu o aval, foram muito prolixos, para com Maximilian Otto Urbahn, com o dinheiro dos contribuintes!

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TAP tentará recuperar em tribunal verba atribuída em acordo de pré-reforma, adiantou o gestor financeiro. Acordo de 2018 foi considerado ilegal em 2022. TAP verifica se existem outras situações.

A TAP fechou um acordo de pré-reforma com um antigo administrador da empresa, Maximilian Otto Urbahn, pelo qual pagou 1,35 milhões de euros. O acordo foi fechado em 2018, mas entretanto considerado "ilegal" por advogados da TAP. A companhia aérea vai tentar recuperar o valor e pediu a uma equipa externa que avaliasse outras situações. Este caso – um pagamento elevado a um Ex-administrador considerado ilegal – mostra que na TAP houve, pelo menos, mais esta situação com contornos semelhantes à de Alexandra Reis, a Ex-administradora que viu anulada uma indemnização de 500 mil euros.
O caso do acordo de pré-reforma foi revelado pela deputada do BE, Mariana Mortágua, na comissão parlamentar de inquérito à TAP. A parlamentar, que é também candidata a líder do partido, aproveitou a presença do administrador financeiro da TAP, Gonçalo Pires, na Assembleia da República para apurar as diligências que a empresa está a fazer.
Os dados referidos por Mariana Mortágua indicam que o Ex-administrador teve um contracto de director executivo comercial com um salário de 420 mil euros por ano (30 mil euros por mês), um prémio que podia ir até 315 mil euros, um subsídio mensal para o filho (de 1000 euros por mês), um subsídio anual de alojamento de 84 mil euros, entre outras regalias. Estas condições faziam parte do contracto assinado por Fernando Pinto, que geriu a empresa entre 2000 e 2018, dois anos antes de sair.

Já em 2017, Maximilian Otto Urbahn – com o mesmo contracto de trabalho – muda de funções assumindo outra direcção e em 2018, em concreto no último dia do ano, há lugar ao acordo de pré-reforma com suspensão de prestação de trabalho no valor de 27 mil euros por mês. Um ano mais tarde dá-se uma redução temporária da pré-reforma, já que o gestor assume o lugar de administrador não executivo. A remuneração nesta função era de 84 mil euros. Durante este mandato, recebeu a reforma a título de pré-reforma de 21 mil euros, voltando depois aos 27 mil euros.

Contas feitas, o acordo de pré-reforma deu-lhe 1,35 milhões de euros entre Dezembro de 2018 e Dezembro de 2022.

Pré-reforma cancelada
Gonçalo Pires, o actual administrador financeiro da TAP, considerou o montante "bastante avultado", afirmou que esta situação aconteceu durante a administração privada e avançou que os "advogados concluíram que era ilegal". Dando assim lugar ao "cancelamento" da pré-reforma. Pires não soube explicar em detalhe o porquê da ilegalidade, sinalizando que julga ser por o Ex-administrador ter mudado de funções para conseguir a pré-reforma.

Questionado sobre se o valor vai ser devolvido, o gestor falou das diligências que a TAP está a fazer: "Teremos de recorrer ao tribunal para recuperar esse dinheiro." O gestor não tem certeza exacta do ponto de situação deste processo – ou seja, se esse recurso até já avançou (ou não). O responsável disse ainda que uma "equipa externa" à TAP está a fazer uma avaliação de todas as situações, isto depois de ter sido questionado sobre se entende que houve una intenção de fraude da parte do antigo líder da empresa.

https://www.publico.pt/2023/03/30/politica/noticia/ha-caso-alexandra-reis-exadministrador-tap-recebeu-135-milhoes-prereforma-ilegal-2044489

quinta-feira, 30 de março de 2023

IVA a zero em 44 produtos permite 9 euros de poupança às famílias

Os apoios aos produtores agrícolas e a verba que o Estado vai deixar de receber com a eliminação temporária do IVA numa lista de bens vão custar 600 milhões de euros.



Como António Costa mudou a lei para montar uma central de propaganda

Com uma portaria – á socapa - o Governo autorizou o CEGER a nomear 23 “consultores” e nove “técnicos de comunicação”. O que permitiu reforçar, com discrição e sem anúncios, a estrutura liderada por João Cepeda. O objectivo é “trabalhar” a imagem do governo e principalmente do PS, sendo pagos com o dinheiro dos contribuintes.

A 17 de Novembro de 2022 foi publicada em Diário da República, com dois meses e meio de atraso, a nomeação de Luís Leal Miranda como “técnico de comunicação do Centro de Gestão da Rede Informática do Governo (CEGER), com efeitos a partir de 1 de Setembro anterior. Ora, o CEGER é o “organismo responsável pela rede informática que serve o Governo e o apoia nas tecnologias de informação e de comunicações e nos sistemas de informação”, de acordo com a definição no próprio site. Assim, a contratação de Leal Miranda pode parecer inusitada, já que não lhe são conhecidas competências na área da informática ou de gestão de redes. Foi jornalista, copywriter, de novo jornalista freelance e escrevia sobretudo sobre comida, com algumas incursões em áreas culturais (música e cinema por exemplo) e criou uma pequena editora, a Livraria Plutão. Num texto de 2020 no Observador (a mais recente colaboração que foi possível identificar como jornalista), escrevia “Do bolo de arroz ao pastel de nata: cinco histórias açucaradas da nossa pastelaria” e dissertava sobre o pão de ló, o bolo de arroz, o guardanapo, o pastel de nata e o travesseiro, essa “almofada de doce de ovo e amêndoa [que] tem uma das massas folhadas mais problemáticas da nossa pastelaria”. A contratação levanta duas perguntas: porque se lembrou o CEGER de ir contratar Luís Leal Miranda? E pode?

