segunda-feira, 24 de abril de 2023

Habituámo-nos

O caso do aeroporto. O caso do Hospital Militar. O caso do adjunto e do pavilhão fantasma. O caso do assessor.

Não é uma colecção de crime e mistério.

É o dia a dia a que nos habituámos.

23 abr. 2023, Helena Matos, ‘Observador’

O excesso de casos a envolver este governo teve entre os portugueses o mesmo resultado que o consumo excessivo de medicamentos: perdeu-se o efeito. Habituámo-nos. Esta governação de António Costa reformulou a velha certeza de que os governos são afectados pelos casos. Sim, é verdade. Ou melhor, é verdade mas apenas se os casos não forem muitos e constantemente renovados. Pelo contrário se estes se sucederem a um ritmo constante ou até crescente não só se perde a noção do que está em causa como se gera uma espécie de habituação. No limite, indiferença. Quase cansaço. Desde que o Governo tomou a 30 de Março de 2022 que o caso novo apaga o velho.

Na entrevista que deu à Visão  em Dezembro do ano passado António Costa, para lá daqueles “Habituem-se” de que depois se arrependeu,  desvalorizava o que definia como  “casos e casinhos”, criações da “central de criação de soundbites da direita”. Foi uma perigosa ilusão. A verdade é que a ocupação da máquina do estado pelo PS e a redução do Governo a uma espécie de sala de exame da Prova Geral de Acesso a Sucessor de António Costa contribuíram decisivamente para que vivamos em estado de caso muito antes de a Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP se ter transformado na novela portuguesa de um país a mexicanizar. É só fazer as contas, que é como quem diz seguir o rasto dos casos:

*O caso do aeroporto. A 29 de Junho de 2022 um despacho assinado pelo secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Mendes, anunciou não um mas sim dois aeroportos: Montijo e posteriormente  o Campo de Tiro de Alcochete eram as localizações indicadas. O ministro Pedro Nuno Santos explicou na televisão que o país não tinha tempo a perder.: o aeroporto da Portela ia ser desmantelado. Os concursos que estavam a decorrer para avaliar os impactes ambientais de diferentes localizações eram anulados… O presidente da República não foi informado. Também se deixara de lado a promessa de contar com a nova liderança do PSD. Quem disse ter sido “apanhado de surpresa” com o despacho foi António Costa que nesse dia 29 de Junho estava em Madrid. O despacho foi anulado a 30 de Junho. Pedro Nuno Santos continuou no governo. António Costa terá considerado mais seguro mantê-lo no executivo que fora dele.

*O caso Sérgio Figueiredo. Estava-se em Agosto de 2022 quando se sabe que o ministro das Finanças, Fernando Medina, contratara o ex-director de informação da TVI Sérgio Figueiredo “com salário de ministro para fazer avaliação das políticas públicas“. Para lá do salário, da estranheza de Sérgio Figueiredo ir fazer “avaliação das políticas públicas” (vários departamentos e serviços têm essa tarefa a seu cargo, que está longe de ser tarefa para uma pessoa) havia o facto de Sérgio Figueiredo, enquanto director de informação da TVI, ter contratado para comentador Fernando Medina. A polémica cresce quando se sabe que na autarquia de Lisboa, Fernando Medina já contratara Sérgio Figueiredo para uma campanha de sensibilização para compras a pequenos comerciantes. O orçamento da campanha pareceu claramente desproporcionado face ao trabalho dispendido. Sérgio Figueiredo demitiu-se. Fernando Medina culpou os “ares do tempo“.

*O caso Miguel Alves. Outubro de 2022. Durante várias semanas o nome de Miguel Alves, secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, está em todos os noticiários. Afinal o homem com que António Costa contava para evitar a descoordenação do Governo tornou-se o seu maior problema quando se soube que estava a ser investigado pelo Ministério Público por causa de um contrato-promessa que celebrara, quando era presidente da Câmara de Caminha, para a construção de um pavilhão. Na prática a autarquia pagara 300 mil euros por um pavilhão que não existia. O Governo reafirma que está tudo esclarecido. Novas revelações agravam a situação de Miguel Alves que acaba a demitir-se. Já não bastava ao PM dizer que o caso estava esclarecido para que se tornasse num caso encerrado. António Costa não sabe mas a saída de Miguel Alves do governo vai ser o sopro que faltava para que os “ares do tempo” mudem de vez.

*O caso Alexandra Reis. Com a saída de Miguel Alves, António Costa já não arriscou ir buscar alguém de fora para o lugar de secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. Assim o escolhido foi António Mendonça Mendes, até então secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (e irmão de Ana Catarina Mendes). Como é óbvio era necessário convidar alguém para o cargo. A escolha recaiu no sub-diretor da Autoridade Tributária  Nuno Félix. Fernando Medina criou mais uma secretaria de Estado, a do Tesouro, para a qual convidou Alexandra Reis. Estava-se no final de Novembro. Menos de um mês depois, a 24 de Dezembro, o Correio da Manhã  revela que “A nova secretária de Estado do Tesouro recebeu uma indemnização da TAP de cerca de 500 mil euros, por cessação antecipada do cargo de administradora executiva. Quatro meses depois de sair da companhia aérea, Alexandra Reis foi nomeada presidente da NAV, também uma empresa pública.” António Costa apressa-se a  esclarecer  “desconhecia em absoluto os antecedentes” de Alexandra Reis  e que solicitou esclarecimentos aos ministros das Finanças, Fernando Medina, e das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos. A 27 de Dezembro, Fernando Medina pede a Alexandra Reis que apresente o seu pedido de demissão como secretária de Estado do Tesouro. O ministro das Finanças garantiu desconhecer a indemnização paga pela TAP a Alexandra Reis quando a convidou para secretária de Estado do Tesouro. Estava instituído o estado de caso.

*O caso Pedro Nuno Santos. 29 de Dezembro. Um comunicado do gabinete do ministro das Infraestruturas e da Habitação informa que “face à perceção pública e ao sentimento coletivo gerados” em torno da polémica da indemnização da TAP a Alexandra Reis, o ministro Pedro Nuno Santos “entendeu, neste contexto, assumir a responsabilidade política e apresentou a sua demissão ao primeiro-ministro”. A este comunicado do ainda ministro Pedro Nuno Santos respondeu o primeiro-ministro com outro comunicado declarando que aceitou o pedido de demissão do ministro das Infraestruturas e Habitação. Quem “face às circunstâncias” entendeu também ter chegado a hora de apresentar a sua demissão foi o Secretário de Estado das Infraestruturas Hugo Mendes, o mesmíssimo que assinara em Junho o Despacho dos novos aeroportos. Há-de tornar-se famoso por causa das mensagens por whatsapp e por ser obviamente o elo politicamente mais fraco da série de casos que têm a TAP como denominador comum.

*O caso Carla Alves. Foi secretária de Estado da Agricultura por 25 horas e 53 minutos. Tomou posse a 4 de Janeiro de 2023 e demitiu-se a 5. Primeiro soube-se que tinha contas arrestadas. Depois que o seu marido, e antigo presidente da Câmara de Vinhais, estava a a ser investigado, num processo que envolve mais de 4,7 milhões de euros. Depois que tinham acontecido outros processos-crime. A ministra da Agricultura disse que não sabia de nada e também não parece ter-se interrogado sobre se deveria ter procurado saber.

*O caso do Hospital Militar de Belém e do ministro que já foi da Defesa. A 20 de Dezembro de 2022, o agora ministro dos Negócios Estrangeiros, que tutelou a Defesa entre 2018 e 2022, disse que “não” autorizou nem lhe foi solicitado “que autorizasse” que mais que triplicasse a despesa com as obras no Hospital Militar de Belém: estavam orçamentadas em 750 mil euros e acabaram a custar mais de 3,2 milhões de euros). Mas em Fevereiro de 2023, quando vai a uma audição ao parlamento, João Gomes Cravinho declara algo de substancialmente diferente: a Direcção-Geral de Recursos da Defesa Nacional (DGRDN) enviara um mail  a 20 de Abril de 2020 com o real custo da requalificação do Hospital Militar de Belém mas só dois meses depois tomou conhecimento desta mensagem porque os anexos excediam o limite e foi “recusado pelo servidor“. Dias antes fora Pedro Nuno Santos a lembrar-se que afinal dera “anuência política” por Whatsap para saída da TAP de Alexandra Reis e, não menos importante, que foi informado do valor final do acordo, ou seja dos 500 mil euros que a TAP pagou a Alexandra Reis. Isto não é para acreditar, pois não?

Tal como no passado os “casos e casinhos” não eram criações da “central de criação de soundbites da direita”, também agora não é um equívoco o caso do parecer sobre o despedimento da CEO da TAP que Ana Catarina Mendes e Mariana Vieira da Silva afirmavam existir e ser tão relevante quem nem podia ser divulgado e que Fernando Medina veio depois dizer que nunca existira. Ou a reunião secreta do PS com a CEO da TAP.

Toda esta sucessão de factos resulta da forma como António Costa concebeu este governo: fechado sobre o PS.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Jogadores problemáticos devem custar milhões aos contribuintes

SEBASTIAN HAW 19 DE ABRIL DE 2023

O Ministério dos Impostos estima que o problema custará aos contribuintes 10 milhões de coroas por ano

O estado dinamarquês está pronto para usar alguns de seus recursos para combater o problema crescente do vício do jogo pela primeira vez, de acordo com um comunicado de imprensa publicado ontem pelo Ministério dos Impostos.

