Fwd: Notícias a caminho dos cinco anos: o que é hoje para si o PÁGINA UM?
O jornalismo independente depende dos leitores.
Olá rui xisto,
A caminho dos cinco anos de existência, olho para o PÁGINA UM e vejo um jornal bastante diferente daquele que começámos a construir em finais de 2021. Não nos afastámos da génese; pelo contrário, fomos encontrando novas formas de a concretizar.
Conseguimos adaptar-nos a uma diversidade temática que, há cinco anos, dificilmente imaginaria: investigação, saúde, Justiça, política, economia, imprensa, contratação pública, cultura, opinião, crónica, livros, podcasts e até futebol. Esta última semana é um bom retrato dessa transformação: na mesma edição convivem uma investigação económica sobre a dívida pública, uma incursão pelos media sérvios, uma batalha judicial sobre financiamento político e uma crónica escrita em Alvalade.
Mas, se tivesse de escolher um trabalho recente para explicar aquilo que considero ser a essência do PÁGINA UM, talvez não escolhesse uma das notícias que mais polémica gerou, nem uma daquelas que conseguem milhares de partilhas nas redes sociais. Escolheria uma investigação longa, cheia de números, gráficos e comparações, que publicámos no passado dia 30 de Agosto: “Raio-X às vacinas em Portugal: as doenças que desapareceram, as que regressaram e as que mudaram de idade”.
Este é daqueles trabalhos que, precisamente por serem extensos, podem passar despercebidos a muitos leitores. Mas pessoalmente orgulha-me fazer este tipo de jornalismo. Peguei em 25 anos de dados hospitalares, analisei 11 doenças preveníveis por vacinação, contabilizei 61.601 internamentos e 6.183 óbitos nos hospitais do SNS entre 2000 e 2024. O retrato não foi construído para defender uma tese prévia, fosse ela pró-vacinas ou anti-vacinas.
Os dados mostram aquilo que mostram: poliomielite, difteria e rubéola tornaram-se residuais; a doença meningocócica caiu 91% e a hepatite B 89%; ao mesmo tempo, o pneumococo continua a concentrar a esmagadora maioria da mortalidade analisada, a tosse convulsa voltou com força em 2024 e, em várias patologias, o peso da doença grave deslocou-se progressivamente para idades mais avançadas. É isto que entendo por olhar para a realidade sem escolher antecipadamente a conclusão.
E esta investigação só foi possível por causa de outro projecto de que muito me orgulho: o CORPUS — Observatório de Dados em Saúde. Talvez muitos leitores ainda não tenham percebido inteiramente aquilo que está ali. O CORPUS é uma ferramenta de análise da maior base de dados sobre o SNS: cerca de 38,5 milhões de episódios hospitalares ocorridos entre 2000 e 2024, com diagnósticos, procedimentos, idade, sexo, hospital, duração do internamento, destino após a alta e mortalidade intra-hospitalar. A estrutura permite estudar doenças ao longo de 25 anos, comparar sexos e grupos etários, hospitais, concelhos, distritos e regiões, calcular taxas com denominadores populacionais do INE, analisar reinternamentos, sazonalidade, tendências e alterações no perfil das doenças.
Não é uma ferramenta feita apenas para jornalismo, mesmo se a imprensa mainstream tenha ignorado por completo o manancial de informação que comporta o CORPUS. Gostaria, aliás, que médicos, investigadores, epidemiologistas, estudantes, professores e cidadãos a utilizassem muito mais do que nós próprios. Uma parte da informação e todos os estudos publicados permanecem acessíveis gratuitamente; as funcionalidades avançadas, sobretudo as que permitem interrogar a base em linguagem natural e recorrer a inteligência artificial para construir análises e relatórios, implicam subscrição, porque processamento, capacidade computacional, inteligência artificial e manutenção têm custos reais. O objectivo não é substituir investigação científica por uma máquina que debita respostas: o sistema deixa os critérios, métodos e consultas auditáveis, para que os resultados possam ser verificados e reproduzidos.