A ligação Time Out
A primeira talvez possa ser explicada porque Miranda foi jornalista da revista Time Out, onde também se dedicava sobretudo à área gastronómica, e em 2019 chegou a exercer o cargo de director, durante cinco meses. Ora, a Time Out é o projecto empresarial fundado por João Cepeda, director de comunicação do Governo desde Junho de 2022. Quem conhece o percurso dos dois descreve mesmo Luís Leal, a certa altura, como uma espécie de “braço-direito” de Cepeda na revista, embora este tivesse entretanto transitado para os mercados.
E sim, pode ser nomeado. Isto, porque em 31 de Maio do ano passado, ou seja, exactamente sete dias antes de Cepeda tomar posse como director de comunicação do Governo, o executivo operou uma verdadeira revolução na orgânica do CEGER. Através de uma portaria (uma decisão do Governo que não passa pela Assembleia da República), o quadro de pessoal do CEGER passou a comportar a possibilidade de contratar mais 23 consultores externos e nove técnicos de comunicação em comissão de serviço. Um quadro de pessoal que antes consistia de 35 elementos, passa a contabilizar, hoje, um total de 58. A portaria é assinada pelo secretário de Estado da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, e pela secretária de Estado do Orçamento, Sofia Batalha. O texto da alteração justifica assim a expansão: “É necessário assegurar que o CEGER tem ao seu dispor os meios necessários para assegurar as suas atribuições, designadamente os meios humanos adequados para assegurar a segurança da RING [Rede Informática do Governo], capacitando-o para uma melhor resposta às exigências tecnológicas actuais, ao desenvolvimento de soluções relacionadas com a desmaterialização de processos, com a mobilidade de acessos, ou com a manutenção de infra-estruturas de rede, sem descurar os aspectos relacionados com a segurança.” Não há, contudo, no texto da portaria, nenhuma referência a “técnicos de comunicação” para desempenhar funções, por exemplo, nos conteúdos do portal do Governo na Internet – e a designação apenas surge no anexo com o mapa do quadro de pessoal. Não fica sequer claro, por exemplo, se alguns “consultores” dos novos 23, e não apenas os “técnicos de comunicação”, poderão também trabalhar em funções mais técnicas no grupo que agora centraliza a comunicação do Governo, sob a direcção de Cepeda. E mesmo a referência à gestão do portal do Governo apenas surge na “carta de missão” no site do CEGER, mas sem ligação estipulada a nenhum director de comunicação. Assim, não surpreende que a formação de uma equipa que centraliza a comuni- cação do Governo tenha passado, no mínimo, despercebida.
O Governo nunca assumiu no seu discurso que a contratação de um director de comunicação correspondesse também à criação de uma unidade de gestão da comunicação do Governo, com contratação de uma pool de novos colaboradores.
Perceção e realidade
Desde Junho de 2022, sucederam-se notícias sobre a contratação de Cepeda e o seu percurso. O novo director de comunicação fez algumas declarações, pontuais e breves, a jornais, explicando o seu papel no executivo. Foi também claro que duas contratações (e apenas duas) para o gabinete do primeiro-ministro, e sem qualquer relação com o CEGER, seguiam o objectivo de reforçar a comunicação e criar uma miniequipa à volta de Cepeda. Eram eles João Pedro Oliveira, também Ex-jornalista da Time Out, que foi nomeado em Junho de 2022; e João Morgado Fernandes, Ex-jornalista do Diário de Notícias, e Ex-assessor do então ministro Mário Lino e de José Sócrates, e que deixou agora a comunicação do ISCTE, onde a Ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues é reitora. Mas este grupo, designado como “grupo dos joões”, era a única face conhecida de uma estrutura maior – e essa manteve-se desconhecida.
No início de Março, o jornal Expresso publicou um artigo em que indicava um número de 15 pessoas a trabalhar na unidade de comunicação do Governo. O número era já a soma de algumas pessoas do gabinete do próprio primeiro-ministro e outras vindas do CEGER. A SÁBADO questionou o gabinete do primeiro-ministro sobre quem eram afinal essas pessoas, que tipo de vínculo público tinham, como tinham sido contratadas e quanto ganhavam. A resposta foi dada de forma informal por uma fonte governamental, mas sem concretizar nenhum desses detalhes – e indicando mesmo que “a estrutura [do CEGER] já existia”, existia há muito e que as 15 pessoas indicadas “não são novas, já trabalhavam para o portal do Governo”.
Mas na verdade, várias, como Leal Miranda, são mesmo novas, posteriores quer à mudança da lei orgânica, quer à contratação do próprio João Cepeda. Outros exemplos: a 13 de Janeiro, foi contratada como “técnica de comunicação do CEGER” Margarida de Freitas Filipe. A jovem licenciada em Geografia e Planeamento Regional pela Universidade Nova (em Julho de 2022) apenas tem como experiência profissional um estágio de meses na agência de comunicação JLM&A (João Líbano Monteiro&Associados). E inscreveu-se em Setembro num mestrado na Universidade Católica em Comunicação, Estratégia e Liderança. Também Sofia Pedro foi nomeada técnica de comunicação, no mesmo dia, com efeitos a partir de 1 de Janeiro, mas sem que seja possível encontrar sequer qualquer referência curricular que esteja publicamente disponível. O que é possível, na medida em que as contratações do CEGER, ao contrário do que acontece com as dos gabinetes dos membros do Governo, não incluem qualquer dado curricular dos contratados. Entre alguns percursos mais técnicos, surgem Hélder Tiago Matias Rogério, nomeado como técnico de apoio, em comissão de serviço, por dois anos, em Agosto último; João Paulo Capinha, consultor, nomeado em Outubro (era técnico especialista em informática no Politécnico de Setúbal); e William de Barros Costa, técnico de apoio, desde Agosto de 2022; Nuno Rosa Vaz, que desempenhava funções na câmara de Setúbal, foi nomeado consultor.