Alguns parlamentares temem que o uso de actores e desportistas famosos na publicidade de empresas de jogos de azar tenha tornado o jogo mais atraente para um público mais jovem.

Pilou Asbæk de 'Borgen' e 'Game o Thrones', bem como o Ex-jogador de futebol Brian Laudrup, apareceram em anúncios de jogos de azar dinamarqueses, e alguns estão pedindo a proibição desses endossos de celebridades.

Sinais preocupantes
O Ministério dos Impostos sublinhou os perigos do vício do jogo – especialmente para crianças e jovens.

“A evolução a que assistimos na área do jogo é muito preocupante”, afirmou o ministro dos Impostos, Jeppe Bruus. “O vício em jogos de azar pode ter consequências importantes e duradouras para os envolvidos, e temos uma obrigação especial de proteger crianças e jovens e outros grupos vulneráveis.”

Bruus também comentou sobre os efeitos prejudiciais da publicidade de jogos de azar, muitas vezes envolvendo pessoas famosas, que ele diz glamorizar o jogo sem avisar sobre seus perigos.

“Se você conversar com o Center for Gambling, viciados em jogos de azar e parentes, eles dizem que a publicidade contribui significativamente para o desenvolvimento de um vício”, observou Bruus. “Este é o caso, sejam crianças, jovens ou adultos.”

“Também ajuda a normalizar os jogos, então os dinamarqueses pensam nisso como algo inofensivo, porque está em todo lugar. E eu posso entender isso. Mas jogar por dinheiro não é inofensivo.”

Jogando dados com a morte
Existem agora 500.000 'jogadores problemáticos' na Dinamarca, de acordo com um
relatório de Rambøll realizado no ano passado para a Autoridade de Jogos da Dinamarca (Spillemyndigheden).

Isso representa quase um dinamarquês em cada dez e também custará ao contribuinte dinamarquês 30 milhões de coroas nos próximos três anos.

Em outros países, como o Reino Unido, a publicidade de jogos de azar foi alvo de duras críticas, com rumores de proibir as empresas de apostas online de anunciar em camisas de jogadores de futebol profissionais.

https://cphpost.dk/2023-04-19/news/problem-gamblers-set-to-cost-taxpayer-millions/

TAPitô

Ficarei muito desgostoso se venderam a TAP à Lufthansa. Não me apetece nada ter de aprender alemão para poder assistir às peripécias da TAP nas comissões de inquérito do Bundestag.

José Diogo Quintela



Estou empolgado com ficção televisiva de qualidade! Fico sempre assim quando estreia a nova temporada de uma das minhas séries predilectas. E na semana passada estrearam logo duas: Succession, na HBO, e As aventuras da TAP, na ARTV. Uma é a saga da empresa milionária e das traições, maroscas, esbanjamento imoral e tolices de quem quer mandar nela; a outra é a história de Logan Roy e família.

Depois de assistir aos primeiros dois episódios de ambas, já decidi: vou dedicar o meu tempo à da TAP. Enquanto esta temporada de Succession é mais do mesmo, a da TAP, dedicada à Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP, introduz personagens novos que trazem frescura à narrativa. Até porque vêm tão focados limpar a imagem do Governo, que parecem lixívia com aroma floral.

O episódio de estreia é a audição a António Ferreira dos Santos, Inspector-Geral das Finanças, responsável pela elaboração do relatório que concluiu que Christine Ourmières-Widener é a única culpada pela indemnização ilegítima que Alexandra Reis recebeu. O episódio começa com a apresentação de Ferreira dos Santos, que diz aos deputados: “Entendemos que era importante ouvir as pessoas envolvidas ou que havia indício que conheciam o processo. Optámos por ouvir Alexandra Reis, o chairman, também o CFO e o ex-Secretário de Estado, a ideia era que eram as pessoas que havia indícios suficientes que tinham envolvimento directo no processo. As restantes, achámos que bastava por escrito”. Ou seja, a CEO, que é quem manda na empresa, que está tão envolvida que até é a principal responsável, não é ouvida. Numa frase, fica apresentada a personagem do Inspector-Geral das Finanças, mistura de dois outros famosos inspectores do audiovisual: o Inspector Clouseau, pela trapalhice, e o Inspector Max, pela fidelidade ao superior hierárquico.

Ferreira dos Santos explica porque é que optou por não ouvir presencialmente a CEO: “A questão para nós foi o facto de estarmos a falar – talvez achem graça – línguas diferentes. Percebemos, da audição que a senhora teve aqui, que talvez isso tenha sido utilizado para não responder a questões colocadas por deputados”. Vê-se que o Inspector-Geral fez o trabalho de casa. Assistiu à audição que Christine Ourmières-Widener já tinha prestado na Assembleia da República e apercebeu-se que, muitas vezes, ela não respondia directamente às perguntas que lhes eram colocadas. E apercebeu-se bem. Pelos vistos, a finta a questões é uma atitude típica de responsáveis quando são inquiridos. Basta ver que, nem uma hora depois de Ferreira dos Santos ter dito isto, alguns dos deputados que lhe estavam a fazer perguntas queixaram-se ao Presidente da Comissão de que o Inspector-Geral não se estava a deixar inspeccionar. Disse Hugo Carneiro do PSD: “Quando os deputados colocam perguntas, as perguntas têm de ser respondidas. A não ser que o depoente, ao abrigo dos seus direitos fundamentais, invoque, por exemplo, alguma causa que o possa prejudicar na sua defesa própria. E, se quiser, até se pode fazer acompanhar por advogado. Portanto, era bom termos perfeitamente noção do que estamos aqui a fazer. Se eu coloquei uma questão que não foi respondida, independentemente do meu tempo ter terminado, tenho direito a que a resposta seja dada, a não ser que alguma das causas que referi seja invocada”. E, momentos depois, Filipe Melo do Chega: “Eu entendo que, por estarmos numa Comissão de Inquérito, todas as questões devem ser respondidas. O sr. Inspector-Geral tem-no feito, de alguma forma, sem receio das palavras. Mas de outras notamos que tem alguma resistência em responder concretamente ao que é solicitado”.

Ora, como Ferreira dos Santos não se esquivou em francês, conclui-se que, quando fala em “línguas diferentes” se deve estar a referir ao facto da CEO ter uma língua bífida, como as serpentes. Está a chamar-lhe ardilosa. Daí não ter querido encará-la pessoalmente, para não ser endrominado pelas sibilantes.

Como todos os bons primeiros episódios, a audição de Ferreira dos Santos termina com uma revelação bombástica: a TAP tem uma nova rota! Até agora, o voo mais longo da TAP era para São Francisco, mas, depois do depoimento do IGF, descobrimos que Fernando Medina foi transportado para um sítio ainda mais longínquo. Deve ser a Lua, porque Medina consegue estar mais afastado de qualquer responsabilidade na TAP do que eu, que o máximo prejuízo que dei à companhia foi ter ficado com os headphones num voo que fiz há 3 anos.

O segundo episódio também não desilude. Trata-se da audição do CFO da TAP, Gonçalo Pires. São quase cinco horas, todas passadas com Gonçalo Pires a afirmar, repetir, reiterar e repisar que não teve nada, absolutamente nada a ver com o processo da saída de Alexandra Reis, do qual, aliás, apenas teve vago conhecimento informal. Qualquer espectador com um mínimo de experiência a assistir a filmes de terror sabe que, se o realizador está a esforçar-se muito para mostrar que um túmulo está vazio, é óbvio que, quando achamos que a fita acabou, vai saltar lá de dentro um zombie. Neste caso, foi no pós-genérico: um dia depois da audição, a CNN publicou duas conversas de WhatsApp entre a CEO e o CFO, da altura em que se negociou a saída de Alexandra Reis. A primeira:

CEO: Acordo alcançado com a Alexandra.

CFO: Pensava que ia demorar mais tempo. Parabéns.

A segunda:

CEO: A Alexandra respondeu?

CFO: Não.

CEO: Liga-lhe, se fora necessário: Claro que tu não sabes de nada.

CFO: Claro.

Percebe-se que, afinal, Gonçalo Pires sabia do processo. Tanto que até tinha uma opinião sobre quanto tempo poderia demorar a ser alcançado. E participou nele, ao ponto de ter uma ordem da CEO para falar com Alexandra Reis, uma espécie de missão secreta sobre a qual deveria negar saber o que fosse. Ordem que, diga-se, cumpriu com excelência, como se comprovou pelas respostas que deu na audição.

Quanto à diferença que o CFO quis sublinhar entre conhecimento oficial e informal, fica uma bocado esbatida quando constatamos (também pela reportagem da CNN) que a informalidade das mensagens por telemóvel é a mesma que é usada nas comunicações entre a CEO e o Secretário de Estado da tutela a propósito das decisões do Ministro das Infraestruturas. Que, recorde-se, era Pedro Nuno Santos, outro que na altura também não sabia de nada. Logo, na TAP, o WhatsApp não é uma mera aplicação de telemóvel para combinar jogos de padel com os colegas, é uma ferramenta profissional utilizada ao mais alto nível. Gonçalo Pires está a fazer confusão entre “conversa informal” e “conserva em formol”. Só esta última permite a preservação.

Espero que nunca privatizem a TAP. Ficarei muito desgostoso se a venderam, especialmente se for à Lufthansa. Não me apetece nada ter de aprender alemão para poder assistir às peripécias da TAP nas comissões de inquérito do Bundestag. Já desliguei as legendas a ver uma série escandinava e não é nada divertido.

