domingo, 7 de junho de 2026

A teoria geral da escassez aplicada aos cromos.

Entre as muitas situações que imaginei viver aos 56 anos, não constava certamente a possibilidade de me encontrar envolvido numa corrida a papelarias para adquirir saquetas de cromos da Panini, acompanhando com genuína preocupação notícias sobre rupturas de stock, listas de espera e carregamentos misteriosos cuja chegada era transmitida tantos em notícias de jornais como em surdina entre coleccionadores.

Em minha defesa, embora reconheça desde já a fragilidade do argumento, sempre poderei dizer que tudo começou por razões estatísticas. Salvo erro de memória, a minha intenção inicial não era regressar à infância nem recuperar nostalgias futebolísticas.

O objectivo consistia em observar o funcionamento probabilístico da colecção, perceber a velocidade de preenchimento da caderneta, analisar a distribuição dos cromos e verificar até que ponto a Matemática se comportava de forma civilizada perante um sistema concebido para esvaziar carteiras com uma eficiência que muitos governos invejariam. 

Foi então que ocorreu um fenómeno que ainda hoje não sei se deve ser atribuído a falhas logísticas, a uma procura inesperada ou a uma brilhante estratégia comercial. Os cromos começaram a desaparecer. Primeiro de forma discreta, aqui e ali, numa papelaria que já não tinha recebido encomenda, noutra que apenas vendia um número limitado de saquetas. Depois surgiram relatos cada vez mais frequentes de esgotamentos. Finalmente, instalou-se aquilo que só pode ser descrito como uma pequena crise nacional de abastecimento.

De súbito, encontrar cromos tornou-se mais difícil do que encontrar estacionamento em Lisboa. Multiplicaram-se as mensagens em grupos de coleccionadores, os relatos de deslocações infrutíferas entre bairros e os avisos sobre a chegada de carregamentos que desapareciam poucas horas depois.

Algumas papelarias passaram a funcionar como verdadeiros centros de distribuição clandestina. Outras mantinham listas de espera. Em certos casos, a informação sobre a chegada de novas saquetas circulava com uma discrição que recordava operações comerciais de natureza bastante diferente.

Confesso que acompanhei este espectáculo com sentimentos contraditórios. Por um lado, fascinava-me a dimensão sociológica do fenómeno. Por outro, incomodava-me descobrir que fazia parte dele. Uma coisa é observar uma febre colectiva; outra, bastante diferente, é perceber que se está contaminado. Pior ainda: perceber que se está dentro da armadilha sabendo perfeitamente que se está dentro dessa armadilha.

Quando há algumas semanas escrevi sobre um entusiasta que comprara quinhentas saquetas de uma só vez, admito que o considerei um caso de estudo interessante. Hoje já não tenho tanta certeza. À luz dos acontecimentos subsequentes, talvez aquele homem não estivesse a manifestar qualquer forma de irracionalidade. Talvez fosse apenas um visionário que compreendeu antes de todos aquilo que viria a acontecer.

Entretanto, como seria inevitável, começaram também a surgir os efeitos colaterais habituais de qualquer situação em que existe procura elevada e oferta escassa. Surgiram páginas na Internet prometendo lotes, envios garantidos e negócios extraordinários.

Felizmente, a experiência acumulada em décadas de jornalismo ensinou-me uma regra simples: sempre que alguém anuncia um negócio extraordinário na Internet, existe uma forte probabilidade de o negócio extraordinário beneficiar apenas quem recebe o pagamento.

Mantive-me, por isso, fiel à velha economia da papelaria de bairro. Passaram duas semanas de ‘lei seca’. Foi assim que, por fim, este sábado fui avisado para me deslocar a uma papelaria da Graça, que convém manter anónima, para levantar vinte saquetas que me aguardavam. A palavra discretamente não é uma figura de estilo. Havia recomendações explícitas para não fazer grande alarde. A situação atingiu um nível de escassez tal que a mera notícia da chegada de algumas dezenas de saquetas justifica cuidados especiais.

Regressei a casa com cento e quarenta cromos e uma curiosidade estatística crescente. Nessa altura já possuía uma parte significativa da colecção e sabia que a Matemática começava a entrar numa fase menos simpática. Quando uma pessoa inicia uma colecção, praticamente tudo o que abre é novidade. Mais tarde a realidade começa a cobrar a factura.