Outras rearrumações que foi possível detectar parecem prender-se com as mudanças na orgânica. José Henrique Rodrigues Felício era consultor coordenador, saiu em Agosto, para ser readmitido em Novembro como consultor. Norberto Albino, exonerado de consultor em Setembro, passou a consultor-coordenador.
Numa segunda insistência para o gabinete do primeiro-ministro, Secretaria-geral da Presidência do Conselho de Ministros e CEGER, apenas este último respondeu à SÁBADO: “Todas as contratações do CEGER são publicadas em Diário da República, com as respectivas informações sobre nomes, funções e estatuto remuneratório, e são feitas de acordo com as necessidades dos vários serviços. O CEGER fornece assistência a todos os serviços do Executivo, incluindo a Comunicação” e “destaca elementos para trabalhar directamente com os gabinetes, em projectos específicos e temporários”. Mas não clarifica vários pontos: quantas pessoas do CEGER estão em concreto na central de comunicação; se há mais contratações cuja publicação não tenha ainda ocorrido em Diário da República; e se o Governo tenciona continuar a contratar mais colaboradores para esta estrutura.
E, com esta fórmula encontrada pelo governo para montar a sua central de comunicação, também não é possível contabilizar o seu custo total para o Estado.
O que fazem?
De acordo com a informação prestada à SÁBADO por fonte governamental, a principal tarefa desse grupo é fornecer conteúdos a todo o portal do Governo, que abrange 18 ministérios. Mais dois elementos do gabinete do primeiro-ministro colaboram (Pedro Rebelo e Raquel Martins) e da parte do CEGER vem tudo o resto: um fotógrafo, dois videógrafos e vários redactores para os textos do portal.
Mas é também a esta unidade que cabe a organização de vários eventos recentes com apresentação de medidas do Executivo, como o pacote da Habitação ou a isenção de IVA em produtos básicos para apoio às famílias. Cepeda, por sua vez, reporta ao secretário de Estado Adjunto e articula-se também directamente com o primeiro-ministro – tem aliás gabinete na residência oficial. O resto da equipa, seja ela vinda do CEGER, seja do gabinete do primeiro-ministro, está a funcionar de forma provisória num espaço no segundo andar do nº 1 da Rua de São Bento, frente à residência oficial. Quando o Governo (ou a maior parte dele) se mudar para o edifício da Caixa Geral de Depósitos, actualmente em obras de adaptação, a equipa deverá ter um espaço próprio para funcionar nesse novo local.
A criação de uma central de comunicação dentro do Governo foi sempre um tema polémico e levou mesmo a um veto presidencial a primeira vez que foi tentada.
Belém desconhece a portaria
Em 2004, o Governo liderado por Pedro Santana Lopes quis formalizar a estrutura, criou os lugares e atribuiu-lhe um orçamento de 2 milhões de euros ao ano, mas viu o projecto travado pelo Presidente da República Jorge Sampaio. Na altura, o veto foi assim justificado pelo Presidente, em declarações ao jornal Expresso: “O esforço da participação dos cidadãos na vida política deve ser obtido através do incentivo do pluralismo e não da criação de um novo serviço administrativo de publicitação da actividade do Governo.” Sampaio deixou também este recado: “Não há défice, antes excesso, de presença estatal e governamental nos meios de comunicação.” A oposição, ou seja, PCP, BE e PS, concordou. Pedro Silva Pereira, então porta-voz dos socialistas, reagiu: “O PS vê este veto como um veto em legítima defesa da democracia e do pluralismo da comunicação social.” Na altura, o contexto era mais tenso relativamente à alegada interferência do Governo nos media. O ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, criticara a inércia da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) face aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, que classificou “de ódio ao primeiro-ministro e ao Governo” e sem contraditório. O então comentador deixaria pouco depois aquela estação de televisão, no seguimento de uma conversa com o presidente do conselho de administração, Miguel Pais do Amaral. E a AACS viria a considerar que tinham sido as declarações do ministro a constituir “uma pressão ilegítima”.
Agora, face à criação efectiva de uma central de comunicação, a SÁBADO apurou que Belém ficou à margem dos detalhes do processo, até porque o mecanismo escolhido, o da portaria, não tem de passar pela Presidência da República.
€98 mil para consultor
O consultor em comunicação Luís Paixão Martins recebeu 98 mil euros pelo apoio nas legislativas de 2022 do PS, segundo os dados entregues na Entidade das Contas para os Financiamentos Políticos.
-O valor foi indexado a resultados. De acordo com a proposta apresentada por Paixão Martins, receberia 10 mil euros se o PS ficasse com 108 ou menos mandatos, 50 mil entre os 109 a 115, e 100 mil para 116 mandatos ou mais (teve 120).
-Há novo contracto de Paixão Martins com o PS, mas as duas partes não revelaram o valor.