Observador

04-04-2023

terça-feira, 18 de abril de 2023

Os professores e o ensino

A escola é sem dúvida construída por sua comunidade – e, assim como o gestor ou a equipe directiva da unidade tem seu papel na organização do projecto escolar, é preciso que toda comunidade esteja envolvida na implementação e construção do projecto.

Assim, professores e estudantes são fundamentais na articulação do projecto da escola e devem participar activamente da sua construção. Na educação integral, todos são co-responsáveis e trabalham juntos na construção de uma educação de qualidade. Nessa perspectiva, mais de 50 especialistas* (organizações e indivíduos) em Educação Integral indicam as seguintes recomendações às escolas:

Papel de professores

Numa escola de educação integral, a equipe de professores identifica as expectativas e necessidades de desenvolvimento integral dos seus estudantes e propõe ou articula oportunidades educativas capazes de atendê-las.

Assim, cabe ao professor:

Coerência: actuar em sintonia com o Projecto Político Pedagógico da escola, compreendendo seu papel e cumprindo suas metas.

Integralidade: compreender o estudante de forma integral, buscando identificar suas necessidades de desenvolvimento no nível intelectual, físico, emocional, social, cultural.

Reconhecimento: conhecer a realidade do aluno, da sua família e da comunidade em que a escola e estes estudantes estão inseridos.

Empatia: acolher as diferenças, reconhecendo que cada estudante é único, aprende de uma forma diferente e vive em um contexto próprio.

Sonhos: conhecer os interesses, anseios e/ou o projecto de vida dos seus alunos e apoiá-los a alcançar seus objectivos.

Tempo Integral: considerar o estudante durante todo o tempo em que está na escola e não apenas na sua sala de aula.

Cumplicidade: conhecer as famílias de seus alunos, dialogar com elas e criar vínculos para fortalecer o seu desenvolvimento integral.

Trilhas: construir roteiros educativos que integrem disciplinas tradicionais com actividades complementares, saberes académicos e populares.

Colaboração: trabalhar de forma colaborativa com outros professores da escola, criando comunidades de aprendizagem para compartilhar desafios e propor estratégias articuladas que respondam às demandas do desenvolvimento integral.

Relacionamento: estabelecer uma relação mais igualitária e dialógica com seus alunos, reconhecendo seus saberes e legitimando a sua capacidade de contribuição com seu próprio processo de desenvolvimento.

Mediação: ser um mediador, facilitador e articulador do conhecimento, provocando o aluno a aprender a partir de seus próprios questionamentos.

Pesquisa: convidar o estudante a perceber a realidade como objecto de estudo.

Protagonismo: promover o protagonismo do aluno como autor e proponente do seu próprio processo pedagógico.

Participação: colaborar com a equipe gestora no sentido de apontar necessidades de infra-estrutura, propor projectos e acções inovadoras e se envolver com actividades do programa que extrapolem a sua sala de aula.

Acompanhamento: avaliar continuamente os processos de ensino-aprendizagem, em conjunto com seus estudantes, estimulando que reconheçam o que precisam fazer para alcançar seus objectivos individuais e colectivos.

Aprendizagem: admitir que pode errar e aprender enquanto ensina, inclusive com seus alunos.

Veja as propostas e depoimentos na íntegra

O Professor é um articulador fundamental na escola: ele deve apoiar a relação entre famílias, alunos e gestores.

O professor deve acolher as diferenças e as considerar no processo de ensino-aprendizagem, reconhecendo que cada estudante aprende de uma forma diferente, tem um contexto próprio e precisa ser reconhecido como indivíduo.

Ele deve aprender a conhecer a realidade do aluno, da sua família e da comunidade em que a escola e estes estudantes estão inseridos.

O professor deve trazer a comunidade para a sala de aula, buscando aproximar os conhecimentos comunitários dos conhecimentos académicos.

Ele deve ser um mediador, facilitador e articulador do conhecimento e não apenas aquele que detém a informação. Ele deve actuar como um pesquisador, que provoca o aluno a ser também curioso e descobrir a partir de seus próprios questionamentos. Deve convidar o estudante a ver a realidade como seu objecto de estudo. Ele é um mediador que deve negociar os conhecimentos que todos têm e apoiar os estudantes a juntos sintetizarem o conhecimento compartilhado.

O professor deve olhar para o aluno de forma integral, buscando identificar suas diferentes dimensões formativas e como sua actuação – nessa função educadora -, responde ou dialoga com elas.

O professor deve compreender quem são as famílias de seus estudantes e estabelecer diálogo com as mesmas, estreitando relações e criando vínculos que fortaleçam o processo educativo dos estudantes.

Ele também deve levar em consideração todo o tempo em que o aluno está na escola, e não só na sua sala de aula. Ele deve actuar de acordo com o Projecto Político Pedagógico (PPP) da escola e pensar no currículo de forma diferenciada, integrando o conhecimento académico aos saberes da comunidade e dos próprios estudantes.

Professor também deve ter o papel de aluno: deve aprender ao passo que ensina. Professor e alunos devem compartilhar os princípios éticos e a proposta do PPP da escola que vão nortear essa perspectiva de ensino-aprendizagem como um processo dialógico.

Para entender a formação integral dos alunos, ele deve desenvolver estratégias de trabalho colaborativo com outros professores da escola, criando espécie de comunidade de aprendizagem colaborativa entre professores. Juntos, eles devem compartilhar seus anseios e propor estratégias de trabalho que respondam às demandas que identificaram.

O professor deve elaborar estratégias de trabalho para dar protagonismo para a aula, para que o estudante possa participar activamente como autor e proponente do seu próprio percurso pedagógico.

Ele tem que pensar o projecto do seu aluno e apoiá-lo a alcançar esses sonhos. Junto aos estudantes, ele deve ser um avaliador contínuo de todo esse processo, estimulando que o estudante reconheça individualmente e com seus pares o que precisa fazer para alcançar seus objectivos individuais e objectivos colectivos – da turma, da escola e da própria sociedade.

Apoio aos professores

Ele precisa de uma equipe pedagógica para ajudar a formar seu currículo em diálogo com o projecto pedagógico da escola. Por isso, é fundamental que o gestor organize em horas de planejamento o apoio necessário ao docente.

Dessa forma, a gestão deve construir espaços para apresentar o papel desse professor na dinâmica da Educação Integral, discutindo com a equipe docente como o projecto ou programa foi elaborado na secretaria e como ele pode ser implementado na escola.

O gestor precisa convidar e trazer para troca de experiências e convivência professores que já participam de programas de Educação Integral. Convidá-los a apoiar a equipe docente da escola é uma estratégia importante para apoiar a equipe.
A escola deve ter um professor que atue como articulador e educador comunitário, estabelecendo as pontes entre oficineiros, parceiros e oportunidades educativas do
território com o corpo docente e escola.

O gestor, equipe gestora ou esse professor/ educador comunitário deve reconhecer as lideranças comunitárias e construir junto à escola cardápios de oportunidades educativas no território que apoiem os professores: o plano de aula pode ser complementado ou construído a partir da oferta do território.

Para garantir o envolvimento desse professor, ele precisa ter tempo na escola. Assim, é fundamental que a gestão pública invista na dedicação exclusiva de professores na escola e que estes tenham garantidas horas de planejamento remuneradas. O plano de carreira do docente deve valorizar seu vínculo com a escola.

A equipe gestora deve estimular que seu corpo docente acesse novas propostas de práticas pedagógicas e que conheça novas formas de ensinar. Da mesma forma, o professor deve ter apoio para entender o que significam as avaliações externas (como o IDEB, Saeb) e como eles, professores, podem aprimorar suas práticas a partir dos indicadores.

O professor precisa receber opinião constante de seus gestores e coordenadores pedagógicos. A valorização de seu papel na escola passa diretamente pelo seu acompanhamento – ele não deve estar sozinho em sua função.

Gestão Pública

A gestão pública, ao adotar um programa de educação Integral, deve garantir aos docentes a formação continuada em serviço. A formação deve ser sobre Educação Integral e temas correlatos e acontecer como parte da carga horária do profissional.

Por fim, o professor deve ter acesso à direção para discutir a necessidade de espaços e estrutura, para desenvolver atividades que não aconteçam apenas em sala de aula. Ele precisa se sentir autônomo para propor projetos e ações inovadoras que respondam às suas necessidades didáticas e de aprendizagem dos seus estudantes.

Participação dos estudantes

Fundamentalmente, a escola deve garantir a presença de grêmios estudantis efetivos. Para tanto, é preciso que o gestor e corpo docente invistam em formação dos estudantes para a composição, regulamento e ação política dos estudantes.

A escola deve investir na criação e efetivação de instâncias políticas de decisão. Uma estratégia é a realização de assembleias que deliberem sobre temas e necessidades concretas da escola: como regras de convívio, currículo, PPP, uso de uniformes, etc.

A escola deve oferecer espaços e o direito para os estudantes conviverem livremente na escola. É preciso que haja um espaço e tempo dedicado ao ócio e ao convívio.

Os professores devem convidar os estudantes a disporem e pensarem sobre o próprio currículo. Os estudantes devem ser estimulados a responder sobre o que desejam aprender.

A escola precisa investir em espaços para troca intergeracional e não mediados: ou de estudantes com estudantes, ou de estudantes com outros segmentos da escola, ou de estudantes com estudantes de outras escolas.

