A parte mais curiosa do meu post anterior foi a legião marxista que sentiu o toque. Logo apressados a dizerem que eu não compreendo o marxismo, não o conheço, nunca li, não percebi, confundi, simplifiquei, caricaturei, deturpei, profanei a sagrada escritura do Santo Marx e cometi o pecado mortal de ser simples na caracterização.
Com o marxismo é sempre a mesma história: o marxismo é o eterno incompreendido da História, e quem o reduz a uma caricatura é porque não tem massa cinzenta. Só que não. Eu até nem ia voltar a este tema, mas já que os marxistas gostaram tanto da publicaçao anterior, vamos a isso.
A relação entre o marxismo e a inveja não foi descoberta ontem, e muito menos por mim. Foi vista, descrita e denunciada por gente muito diferente, em épocas diferentes, com formações diferentes, vindas de campos intelectuais diferentes. O marxista bem pode continuar a fazer aquele teatro habitual de superioridade e arrogância que bem conhecemos, mas a autópsia já foi feita. Há muito tempo.
Comecemos por gente que gosta do simples, como eu.
Churchill tinha esse defeito terrível dos homens inteligentes: não precisava de escrever 400 páginas para dizer uma verdade. Designou o socialismo como sendo “a filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o evangelho da inveja”. E acrescentou, noutro discurso, que o vício do capitalismo é a distribuição desigual das bênçãos, enquanto a virtude do socialismo é a distribuição igual das misérias. Diagnóstico perfeito.
Já Pio XI, na Divini Redemptoris, falou do comunismo ateu como uma doutrina que agudiza o antagonismo entre classes até transformar a luta de classes em ódio violento e destruição. É e exactamente isto. O marxismo não olha para a sociedade como uma comunidade imperfeita que precisa de justiça, cooperação, limites e responsabilidade. Olha para a sociedade como um campo de guerra. De um lado, os puros. Do outro, os culpados. A coisa começou pela economia, com o patrão e o empregado. Como falharam, agora são todos contra todos. Homem vs Mulher, Pele Escura vs Pele Clara, LGBTetc vs Hetero, em suma, todos contra todos. É por isso que a nova geração do feminismo que exige quotas e decretos para corrigir a sociedade, onde está o Raposo, se alberga no mesmo sitio dos que gritam pelo Santo Odair e, também, dos que dizem que reverter a ideologia de género é ratificar o assassinato da Gisberta.
Karl Popper, consagrado filósofo britânico, atingiu outro ponto essencial: o marxismo queria ser ciência, mas acabou como dogma. Quando as previsões falharam, não abandonou a teoria. Imunizou-a contra a realidade. Se a classe operária não fez a revolução, é porque foi alienada. Se o capitalismo não colapsou, é porque se reinventou de forma pérfida. Se o comunismo criou a tirania, é porque não era verdadeiro comunismo. Se o mercado produz abundância, é porque explorou alguém. Se a realidade contradiz Marx, a realidade é que está errada.
Raymond Aron chamou ao marxismo o ópio dos intelectuais. A frase é perfeita porque expõe a intoxicação moral dos pseudo intelectuais. Para o pseudo intelectual marxista, a ideologia oferece tudo: a missão, os inimigos, a pureza, a superioridade, as desculpas e o poder. E de facto, o marxismo é maravilhoso para quem quer destruir a sociedade. Permite odiar em nome do amor, censurar em nome da liberdade, destruir em nome da justiça, nivelar em nome da igualdade e mandar nos outros em nome dos oprimidos. Como é que se matam mais de 100 milhões de pessoas? Segundo os marxistas, porque havia motivos nobres para o fazer. Eram inimigos da revolução. Por isso as chacinas marxistas, que mataram em tempo de paz mais gente do que todas as guerras, são sempre branqueadas: matar era o moralmente certo, ou no minimo era compreensivel. Por isso se falar mais dos mortos das grandes guerras do que dos mortos de Mao, apesar de Mao ou Estaline terem matado mais do que essas guerras juntas.
Scruton foi ainda mais fundo no mecanismo psicológico do intelectual marxista. Disse que o marxismo sobrevive não por ser verdadeiro, mas pelo poder que dá aos intelectuais que querem controlar o mundo. Eis a chave. O marxismo não é apenas inveja do pobre contra o rico. É também a inveja do burocrata contra quem produz. É o professor contra o empresário. É o comentador contra o trabalhador independente. É Bruxelas contra a marisqueira de Matosinhos. É o homem que nunca criou riqueza a explicar a quem paga salários como deve organizar a empresa, fixar vencimentos, discriminar géneros, promover minorias, distribuir lucros e, pelo meio, salvar o planeta. É o gajo que tinha boas notas que tem inveja do baldas que ganha mais que ele.
Solzhenitsyn, que aprendeu o comunismo no ventre da besta soviética, percebeu a função da ideologia, na mesma linha de Aron: dar justificação ao mal. É a ideologia permite ao carrasco dormir tranquilo, que permite ao burocrata esmagar vidas achando que está do lado do bem, e que permite ao militante chamar justiça à vingança. Porque é que vimos milhares a celebrar a morte de Charlie Kirk? A resposta está no marxismo.
No fundo, muitos já viram a "careca" ao "marxismo".
Mas claro, o João do Facebook é que não percebe o marxismo. São uns incompreendidos, coitados. Se calhar há é quem perceba bem demais. Há muitos anos.
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