€2.449 Mínimo
Nos dados publicados pela Direcção-Geral da Administração Pública, o salário dos novos consultores do CEGER vai dos €2.449 aos €2.728 (ilíquidos).


€3.274 Máximo
Os despachos de nomeação têm somado 20% de “suplemento de disponibilidade” aos €2.728. O valor máximo passa a €3.274.

https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/como-costa-mudou-a-lei-para-montar-uma-central-de-propaganda

Portugueses gastaram 32,4 milhões de euros por dia no supermercado

As vendas totais do retalho alimentar cresceram 9,6% em 2022 para 11 821 milhões de euros. São 1036 milhões a mais do que no ano anterior, apesar da contracção do consumo.

O ano de 2022 marca novo período de crescimento nas vendas de bens de grande consumo, à boleia da subida da inflação. Os dados do Scantrends da NielsenIQ mostram que, no total, os portugueses gastaram 11 821 milhões de euros nos super e hipermercados, um aumento de 9,6% face ao ano anterior, correspondentes a mais 1036 milhões. Significa isto que abastecer a despensa custou, em média, 32,4 milhões de euros diários às famílias portuguesas.

Isto não significa que os consumidores estejam a comprar mais, estão é a pagar tudo mais caro. Pedro Pimentel, director-geral da Centromarca, garante mesmo que estas taxas de crescimento são "balofas", porque correspondem apenas ao efeito inflação. "Vendeu-se menos, embora mais caro, e a prova disso é que o consumo retraiu a vários níveis, desde a compra de produtos mais baratos, mantendo o mesmo padrão de consumo, à escolha de produtos complementares, mas de qualidade inferior. E há mesmo redução de compra, com o consumidor a preferir fazer mais idas ao supermercado, mas comprando apenas o que precisa", diz.

O que ajuda também a explicar o "crescimento brutal" das marcas próprias das cadeias de supermercados que registaram acréscimos de vendas de 18,3%, quase o dobro do mercado. Mantiveram sempre taxas a dois dígitos a partir de março, tendo atingido um acréscimo de 26,9% em dezembro. Em contrapartida, os artigos de marcas de fabricantes só cresceram 4,5%, menos de metade dos 9,6% da variação homóloga do mercado.

Não admira, por isso, que, em termos de mercado, quem mais ganha quota são as cadeias de hard discount, como Aldi, Lidl ou Mercadona - é um segmento que cresce 11%, contra os 9,3% dos hipermercados e os 9,5% dos pequenos supermercados - sendo, por consequência, elas próprias, um dos motores de crescimento das marcas próprias, já que a preponderância deste tipo de produtos nestas cadeias é substancialmente superior às restantes.

Já o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) fala num ano "altamente complexo" para toda a cadeia de distribuição, com um aumento generalizado dos preços. No entanto, Gonçalo Lobo Xavier assegura que só 35% do aumento dos custos reais tenha sido passado ao cliente final. "São custos difíceis de suportar para o consumidor, mas seria muito pior se não tivesse havido este esforço por parte das empresas", sustenta.

Mesmo assim, reconhece, registam-se já "perdas importantes" nas vendas de peixe e carne, com um consumo maior de carne de aves, de ovos e de conservas e outros enlatados.

Sobre o retalho especializado, que a APED também representa, Gonçalo Lobo Xavier diz que se assistiu, em 2022, a uma recuperação, com os consumidores a serem "cada vez mais racionais" no processo de compra, procurando online o que pretendem e indo às lojas com objetivos já predefinidos. "Apesar do consumo estar já muito próximo dos valores pré-pandemia, sobretudo na moda, na eletrónica de consumo e na cosmética, a compra por impulso diminuiu acentuadamente", refere este responsável. Que considera que, apesar da grande incerteza que marcou o ano, o setor mostrou-se "resiliente", com "alguma capacidade de investimento, ainda, na abertura de lojas e na criação de emprego".

Quanto às perspetivas para 2023, a APED refere que já se começa a notar alguma tendência de estabilização dos custos energéticos e consequentes efeitos sobre os custos de produção. Gonçalo Lobo Xavier acredita que isso se comece a fazer sentir na carteira dos consumidores "no fim do primeiro trimestre".