Há ainda uma história por detrás desses 38,5 milhões de registos. Eles não nos caíram no colo. O acesso à Base de Dados de Morbilidade Hospitalar resultou de uma batalha jurídica que se prolongou durante anos contra o secretismo administrativo. E talvez aqui esteja outra parte importante do ADN do PÁGINA UM: quando uma informação é pública e relevante e o Estado decide escondê-la, nem sempre aceitamos o primeiro "não". Às vezes insistimos. Às vezes recorremos. E às vezes vamos mesmo para tribunal. Foi assim que nasceu o CORPUS.
Essa teimosia congénita do PÁGINA UM tem sido o nosso pilar. E é visível em muitos outros casos. Voltou a estar presente numa batalha que pode ser relembrada em “PS e Bloco recusam esconder identidade dos doadores e deixam Entidade das Contas isolada na batalha judicial com o PÁGINA UM”. Fomos o único órgão de comunicação social (e muitos têm recursos financeiros que nós não temos) que decidiu não aceitar que a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos ocultasse a identidade dos doadores dos partidos e levámos a questão ao Tribunal Administrativo. Agora, chamados pela juíza a pronunciarem-se como contra-interessados, PS e Bloco de Esquerda rejeitaram a posição da própria Entidade das Contas. Às vezes, uma batalha pela transparência demora; isso não significa que não valha a pena travá-la.
Às vezes, uma investigação nasce simplesmente de ler aquilo que outros não lêem até ao fim. Foi assim com “Elevadores da Bica e do Lavra só estarão operacionais em 2030 (ou mais tarde)”. A Carris não anunciou formalmente esse calendário, mas deixou-o inscrito num concurso de seguros: Bica e Lavra surgem como equipamentos inactivos em 2027, 2028 e 2029. Por vezes, a fonte de uma notícia não é um denunciante secreto; é um documento público que estava à vista de toda a gente.
E houve CHEGA. Em “CHEGA ameaça fechar a Lusa, mas jornal do partido vai buscar à agência 57% das ‘suas’ notícias”, confrontámos os insultos de Pedro Frazão aos profissionais da agência e a promessa de a extinguir com um dado bastante mais interessante: numa análise às últimas 500 publicações da Folha Nacional, o órgão oficial de comunicação do partido de André Ventura, 57% tinham origem total ou parcial precisamente na Lusa.
E aqui deixo uma nota que considero importante. Sempre que publicamos uma notícia desfavorável ao CHEGA, surge nas redes sociais uma torrente de críticas de pessoas que até à véspera elogiavam o PÁGINA UM por investigar o PS, o PSD ou o Governo. O mesmo fenómeno, em sentido inverso, aparece quando investigamos outros partidos. Isso preocupa-me muito mais do que a crítica propriamente dita. Este jornal não tem ideologia nas notícias. Tem autores com opiniões, naturalmente; mas uma notícia não pode mudar porque o protagonista veste a camisola política de que um leitor gosta. Quem só considera bom jornalismo aquele que confirma as suas simpatias não está, no fundo, a pedir jornalismo: está a pedir conforto. E esse é um serviço que o PÁGINA UM não pretende prestar a ninguém. Se um dia o PÁGINA UM tiver de fechar portas porque deixou de haver apoios dos leitores porque abordamos ou não abordamos um partido, farei isso com orgulho.
Essa independência também nos levou esta semana para fora de Portugal. Em “Empresários portugueses já estão a limpar o humor incómodo para o poder na Sérvia” acompanhámos Pedro Vargas David e Luís Santos na administração do grupo de media ANN e o afastamento do programa de Zoran Kesić, um dos humoristas que mais incomodam o presidente Aleksandar Vučić. A administração invoca razões económicas; o poder sérvio recebeu, pelo menos, um benefício político evidente. Interessa-nos particularmente acompanhar estas situações porque a independência do jornalismo também se joga na propriedade dos media e nas pressões que começam muito antes de alguém ordenar directamente que uma notícia seja retirada.
Na Economia, publicámos hoje “Inflação engordou receitas e ajudou a reduzir a dívida no ‘brilharete’ de Medina, diz estudo”. Um estudo de Mislav Brkić ajuda a perceber que a forte queda do rácio da dívida portuguesa no pós-pandemia resultou sobretudo do crescimento nominal da economia — alimentado também pela inflação — combinado com um custo médio da dívida ainda baixo, enquanto o contributo dos saldos primários foi bastante menor. A inflação que fez subir o custo de vida também engordou receitas fiscais e ajudou mecanicamente as contas públicas. A economia raramente cabe num slogan.
