Créditos de carbono, propaganda verde e os interesses que ninguém quer nomear.
Como a Europa transformou a crise climática num mercado, enquanto o planeta continua a arder e quem lucra com isso
I. PRIMEIRO: O QUE É UM CRÉDITO DE CARBONO — PARA QUEM NUNCA OUVIU FALAR
Imagina que tens um carro velho que polui muito. Em vez de comprares um carro novo, pagas a um vizinho para plantar árvores no seu quintal. Depois declaras que és neutro em carbono. As tuas emissões continuam iguais. As árvores existem. Mas o ar da tua rua não melhorou nada.
É isto, em essência, que é um crédito de carbono.
Cada crédito representa, em teoria, uma tonelada de CO2 que foi capturada ou evitada algures no mundo — numa floresta no Senegal, num mangal na Indonésia, num campo de agricultura regenerativa no Quénia.
Uma empresa que emite cem toneladas de CO2 pode comprar cem créditos, somar os dois, e anunciar ao mundo que chegou à neutralidade carbónica.
Os departamentos de comunicação aplaudem.
Os acionistas ficam tranquilos.
Os reguladores europeus ficam satisfeitos.
A atmosfera não sabe o que fazer com este teatro.
O mercado voluntário de carbono — onde estas transações acontecem fora de qualquer obrigação legal — vale hoje dezenas de milhares de milhões de dólares. Cresceu exponencialmente desde o Acordo de Paris, em 2015. E é aqui que entra a Livelihoods.
O QUE É A LIVELIHOODS
A Livelihoods é uma plataforma de investimento francesa fundada em 2011, originalmente por iniciativa do grupo Danone. O modelo é simples: reúne grandes empresas europeias, cria fundos de investimento coletivo, e usa esse capital para financiar projetos de restauração de ecossistemas no Sul Global — florestas em África, mangais na Ásia, agricultura regenerativa na América Latina. Em troca, as empresas investidoras recebem créditos de carbono certificados, proporcionais ao seu investimento, que podem usar para declarar progressos rumo à neutralidade carbónica.
Não é uma ONG. Não é filantropia. É um veículo financeiro.
O primeiro fundo (LCF1) foi lançado em 2011 com dez investidores, incluindo Danone, Schneider Electric, Hermès e SAP. O segundo (LCF2) arrancou em 2017 com um grupo semelhante. O terceiro (LCF3) teve um primeiro fecho de 150 milhões de euros. Agora surge o quarto, com o mesmo valor.
Os investidores do terceiro fundo incluem o Grupo Bel, a Chanel, a Danone, a Eurofins, o Global Environmental Facility, a Hermès, o Grupo L'Occitane, a Mars, o Mauritius Commercial Bank, a McCain Foods, a Orange, a SAP, a Schneider Electric e os Voyageurs du Monde.
Empresas de luxo. Empresas alimentares. Empresas de software. Empresas de telecomunicações. O que têm em comum? Todas têm enormes pegadas de carbono que não conseguem ou não querem reduzir no curto prazo. E todas precisam de algo que as salve nas apresentações aos investidores ESG. A Livelihoods vende exactamente isso.
II. O VERDE QUE VALE DINHEIRO: A ANATOMIA DE UM FUNDO
Há uma pergunta simples que ninguém faz nas notícias sobre este fundo: quanto polui cada uma destas empresas, por ano?
A Danone registou em 2024 uma pegada total de carbono de cerca de 20,4 milhões de toneladas de CO2 equivalente, com 93,7% das emissões concentradas no Scope 3 — a cadeia de valor que a empresa não controla directamente e onde as reduções são mais difíceis, mais lentas e mais caras.
A Schneider Electric reconhece que a sua rede total de fornecedores gera mais de sete milhões de toneladas de CO2 por ano.
A Mars é um dos maiores produtores mundiais de chocolate, café e alimentos para animais de estimação — sectores com cadeias de abastecimento directamente ligadas à desflorestação tropical documentada.