O setor, garante, "continua a investir em eficiência energética e em energia limpa, mas também, na formação dos seus recursos humanos. "Há uma batalha muito grande pelo talento, que só se consegue vencer com inovação, modernidade, e com melhores salários. E esse foi um esforço que se viu, não só com a assinatura do novo contrato coletivo de trabalho, que prevê um aumento de quase 9% em média, mas também pelo esforço individual das empresas de partilha e distribuição de resultados". Suster a inflação, manter a cadeia de abastecimento a funcionar, sem riscos de ruturas de stocks, e reter e atrair talento são as grandes preocupações da APED e dos seus associados para 2023.

Já a Centromarca destaca o receio dos efeitos da recessão. "Vamos continuar a ter perda de poder de compra, porque o crescimento da inflação não será acompanhado do crescimento dos salários e é natural que o mercado contraia", diz Pedro Pimentel. Para este responsável, a grande incógnita é se o verão será, em 2023, "tão forte" como foi o ano passado, "ajudando a compor, um bocadinho, as perdas do mercado interno".

Do ponto de vista dos fabricantes, a preocupação está também no crescimento das "marcas brancas" que "parece estar para durar", o que poderá "criar condições para um aumento da tensão negocial" entre o retalho alimentar e os seus fornecedores. " Tememos que esta compressão do mercado e das rentabilidades possa extravasar para tensões e exigências mais exageradas e é muito importante fazer perceber às autoridades que é preciso estar com uma atenção muito grande ao mercado", diz Pedro Pimentel.

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Ilídia Pinto

https://www.dinheirovivo.pt/economia/portugueses-gastaram-324-milhoes-de-euros-por-dia-no-supermercado--15791790.html

sexta-feira, 24 de março de 2023

O que é compostagem e como fazer?

Fazer compostagem doméstica reduz gases do efeito estufa, lixo orgânico e faz bem para saúde

1. Como se faz a compostagem?

2. Quais são as 3 fases da compostagem?

2.1. 1ª) Fase mesofílica

2.2. 2ª) Fase termofílica

2.3. 3ª) Fase da maturação

3. História da compostagem

4. O que é uma composteira?

5. Minhocas na compostagem

6. Composteira automática

7. Factores que influenciam na geração e na qualidade do composto

7.1. Organismos

7.2. Temperatura

7.3. Umidade

7.4. Aeração

8. Cuidados

9. Para que serve a compostagem

10. Chorume

Compostagem é o processo biológico de valorização da matéria orgânica, seja ela de origem urbana, doméstica, industrial, agrícola ou florestal, e pode ser considerada como um tipo de reciclagem do lixo orgânico. Trata-se de um processo natural em que os micro-organismos, como fungos e bactérias, são responsáveis pela degradação de certos tipos de resíduos, transformando-a em húmus, um material muito rico em nutrientes e fértil.

A prática feita em casa ainda faz bem para a saúde. De acordo com um estudo, o contacto com uma bactéria presente no húmus pode ser usado como antidepressivo e diminui alergias, dores e náuseas.

A compostagem ajuda na redução das sobras de alimentos, tornando-se uma solução fácil para reciclar os resíduos gerados em nossa residência. Confira o vídeo acima, do Canal do Portal eCycle do YouTube, para entender, de forma bem resumida, o que é compostagem. Se curtir, inscreva-se no canal! Confira abaixo mais detalhes de como ela ocorre e como realizá-la.

Como se faz a compostagem?

A compostagem do lixo acontece em fases, sendo elas muito distintas umas das outras.

Quais são as 3 fases da compostagem?

1ª) Fase mesofílica

Nessa fase da compostagem, os fungos e as bactérias mesófilas (activas a temperaturas próximas da temperatura ambiente) começam a se proliferar na matéria orgânica aglomerada na composteira, fazendo a decomposição do lixo orgânico. Primeiro são metabolizadas as moléculas mais simples. Nessa fase, as temperaturas são moderadas (cerca de 40°C) e dura em torno de 15 dias.

2ª) Fase termofílica

É a fase mais longa, podendo se estender por até dois meses, dependendo das características do material que está sendo compostado. Nessa fase, entram em cena os fungos e as bactérias denominados de termófilos, que são capazes de sobreviver a temperaturas entre 65°C e 70°C, à influência da maior disponibilidade de oxigénio – promovida pelo revolvimento da pilha inicial. A degradação das moléculas mais complexas e a alta temperatura ajudam na eliminação de agentes patógenos.

3ª) Fase da maturação

É a última fase do processo de compostagem, podendo durar até dois meses. Nessa fase, há a diminuição da actividade microbiana, da temperatura (até se aproximar da temperatura ambiente) e da acidez. É um período de estabilização que produz um composto maturado. A maturidade do composto ocorre quando a decomposição microbiológica se completa e a matéria orgânica é transformada em húmus, livre de toxicidade, metais pesados e patógenos.

O húmus é um material estável, rico em nutrientes e minerais, que pode ser utilizado em hortas, jardins e para fins agrícolas, como adubo orgânico, devolvendo à terra os nutrientes de que necessita e evitando o uso de fertilizantes sintéticos.