Dos cento e quarenta cromos obtidos, apenas sessenta e quatro foram novos. No meio, consegui o Modric e o Mbappé. Convém dizer que a Panini sabe-a toda: já tenho Cristiano e o Messi: dá a sensação de que os mais difíceis já estão no papo – um engano. Os restantes setenta e seis de entre os cento e quarenta passaram para a crescente república dos repetidos, uma espécie de limbo onde os cromos aguardam futuras trocas ou resignadamente aceitam o seu destino.

Neste momento possuo 574 cromos dos 980 existentes, o que significa que completei 58,6% da colecção. Este número parece encorajador até ao momento em que me meto na Estatística. Com 574 cromos já adquiridos, cada novo cromo retirado de uma saqueta tem apenas cerca de 41,4% de probabilidade de ser novo. Em contrapartida, a probabilidade de ser repetido ascende a 58,6%.

Traduzido para linguagem corrente, isto significa que se adquirir mais dez saquetas — setenta cromos — devo esperar cerca de vinte e oito cromos novos e quarenta e dois repetidos. Não é o tipo de investimento que faça sorrir um consultor financeiro.

Apesar disso, continuo longe daquilo que os coleccionadores mais experientes consideram a verdadeira zona de perigo. Segundo explica a Estatística, o momento em que faz sentido abandonar as compras e concentrar esforços nas trocas surge quando a colecção ultrapassa os 75% ou 80%. A partir daí a lei das probabilidades transforma-se numa adversária cruel para a paciência e as finanças.

Aliás, desta vez já sucedeu ter uma carteira completa com todos os sete cromos repetidos. A probabilidade de ocorrência era de 0,91%. Quando tiver 700 cromos da colecção, a probabilidade será cerca de 10 vezes superior (9,5%). Este é o drama dos cromos: compra-se cada vez mais para obter cada vez menos.

Por enquanto ainda tenho alguma margem para optimismo. A geografia da minha colecção continua, aliás, a apresentar fenómenos curiosos. A Áustria lidera com dezasseis cromos dos vinte possíveis, seguida de perto pela Austrália, Bélgica, Curaçau e Noruega, todas com quinze. Portugal já atingiu catorze. Em sentido contrário, Argentina, República Checa, Egipto, Espanha, Japão, Países Baixos e Estados Unidos continuam a revelar níveis de preenchimento modestos, abaixo da dezena.

A situação é tanto mais interessante quanto se considera que a colecção inclui quarenta e oito selecções de vinte cromos cada. Com uma taxa média de preenchimento de apenas 58,6%, a probabilidade de já possuir uma equipa completamente concluída ainda é reduzidíssima. As selecções mais avançadas aproximam-se da meta, mas nenhuma parece preparada para a atravessar.

Talvez resida aqui a verdadeira genialidade da Panini. A empresa não vende apenas cromos: vende uma sensação permanente de proximidade ao objectivo. Falta pouco. Mais algumas saquetas. Mais uma visita à papelaria. Mais uma tentativa. O coleccionador vive num horizonte estatístico peculiar: avança constantemente em direcção à meta, mas a meta parece afastar-se à mesma velocidade.

No fundo, suspeito que esta colecção tem muito pouco a ver com futebol. O futebol funciona apenas como matéria-prima. O verdadeiro produto é outro: a esperança de encontrar aquele cromo específico, de completar aquela selecção, de a próxima saqueta ser melhor do que a anterior. E talvez, mais profundamente, a esperança de que desta vez a Matemática cometa um erro. Até ao momento, porém, a maldita Matemática continua a demonstrar uma disciplina admirável.

https://paginaum.pt/2026/06/07/a-teoria-geral-da-escassez-aplicada-aos-cromos

Pedro Almeida Vieira

sábado, 6 de junho de 2026

Ser advogado.

