Uma das reações mais curiosas aos meus textos anteriores veio de funcionários públicos indignados por eu afirmar que uma parte significativa dos seus salários é paga pelos pobres.
A indignação era genuína, e a argumentação também. “Mas nós pagamos impostos.”
Imaginem. O Estado cobra dinheiro ao empregado de mesa, à empregada de limpeza, ao motorista da Uber, ao operário da construção civil, ao pequeno empresário, ao mecânico, ao eletricista e a milhões de outros portugueses.
Com esse dinheiro, o estado paga salários. Depois retira uma parte desses salários sob a forma de impostos e contribuições. E daí conclui-se que o funcionário público financia o seu próprio salário.
É uma teoria económica tão sofisticada que, se estivesse correta, teríamos finalmente descoberto a solução para todos os problemas nacionais. Bastava despedir toda a gente do setor privado e contratar os 11 milhões de portugueses para a Administração Pública.
Infelizmente, existe um pequeno problema. O dinheiro tem de entrar antes de sair.
Antes de existir salário público, teve de existir riqueza produzida por alguém. Antes de existir imposto pago pelo funcionário público, teve de existir um salário pago pelo Estado. E antes de existir o Estado a distribuir, teve de existir alguém a criar.
É por isso que a frase “eu também pago impostos” falha completamente o alvo e demonstra um preocupante desconhecimento sobre como funciona o país por parte de alguns grevistas. Acreditam mesmo que o dinheiro dos salários públicos surge por geração divina. A realidade, contudo, é bem mais terrena.
O Estado português arrecada cerca de 132 mil milhões de euros por ano e emprega cerca de 750 mil funcionários públicos.
Gasta mais de 21 mil milhões de euros anuais apenas em salários da Administração Pública.
Ao mesmo tempo, cerca de 850 mil a 900 mil portugueses recebem o salário mínimo nacional, e cerca de 3,7 milhões recebem até 1.000 euros brutos por mês. Cada trabalhador no salário mínimo custa cerca de 1.151 euros à empresa, recebe cerca de 828 euros líquidos e gera, direta e indiretamente, entre 400 e 500 euros por mês para o Estado.
São precisamente estes trabalhadores que geram uma parte gigantesca da receita pública através das contribuições sociais, do IVA e dos restantes impostos que pagam todos os dias. Sabem quanto? Os tais 21 mil milhões que pagam os salários da administração pública. São contas fáceis de fazer. 500€ vezes 3.7 milhões de pessoas x 12 meses = 22.2 mil milhões. Se contarmos os demais impostos pagos por quem vende bens e serviços aos pobres, e que acaba por repercutir sempre isso nos preços, o valor é ainda mais pornográfico, mas mais difícil de calcular.
Por isso, quando constato que existe uma administração pública rica sustentada pelos pobres, não estou a denegrir os funcionários públicos. Estou apenas a descrever uma realidade contabilística, facilmente constatável através de mera aritmética, e que é profundamente imoral, por ser ela própria a antítese do Estado Social.
O que me surpreende não é a discordância. É a irritação.
Porque ela revela algo mais profundo: uma enorme dificuldade, por parte de alguns, em reconhecer quem paga verdadeiramente a conta.
A verdade é que vivemos no país do Robin dos Bosques ao contrário.
Diariamente, milhões de trabalhadores com rendimentos modestos financiam uma máquina pública gigantesca através dos seus descontos e dos impostos que pagam em praticamente tudo o que compram, e que já pouco lhes oferece em troca. Certamente muito menos do que o esforço que lhes exige.
E quando alguém o recorda, a reação não é discutir os números. É fingir que a empregada de limpeza que ganha 930 euros por mês, quando ganha, é afinal uma privilegiada que vive à custa do técnico superior da repartição.
É fingir que as greves da função pública são contra uns ricos que nem sequer aqui são tributados, e não contra os pobres que não têm como fugir.
Há sátiras que não precisam de ser escritas. Limitam-se a acontecer.
O socialismo sempre foi isto: a classe trabalhadora pobre a financiar uma classe burocrática que só olha para os seus próprios interesses e vê os trabalhadores como meros NIF's.
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