História da compostagem

A compostagem orgânica não é uma prática nova, mas está ganhando popularidade ao passo que há uma tendência maior de preocupação com a sustentabilidade. Há muito tempo agricultores já utilizavam o método de reciclagem do lixo doméstico para obtenção de adubo orgânico.

No oriente médio, principalmente na China, a compostagem vem sendo aplicada há séculos. Já no ocidente, ficou conhecida em 1920, a partir dos primeiros experimentos de Sir Albert Howard. O Inglês Howard era considerado um dos propulsores da compostagem doméstica na província Indiana de Indore, onde tentou efectuar o processo com resíduos de uma só natureza e concluiu que era necessário misturar diversos tipos.

Também na Europa, a técnica era usada durante os séculos XVIII e XIX pelos agricultores que transportavam os seus produtos para as cidades em crescimento e, em troca, regressavam às suas terras com os resíduos sólidos urbanos das cidades para utilizá-los como corretivos orgânicos gerados do solo. Assim, os resíduos eram quase que completamente reciclados por meio da compostagem e da agricultura.

Com a expansão das áreas urbanas e o aumento populacional e do consumo, houve mudanças na qualidade dos resíduos sólidos, que acabaram tornando-se cada vez mais inadequados para o processo de compostagem de lixo. Logo, a técnica perdeu popularidade.

Entretanto, nos dias de hoje, com a pressão para a utilização de métodos direccionados para a preservação do meio ambiente, há um novo interesse em compostagem de restos de comida em casa como uma solução para a redução do volume de lixo que é encaminhado para aterros e lixões todos os dias.

Esse hábito ainda pode fornecer uma opção saudável de adubo orgânico para plantas e hortas. Com isso, cada vez mais pessoas querem colocar a mão na massa e fazer a sua própria compostagem, mas muitas não sabem por onde começar.

O que é uma composteira?

A composteira nada mais é do que o lugar (ou a estrutura) próprio para o depósito e a compostagem do material orgânico, onde o lixo orgânico será transformado em húmus.

A composteira pode assumir diversos formatos e tamanhos – isso depende do volume de matéria orgânica que é produzida e também do espaço livre disponível para sua alocação, mas todas têm a mesma finalidade.

As composteiras podem ser instaladas em casas ou apartamentos e possuir tamanhos e preços variados. Para além disso, o processo também pode ser realizado directamente no solo.

Minhocas na compostagem

Uma forma de acelerar a compostagem orgânica é por meio do uso de minhocas californianas (espécie Eisenia foetida mais indicada para o processo). Isso porque as minhocas digerem a matéria orgânica, facilitando o trabalho dos micro-organismos.

Esse tipo de compostagem recebe o nome de vermicompostagem ou compostagem com minhocas. Para saber mais sobre esse tema, dê uma olhada na matéria: “Vermicompostagem: conheça as vantagens dessa técnica que reduz o lixo orgânico“. Para conhecer mais de perto as minhocas dê uma olhada na matéria: “Minhoca: importância ambiental na natureza e em casa“.

Composteira automática

A compostagem também pode ser feita por meio da composteira automática, que envolve maior praticidade, pois a decomposição é mais rápida e, ao em vez de minhocas, utiliza-se poderosos micro-organismos patenteados (dentre eles, o Acidulo TM), capazes de se multiplicarem em altas temperaturas, salinidade e acidez, saiba mais sobre esse tema lendo a matéria “Composteiras automáticas trazem agilidade e eficiência no reaproveitamento de resíduos domésticos“. Com isso, é possível inserir alimentos ácidos, carne, ossos, espinhas de peixe, frutos do mar, ao contrário da compostagem com minhocas, ou vermicompostagem.

Nessa última, também não se recomenda a deposição em excesso de gorduras e lacticínios, pois retardam a decomposição. Também existem resíduos que não vão para nenhum dos tipos de composteira, porém devemos destinar correctamente. Para saber mais a respeito, dê uma olhada na matéria: “O que pode colocar na composteira?“.

Ao identificar o melhor tipo de processo (compostagem ou vermicompostagem) e de composteira para a casa, família e orçamento, muitas pessoas ainda têm uma dúvida: se a composteira caseira é higiénica. Essa dúvida é recorrente devido a existência de chorume e pela necessidade de lidar com restos de alimentos que podem exalar mau odor e atrair animais.

O fato de haver minhocas nas composteiras também assusta. Mas esse receio não tem muito fundamento como mostra a matéria “Entrevista: composteira caseira é higiénica” com Cesar Danna, do site de soluções para resíduos orgânicos Minhocasa.

Factores que influenciam na geração e na qualidade do composto

São muitos os factores que podem influenciar na quantidade e qualidade dos compostos gerados durante esse processo, os principais são os seguintes:

Organismos

A transformação da matéria orgânica bruta para húmus é um processo, basicamente, microbiológico, operado principalmente por fungos e bactérias, que, durante as fases da compostagem, alternam espécies de micro-organismos envolvidos. Também há a colaboração da macro e mesofauna, como minhocas, formigas, besouros e ácaros, durante o processo de decomposição;

Temperatura

Um dos factores de grande importância no processo de compostagem. Esse processo de decomposição da matéria orgânica por micro-organismos se relaciona directamente à temperatura, por meio de micro-organismos que produzem o calor, pela metabolização da matéria orgânica, estando a temperatura relacionada a vários factores, como materiais ricos em proteínas, baixa relação carbono/nitrogénio, umidade e outros.