Como advogado, não tenho direito a grande parte dos apoios sociais de que outros portugueses beneficiam. Não tenho baixa nos mesmos termos. Não tenho subsídio de desemprego. Não tenho uma rede garantida à minha espera se amanhã tudo correr mal. Se quero ganhar dinheiro para pagar as contas, tenho de sair da cama, trabalhar, produzir, resolver problemas e aguentar.
Não digo isto com orgulho heroico. A situação dos advogados é profundamente injusta. Pagamos, contribuímos, suportamos riscos, trabalhamos anos sem protecção e, quando a vida aperta, descobrimos que o Estado gosta muito de nós quando pagamos, mas tem uma memória selectiva quando passamos a precisar dele.
Mas há uma coisa que posso dizer com absoluta honestidade: em certos momentos da minha vida, essa ausência de direitos salvou-me.
Também tive os meus dias em que não me apetecia sair da cama. Também tive momentos em que enfrentar o mundo parecia uma tarefa absurda. Também conheci aquela sensação de cansaço em que uma pessoa acorda e pensa: “hoje não consigo”. Sou apenas humano.
A diferença é que eu não tinha escolha. Tinha contas para pagar. Tinha responsabilidades. Tinha processos. Tinha clientes. Tinha pessoas à espera. Tinha filhas. Tinha de me levantar porque ninguém se ia levantar por mim. E, muitas vezes, foi precisamente essa obrigação brutal que me impediu de afundar.
A necessidade obrigou-me a mexer. A mexer mesmo quando não queria. A trabalhar mesmo sem vontade. A aparecer mesmo quando preferia desaparecer. E foi esse movimento forçado que me manteve à tona.
Não estou a defender que todos devam viver assim. Seria absurdo. Uma sociedade deve proteger quem está doente, quem perde o emprego, quem atravessa uma crise séria, quem precisa de tempo para recuperar. Os apoios sociais são necessários e a situação dos advogados não é justa (evito queixar-me, porque a verdade é que acabo por estar melhor do que muitos dos que têm direitos e agradeço essa bênção. Apenas pretendo ilustrar que as obrigações também salvam).
Mas também é preciso dizer a parte que ninguém quer dizer: um apoio sem deveres, sem esforço, sem um caminho de regresso e sem exigência mínima pode transformar-se numa armadilha.
Não para o Estado, mas para a pessoa. Porque receber dinheiro sem ter de fazer nada pode parecer protecção, mas também pode retirar estrutura, retirar rotina e retirar propósito. Pode retirar a obrigação saudável de sair de casa, de estar com outros, de ser necessário, de sentir que se tem utilidade. E quando uma pessoa perde isso durante tempo suficiente, o problema deixa de ser apenas económico. Passa a ser existencial.
Ficar em casa com dinheiro a cair todos os meses, sem objectivos, sem horários e sem responsabilidade pode parecer descanso. Mas depressa se transforma noutra coisa: isolamento, perda de hábitos, perda de energia, perda de auto-estima, perda de capacidade de voltar.
E depois vem o ciclo maravilhoso da modernidade: sofá, batatas fritas, TikTok. O ciclo do qual é difícil sair quando se entra.
A questão não é castigar os pobres. A questão não é humilhar quem precisa.
A questão é outra: ajudar não pode significar estacionar pessoas na dependência.
Um apoio social deve ser uma ponte, e não uma sala de espera eterna. Deve ajudar a atravessar uma fase difícil, mas também deve criar condições para a pessoa recuperar autonomia, rotina, competências, dignidade e sentido de utilidade.
O trabalho social obrigatório, se for sério, proporcional e bem organizado, pode cumprir essa função. Não deve ser exploração. Não deve ser humilhação pública. Não deve ser trabalho gratuito para substituir empregos pagos. Mas pode ser uma forma de devolver estrutura, responsabilidade e ligação à comunidade a quem está há demasiado tempo afastado de tudo isso.
Porque há uma verdade simples: o ser humano precisa de ser necessário para ter motivo para sair da cama.
Precisa de sentir que a sua existência produz alguma coisa. Que tem uma função. Que faz falta.
Os apoios sociais são importantes. Mas, quando desligados de deveres, podem deixar de ser uma rede de segurança e passar a ser uma cama demasiado confortável para quem já não tem forças para se levantar. Em vez de darem dignidade, podem ser uma fonte invisível de problemas de saúde mental. Haja o bom senso de evitar isso.