O fundo da Livelihoods pretende capturar dez milhões de toneladas ao longo de vinte e cinco anos, partilhadas entre catorze empresas. Isto significa menos de trinta mil toneladas por empresa por ano — contra emissões anuais que chegam a dezenas de milhões. A proporção é a de um balde de água atirado a um incêndio florestal.
Mas o valor do fundo não é climático.
É reputacional, regulatório e financeiro.
O modelo permite às empresas progredir formalmente para a neutralidade carbónica, diversificar as suas fontes de créditos e assegurar, anualmente, créditos de carbono certificados ao custo de produção do fundo — que é significativamente inferior ao preço de mercado desses mesmos créditos.
Compram barato, declaram como se valesse o dobro, e a contabilidade climática fica arrumada.
III. O NEGÓCIO DA TERRA: ACESSO A TERRITÓRIOS QUE DE OUTRA FORMA ESTARIAM VEDADOS
Existe uma segunda dimensão neste modelo que a imprensa económica raramente analisa. Não é apenas o crédito de carbono que estas empresas compram. É o acesso.
Os projectos da Livelihoods operam no Sul Global — Senegal, Quénia, Ruanda, Índia, Guatemala, entre outros. São países onde a governação sobre terras comunitárias é frequentemente fraca, onde os títulos de propriedade são disputados, onde uma plataforma europeia com financiamento de multinacionais ocidentais chega com capital, com contratos de longo prazo, com narrativa de co-desenvolvimento — e onde as comunidades locais têm pouca capacidade de contestação jurídica efectiva.
A maioria das terras e territórios visados por projectos de compensação de carbono sobrepõe-se a áreas detidas consuetudinariamente por povos indígenas, comunidades locais e povos afrodescendentes. Estima-se que essas florestas contenham cerca de trezentos mil milhões de toneladas de carbono, mas as comunidades florestais têm título legal sobre apenas dez por cento das suas florestas, e direitos de carbono sobre ainda menos.
O que isto significa na prática: uma empresa que financia a restauração de uma floresta nestes territórios adquire, através do contrato de carbono, um interesse económico sobre aquele ecossistema durante vinte ou vinte e cinco anos.
Não é propriedade formal.
Mas é controlo efectivo.
É o direito de auditoria, de verificação, de aprovação de usos alternativos. É, em linguagem simples, uma forma de acesso a recursos e territórios que de outra maneira não estariam disponíveis para uma empresa europeia.
O caso Cotuhé Putumayo, no Peru, ilustra o padrão com clareza: a Chevron comprou 1,8 milhões de créditos de carbono de um projecto numa área indígena entre 2022 e 2024, mas as próprias comunidades indígenas afirmaram não ter qualquer conhecimento da existência do projecto nem do dinheiro que gerou.
A preocupação com os riscos que estes investimentos representam para os direitos de povos indígenas e comunidades locais levou recentemente à adopção de salvaguardas que permitem às comunidades afectadas contestar projectos de remoção de carbono aprovados pela ONU.
As salvaguardas existem porque os abusos precederam a regulação.
Sempre.
Os programas de carbono florestal assentam na premissa falhada de que a desflorestação pode ser resolvida com mercantilização e investimento, ignorando os problemas de direitos sobre a terra, relações de poder, e construção de confiança com as comunidades.
IV. A EUROPA E O TEATRO DA TRANSIÇÃO CLIMÁTICA
Aqui entra a União Europeia.
E aqui a história torna-se mais interessante e mais incómoda.
A Europa apresenta-se ao mundo como líder global da transição climática. É o continente do Pacto Ecológico Europeu, do mercado de carbono mais antigo do mundo (o EU ETS), dos alvos de neutralidade carbónica para 2050, das directivas de sustentabilidade corporativa, das metas de energias renováveis. Bruxelas exporta regulação climática como antes exportava carvão. O discurso é impecável.
A realidade é mais complexa.
As emissões territoriais da UE diminuíram 29% desde 1990. Mas essa redução não captura a verdadeira pegada ambiental da Europa, que se estende para além das suas fronteiras através da importação de bens e serviços com elevada intensidade de carbono.
