Entre as muitas situações que imaginei viver aos 56 anos, não constava certamente a possibilidade de me encontrar envolvido numa corrida a papelarias para adquirir saquetas de cromos da Panini, acompanhando com genuína preocupação notícias sobre rupturas de stock, listas de espera e carregamentos misteriosos cuja chegada era transmitida tantos em notícias de jornais como em surdina entre coleccionadores.
Em minha defesa, embora reconheça desde já a fragilidade do argumento, sempre poderei dizer que tudo começou por razões estatísticas. Salvo erro de memória, a minha intenção inicial não era regressar à infância nem recuperar nostalgias futebolísticas.
O objectivo consistia em observar o funcionamento probabilístico da colecção, perceber a velocidade de preenchimento da caderneta, analisar a distribuição dos cromos e verificar até que ponto a Matemática se comportava de forma civilizada perante um sistema concebido para esvaziar carteiras com uma eficiência que muitos governos invejariam.
Foi então que ocorreu um fenómeno que ainda hoje não sei se deve ser atribuído a falhas logísticas, a uma procura inesperada ou a uma brilhante estratégia comercial. Os cromos começaram a desaparecer. Primeiro de forma discreta, aqui e ali, numa papelaria que já não tinha recebido encomenda, noutra que apenas vendia um número limitado de saquetas. Depois surgiram relatos cada vez mais frequentes de esgotamentos. Finalmente, instalou-se aquilo que só pode ser descrito como uma pequena crise nacional de abastecimento.
De súbito, encontrar cromos tornou-se mais difícil do que encontrar estacionamento em Lisboa. Multiplicaram-se as mensagens em grupos de coleccionadores, os relatos de deslocações infrutíferas entre bairros e os avisos sobre a chegada de carregamentos que desapareciam poucas horas depois.
Algumas papelarias passaram a funcionar como verdadeiros centros de distribuição clandestina. Outras mantinham listas de espera. Em certos casos, a informação sobre a chegada de novas saquetas circulava com uma discrição que recordava operações comerciais de natureza bastante diferente.
Confesso que acompanhei este espectáculo com sentimentos contraditórios. Por um lado, fascinava-me a dimensão sociológica do fenómeno. Por outro, incomodava-me descobrir que fazia parte dele. Uma coisa é observar uma febre colectiva; outra, bastante diferente, é perceber que se está contaminado. Pior ainda: perceber que se está dentro da armadilha sabendo perfeitamente que se está dentro dessa armadilha.
Quando há algumas semanas escrevi sobre um entusiasta que comprara quinhentas saquetas de uma só vez, admito que o considerei um caso de estudo interessante. Hoje já não tenho tanta certeza. À luz dos acontecimentos subsequentes, talvez aquele homem não estivesse a manifestar qualquer forma de irracionalidade. Talvez fosse apenas um visionário que compreendeu antes de todos aquilo que viria a acontecer.
Entretanto, como seria inevitável, começaram também a surgir os efeitos colaterais habituais de qualquer situação em que existe procura elevada e oferta escassa. Surgiram páginas na Internet prometendo lotes, envios garantidos e negócios extraordinários.
Felizmente, a experiência acumulada em décadas de jornalismo ensinou-me uma regra simples: sempre que alguém anuncia um negócio extraordinário na Internet, existe uma forte probabilidade de o negócio extraordinário beneficiar apenas quem recebe o pagamento.
Mantive-me, por isso, fiel à velha economia da papelaria de bairro. Passaram duas semanas de ‘lei seca’. Foi assim que, por fim, este sábado fui avisado para me deslocar a uma papelaria da Graça, que convém manter anónima, para levantar vinte saquetas que me aguardavam. A palavra discretamente não é uma figura de estilo. Havia recomendações explícitas para não fazer grande alarde. A situação atingiu um nível de escassez tal que a mera notícia da chegada de algumas dezenas de saquetas justifica cuidados especiais.