As ações escolares devem ser estabelecidas – para além do PPP -, na construção de um plano plurianual participativo, em que os estudantes tenham voz e possam expor suas expectativas em relação à escola e a sua aprendizagem.

Cultura colaborativa: relação professor-estudante

A escola deve estabelecer em seu Projeto Político Pedagógico a relação entre professores e alunos como uma relação mais igualitária, dialógica, em que o professor não se coloca como  aquele que detém todo o conhecimento, mas aquele que orienta percursos de pesquisa e de descoberta do conhecimento.

O professor deve assumir sua responsabilidade, mas reconhecer os saberes dos alunos.  Essa relação deve se estabelecer a partir da legitimidade desses papeis, construídos em diálogo entre os envolvidos. A relação deve ser não hierárquica e de respeito.

O professor deve garantir ao estudante seu direito de opinar sobre o currículo e sobre a gestão da escola. Assim, a escola deve estimular que o aluno e o professor compartilhem sonhos e desejos.

Escola como mundo real

É fundamental que todos – família, professores, estudantes e direção -, mudem a concepção de que professores e estudantes são sempre ideais. É preciso “admitir” o mundo real, e compreender o professor e o estudante como sujeitos que vivem nesse mundo com seus conflitos e dificuldades.

Professor que não pode ter preconceito: deve reconhecer e admitir todas as culturas, estimulando que os estudantes também convivam e se relacionem com a diferença.

O professor deve perceber que quando o aluno é autor e ator do processo de ensino-aprendizagem, ele se sente pertencente à escola.

O professor também é um ser humano e pode errar. Para tanto, é preciso transparência nessa relação. Ele deve poder admitir que aprende com seus alunos.

*Os especialistas estiveram reunidos no lançamento do Centro de Referências, evento da Série de Diálogos: o Futuro se Aprende, iniciativa do Instituto Inspirare, Porvir e Instituto Natura.

https://educacaointegral.org.br/metodologias/papel-dos-professores-e-participacao-dos-estudantes-nas-escolas-de-educacao-integral/

sábado, 15 de abril de 2023

Maioria de Peter

O PRINCÍPIO DE PETER

Comentário Pessoal ao texto anexo:

Tive oportunidade de ver e conviver profissionalmente ao longo da minha vida com alguns exemplos claros das consequências do ‘Princípio de Peter’.

Acontece com uma certa frequência em empresas que estão em expansão acelerada (devido ao seu êxito no mercado) e a maioria deles/as são ‘boas pessoas – seres humanos normais’ que foram simplesmente empurrados para cima, devido ao ritmo acelerado e à quantidade dos recém-entrados para os quadros da empresa. O ‘timing’ da sua entrada na empresa (anterior à expansão em evolução) foi fundamental para atingirem – sem que verdadeiramente o tenham procurado – posições profissionais em que o seu nível de incompetência é um facto, que eles/elas, mesmo que tentem, não conseguem neutralizar totalmente. ‘Aguentam-se como podem’.

Num caso até, esse nível de incompetência foi ultrapassado e as suas qualificações básicas não lhe permitiam sequer ‘aguentar-se’. Casos destes ‘acabam sempre mal’. Quando os responsáveis pela sua última promoção foram substituídos, ele ficou desprotegido e era por demais visível. Tanto ele como a empresa procuraram (e encontraram) uma maneira de ele ‘desaparecer’. O que aconteceu. ‘Paz à sua alma’.

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A grande diferença entre estes casos e o de António Costa é que ele não foi empurrado para cima. Ele usou – certamente entre outras habilidades – a ‘deslealdade e a traição’ para empurrar para o lado e para fora da organização, aquele que queria substituir.

Por isso considero que o autor do artigo anexo errou (propositadamente?) ao escrever que António Costa foi vítima do seu próprio sucesso. Ele simplesmente usou processos para alcançar o PODER que não estão disponíveis (por uma questão de ‘princípios’) para ‘boas pessoas – seres humanos normais’. E essa é uma enorme vantagem para os da sua laia.

Não o posso de facto considerar como fazendo parte das ‘boas pessoas – seres humanos normais’ com que qualquer um se pode dar normalmente.

Isto não seria tão grave se não houvesse em Portugal (desde que António Costa alcançou o PODER) uma ‘Dissolução moral dos fundamentos de qualquer ESTADO de DIREITO’.

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A situação conforma uma aplicação directa de um velho axioma da Gestão, o “Princípio de Peter”. António Costa é vítima do seu próprio sucesso: foi promovido até ao seu nível de incompetência.

14 abr. 2023, João César das Neves, ‘Observador’

Professor da Católica Lisbon School of Business & Economics

Portugal está numa situação política muito curiosa, misturando solidez com fragilidade. Por um lado, somos o país da Europa com maior estabilidade governativa. O primeiro-ministro António Costa, no cargo há quase 2700 dias, tem já o segundo maior mandato desta Terceira República, apenas superado pelos 3644 dias de Cavaco Silva.

Isso é tanto mais notável porquanto o nosso sistema político está pensado para não gerar executivos estáveis. Em 22 governos constitucionais só seis terminaram o mandato, incluindo as três maiorias de partido único, duas de Cavaco Silva e uma de José Sócrates. A conclusão tem de ser que vivemos um momento histórico, a quarta vez em 50 anos com uma orientação coerente e duradoura. Além disso, institucionalmente tudo funciona bem, com o Estado a devorar a maior injeção de fundos europeus de sempre.

Apesar disso, porém, a situação política parece muito precária. No primeiro ano do Governo saíram 14 membros em desgraça. Os casos mediáticos graves multiplicam-se e a contestação sobe nas ruas. A oposição mal precisa de se esforçar, com a atualidade dominada por erros infantis cometidos por governantes que deviam ser experientes. Nunca António Costa pareceu tão frágil como neste momento de poder absoluto. Invocar a dificuldade da conjuntura não colhe num Governo que há três anos enfrentou a maior catástrofe do século, e conseguiu depois disso uma vitória eleitoral retumbante.

O pior da legislatura é precisamente a falta da tal orientação coerente e duradoura. António Costa é um genial tático. Depois de perder as eleições de 4 de outubro de 2015, conseguiu arquitetar um apoio da extrema-esquerda, deste modo tomando o poder e revolucionando para sempre o quadro político nacional. Durante seis anos governou serenamente em minoria, enfrentando enormes problemas, dos fogos florestais ao vírus assassino, sempre equilibrando os parceiros radicais. Essa habilidade foi recompensada na vitória de 30 de janeiro de 2022.

Este grande manobrador tem-se mostrado incapaz de governar em maioria, onde os seus principais dotes são desnecessários. O que ele sabe bem é equilibrar, negociar, deslumbrar, apresentando medidas populares que, parecendo lidar com os problemas, satisfazem interesses instalados e granjeiam apoios; mas isso é espúrio em maioria absoluta. Com estabilidade garantida, o que se exige é um plano estratégico, que lide com velhos bloqueios nacionais, conceba reformas estruturais e relance o desenvolvimento do país. Ao fim de um ano, essa grande linha diretora nem sequer se vislumbra.

Saúde, educação, justiça e outros setores parecem envolvidos numa espiral decadente, com falhas e faltas que não se viam há décadas. Prosseguem os anúncios bombásticos sem substância. No pacote da habitação, como no plano anti-inflação, há apenas medidas avulsas, tratando sintomas sem lidar com causas profundas. A única linha estratégica é a mesma há sete anos: as famosas “contas certas”, agora ajudadas pelo surto inflacionista. Fraco propósito para quem tem poder absoluto. Hoje, finalmente com o país nas mãos, Costa continua a navegar à vista, atento às ondas e incapaz de traçar uma rota. O horizonte são dias, não anos, com o Governo contente com o que está.

Como explicar esta inanidade? A situação conforma uma aplicação direta de um velho axioma da Gestão, o “Princípio de Peter”, apresentado em 1969 pelo professor canadiano Laurence J. Peter.

António Costa é vítima do seu próprio sucesso: foi promovido até ao seu nível de incompetência.

Já não restam trocadilhos com TAP para título

Para a generalidade dos portugueses, uma companhia aérea é uma empresa de aviões; para o PS, uma companhia aérea é uma acompanhante distraída: pode-se enfiar a mão e abusar à vontade.

11 abr. 2023, José Diogo Quintela, ‘Observador’

Estou perplexo por haver quem esteja mesmo convencido que Pedro Nuno Santos já não tem futuro na política. É não perceber nada de estatística. Como toda a gente sabe, a probabilidade de se morrer num acidente de carro é muito maior do que num desastre aéreo. Isso também vale para a morte política. Ora, se Eduardo Cabrita sobreviveu durante vários meses a um atropelamento na A6, é evidente que PNS se vai aguentar, mesmo sendo o principal responsável pelo fiasco da gestão da TAP. Uma frota de aviões não era tão mal gerida desde que a força aérea japonesa achou que seria boa ideia os pilotos jogarem-se contra barcos inimigos. A diferença é que os kamikaze tinham objectivos e cumpriam-nos, destruíam com rigor e eficácia. Pedro Nuno Santos e a sua equipa nem isso conseguem. São kamikazelhas.

Apesar da espectacularidade do falhanço, estou confiante que ainda vamos ver Pedro Nuno chegar a Primeiro-Ministro. Naturalmente, empossado por José Sócrates, cujo processo entretanto irá prescrever, levando os socialistas a poderem dizer que é inocente, uma vez que não foi condenado.