Os funcionários Publicos

Uma das reações mais curiosas aos meus textos anteriores veio de funcionários públicos indignados por eu afirmar que uma parte significativa dos seus salários é paga pelos pobres.
A indignação era genuína, e a argumentação também. “Mas nós pagamos impostos.”
Imaginem. O Estado cobra dinheiro ao empregado de mesa, à empregada de limpeza, ao motorista da Uber, ao operário da construção civil, ao pequeno empresário, ao mecânico, ao eletricista e a milhões de outros portugueses.
Com esse dinheiro, o estado paga salários. Depois retira uma parte desses salários sob a forma de impostos e contribuições. E daí conclui-se que o funcionário público financia o seu próprio salário.
É uma teoria económica tão sofisticada que, se estivesse correta, teríamos finalmente descoberto a solução para todos os problemas nacionais. Bastava despedir toda a gente do setor privado e contratar os 11 milhões de portugueses para a Administração Pública.
Infelizmente, existe um pequeno problema. O dinheiro tem de entrar antes de sair.
Antes de existir salário público, teve de existir riqueza produzida por alguém. Antes de existir imposto pago pelo funcionário público, teve de existir um salário pago pelo Estado. E antes de existir o Estado a distribuir, teve de existir alguém a criar.
É por isso que a frase “eu também pago impostos” falha completamente o alvo e demonstra um preocupante desconhecimento sobre como funciona o país por parte de alguns grevistas. Acreditam mesmo que o dinheiro dos salários públicos surge por geração divina. A realidade, contudo, é bem mais terrena.
O Estado português arrecada cerca de 132 mil milhões de euros por ano e emprega cerca de 750 mil funcionários públicos.
Gasta mais de 21 mil milhões de euros anuais apenas em salários da Administração Pública.
Ao mesmo tempo, cerca de 850 mil a 900 mil portugueses recebem o salário mínimo nacional, e cerca de 3,7 milhões recebem até 1.000 euros brutos por mês. Cada trabalhador no salário mínimo custa cerca de 1.151 euros à empresa, recebe cerca de 828 euros líquidos e gera, direta e indiretamente, entre 400 e 500 euros por mês para o Estado.
São precisamente estes trabalhadores que geram uma parte gigantesca da receita pública através das contribuições sociais, do IVA e dos restantes impostos que pagam todos os dias. Sabem quanto? Os tais 21 mil milhões que pagam os salários da administração pública. São contas fáceis de fazer. 500€ vezes 3.7 milhões de pessoas x 12 meses = 22.2 mil milhões. Se contarmos os demais impostos pagos por quem vende bens e serviços aos pobres, e que acaba por repercutir sempre isso nos preços, o valor é ainda mais pornográfico, mas mais difícil de calcular.
Por isso, quando constato que existe uma administração pública rica sustentada pelos pobres, não estou a denegrir os funcionários públicos. Estou apenas a descrever uma realidade contabilística, facilmente constatável através de mera aritmética, e que é profundamente imoral, por ser ela própria a antítese do Estado Social.
O que me surpreende não é a discordância. É a irritação.
Porque ela revela algo mais profundo: uma enorme dificuldade, por parte de alguns, em reconhecer quem paga verdadeiramente a conta.
A verdade é que vivemos no país do Robin dos Bosques ao contrário.
Diariamente, milhões de trabalhadores com rendimentos modestos financiam uma máquina pública gigantesca através dos seus descontos e dos impostos que pagam em praticamente tudo o que compram, e que já pouco lhes oferece em troca. Certamente muito menos do que o esforço que lhes exige.
E quando alguém o recorda, a reação não é discutir os números. É fingir que a empregada de limpeza que ganha 930 euros por mês, quando ganha, é afinal uma privilegiada que vive à custa do técnico superior da repartição.
É fingir que as greves da função pública são contra uns ricos que nem sequer aqui são tributados, e não contra os pobres que não têm como fugir.
Há sátiras que não precisam de ser escritas. Limitam-se a acontecer.
O socialismo sempre foi isto: a classe trabalhadora pobre a financiar uma classe burocrática que só olha para os seus próprios interesses e vê os trabalhadores como meros NIF's.