Em linguagem directa: a Europa reduziu as suas emissões em parte porque deixou de fabricar muitas das coisas que consome.
As fábricas foram para a China, para a Índia, para o Bangladesh, para o Vietname. As emissões foram com elas. Mas os produtos voltaram — em contentores, nos portos de Roterdão, de Hamburgo, de Sines. A Europa importa carbono e chama-lhe progresso climático.
Os países que externalizam emissões são frequentemente países ricos, enquanto os exportadores são frequentemente países de baixo rendimento. Os países podem fazer parecer que as suas emissões de gases com efeito de estufa estão a diminuir ao transferir indústrias sujas para o estrangeiro, mesmo que as suas emissões possam estar a aumentar quando analisadas numa perspectiva baseada no consumo.
A contabilidade climática europeia mede o que é produzido dentro das fronteiras. Não mede o que é consumido. É uma escolha metodológica com consequências políticas enormes porque permite a Bruxelas exibir números decrescentes enquanto a pegada real de consumo permanece elevada.
V. OS BRICS POLUEM. A EUROPA NEGOCIA COM ELES. E VENDE PROPAGANDA.
Vejamos os números sem filtro.
China, Índia e Rússia ocupam o primeiro, terceiro e quarto lugares mundiais em emissões de gases com efeito de estufa. Os países BRICS são responsáveis por mais de cinquenta por cento das emissões globais de gases com efeito de estufa provenientes da combustão de combustíveis fósseis.
As emissões de combustíveis fósseis na China e na Índia aumentaram mais de quatro vezes e meia desde 1990.
Em 2024, a China representa 32% das emissões globais de CO2. As emissões da Índia aumentaram 4,6% nesse mesmo ano. Os países BRICS representam 46% da população mundial, 38% do PIB global, e 48% das emissões de dióxido de carbono.
Estes são os factos.
Agora a pergunta que ninguém formula nos comunicados da Comissão Europeia: com quem é que a Europa faz negócios?
Com a China.
Com a Índia.
Com o Brasil.
Com a Rússia, até à invasão da Ucrânia, e mesmo depois, por vias indirectas.
São os principais parceiros comerciais da UE.
São os países de onde vêm o aço, o alumínio, os componentes electrónicos, os painéis solares, os veículos eléctricos, a soja, o cacau, a carne.
São os países onde as emissões subiram enquanto as europeias desciam nos gráficos de Bruxelas.
A Europa construiu a sua narrativa de líder climático em cima de uma transferência maciça de produção e de emissões para esses países.
E depois criou regulação climática que torna essa transferência invisível na contabilidade oficial.
VI. O MECANISMO DE AJUSTAMENTO CARBÓNICO: PROTECIONISMO COM EMBRULHO VERDE
Em Janeiro de 2026, entrou em vigor o CBAM — o Mecanismo de Ajustamento Carbónico na Fronteira da União Europeia.
O CBAM impõe uma taxa sobre produtos importados com elevada intensidade carbónica, como aço, alumínio, cimento, fertilizantes e electricidade, aplicável a países que não implementaram políticas climáticas equivalentes às da UE.
O objectivo declarado é nobre: evitar que as empresas europeias percam competitividade face a concorrentes que poluem sem custos. Evitar o chamado carbon leakage — a fuga de emissões para países com regulação mais frouxa.
O efeito real é mais interessante.
China, Índia, Rússia e vários países em desenvolvimento exportadores para a UE opuseram-se fortemente ao mecanismo, com o argumento de que funciona como uma barreira comercial disfarçada que aumenta os custos para os exportadores, distorce o comércio internacional e contradiz o princípio de responsabilidades comuns mas diferenciadas consagrado na Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.
Há aqui uma contradição estrutural que merece ser dita com clareza: a Europa passou décadas a importar produtos baratos fabricados com energias sujas nesses países.