Se Portugal precisava de mais provas de que o Partido Socialista é a maior instituição política do país, basta ver a diferença como o PSD e o PS reagem a infortúnios com aeronaves. Enquanto os sociais-democratas ainda hoje choramingam a queda do Cessna que privou a direita das suas maiores figuras, os socialistas sabem que não é este desaire que vai impedir Pedro Nuno Santos e João Galamba de virem um dia a ocupar os cargos a que estão destinados.

Mesmo uma figura menor como Hugo Mendes vai safar-se. Apesar de António Costa ter ontem dito que, se tivesse sabido do mail, o teria despedido na hora, a verdade é que isso não significa que Hugo Mendes deixe de ter futuro como rémora de Pedro Nuno Santos. Até porque tudo isto tresanda a injustiça. É óbvio que Mendes nunca deveria estar próximo da TAP, a única qualificação para gerir uma companhia aérea é ter o cabelo de alguém que vai de asa delta para o trabalho, mas tenho sérias dúvidas que seja culpado pelo que se passou.

A minha teoria: o Governo sofre grande escassez de mão-de-obra e toda a gente é forçada a trabalhar o triplo. Reparem que há 20 ministérios, 40 secretarias de estado, 80 direções-gerais, centenas de grupos de estudo, empresas públicas, comissões e observatórios, e é preciso atafulhar tudo isto com militantes. Mesmo que o ISCTE fosse uma coelheira, com intelectuaizinhos a reproduzirem-se desenfreadamente, seria impossível fornecer o número de jovens quadros necessários para alimentar a voragem socialista e governar o país. O PS é vítima do seu próprio sucesso. Atrapalhado para responder a tantas solicitações, sem assessores disponíveis a quem apelar, o Governo viu-se obrigado a recorrer a um daqueles softwares que conversam com as pessoas, tipo Chat GTP. Só que, para poupar, não compraram Inteligência Artificial, instalaram antes Chico-Espertice Artificial.

Foi esse programa que respondeu aos mails de Hugo Mendes. Estudou tudo o que o PS diz desde que é Governo, e depois agiu em conformidade, respondendo com a desfaçatez aprendida. Daí ordenar à CEO que transformasse um voo da TAP no jacto privado da Presidência. Só faltou sugerir que, da mesma forma que os americanos têm o Air Force One, chamássemos àquele avião o Presidente Um. O P-Um.

Também é óbvio que foi a Chico-Espertice Artificial a responder por João Galamba quando Christine Ourmières-Widener lhe perguntou se podia participar na reunião preparatória do seu próprio interrogatório. (Evidentemente, para efeito de comicidade, estou a fingir que acredito na patranha de Galamba). A resposta inteligente seria: “Nem pensar, minha senhora. Tal não é ético”. Mas enquanto a Inteligência Artificial continua a aprender com as circunstâncias, a Chico-Espertice Artificial, preguiçosa, parou de evoluir na altura em que a impunidade do PS ainda era aceite com bonomia.

Este sub-caso é mais um exemplo do excesso de trabalho a que são sujeitos os membros do Governo. Se não estivesse cansado, Galamba teria percebido que era melhor dizer a verdade. Se tivesse admitido que fora ele a convocar a CEO para a reunião, passava por calculista sem escrúpulos, o que até lhe dá pontos no partido; como optou por dizer que se limitou a aceitar uma sugestão da CEO para participar, passa só por tolo. Bem dormido, tenho a certeza que João Galamba preferiria que o julgassem pérfido em lugar de nabo. Em vez de Maquiavel, saiu palonço.

Parece-me que o grande ponto de discórdia sobre a TAP deve-se a haver uma diferença de entendimento sobre o que é uma companhia aérea. Para a generalidade dos portugueses, uma companhia aérea é uma empresa de aviões; para o PS, uma companhia aérea é uma acompanhante distraída: pode-se enfiar a mão e abusar à vontade, que ninguém dá por isso.

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quarta-feira, 12 de abril de 2023

Marcelo nem dissolve nem sai de cima.

Com Marcelo e Costa aos comandos, Portugal não irá a lado algum. Estamos condenado ao clássico “ficar a chuchar no dedo”. O que só é positivo se a alternativa for chupar a língua ao Dalai Lama.


Náuseas, transpiração, alteração do equilíbrio. Tudo sintomas típicos de síndrome vertiginoso. De síndrome vertiginoso, ou da tentativa de acompanhar os casos e casões envolvendo o governo do PS, que nos têm sido apresentados a um ritmo que faz o Livin’ La Vida Loca de Ricky Martin parecer a marcha fúnebre de Frédéric Chopin.
As minhas desculpas, portanto, a todos os que buscam neste espaço informação actualizada e rigorosa sobre a vida política portuguesa. Por sorte, este grupo de leitores constitui aquilo a que, em matemática, mais especificamente em teoria dos conjuntos, se chama conjunto vazio. Pelo que não me sentirei tão culpado pela incapacidade de esmiuçar a mais recente polémica envolvendo as mudanças de departamento no Ministério das Finanças da esposa do Ministro das Infra-estruturas, João Galamba. Ficando assim com mais tempo disponível para as várias tomas diárias de Vomidrine.

Bom, mas a verdade é que nada parece convencer o Presidente da República a dissolver a Assembleia. Pelo menos foi isso que, ao fim e ao cabo, preconizou, no seu espaço de comentário na SIC, o boneco de ventríloquo. Perdão. O boneco de Marcelo. Ai. Peço desculpa. O Dr. Marques Mendes, assim é que é. O Dr. Marques Mendes.

Sim porque, como Marcelo Rebelo de Sousa já deixou sobejamente claro – às vezes até pela sua própria boca – isto não é para andar a trocar de governo como quem troca de cuecas. Tal como, aliás, isto não é para andar a trocar de cuecas como quem troca de calções de banho, na praia, à frente de tudo o que é transeunte, ou jornalista. Ou jornalista mascarado de transeunte, como daquela vez em que a jornalista-transeunte da TVI, Conceição Queiroz, “apanhou” o Presidente, totalmente por acaso, a sair da água qual médio-sereio numa praia da linha de Cascais.

Não é para andar a trocar sungas de banho à balda, até porque as idas frequentes ao mar acabam por manter uma pessoa lavadinha por baixo. Logo, poupando electricidade na utilização da máquina da roupa. Ainda que com algum prejuízo para a fauna marinha, eventualmente. Enfim, neste deve e haver de sustentabilidade, alguém do PAN que faça as contas ao que é melhor para o nosso planeta, e depois avise-me. Para eu fazer o contrário.

Mas voltando ao sonho lindo da dissolução do Parlamento, Marcelo Rebelo de Sousa considera tal cenário um pesadelo. Diz o Presidente que “não faz sentido” na actual conjuntura “falar periodicamente de dissolução”, sublinhando que a marcação de eleições significa “quatro meses de paragem”. Como se isso fosse um problema, uma “paragem”. Quer dizer, o governo do PS conduz este país, tipo chofer de autocarro escolar alcoolizado, rumo a um precipício. E nisto diz Marcelo: “O quê? Parar? Nunca!”. Encetando, de seguida, a famosa canção infantil omnipresente nas excursões da escola: “Senhor condutor, por favor/Ponha o pé no acelerador/Se chocar não faz mal/Vamos todos para o hospital.” A que se impõe um acrescento, em jeito de actualização: “E pedimos ao Senhor, louvado/Que o hospital seja privado.”

Portanto, aqui chegados e feitas as contas, literal ou metaforicamente, não interessa, estamos bem tramados. Porque literal, ou metaforicamente, ficaremos sempre a chuchar no dedo. O que, até há escassos dias, era uma perspectiva absolutamente deprimente. Eis senão quando, num ápice, ficar a chuchar no dedo transformou-se num cenário até bastante palatável. Convenhamos que é bastante menos péssimo ficar a chuchar no dedo que ter de chupar a língua ao Dalai Lama.

Observador

Tiago Dores - Colunista do Observador

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Manga (estilo de banda desenhada oriunda do Japão) virada para adultos

Sueca, filha de pai português, Natália Batista é um dos nomes europeus de referência da manga - um estilo de banda desenhada oriunda do Japão. E lançou um livro de manga que não é aconselhável a crianças.

Muitos de nós crescemos a ver filmes animados de origem japonesa. "Marco" e "Heidi" foram dos primeiros grandes exemplos de grande sucesso deste estilo de desenho - manga -, que conquistou os mais novos nos quatro cantos do Mundo. Um estilo que marcou gerações de crianças e que continua a ser uma marca da escola japonesa, mas que se alargou a muitos outros países, nomeadamente na Europa. Muitas das crianças de ontem são, hoje, dedicados desenhadores de manga. Em alguns países da Europa, como na Suécia, a exemplo do Japão, surgiram escolas com cursos especializados em desenho manga, permitindo o surgimento de uma nova geração de cartunistas.

É o que acontece com Nátalia Batista, uma jovem sueca de 23 anos, filha de pai português e mãe polaca. Natália é mesmo considerada uma das principais desenhadoras do movimento "euromanga", que envolve um largo número de cartunistas europeus. Recentemente, lançou um livro de banda desenhada, "A song for Elise", que está a alcançar grande êxito, mas também alguma polémica, pois a publicação é dedicada aos adultos, isto num estilo de desenho associado ao público infantil e adolescente.