Regressei a casa com cento e quarenta cromos e uma curiosidade estatística crescente. Nessa altura já possuía uma parte significativa da colecção e sabia que a Matemática começava a entrar numa fase menos simpática. Quando uma pessoa inicia uma colecção, praticamente tudo o que abre é novidade. Mais tarde a realidade começa a cobrar a factura.
Dos cento e quarenta cromos obtidos, apenas sessenta e quatro foram novos. No meio, consegui o Modric e o Mbappé. Convém dizer que a Panini sabe-a toda: já tenho Cristiano e o Messi: dá a sensação de que os mais difíceis já estão no papo – um engano. Os restantes setenta e seis de entre os cento e quarenta passaram para a crescente república dos repetidos, uma espécie de limbo onde os cromos aguardam futuras trocas ou resignadamente aceitam o seu destino.
Neste momento possuo 574 cromos dos 980 existentes, o que significa que completei 58,6% da colecção. Este número parece encorajador até ao momento em que me meto na Estatística. Com 574 cromos já adquiridos, cada novo cromo retirado de uma saqueta tem apenas cerca de 41,4% de probabilidade de ser novo. Em contrapartida, a probabilidade de ser repetido ascende a 58,6%.
Traduzido para linguagem corrente, isto significa que se adquirir mais dez saquetas — setenta cromos — devo esperar cerca de vinte e oito cromos novos e quarenta e dois repetidos. Não é o tipo de investimento que faça sorrir um consultor financeiro.
Apesar disso, continuo longe daquilo que os coleccionadores mais experientes consideram a verdadeira zona de perigo. Segundo explica a Estatística, o momento em que faz sentido abandonar as compras e concentrar esforços nas trocas surge quando a colecção ultrapassa os 75% ou 80%. A partir daí a lei das probabilidades transforma-se numa adversária cruel para a paciência e as finanças.
Aliás, desta vez já sucedeu ter uma carteira completa com todos os sete cromos repetidos. A probabilidade de ocorrência era de 0,91%. Quando tiver 700 cromos da colecção, a probabilidade será cerca de 10 vezes superior (9,5%). Este é o drama dos cromos: compra-se cada vez mais para obter cada vez menos.
Por enquanto ainda tenho alguma margem para optimismo. A geografia da minha colecção continua, aliás, a apresentar fenómenos curiosos. A Áustria lidera com dezasseis cromos dos vinte possíveis, seguida de perto pela Austrália, Bélgica, Curaçau e Noruega, todas com quinze. Portugal já atingiu catorze. Em sentido contrário, Argentina, República Checa, Egipto, Espanha, Japão, Países Baixos e Estados Unidos continuam a revelar níveis de preenchimento modestos, abaixo da dezena.
A situação é tanto mais interessante quanto se considera que a colecção inclui quarenta e oito selecções de vinte cromos cada. Com uma taxa média de preenchimento de apenas 58,6%, a probabilidade de já possuir uma equipa completamente concluída ainda é reduzidíssima. As selecções mais avançadas aproximam-se da meta, mas nenhuma parece preparada para a atravessar.
Talvez resida aqui a verdadeira genialidade da Panini. A empresa não vende apenas cromos: vende uma sensação permanente de proximidade ao objectivo. Falta pouco. Mais algumas saquetas. Mais uma visita à papelaria. Mais uma tentativa. O coleccionador vive num horizonte estatístico peculiar: avança constantemente em direcção à meta, mas a meta parece afastar-se à mesma velocidade.
No fundo, suspeito que esta colecção tem muito pouco a ver com futebol. O futebol funciona apenas como matéria-prima. O verdadeiro produto é outro: a esperança de encontrar aquele cromo específico, de completar aquela selecção, de a próxima saqueta ser melhor do que a anterior. E talvez, mais profundamente, a esperança de que desta vez a Matemática cometa um erro. Até ao momento, porém, a maldita Matemática continua a demonstrar uma disciplina admirável.
https://paginaum.pt/2026/06/07/a-teoria-geral-da-escassez-aplicada-aos-cromos
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