segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Henrique Raposo não está apenas errado.

Pode ser uma imagem de texto que diz "P P Público 5h ··· X Pai de duas filhas, o escritor e cronista diz-se preocupado com o facto de os jovens que têm agora 20 anos serem mais "reaccionários" do que os da sua geração. i Público publico.pt pt Henrique Raposo: "O homem tem que abdicar do seu poder ancestral""
O Henrique Raposo não está apenas errado. Está naquele patamar mais divertido e mais perigoso do erro: o idiota em guerra contra a realidade. O homem que olha para o mundo, vê séculos de história, biologia, tecnologia e construção, e depois conclui, com a profundidade de uma frase escrita numa parede da escola primária, que “o homem tem de abdicar do seu poder ancestral”.
Podia ter saído outra pérola qualquer. “O ser humano devia deixar de comer para proteger o planeta.” “As pessoas deviam ficar eternamente jovens para salvar a Segurança Social.” “Os leões deviam tornar-se vegetarianos para promover a paz na savana.” É este o nível de profundidade do pensamento.
O homem não pode abdicar do seu poder ancestral, mesmo que queira. A biologia não aceita requerimentos. Não há formulário para renunciar à testosterona, ao impulso competitivo, à força física, ao instinto protector, à tendência para o risco, à necessidade de construir, combater, descobrir, conquistar e organizar. Pode educar esse poder. Pode civilizá-lo. Pode submetê-lo à lei, à honra, à família, à responsabilidade e ao amor. Pode transformar força bruta em disciplina, domínio em protecção, agressividade em coragem, desejo em compromisso, ambição em obra. Isso chama-se civilização. O que não pode é fingir que esse poder desaparece porque meia dúzia de cronistas decidiram que a natureza tem de ficar num gulag progressista.
O problema nunca foi o poder masculino existir. O problema é ser mal usado. Um homem poderoso pode ser tirano, predador, cobarde ou bruto. Mas também pode ser pai, soldado, inventor, juiz, trabalhador, engenheiro, médico, marinheiro, agricultor, bombeiro, construtor, descobridor, protector.
A questão não é destruir o poder do homem nem vê-lo como um mal, até porque isso não resolve nada, porque se trata de uma força da natureza. É orientar esse poder para defender e construir. Só uma cabeça infantil confunde a existência de uma força com o abuso dessa força. Pela mesma lógica, teríamos de destruir o fogo porque queima, a água porque afoga, a medicina porque pode matar, a tecnologia porque pode vigiar e a política porque pode oprimir. Bela civilização que estes génios nos querem deixar: tudo esterilizado, tudo culpado, tudo amputado, tudo fraco, tudo morto, mas devidamente aprovado pelo conselho da revolução.
A maioria dos homens e das mulheres percebe que a modernidade não caiu do céu como um subsídio europeu. Percebe que a paz exige força. Que a liberdade exige ordem. Que a família exige responsabilidade. Que a abundância exige trabalho. Que a tecnologia exige génio, risco, hierarquia, falhanço, autoridade, aprendizagem e sacrifício. Já o Henrique Raposo parece nem sequer perceber como se tornou possível ele ter um computador onde escreve estas frases luminosas contra a realidade que tornou esse computador possível.
É a criança que repete a frase fixe dos colegas da escolinha. Não compreende a frase, não compreende o mundo, não compreende a história, mas sente que aquilo soa bem.
O homem tem é de deixar de pedir desculpa por ser homem, tal como a mulher não tem de pedir desculpa por ser mulher.
Uma sociedade saudável não humilha os seus rapazes por terem energia masculina. Ensina-os a dominá-la. Não lhes diz que a força é tóxica. Ensina-lhes que a força sem carácter é perigosa. Não lhes diz que a autoridade é opressão. Ensina-lhes que autoridade sem justiça é tirania. Não lhes diz que a masculinidade é uma doença. Ensina-lhes que a masculinidade sem responsabilidade é apenas selvajaria.
O homem não tem de abdicar do seu poder ancestral, até porque não pode mesmo que queira. Tem de o educar. Tem de o pôr ao serviço dos outros. Tem de ser forte sem ser cruel, firme sem ser tirano, protector sem ser dono, ambicioso sem ser predador, livre sem ser irresponsável.
A civilização não nasceu de homens que abdicaram do seu poder. Nasceu de homens que aprenderam a usá-lo.

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