Beneficiou economicamente dessas emissões, elas estão incorporadas em tudo o que os europeus compraram durante trinta anos. Agora que esses países querem industrializar-se, modernizar-se, e aumentar o nível de vida das suas populações, a Europa cria uma taxa que lhes encarece as exportações, usando como justificação os padrões ambientais que a própria Europa nunca exigiu enquanto precisava dos seus produtos.
É protecionismo com embrulho verde.
É rentável para a indústria europeia.
E é vendido ao público como altruísmo climático.
VII. O ACORDO UE-MERCOSUL: O MAIOR PARADOXO
Para perceber até onde chega a contradição, basta olhar para o acordo entre a União Europeia e o Mercosul — o bloco sul-americano que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — concluído no final de 2024 após vinte e cinco anos de negociações.
O acordo prevê eliminar barreiras comerciais entre os dois blocos, abrindo o mercado do Mercosul a automóveis, máquinas, têxteis, vinho e azeite europeus, e abrindo o mercado europeu a produtos agro-alimentares sul-americanos, incluindo carne bovina e bioetanol.
E aqui está o paradoxo central: a União Europeia, que aplica o CBAM para penalizar importações com elevada intensidade carbónica, fechou simultaneamente um acordo que, segundo os seus próprios estudos de impacto, vai aumentar a desflorestação.
O Instituto Imazon, dedicado à investigação sobre a Amazónia, concluiu que o acordo UE-Mercosul conduzirá a um aumento da desflorestação, com o crescimento da procura por bens alimentares a provocar uma diminuição da área florestal e um aumento de emissões de CO2 equivalente entre 75 e 173 megatoneladas.
A própria Greenpeace alertou que a UE reconhece que o acordo aumentará a desflorestação, e que existe um conflito potencial entre o tratado e o regulamento europeu de combate à desflorestação — o EUDR — que foi adiado pela segunda vez.
Resumindo: a Europa cria uma taxa carbónica nas fronteiras para penalizar países que poluem.
Ao mesmo tempo, assina um acordo comercial que vai aumentar as emissões no Brasil.
Ao mesmo tempo, atrasa a implementação do regulamento anti-desflorestação que deveria bloquear os produtos desse mesmo acordo.
E tudo isto enquanto multinacionais europeias investem em fundos de carbono no Sul Global para compensar as suas próprias emissões.
Não é incoerência.
É uma arquitectura de interesses.
VIII. QUEM LUCRA, CONCRETAMENTE
Convém ser directo sobre isto.
As multinacionais que investem em fundos como o da Livelihoods lucram de três formas simultâneas.
Primeiro: compram créditos de carbono abaixo do preço de mercado, o que tem valor financeiro directo no contexto dos mercados de carbono e dos relatórios ESG.
Segundo: ganham acesso, durante décadas, a territórios e ecossistemas no Sul Global que de outra forma não estariam disponíveis para exploração comercial — e isso inclui cadeias de abastecimento, matérias-primas, e relações com governos locais.
Terceiro: obtêm cobertura reputacional que lhes permite continuar a operar os seus modelos de negócio sem pressão de consumidores, investidores ou reguladores.
A Comissão Europeia lucra politicamente: pode apresentar números de redução de emissões territoriais, pode exibir regulação climática como credencial geopolítica, pode usar o tema climático como alavanca negocial com países terceiros — e ao mesmo tempo manter acordos comerciais com todos eles.
Os países do Sul Global que acolhem estes projectos recebem financiamento — real, concreto, muitas vezes necessário. Mas cedem soberania sobre os seus ecossistemas a contratos de longo prazo com entidades privadas ocidentais. E as comunidades locais que habitam esses territórios raramente estão na sala quando os contratos são assinados.
Os defensores de soluções baseadas na natureza como resposta à crise climática oferecem uma saída fácil que não implica queimar menos combustível fóssil nem alterar os padrões de consumo, que são as únicas respostas reais. E à medida que a escala necessária destes projectos cresce, cresce também a probabilidade de um impacto devastador sobre povos indígenas e outras comunidades locais.
IX. A PROPAGANDA E O QUE ELA ESCONDE
O discurso oficial europeu sobre a transição climática assenta em três pilares narrativos que merecem ser desconstruídos.