Embora a manga proibida a crianças não seja novidade, pois existem filmes e livros com manga erótica e pornográfica - o que, aliás, acontece com todos os géneros de banda desenhada -, esta variante é vista pela comunidade internacional de desenhadores como algo quase pirata, que não é devidamente reconhecido. Mas com "A song for Elise", Nátalia Batista lança "pela primeira vez" um livro de manga para adultos, mas com uma temática completamente diferente, elogiado e reconhecido pelos "puristas". Um novo estilo temático, que até já tem nome, japonês, naturalmente: "Yaoni manga".

"Cresci a ler e a ver filmes de manga, mas como as crianças crescem, a manga, naturalmente, também deve evoluir", comentou ao JN Nátalia Batista, admitindo que "a manga é sempre associada às crianças", pelo que o seu livro surpreende, mas "pode levar até aos jovens assuntos que os interessam, num estilo de desenho de que sempre gostaram".

A sua paixão pela manga é de inteira dedicação: estudou este estilo numa escola de artes sueca, em Malmo, e profissionalizou-se neste tipo de desenho. O estudo da língua e cultura japonesas é outro dos seus principais interesses, pois "a manga continua a ser uma imagem de marca japonesa". Mas também com uma larga legião de seguidores na Europa. O movimento "euromanga" já chegou a Portugal, sobretudo através das publicações "NCreatures".

Em "A song for Elise", a autora aborda questões como o suicídio e a homossexualidade, construindo uma história à volta de três personagens, Andi, Marcus e Elise, que, revelou, se baseia "em situações semelhantes" vividas por amigos seus. O livro, "o primeiro deste tipo a ser publicado na Europa", pretende ser "um reflexo das questões actuais da nossa sociedade, envolvendo ambientes e situações próprias dos jovens de hoje". Com desenhos a preto e branco e texto em Inglês, "A song for Elise" está disponível na Internet, em asongforelise.smackjeeves.com.

A comunidade de desenhadores de manga é crescente na Europa, "contactamos uns com os outros", e Portugal não é excepção. Já com uma publicação traduzida para Português, "Only you", Natália Batista espera que este novo livro possa chegar a um largo número de jovens adultos, pois a sua manga cresceu como eles, prolongando nos desenhos os seus sonhos e ansiedades.

jn 21 Agosto 2009

TAP: T de trafulhices, A de asco e P de promiscuidade

João Miguel Tavares

Publico

O conjunto de trapalhadas desta maioria absoluta, que tem apenas – convém recordar – um ano de vida, atingiu níveis inenarráveis de aldrabice, abuso de poder e incompetência.

Sejamos honestos: se o primeiro-ministro português se chamasse Pedro Santana Lopes, o Presidente da República estaria neste momento a preparar a queda do Governo e a dissolução do Parlamento. Dispenso essa dissolução, porque o PS deve, por uma vez, beber o cálice até ao fim. Mas o conjunto de trapalhadas desta maioria absoluta, que tem apenas – convém recordar – um ano de vida, atingiu níveis inenarráveis de aldrabice, abuso de poder e incompetência. Eu já esperava que a comissão de inquérito à TAP revelasse jogadas de bastidores e golpadas políticas em barda. Mas confesso que não estava preparado para este Evereste de trafulhices, asco e promiscuidade.

O espaço desta página não chega para descrever as inúmeras barbaridades que ouvimos na passada terça-feira. Mas posso resumi-las em duas palavras: todos mentiram. Christine Ourmières-Widener não dava um passo na TAP sem o Ministério das Infra-estruturas ser informado. A CEO disse no Parlamento que “não estava à espera de tão alta pressão política” e que ela impediu a TAP de “concentrar-se no seu negócio”. O menor vestígio de independência na sua actuação era alvo de raspanetes por parte do secretário de Estado das Infra-estruturas. “Christine, outra vez”, escreveu Hugo Mendes, exasperado, “TODAS as questões relacionadas com o Governo devem ser encaminhadas através de nós. A TAP é a única empresa que se comporta assim. Não há ligações directas entre a TAP e outros ministérios.”

Hugo Mendes é a caricatura do boy socialista: licenciado em Sociologia pelo ISCTE (claro); assessor da ministra da Educação entre 2006 e 2009; adjunto do secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro entre 2009 e 2011; assessor do Grupo Parlamentar do PS entre 2011 e 2015; adjunto do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares entre 2015 e 2019; chefe de gabinete do ministro das Infra-estruturas entre 2019 e 2020; secretário de Estado entre 2020 e 2022. Na expressão “secretário de Estado”, a palavra a reter é “secretário” – o secretário de Pedro Nuno Santos. Informava Pedro Nuno de tudo e aprovou tudo com a bênção de Pedro Nuno.

Hugo Mendes chegou a este ponto inconcebível: após o indigno comunicado conjunto dos ministérios das Finanças e das Infra-estruturas de 26 de Dezembro de 2022, no qual era exigido à TAP esclarecimentos sobre a indemnização a Alexandra Reis, Hugo Mendes convocou uma reunião com a CEO da companhia para redigir o esclarecimento por si exigido. Vale a pena repetir: o Ministério das Infra-estruturas não sabia de nada à hora do almoço, e ao final da tarde o secretário de Estado estava a ajudar a administração da TAP a responder àquilo que era suposto ele não saber.

Percebem o asco? Então agora juntem-lhe a promiscuidade das reuniões promovidas por assessores do Governo e deputados do PS para instruir o depoimento de Christine Widener em vésperas de audição parlamentar. Acrescentem as mentiras do CFO da TAP. Somem os fretes do inspector-geral das Finanças (onde ninguém fala inglês) ao patrão. Adicionem o marido da CEO a querer vender equipamentos à companhia gerida pela mulher. Completem com o voo comercial de Maputo que Hugo Mendes quis alterar para dar graxa ao Presidente da República, porque ele é o “principal aliado político” do PS e, “se o humor dele mudar, tudo se perde”. Este é o estado miserável do país. Este é o estado miserável do PS. A TAP devia oferecer um bilhete de avião a cada português, para podermos fugir daqui para fora.

https://www.publico.pt/2023/04/06/opiniao/opiniao/tap-t-trafulhices-asco-p-promiscuidade-2045173


Se for anunciado para você online, você provavelmente não deveria comprá-lo. Aqui está o porquê.



Se você viu recentemente um anúncio no Facebook do Jeremy's Razors, que se autodenomina um aparelho de barbear "sem acordar" para homens, você pode muito bem ser pai de crianças em idade escolar que gostam de Ultimate Fighting, chocolate Hershey's, caça ou Johnny Cash. Isso está de acordo com [a biblioteca de anúncios do Facebook] , que descreve o público para o qual os profissionais de marketing direccionam seus anúncios.
Eu posso ver por que Razors de Jeremy está concentrando seus dólares em anúncios em homens que podem apreciar sua mensagem hipermasculina. Mas o inverso não é tão claro: esses homens estão em melhor situação por terem recebido uma navalha “anti-acordada”?
No mundo da média tradicional, os anúncios são vendidos no contexto da área em que as publicações são vendidas: talvez a Jeremy's Razors possa favorecer a publicidade na revista Deer & Deer Hunting, por exemplo. Mas online, muitos anúncios são vendidos com base nos muitos detalhes que os anunciantes colectaram sobre seu comportamento e interesses com base em sua actividade online.

As empresas de tecnologia rastreiam quase todos os cliques de um site para outro, desenvolvendo perfis detalhados de seus interesses e desejos e disponibilizando esses dados para os anunciantes. É por isso que você recebe aqueles anúncios assustadores em seu feed do Instagram ou em sites que parecem saber do que você está falando.A capacidade de rastrear pessoas tornou-se uma vantagem imbatível para a indústria de publicidade online, que cresceu para um mercado de US$ 540 bilhões em todo o mundo, de acordo com a agência de média GroupM, superando todas as outras formas de publicidade, incluindo TV, rádio e jornais. Ele impulsionou o crescimento maciço do Google e do Facebook, bem como de centenas das chamadas empresas “adtech” que actuam como intermediárias entre os compradores e vendedores de informações de segmentação.

Mas a ascensão do microtargeting veio com um preço exorbitante. “Há evidências limitadas que sugerem que os ganhos de eficiência e eficácia para anunciantes e editores desse sistema superam o impacto social”, conclui um estudo de 274 páginas publicado pela Comissão Europeia no início deste ano. Ele exige a reforma do modelo de negócios de vigilância.

Já sabemos que o rastreamento da web dizimou os editores. Isso foi particularmente devastador para os meios de comunicação tradicionais: a receita global de jornais caiu de US$ 107 bilhões em 2000 para quase US$ 32 bilhões em 2022, de acordo com o GroupM. Isso é um golpe para a democracia: estudos mostram que a votação diminui e a corrupção aumenta em comunidades sem veículos de notícias fortes.

O microtargeting também permitiu que os anunciantes discriminassem de maneiras difíceis de serem detectadas pelos reguladores. É ilegal, por exemplo, que os anunciantes usem linguagem em seus anúncios sugerindo que empregos, moradia ou oportunidades de crédito estão sendo oferecidos a pessoas de uma determinada raça, sexo, idade ou outras características protegidas. Mas a segmentação de anúncios significa que os anunciantes podem ocultar suas preferências no algoritmo. O Facebook demonstrou repetidamente ter activado a publicidade discriminatória . (A empresa sempre argumentou no tribunal que não é responsável pelas escolhas que os anunciantes fazem em sua plataforma e, desde então, concordou em mudar seu sistema de entrega de anúncios.)