O PÁGINA UM não vive apenas de investigação e notícia. Assim escrevi “Novo código dos contratos públicos: o regabofe vai aumentar”, sobre uma reforma do CCP que me preocupa em particular por ampliar o espaço dos ajustes directos e reduzir a concorrência. Bruno dos Santos Pereira regressou com “A casa também joga: parte II”, desta vez entrando no território da manipulação das competições, das apostas e daquilo que chama, com razão, a verdade desportiva.
No Dedo na Ferida, Elisabete Tavares voltou a conversar com Miguel dos Santos Pereira em “Injunção: utilidade versus abusos”, sobre um mecanismo pensado para cobrar dívidas com rapidez mas que também pode transformar-se num instrumento de abuso. Frederico Duarte Carvalho recuperou em “O momento que mudou a vida a José Mourinho” uma história de 1996 que, vista três décadas depois, ganhou outro sabor. O médico Jorge Amil Dias, colaborador pontual do PÁGINA UM, escreveu “À vontade ou à vontadinha?”, interrogando a distância entre aquilo que a lei permite e aquilo que a responsabilidade ética deveria impor.
E Tiago Salazar escreveu “Do tédio” enquanto o Sporting ia vencendo o Nacional. O resultado não o convenceu a perdoar a falta de intensidade, a escassez de jogo e o futebol administrado a ansiolíticos; entre saudades de Gyökeres, o patuá das bancadas e a licença para fumar um charuto, ficou a pergunta sobre a raça leonina.
Por fim, Brás Cubas voltou a fazer aquilo que um defunto pode fazer com particular liberdade: não poupar os vivos. Em “Luís Osório, águia entre os áulicos, lagartixa entre os louvaminheiros”, encontrou no entusiasmo encomiástico de Luís Osório matéria para revisitar uma das artes mais resistentes da vida pública portuguesa: a bajulação. Brás Cubas não perdoa, mas também não lhe pagamos para perdoar.
Enfim, talvez seja isto, afinal, o PÁGINA UM a caminho dos cinco anos: um jornal onde cabe uma base de dados com 38,5 milhões de episódios hospitalares e um charuto em Alvalade; uma intimação no Tribunal Administrativo e uma viagem aos bastidores dos media sérvios; uma análise científica às vacinas, uma investigação sobre a imprensa e uma sátira de Brás Cubas. Não porque queiramos falar de tudo, mas porque não queremos decidir antecipadamente onde pode estar uma história que mereça ser contada.
Nada disto se faz sem dinheiro, e muito menos sem leitores. Não temos um grande grupo económico por detrás, nem queremos que uma dependência financeira dite aquilo que se investiga ou aquilo que se publica. O CORPUS, as batalhas em tribunal, as horas gastas em bases de dados e documentos, as deslocações, a tecnologia e o próprio funcionamento quotidiano do jornal têm custos. Por isso, a quem já nos apoia, o meu profundo agradecimento. E a quem considere que este tipo de jornalismo merece continuar, pode apoiar directamente o PÁGINA UM. O princípio continua a ser o mesmo: o jornalismo independente só pode depender dos leitores.
E termino com uma promessa sem desvendar ainda demasiado: aproximam-se novidades. Algumas do PÁGINA UM; outras minhas. Os próximos tempos vão trazer novos projectos e novas formas de continuar aquilo que começámos há quase cinco anos. Contarei tudo quando chegar o momento.
Obrigado por estarem desse lado — aos que nos apoiam, aos que partilham, aos que criticam de boa-fé e, sobretudo, aos que continuam a achar que vale a pena existir um jornal que não pergunta primeiro de que partido é o protagonista antes de decidir se uma história merece ser investigada.
Esperemos que continue a considerar que aqui encontra informação de relevo e análises que obriguem a uma reflexão sobre temas da actualidade fundamentais a todos nós.
Para que possamos continuar a fazer-lhe chegar notícias de qualidade, mais e com a mesma qualidade desde que nascemos em Dezembro de 2021, apelamos a que, dentro do que lhe for possível, continue a apoiar o PÁGINA UM e a fazer parte deste jornal que vive apenas de e para os seus leitores.
O jornalismo independente DEPENDE dos leitores.
Obrigado por todo o seu apoio.
A Direcção do PÁGINA UM
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