Materiais moídos e peneirados, com granulometria mais fina e maior homogeneidade, originam uma melhor distribuição de temperatura e menor perda de calor. Veja mais detalhes na matéria “Condições básicas para manutenção da composteira: temperatura e umidade“.

Umidade

A presença de água é fundamental para o bom desenvolvimento do processo, pois a umidade garante a actividade microbiológica, isso se deve porque, entre outros factores, a estrutura dos micro-organismos consiste de aproximadamente 90% de água e, na produção de novas células, a água precisa ser obtida do meio, ou seja, neste caso, da massa de compostagem.

Porém, a escassez ou o excesso do líquido pode desacelerar a compostagem – se houver excesso, é necessário acrescentar matéria seca, como serragem, ou folhas secas.

A faixa de umidade óptima recomendada para se obter um máximo de decomposição está próxima de 50%, devendo haver uma maior atenção ao teor de umidade durante a fase inicial, pois esta precisa de uma adequação do suprimento de água para promoção do crescimento dos organismos biológicos envolvidos no processo e para que as reacções bioquímicas ocorram no tempo certo, durante o processo de compostagem. Saiba mais detalhes na matéria “Umidade dentro da composteira: factor muito importante“.

Aeração

No processo de compostagem, é possível dizer que a aeração é o factor mais importante a ser considerado, isso porque o arejamento evita a formação de maus odores e a presença de insectos, como as moscas de frutas, por exemplo, o que é importante tanto para o processo como para o meio ambiente.

Também deve-se levar em conta que, quanto mais húmida está a massa orgânica, mais deficiente será sua oxigenação. É recomendado que o primeiro revolvimento seja feito em duas ou três semanas após o início do processo, pois esse é o período em que se exige a maior aeração possível. Em seguida, o segundo revolvimento deve ser feito aproximadamente três semanas após o primeiro, e dez semanas após o inicio de processo de compostagem deve ser feito o terceiro revolvimento para uma incorporação final de oxigénio.

Uma massa orgânica com uma dose apropriada de nitrogénio e carbono ajuda no crescimento e na actividade das colónias de micro-organismos envolvidos no processo de decomposição, possibilitando a produção do composto em menos tempo.

Sabendo que os micro-organismos absorvem o carbono e o nitrogénio numa proporção de 30 partes de carbono para uma parte de nitrogénio, ou seja, uma razão de 30/1, essa é a proporção ideal para o material orgânico depositado na composteira, mas também são recomendados valores entre 26/1 e 35/1, como sendo as relações C/N mais propícias para uma rápida e eficiente compostagem.

Cuidados

Resíduos com relação C/N baixa (C/N<26/1) são pobres em carbono e perdem nitrogénio na forma amoniacal durante o processo de compostagem. Nesse caso, recomenda-se juntar restos vegetais celulósicos, como serragem de madeira, sabugo e palha de milho e talos e cachos de banana, ricos em carbono, para elevar a relação a um valor próximo do ideal.

No caso contrário, ou seja, quando a matéria-prima possui relação C/N alta (C/N>35/1), o processo de compostagem torna-se mais demorado e o produto final apresentará baixos teores de matéria orgânica. Para corrigir esse erro, deve-se acrescentar materiais ricos em nitrogénio, como folhas de árvores, gramíneas e e legumes frescos.

Além do que até aqui mencionado, outros cuidados recomendados estão relacionados ao local onde a composteira estará alocada: o preparo prévio do material orgânico, a quantidade de material a ser compostado e as dimensões das leiras (quando a compostagem é feita em leiras, pilhas de resíduos em linha).

Você também deve tomar cuidado com quais materiais orgânicos colocar na sua composteira, como, por exemplo, no caso da vermicompostagem, onde há restrições a alguns tipos de alimentos já mencionados, como excesso de frutas cítricas, cebola ou alho, pois alteram o pH do composto.

Para que serve a compostagem

Segundo dados do IPEA, Instituto de Pesquisa Económica Aplicada, o material orgânico corresponde a cerca de 52% do volume total de resíduos produzidos no Brasil e tudo isso vai parar em aterros sanitários, onde são depositados com os demais e não recebem nenhum tipo de tratamento específico.

A compostagem traz muitas vantagens para o meio ambiente e para a saúde pública, seja aplicada no ambiente urbano (domésticos ou industriais) ou rural. A maior vantagem que pode ser citada da compostagem é que, no processo de decomposição, ocorre somente a formação de dióxido de carbono ou gás carbónico (CO2), água (H2O) e biomassa (húmus).

Por se tratar de um processo de fermentação que ocorre na presença de oxigénio (aeróbico), permite que não ocorra a formação de gás metano (CH4), gerado nos aterros por ocasião da decomposição destes resíduos, que é altamente nocivo ao meio ambiente e muito mais agressivo, pois é um gás de efeito estufa cerca de 21 vezes mais potente que o gás carbónico.

Ao reciclarmos o lixo destinado aos aterros por meio da compostagem, haverá, por consequência, uma economia nos custos de transporte e de uso do próprio aterro, ocasionando o aumento de sua vida útil (veja sobre o uso da compostagem em grandes cidades).