O microtargeting também permite que os políticos transmitam mensagens divisivas directamente a grupos de nicho. Em 2019, a equipe de campanha do presidente Donald Trump inundou o Facebook com anúncios direccionados com mensagens inflamatórias. Em 2016, uma investigação do Senado descobriu que agentes russos espalharam anúncios no Facebook direccionados a negros americanos com o objectivo de desencorajá-los a votar. Além de tudo isso, os anúncios direccionados também não estão ajudando os consumidores. No ano passado, pesquisadores da Carnegie Mellon e da Virgínia Tech apresentaram um estudo sobre as implicações dos anúncios direccionados para o bem-estar do consumidor. Os resultados foram tão surpreendentes que eles repetiram para garantir que suas descobertas estivessem correctas.

O novo estudo , publicado online esta semana, confirmou os resultados: os anúncios direccionados exibidos para outro grupo de quase 500 participantes estavam lançando produtos mais caros de fornecedores de qualidade inferior do que produtos idênticos que apareceram em uma simples pesquisa na web.

Os produtos exibidos em anúncios direccionados eram, em média, cerca de 10% mais caros do que os que os usuários poderiam encontrar pesquisando online. E os produtos tinham duas vezes mais chances de serem vendidos por fornecedores de qualidade inferior, conforme medido por suas classificações pelo Better Business Bureau.

“Ambos os estudos destacaram consistentemente um problema generalizado de fornecedores de baixa qualidade em anúncios direccionados”, escrevem os autores, Eduardo Abraham Schnadower Mustri, Ph.D. da Carnegie Mellon University. aluno, Idris Adjerid, professor da Virginia Tech, e Alessandro Acquisti, professor da Carnegie Mellon. Os autores postulam que os anúncios direcionados podem ser uma maneira de fornecedores menores alcançarem os consumidores – e “uma parte considerável desses fornecedores pode, de fato, ser indesejável para os consumidores porque são de qualidade inferior”.

A qualidade parece ser um problema com a Jeremy's Razors, que gastou mais em publicidade no Facebook durante o período de 30 dias encerrado em 26 de março, gastando mais de US$ 800.000. Quando verifiquei as avaliações de Jeremy no Facebook, muitos clientes disseram que gostaram mais da mensagem política do produto do que da própria navalha. “Se você gosta de navalhas que dão a sensação de que alguém está puxando seus pelos faciais com uma pinça, uma de cada vez, então as navalhas de Jeremy são as suas navalhas”, escreveu um deles . A navalha tem uma classificação de 2,7 estrelas (de 5) com base em mais de 280 avaliações. O governo pode finalmente estar começando a tomar medidas para conter a vigilância comercial. O Congresso está considerando um projeto de lei de privacidade abrangente , a Comissão Federal de Comércio está redigindo novos regulamentos de privacidade e uma improvável coalizão de senadores, incluindo Ted Cruz e Elizabeth Warren, propôs na semana passada um projeto de lei que encerraria conflitos de interesse entre empresas de rastreamento de anúncios.

A indústria publicitária está se preparando para a guerra. “Os extremistas estão vencendo a batalha por corações e mentes em Washington DC e além”, declarou o CEO da associação comercial de mídia digital e marketing em janeiro no elegante retiro anual da indústria em Marco Island, Flórida. “Não podemos deixar isso acontecer.”

Em março, uma coalizão de organizações comerciais e empresas, incluindo grupos de publicidade – que se autodenomina Privacy for America – enviou uma carta ao Congresso alertando que qualquer dano ao modelo de negócios de vigilância “responsável orientado por dados” poderia custar aos consumidores US$ 30.000 em valor econômico cada. ano.

No entanto, o número de US$ 30.000 vem de um estudo publicado em 2019 , no qual os pesquisadores pediram aos participantes que considerassem perder o acesso a serviços de internet como mecanismos de busca, mapas digitais e e-mail. Em seguida, foi perguntado aos participantes quanto eles pagariam para manter o acesso a esses serviços por um ano. Os participantes estavam dispostos a pagar mais de US$ 17.000 para manter o acesso à pesquisa, mais de US$ 8.000 para manter o acesso ao e-mail e mais de US$ 3.000 para manter o acesso aos mapas, constatou o estudo.

Pesquisa, mapas e e-mail não justificam anúncios assustadores. A pesquisa e os mapas são financiados principalmente por anúncios contextuais - anúncios relacionados à consulta que os usuários digitam no mecanismo de pesquisa ou no mapa. Enquanto isso, a maioria dos serviços de e-mail é gratuita para uso limitado, mas ganha dinheiro com a venda de recursos adicionais. Existem alguns anúncios em e-mail gratuito, mas não é uma grande parte do ecossistema de publicidade. Acontece que esse número de $ 30.000 é um argumento melhor para o valor da publicidade contextual do que da publicidade de vigilância.

Jeremy's Razors não precisa saber sua estrutura familiar, seu desporto favorito ou o nome do seu cantor favorito. A Jeremy's poderia simplesmente colocar os seus anúncios anti-despertar perto do conteúdo anti-despertar.

Não é hora de considerarmos um futuro que não envolva empresas espionando-nos?

Por: Julia Angwin

https://www.nytimes.com/2023/04/06/opinion/online-advertising-privacy-data-surveillance-consumer-quality.html

terça-feira, 4 de abril de 2023

Braço direito de Pedro Nuno avisou CEO da TAP que "única porta de entrada no Governo" era o seu Ministério. A defesa de Christine Widener.

Resposta de Christine Widener a contestar demissão da TAP diz que Hugo Mendes a avisou de que não devia falar com outros ministérios. Observador teve acesso à contestação da gestora francesa.

A presidente executiva da TAP foi repreendida pelo Ministério das Infraestruturas por abordar outros ministérios e foi avisada de que não devia comunicar ou contactar com outras áreas do Governo para além do gabinete comandado por Pedro Nuno Santos que tinha o pelouro operacional da empresa.

Numa nota incluída na audiência prévia de Christine Ourmières-Widener, no quadro do processo de demissão desencadeado pelo Governo na sequência da auditoria da Inspeção-Geral das Finanças à saída de Alexandra Reis na TAP, a gestora revela uma mensagem que recebeu do então secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Mendes, depois de ter sabido de um contacto seu feito para o Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

“Mas Christine, outra vez: TODAS as questões relacionadas com o Governo devem ser encaminhadas através de nós. Isto já aconteceu tantas vezes que já não sabemos o que dizer. A TAP é a única empresa que se comporta assim. O MIH (Ministério das Infraestruturas e Habitação) é a única porta de entrada no Governo. Não há ligações diretas entre a TAP e outros ministérios”. A mensagem imputada a Hugo Mendes data de junho de 2022 e é citada no documento entregue na semana passada à Direção-Geral do Tesouro e Finanças, a que o Observador teve acesso.

Nesta audiência prévia exercida por escrito, a CEO acusa o atual Governo de seguir um simulacro jurídico e uma estratégia política para lhe atribuir culpas, para além de a deixar sem instruções para liderar a empresa neste momento sensível. Revela que a TAP pagou só no último ano 35 indemnizações superiores a 200 mil euros a trabalhadores, incluindo 12 acima dos 250 mil euros euros e um de 330 mil euros. E acusa o acionista da TAP de a ter despedido em direto.

Forçoso é concluir que o Governo degradou a audiência prévia a uma mera formalidade não essencial, desprovida de qualquer sentido útil, sendo irrelevante tudo o que a requerente possa vir aqui dizer. Um pró-forma para cumprir calendário, um mero simulacro jurídico destinado a dar aparente cobertura legal a uma decisão política – essa sim prévia e definitivamente já tomada – comunicada publicamente, através de conferência de imprensa, a 6 de março de 2023, pelos ministros das Finanças e das Infraestruturas, com a absoluta perversão do direito da requerente a participar na decisão do procedimento”, escreve a defesa da ainda CEO da TAP.

Na resposta à DGTF, Christine Ourmières-Widener envolve o ainda administrador financeiro da TAP, Gonçalo Pires, no conhecimento de detalhes da solução de saída de Alexandra Reis. Christine é ouvida esta terça-feira na comissão parlamentar de inquérito à gestão pública da TAP, onde o CFO da TAP já foi ouvido e um dia antes de os deputados questionarem Alexandra Reis.

[Já saiu: pode ouvir o quarto episódio da série em podcast “O Sargento na Cela 7”. E ouça também o primeiro episódio, o segundo episódio e o terceiro episódio. É a história de António Lobato, o português que mais tempo esteve preso na guerra em África.]

A mensagem de reprimenda de Hugo Mendes é uma das “provas” invocadas para justificar porque é que a presidente executiva da TAP não estabelecia contacto com o Ministério das Finanças, quem tinha a missão de exercer a função acionista na empresa e que não terá sido informado da decisão de fevereiro de 2022 de pagar uma indemnização de meio milhão de euros para Alexandra Reis abandonar o cargo de administradora da empresa antes do fim do mandato.

Em regra, refere o contraditório, as suas comunicações com o Ministério das Finanças eram feitas com o conhecimento de Hugo Mendes e de Gonçalo Pires. Christine indica ainda o chairman, Manuel Beja como estando envolvido nestas comunicações.