O primeiro é o da liderança moral.
A Europa como modelo a seguir, como vanguarda do planeta.
O problema é que essa liderança se construiu em grande parte exportando a sua pegada de carbono para outros continentes.
Liderar na contabilidade territorial enquanto se importa carbono em contentores não é liderança — é ilusionismo estatístico.
O segundo é o da solução tecnológica e de mercado.
A ideia de que os problemas climáticos se resolvem com preços de carbono, fundos de investimento, créditos certificados e plataformas privadas.
Esta visão é conveniente para quem vende esses instrumentos e para quem os compra. É também profundamente incompleta: o debate sobre os limites da compensação de carbono tornou cada vez mais claro que cortar emissões é muito mais crucial do que compensá-las, enquanto as emissões continuam a subir ano após ano.
O terceiro é o da narrativa de urgência selectiva.
A Europa apela urgentemente à acção climática quando isso implica criar novas taxas sobre as exportações dos países emergentes, ou quando se trata de investir em florestas alheias para compensar as suas próprias emissões.
A urgência desaparece quando se trata de reduzir o consumo interno, de desacelerar o crescimento, de questionar os modelos de produção industrial que tornaram a Europa rica.
X. PORTUGAL NO MEIO DISTO TUDO: A PERIFERIA QUE SERVE DE PLATAFORMA
Para perceber o papel de Portugal nesta arquitectura de interesses, é preciso fazer uma pergunta simples e desconfortável: o que é que Portugal tem que as grandes potências europeias e as multinacionais tecnológicas querem?
Três coisas.
Sol.
Território.
E uma classe política suficientemente dócil para deixar acontecer.
A fábrica que nos restava e o que a transição verde lhe está a fazer
Durante décadas, a Autoeuropa em Palmela foi um dos argumentos mais sólidos que Portugal tinha para justificar a sua relevância industrial no contexto europeu. Quase cinco mil trabalhadores directos, dezenas de milhares de postos indirectos, e o estatuto de maior exportador individual do país.
Era, em termos simbólicos, a prova de que Portugal podia fazer parte da cadeia de valor europeia como produtor, não apenas como destino turístico ou receptor de remessas.
Agora essa posição está sob pressão de várias direcções em simultâneo — e a transição verde é uma delas, não a única, mas uma peça central do puzzle.
Em 2026, a Autoeuropa vai parar cerca de 70 dias — além das paragens técnicas normais — para obras de 300 milhões de euros destinadas a descarbonizar a produção e adaptar a fábrica aos eléctricos. A empresa prevê produzir entre 25 mil e 30 mil carros a menos nesse ano, o que a economia portuguesa sentirá nas exportações.
Mas o problema estrutural é mais profundo do que uma paragem de obra.
O Grupo Volkswagen prepara aquela que pode ser a maior reestruturação em 89 anos de história, com planos para eliminar até cem mil dos seus 657 mil postos de trabalho a nível mundial, enquanto o lucro líquido do grupo caiu 28% no primeiro trimestre de 2026.
As causas são múltiplas, concorrência chinesa, investimento em software, tarifas americanas, mas entre elas está a pressão da regulação europeia que forçou a indústria automóvel a apostar nos eléctricos a um ritmo que o mercado não acompanhou.
O Grupo Volkswagen reorganizou a gestão das suas fábricas em regiões, criando uma Região Ibérica que agrupa a Autoeuropa com as fábricas espanholas de Martorell e Pamplona. Na prática, a Autoeuropa deixa de ser gerida autonomamente e passa a competir internamente com fábricas espanholas por modelos e volume de produção. Num grupo em crise, essa competição não é neutra.
O que aconteceu aqui é revelador de como a política climática europeia produz efeitos que ninguém quer nomear directamente.
Bruxelas mandatou o fim dos motores de combustão para 2035 — depois recuou parcialmente, sob pressão da Alemanha, da França e da Itália, os países com indústria automóvel doméstica.
Portugal não tem indústria automóvel doméstica. Portugal tem a Autoeuropa, que é alemã.
