terça-feira, 2 de dezembro de 2025
"O INIGMA PASSOS COELHO
Ao contrário de quem governa, não precisa de uma maioria ou de meios. Pode manifestar a insatisfação com um simples gesto ou uma frase. Há muita gente em Portugal que gostaria que regressasse e há muita gente, os insiders do costume cheios de informação privilegiada, que conspiraria para que regressasse. São boutades de salão que só Passos Coelho poderá concretizar ou confirmar.
A força, e poderia dizer-se força moral, de Passos Coelho tem outra fonte que não o campo de intriga do PSD ou o ninho de vespas da política. Ninguém no partido dele levantará a mão contra ele, por temor e fraqueza.
A força de ter-se mantido, desde que foi afastado do poder pela coligação de esquerda de António Costa, invisível e incorruptível. Não deslizou para os quadros de uma grande empresa, não faz parte de assembleias gerais ou conselhos de administração, não fugiu para um cargo internacional, não enriqueceu sem causa. Não aceitou ser comentador num canal de televisão, e tenho a certeza de que muitos o contratariam por quantias superiores às de um primeiro-ministro. Mantém uma casa nos subúrbios, teve perdas pessoais que encaixou sem lamento, não controla a figura pública com a obsessão das figuras públicas, não escreveu livros confessionais ou outros. E decerto o convidaram a escrever as memórias da troika. Não está nas redes, a aparafusar indignações. Não vai às televisões explicar-se. Não dá entrevistas. Não se lhe conhecem crimes ou comportamentos desviantes, muito menos onde o dinheiro estaria envolvido. Escreve uns prefácios, faz umas apresentações de livros, diz umas coisas, não muitas. É breve e conciso e, pasme-se, coerente. É um enigma.
Com o tempo, e o silêncio, aquilo que parecia falta de ambição, como continuar a viver nos subúrbios sem vontade de sair, tornou-se convicção de pedra. O homem não pode ser comprado. Não pode ser convencido. Ideologicamente, é o que era no tempo da troika, um liberal de direita, com horror aos pactos com socialistas e às políticas socialistas. Teria razões não ideológicas para isso, os socialistas organizaram-se contra ele depois de ter ganho as eleições e demonstraram a incapacidade para governar com o luxo da maioria absoluta. É um político que acredita que o Estado é um fator de subdesenvolvimento se não for removido à força do processo económico e burocrático. E responde pelas decisões da troika e do seu governo, mesmo quando essas decisões não lhe podem ser imputadas e sim a incompletos ministros e secretários de Estado. Teve oportunistas a rodeá-lo? Claro. Os oportunistas construíram carreiras férteis e lucrativas sobre a oportunidade, ele não. Não é cosmopolita. A austeridade é uma vocação.
O que no passado era debilidade do instinto político, tornou-se com o tempo e a incompetência dos outros atores uma força que em Portugal ninguém tem. Se Montenegro falhasse, ou os imponderáveis do costume surgissem, e Montenegro não deve ser subestimado como sobrevivente, Passos Coelho teria o país na mão.
A estagnação tornar-se-á insuportável. Na estagnação vivemos agora, negociando minúcias que impedem a mudança. É preciso que tudo mude para que tudo fique como dantes. Não seria o mesmo Passos Coelho dos anos passados. O tempo e o silêncio endureceram-no, nota-se na fisionomia. Se não se deixasse tomar pelo ressentimento, seria o único e formidável adversário de André Ventura no futuro. E o único que impediria Ventura de ser primeiro-ministro.
E não, não é um populista, é o contrário de um populista."
Clara Ferreira Alves
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