A gestora reafirma o que já disse no Parlamento que a sua relação com a tutela era quase na totalidade estabelecida com o Ministério das Infraestruturas, nas pessoas de Hugo Mendes e de Pedro Nuno Santos. As trocas de mensagens remetidas em anexo à audiência prévia são reveladoras do grau de envolvimento dos dois antigos governantes na solução que resultou no pagamento de meio milhão de euros, com a atribuição ao ex-ministro (através de uma mensagem enviada por Hugo Mendes à presidente da TAP) de uma posição considerando que o valor de 560 mil euros (antes de se chegar ao valor final) mais férias por gozar era demasiado alto.

Em nome também de Pedro Nuno Santos, o então secretário de Estado, manifesta a preocupação: “Queremos tratá-la (Alexandra Reis) com justiça, mas não queremos causar demasiada disrupção quando as pessoas souberem destes números”.

As Finanças não terão, assim, sido informadas nem pelo Ministério então liderado por Pedro Nuno Santos, que se demitiu, tal como o seu secretário de Estado, Hugo Mendes, no final do ano passado, na sequência deste caso; nem pela TAP. Sendo que o afastamento de Alexandra Reis sem o conhecimento das Finanças e sem uma assembleia geral são algumas das irregularidades apontadas pela Inspeção-Geral de Finanças numa auditoria cujas conclusões foram usadas como argumento para demitir, em direto e por conferência de imprensa, a presidente executiva da TAP e o chairman, os administradores da empresa que assinaram o contrato de rescisão.

Na defesa conduzida pela sociedade de advogados Vasconcelos, Arruda & Associados, Christine Ourmières-Widener alega não ter tomado qualquer decisão material relevante, tendo-se limitado a receber a informação do advogado da TAP (César Sá Esteves da SRS Legal) e submeter todas as decisões para aprovação da tutela. E para o confirmar anexa uma longa lista de mensagens trocadas, sobretudo com Hugo Mendes, sobre o valor e detalhes da negociação. Exemplo desses pormenores é a troca de mensagens a propósito do número de férias por gozar (e que teriam de ser remuneradas no acordo) e o facto de Alexandra Reis ter dispensado uma compensação para não ir trabalhar para a concorrência.

Mensagens mostram que Gonçalo Pires foi informado de parte da negociação

Sobre as férias por gozar de Alexandra Reis, Christine confessa em mensagens que não quer colocar a pergunta ao departamento de recursos humanos da TAP para não levantar suspeitas. E esta foi precisamente uma das matérias com as quais trocou mensagens com o administrador financeiro que, nas declarações prestadas aos deputados na semana passada, insistiu na desvalorização do seu papel em todo o processo: “Não tive qualquer envolvimento na preparação, elaboração, negociação, decisão ou fecho de qualquer valor”.

O CFO foi poupado na auditoria da IGF, e ainda se encontra em funções, o que suscita incompreensão da parte da ainda presidente executiva.

“A IGF achou pertinente ouvir, conforme resulta do Projeto de Relatório, o CFO, Gonçalo Pires. Existe apenas uma referência a este depoimento e consta de uma nota de rodapé do Projeto de Relatório. (…) No Relatório final, desaparece a referência ao depoimento do CFO. Ou seja, a IGF achou pertinente ouvir o CFO, mas bastou-se com a mera indicação de que CFO não esteve envolvido no processo de cessação de funções ou no Acordo celebrado e, por esse motivo, não informou o Ministério das Finanças”. Sobre o CFO a defesa de Christine, numa nota de rodapé da audiência prévia, ainda atira: “Parece pouco credível que a IGF não o tenha questionado sobre se a requerente [Christine] lhe tinha dado conhecimento de todo o processo? Parece pouco credível que o mesmo tenha respondido negativamente, pois, como se demonstrará, existem inúmeras provas que a requerente manteve sempre o CFO informado de tudo”.

Segundo a troca de mensagens anexas entre os dois, Gonçalo Pires saberia desde 22 de janeiro de 2022 da intenção de Christine de mudar a composição da comissão executiva com uma alteração dos pelouros atribuídos a Alexandra Reis, mas também da sua provável saída da administração, tendo defendido que o tema não devia ser discutido em comissão executiva porque não seria bom para a dinâmica da equipa.

O CFO também foi questionado sobre o número de férias por gozar da sua então colega de administração e cujo valor (mais de 100 mil euros) fez parte do pacote final do acordo. Não há, no entanto, nas mensagens que Christine coloca na sua defesa uma referência expressa sobre o montante da indemnização que o administrador financeiro alegou desconhecer (disse mesmo que só conheceu os valores pelas notícias saídas no final do ano passado). O CFO no Parlamento explicou que apesar de ter a tutela do departamento de tesouraria que efetuou o pagamento, o valor da indemnização tinha cabimento orçamental e não precisava da sua autorização,

Nas mais de cinco horas em que foi questionado, Gonçalo Pires reconheceu ter sabido antes do acordo (mas não do valor) final de 4 de fevereiro da saída de Alexandra Reis da empresa que foi comunicado formalmente a todo o conselho de administração, mas não se recordou do quando (nas mensagens incluídas na audiência prévia Christine revela um email de Manuel Beja para os administradores executivos e não executivos a anunciar a saída de Alexandra Reis e esse email tem data de 4 de fevereiro de 2022 às 22h55).

A 2 de fevereiro, há uma troca de mensagens entre Christine e o seu CFO reveladora de um grau de confiança entre os dois, nas quais Gonçalo Pires é informado da existência de um acordo (sem referência a valor), ao qual responde com emojis e a indicação “pensava que ia demorar mais tempo. Parabéns”.

Esta cumplicidade é espelhada em outras mensagens trocadas já a 4 de fevereiro de 2022 a propósito da exigência de Manuel Beja de assinar o acordo de saída de Alexandra Reis presencialmente e não através de uma assinatura digital. “O que é que ele quer agora?”, questionou Gonçalo Pires para receber respostas (algumas com emojis) sobre essa exigência. Christine, aliás, dá conta que se recusou a adiar o acordo, insistindo para que ficasse fechado a uma sexta-feira, 4 de fevereiro (não deixando o caso arrastar-se para a segunda seguinte).

Comunicação intensa e um ponto de interrogação sobre as eleições legislativas

O anexo ao contraditório revela que entre WhatsApps, SMS, e emails terão sido trocadas mais de 100 mensagens entre os principais protagonistas do lado da TAP em pouco menos de um mês com especial foco para a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro de 2022 e o facto do processo negocial ter atravessado o período das eleições não foi ignorado. Quando se aguardava uma resposta de Alexandra Reis à última proposta da TAP a 30 de janeiro, o advogado da TAP pergunta “hoje temos um grande ponto de interrogação”. Do outro lado, Christine responde com outra pergunta: “Eleições?” Ao que o advogado responde sim e a gestora diz que está a ver os resultados na televisão. Nas legislativas desse domingo, o PS ganhou com a maioria absoluta e a negociação prosseguiu até ao acordo obtido a 4 de fevereiro.

Sobre a violação das regras do estatuto do gestor público de uma solução negociada para um acordo de saída (não prevista neste normativo e das normas estatutárias da TAP de que é acusada, e que consiste no fundamento para a sua demissão), a defesa de Christine lembra que o desconhecimento sobre a violação dessas regras legais foi partilhado com muitas pessoas, algumas  das quais se mantêm em funções: como o administrador financeiro da TAP, mas também a então chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos (que está com o atual secretário de Estado das Infraestruturas); o administrador não executivo da TAP (Patrício Castro), e o departamento jurídico da TAP que “recebeu o acordo, conhecia os valores envolvidos e agilizou a formalização da renúncia”.

Neste exercício de audiência prévia, a defesa de Christine Ourmières-Widener mostra ainda surpresa pelo facto de a reunião em que estiveram presentes (segundo a IGF foi por Teams) o ex-secretário de Estado, Hugo Mendes, a antiga chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, Maria Araújo, e o assessor jurídico da TAP (César Sá Esteves) onde foram apreciados os termos finais do acordo estar a ser “sucessivamente desvalorizada ao longo de todo o processo”. Apesar de “ter sido a reunião determinante para o então ministro, Pedro Nuno Santos, ter tomado a decisão final de aprovar os termos e condições do acordo de saída da Engª Alexandra Reis que os advogados haviam alcançado”.

Uma palavra ainda para o papel do consultor jurídico da TAP neste processo, e com quem a empresa entretanto terá rescindido a avença para a área laboral que existia desde 2020. A gestora diz que o ex-ministro Pedro Nuno Santos “recorreu novamente à assessoria jurídica da SRS Legal” quando convidou para presidente executiva da NAV Alexandra Reis, quatro meses depois de ter validado a sua saída paga da TAP. A resposta vai ao ponto de indicar que a contratação para a NAV “foi operada pelo ministro Pedro Nuno Santos, coadjuvada pelo Dr. César Sá Esteves”.

Este advogado da SRS Legal também tinha um contrato com a NAV para a área laboral, mas não há indicação na auditoria da IGF de que terá assessorado o ministro. Uma das ilegalidades apontadas pela IGF foi a não devolução por parte de Alexandra Reis de uma parte da indemnização recebida da TAP aquando da sua ida para a NAV, como determina o estatuto do gestor público. A gestora argumenta que ninguém a avisou que o teria de fazer e mostrou-se publicamente disponível para devolver tudo o que foi declarado ilegal na auditora da IGF.

https://observador.pt/especiais/braco-direito-de-pedro-nuno-avisou-ceo-da-tap-que-unica-porta-de-entrada-no-governo-era-o-seu-ministerio-a-defesa-de-christine-widener/