A cena é de um requinte absurdo: o povo de Almada, após 52 anos de fidelidade inabalável ao PCP e ao PS, resolveu, finalmente, manifestar-se contra o deserto que a sua própria mão eleitoral ajudou a construir.
É o cumulo do cinismo democrático: protestar contra o resultado, enquanto se garante a renovação do bilhete de época para o mesmo circo.
A imagem documenta esta ópera bufa com precisão cirúrgica.
Ali temos o cartaz que anuncia, com a pompa devida, a nomeação de Luís Palma para a presidência dos SMAS.
Não é uma nomeação técnica, claro. É um troféu de caça político, um tacho devidamente arrumado num pacto de governação PS-CDU que, desde dezembro de 2025, transformou o fornecimento de água num jogo de xadrez partidário.
Inês de Medeiros, como primeira vogal, assiste a tudo com o distanciamento de quem sabe que, no final, o eleitor voltará a votar no mesmo pacote.
E o orçamento de 7 milhões de euros para 2026?
É uma obra-prima de gestão criativa.
Enquanto a rede de adutoras pede socorro e as eletrobombas dão o último suspiro, a autarquia, num rasgo de genialidade, decide que a prioridade absoluta é gastar 503.000 euros na valorização do Museu da Água.
A mensagem é clara e deliciosamente irónica: se não há água na torneira para lavar a cara, o munícipe pode sempre ir ao museu contemplá-la em ambiente climatizado e educacional.
É, sem dúvida, um serviço público de excelência: ensinam-nos o que é a água enquanto nos deixam com sede.
A satisfação do cliente, essa rubrica que tanto aparece nos documentos oficiais, deve ser lida com o devido sentido de humor. A festa dos 75 anos dos SMAS e a promoção da marca, pagas com o mesmo dinheiro que deveria reparar os canos, provam que o marketing é, de facto, a única infraestrutura que funciona sem falhas em Almada.
Para quem, na sua inocência, ainda quiser conferir os detalhes desta gestão onde os tachos fervilham enquanto a torneira seca, os links estão à disposição, como um monumento à transparência burocrática:
É, no fim de contas, o teatro perfeito: o público aplaude o espetáculo do protesto, mas garante que os atores principais continuem em cena.
O cartaz do PCP, que diz estar com o eleitor todos os dias, é a única verdade desta história: estão lá todos os dias, a garantir que nada mude, enquanto o museu da sede cresce, orçamento após orçamento...
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