Como advogado, não tenho direito a grande parte dos apoios sociais de que outros portugueses beneficiam. Não tenho baixa nos mesmos termos. Não tenho subsídio de desemprego. Não tenho uma rede garantida à minha espera se amanhã tudo correr mal. Se quero ganhar dinheiro para pagar as contas, tenho de sair da cama, trabalhar, produzir, resolver problemas e aguentar.
Não digo isto com orgulho heroico. A situação dos advogados é profundamente injusta. Pagamos, contribuímos, suportamos riscos, trabalhamos anos sem protecção e, quando a vida aperta, descobrimos que o Estado gosta muito de nós quando pagamos, mas tem uma memória selectiva quando passamos a precisar dele.
Mas há uma coisa que posso dizer com absoluta honestidade: em certos momentos da minha vida, essa ausência de direitos salvou-me.
Também tive os meus dias em que não me apetecia sair da cama. Também tive momentos em que enfrentar o mundo parecia uma tarefa absurda. Também conheci aquela sensação de cansaço em que uma pessoa acorda e pensa: “hoje não consigo”. Sou apenas humano.
A diferença é que eu não tinha escolha. Tinha contas para pagar. Tinha responsabilidades. Tinha processos. Tinha clientes. Tinha pessoas à espera. Tinha filhas. Tinha de me levantar porque ninguém se ia levantar por mim. E, muitas vezes, foi precisamente essa obrigação brutal que me impediu de afundar.
A necessidade obrigou-me a mexer. A mexer mesmo quando não queria. A trabalhar mesmo sem vontade. A aparecer mesmo quando preferia desaparecer. E foi esse movimento forçado que me manteve à tona.
Não estou a defender que todos devam viver assim. Seria absurdo. Uma sociedade deve proteger quem está doente, quem perde o emprego, quem atravessa uma crise séria, quem precisa de tempo para recuperar. Os apoios sociais são necessários e a situação dos advogados não é justa (evito queixar-me, porque a verdade é que acabo por estar melhor do que muitos dos que têm direitos e agradeço essa bênção. Apenas pretendo ilustrar que as obrigações também salvam).
Mas também é preciso dizer a parte que ninguém quer dizer: um apoio sem deveres, sem esforço, sem um caminho de regresso e sem exigência mínima pode transformar-se numa armadilha.
Não para o Estado, mas para a pessoa. Porque receber dinheiro sem ter de fazer nada pode parecer protecção, mas também pode retirar estrutura, retirar rotina e retirar propósito. Pode retirar a obrigação saudável de sair de casa, de estar com outros, de ser necessário, de sentir que se tem utilidade. E quando uma pessoa perde isso durante tempo suficiente, o problema deixa de ser apenas económico. Passa a ser existencial.
Ficar em casa com dinheiro a cair todos os meses, sem objectivos, sem horários e sem responsabilidade pode parecer descanso. Mas depressa se transforma noutra coisa: isolamento, perda de hábitos, perda de energia, perda de auto-estima, perda de capacidade de voltar.
E depois vem o ciclo maravilhoso da modernidade: sofá, batatas fritas, TikTok. O ciclo do qual é difícil sair quando se entra.
A questão não é castigar os pobres. A questão não é humilhar quem precisa.
A questão é outra: ajudar não pode significar estacionar pessoas na dependência.
Um apoio social deve ser uma ponte, e não uma sala de espera eterna. Deve ajudar a atravessar uma fase difícil, mas também deve criar condições para a pessoa recuperar autonomia, rotina, competências, dignidade e sentido de utilidade.
O trabalho social obrigatório, se for sério, proporcional e bem organizado, pode cumprir essa função. Não deve ser exploração. Não deve ser humilhação pública. Não deve ser trabalho gratuito para substituir empregos pagos. Mas pode ser uma forma de devolver estrutura, responsabilidade e ligação à comunidade a quem está há demasiado tempo afastado de tudo isso.
Porque há uma verdade simples: o ser humano precisa de ser necessário para ter motivo para sair da cama.
Precisa de sentir que a sua existência produz alguma coisa. Que tem uma função. Que faz falta.
Os apoios sociais são importantes. Mas, quando desligados de deveres, podem deixar de ser uma rede de segurança e passar a ser uma cama demasiado confortável para quem já não tem forças para se levantar. Em vez de darem dignidade, podem ser uma fonte invisível de problemas de saúde mental. Haja o bom senso de evitar isso.
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