E quando a Volkswagen decide onde concentrar os seus recursos limitados durante a transição, a fábrica portuguesa não vota no Parlamento Europeu.
Os campos que desaparecem sob os painéis
Ao mesmo tempo que a nossa única âncora industrial de peso negoceia a sua sobrevivência na crise dos eléctricos, o interior do país está a ser redesenhado por um outro imperativo da transição verde europeia: as metas de renováveis.
Portugal assumiu o compromisso de instalar 20,8 GW de energia solar fotovoltaica até 2030.
Em Abril de 2026, a potência instalada em energias renováveis totalizava já 22,4 GW, com mais de 6,5 GW em fotovoltaica.
Os números são impressionantes.
O que eles não dizem é onde essa capacidade está a ser instalada.
O presidente da associação Zero, Francisco Ferreira, reconheceu que várias centrais solares de grande dimensão têm gerado forte contestação e mobilização popular em muitos aspectos, resultado da selecção de áreas com fortes impactos ambientais e sociais.
Em linguagem não diplomática: os parques solares estão a ocupar terra agrícola, paisagem, e território que pertencia a comunidades locais que não foram consultadas.
O padrão é o mesmo que vimos nos mangais do Senegal. Escala diferente, mesmo mecanismo. Uma necessidade real, a transição energética, é instrumentalizada para justificar o acesso a territórios. Mas quem beneficia directamente dessa energia?
A Microsoft anunciou um investimento superior a dez mil milhões de dólares em infraestrutura de IA em Portugal, o maior negócio de data centers da história do país, com instalações em Sines. Portugal comprometeu mais de doze mil milhões de euros em investimento até 2030, atraindo gigantes como Microsoft, Equinix e Digital Realty.
Os municípios do interior estão a receber projectos de dimensão sem precedente.
No Fundão, pequena cidade próxima da fronteira espanhola, foi anunciado um data center avaliado em quatro mil milhões de euros.
A narrativa oficial é a do emprego e do desenvolvimento regional.
A realidade operacional é outra. Um data center de grande escala consome entre 50 e 500 megawatts de potência de forma contínua, 24 horas por dia, 365 dias por ano.
Esta exigência de continuidade é precisamente o que torna estes equipamentos incompatíveis, por natureza, com a variabilidade das fontes renováveis como o solar e o eólico.
Um parque solar produz energia durante algumas horas por dia.
Um parque eólico produz quando o vento sopra. Um data center não para.
Nunca.
Isto significa que os parques solares que cobrem os campos do Alentejo e do interior não fornecem directamente os data centers.
Servem para que os operadores possam assinar contratos de energia verde (os chamados PPAs), apresentar relatórios de sustentabilidade impecáveis, e declarar-se carbon neutral enquanto consomem energia fóssil nas horas em que o sol não brilha.
É o mesmo mecanismo dos créditos de carbono, aplicado à electricidade.
O consumo de energia dos data centers aumentou 12% por ano entre 2017 e 2023, quatro vezes mais rápido do que o crescimento global da oferta de electricidade. Empresas como a Google registaram um aumento de cerca de 150% nas suas emissões desde 2020. A Google, a Microsoft e a Amazon chegam a Portugal com compromissos de carbono zero e relatórios de sustentabilidade cuidadosamente elaborados. E os campos portugueses ficam cobertos de vidro e alumínio para que esses compromissos pareçam credíveis nos relatórios anuais.
O que Portugal ganha — e o que cede
Convém ser honesto sobre o que há de real neste cenário. Os data centers trazem investimento, algum emprego qualificado, receita fiscal, e posicionam Portugal como hub digital europeu numa altura em que a IA está a redesenhar a geografia industrial do continente. A energia renovável reduz a dependência energética, que em 2023 ainda era de 66,7%.
Estes não são argumentos falsos.
O problema não é o que Portugal ganha.
É o que Portugal cede, e a quem, e em que condições.
O que cede é território — terra agrícola, paisagem, identidade do interior — para servir a agenda de descarbonização contabilística de multinacionais americanas e europeias.