Chorume

Além de tudo que percorremos até aqui, a compostagem promove a valorização de um insumo natural e ambientalmente seguro, adubo orgânico, actuante sobre a reciclagem dos nutrientes do solo e no reaproveitamento agrícola da matéria orgânica, assim evitando o uso de fertilizantes inorgânicos, formados por compostos químicos não naturais, cujos mais comuns levam em sua composição substâncias como nitrogénio, fosfatos, potássio, magnésio ou enxofre (veja mais informações na matéria “O que são fertilizantes?”).

Os efeitos desses compostos, sobretudo os fertilizantes nitrogenados, se apresentam igualmente nocivos ao desequilíbrio do efeito estufa. Também é possível mencionar os riscos que esses fertilizantes podem trazer devido à presença de metais pesados em sua composição.

O chorume produzido no processo da compostagem com minhocas pode ser utilizado como adubo líquido (na proporção de dez partes de água para uma de chorume) e como pesticida (na proporção de meia parte de chorume e meia de água borrifada nas plantas).

Se suas dúvidas sobre compostagem foram solucionadas com essa matéria e você está querendo praticar a sua em casa, você pode comprar uma composteira doméstica em nossa loja. Encontre o melhor tipo para sua casa e sua família. Você também pode conferir como fazer uma composteira em casa na matéria: “Aprenda como fazer uma composteira doméstica com minhocas“.

Curta o vídeo (em inglês) sobre como é o processo de compostagem.

https://www.ecycle.com.br/compostagem/

Aprenda a fazer um medidor de pH caseiro

Saiba como fazer um medidor de pH caseiro utilizando repolho roxo



1. O que é pH?

2. Medidor de pH caseiro

3. Como fazer

4. Como usar

5. Mudanças de Cores

Se você já precisou medir o pH da água ou de outra substância, talvez fique surpreso ao saber que é possível fazer um medidor de pH caseiro utilizando repolho. Um simples repolho e alguns ingredientes que você provavelmente tem em casa poderia ter resolvido seu problema com o pH da água.

  • O que é pH?

A sigla pH significa Potencial Hidrogeniónico. Isso nada mais é do que uma escala que mede se uma substância é ácida, alcalina (básica) ou neutra. O pH está relacionado com a concentração de íons de Hidrogénio (H+) e íons OH-. Quanto menor o pH de uma substância, maior a concentração de íons H+ e menor a concentração de íons OH-.

A faixa de pH varia de 0 a 14, sendo que quanto mais próximo de zero mais ácida é a substância e quanto mais próximo de 14 mais alcalina ela fica. Por exemplo, o limão, que é uma fruta cítrica, chega a 3 na escala de pH. Já um sabão em barra no mercado possui um pH em torno de 10, portanto é alcalino.

Para medirmos o pH de uma substância com precisão, utilizamos o peagâmetro, constituído basicamente por um eléctrodo e um potenciómetro. O potenciómetro é utilizado na calibração do aparelho com soluções de referência – a medida do pH é feita com a imersão do eléctrodo na solução a ser analisada.

Outra forma é com a utilização de papel tornassol e a fenolftaleína. Na presença de ácidos, o papel de tornassol fica com a coloração vermelha e a solução de fenolftaleína muda da coloração vermelha para a incolor na presença de um ácido.

  • Medidor de pH caseiro

O repolho é rico em antocianinas, pigmentos responsáveis por uma variedade de cores atractivas de frutas, flores e folhas que variam do vermelho ao azul.

Quando usamos o extracto de uma verdura, como o repolho roxo, obtemos um medidor de pH de largo espectro, isto é, ele pode medir do pH = 1 até o pH = 12, alterando sua cor desde o vermelho até o verde. A variação de cor é muito pequena, portanto, esse não é um método muito preciso, mas serve muito bem para o uso caseiro.

  • Como fazer

Pegue algumas folhas de repolho roxo (30 g) e corte em fatias bem pequenas, coloque para cozinhar com uma quantidade de água igual ao de folhas picadas (aproximadamente 150 ml). Deixe ferver por 15 minutos e espere esfriar. Agora, use uma peneira e tente extrair toda água que ainda restou em um recipiente limpo. Para aumentar o tempo de conservação, adicione um pouco de álcool e mantenha na geladeira.

  • Como usar

Para utilizar o medidor de pH em alguma substância é só adicionar algumas gotas do extracto de repolho roxo em cerca de 5 ml da solução que se deseja medir. A partir da cor que a mistura tiver, você saberá se ela é básica ou ácida. Para visualizar melhor as cores, coloque na frente de uma folha ou parede branca. Confira qual é a cor que resultante e o seu respectivo pH:

  • Mudanças de Cores

Cor             pH

Vermelho 2

Vermelho violáceo 4

Violeta 6

Azul violáceo 7

Azul 7,5

Azul esverdeado 9

Verde azulado 10

Verde 12

Como se trata de uma substância natural, ela não dura muito tempo. Sendo assim, utilize o  seu medidor de pH caseiro no máximo por uma semana.


https://www.ecycle.com.br/medidor-de-ph/