Cede soberania energética ao aceitar que a prioridade da rede eléctrica passe a ser abastecer infraestrutura de IA em vez de consumo doméstico e industrial nacional.
E cede capacidade de negociação futura ao tornar-se dependente de decisões de investimento tomadas em Wolfsburgo, Seattle ou Dublin — cidades onde Portugal não tem voto nem voz.
A Autoeuropa pode sobreviver à transição eléctrica ou não. Depende de decisões tomadas em conselhos de administração alemães, em função de margens de lucro, pressão accionista e posicionamento estratégico global. Portugal pode influenciar marginalmente esse processo — e tem-no feito, com o anúncio do ID.Every1 a ser produzido em Palmela a partir de 2027 como vitória diplomática. Mas a dependência estrutural mantém-se: somos uma fábrica por contrato numa empresa que decide unilateralmente quanto produzimos e em que condições.
E enquanto isso acontece, o interior do país onde vivem as pessoas que mais perderam nas últimas três décadas de desindustrialização, desertificação e abandono recebe parques solares que produzem electricidade que não consome, data centers que empregam engenheiros que não existem localmente, e promessas de desenvolvimento regional que chegam sempre nos discursos inaugurais e raramente nos extractos bancários das famílias que ficaram.
Portugal como colónia de serviços energéticos
Há um padrão histórico que Portugal conhece bem e que está a repetir-se em versão verde.
Durante o século XIX e XX, as periferias europeias forneciam matérias-primas — cortiça, minério, mão de obra barata — ao centro industrial do continente. O valor acrescentado ficava em Birmingham, em Manchester, no Ruhr.
A periferia ficava com o emprego precário e a extracção.
O que está a acontecer agora tem uma lógica semelhante.
Portugal fornece sol, território e electricidade renovável barata. O valor acrescentado — os data centers, a IA, as plataformas digitais, os serviços financeiros que dependem dessa infraestrutura — fica em Dublin, em Amesterdão, em Seattle.
Portugal fica com o campo coberto de painéis, a conta da rede eléctrica sobrecarregada com a prioridade aos grandes consumidores industriais, e o estatuto de hub de renováveis que soa bem em conferências europeias mas não paga salários nem fixa população no interior.
A diferença em relação ao passado é que desta vez o processo tem embrulho verde.
Chama-se transição climática.
Há metas, há directivas, há relatórios de sustentabilidade, há fundos europeus associados. E toda a gente que questiona é colocada do lado errado da história — o lado que não quer o planeta.
É uma armadilha retórica perfeita. E Portugal, mais uma vez, está a cair nela.
XI. CONCLUSÃO: O FIM DO MUNDO É UM MERCADO
O fundo da Livelihoods não é uma anomalia. É um sintoma de como o capitalismo europeu aprendeu a monetizar a sua própria culpa.
A crise climática, real e documentada, foi transformada numa oportunidade de negócio — de créditos, de fundos, de regulação, de certificação, de consultoria ESG, de taxas de fronteira.
E no centro de tudo isto estão as mesmas empresas que durante décadas construíram os modelos de produção e consumo que geraram o problema.
Plantar mangais no Senegal não vai salvar o planeta enquanto a Danone emite vinte milhões de toneladas por ano.
Enquanto a Europa importa aço chinês fabricado com carvão e chama progressos à diminuição das suas emissões territoriais.
Enquanto o acordo UE-Mercosul abre o caminho à desflorestação da Amazónia e o regulamento anti-desflorestação é adiado pela segunda vez. Enquanto os BRICS são apontados como os grandes poluidores do século — o que é factualmente verdadeiro — mas sem que ninguém mencione que produzem maioritariamente para o consumo europeu e americano.
Enquanto Portugal vende o seu sol e o seu interior para que a Microsoft possa dizer que é carbon neutral.
A crise climática é real.
O que é falso é a ideia de que está a ser levada a sério por quem tem o poder de a resolver.
O que está a ser levado muito a sério, esse sim, é o negócio que ela gerou.
FONTES
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