Uma pergunta que aparece com frequência nos comentários é esta: quando é que isto muda? E, sobretudo, muda pelo voto?
Meus caros, se há coisa que tento fazer, com as limitações evidentes da condição humana, é raciocinar com algum rigor. Vou acertar sempre? Não. Ninguém acerta sempre, e eu muito menos. Não faltam por aqui pessoas a lembrar-me disso.
Mas tentando fazer um exercício lógico, baseado na história das civilizações, parece-me possível fazer uma distinção grosseira, mas útil: há sociedades que mudam governos, corrigem abusos e resolvem conflitos por vias essencialmente pacíficas. E há sociedades que passam a vida à pancada, até já ninguém saber muito bem se estão a lutar por uma ideia, por uma bandeira, por uma tribo ou apenas porque sim.
E o padrão histórico parece-me claro. Nas civilizações que conseguem resolver os seus problemas com pouco ou nenhum sangue, há mais estabilidade, mais desenvolvimento, mais tecnologia, mais confiança social e níveis de pobreza tendencialmente mais baixos.
Nas civilizações onde todos se comem uns aos outros, há pobreza, atraso, medo, morte e, invariavelmente, um chefe qualquer a explicar que a violência era necessária para salvar o povo.
Isto para dizer uma coisa muito simples: eu não acredito em soluções não pacíficas. Não acredito em aventuras de força. Não acredito em minorias iluminadas que decidem “salvar” o país contra o próprio país. Não acredito que um país melhor possa nascer de um chão encharcado de medo e repressão.
E não, isto não resulta de uma lavagem cerebral que me tenham feito na Faculdade. Resulta de olhar para a história com um mínimo de seriedade.
Falemos: Países que se desenvolveram sem liberdade, pluralismo e algum grau de consenso social? Há poucos exemplos. Os países do Golfo? Têm petróleo. E mesmo esses só prosperaram porque o mundo desenvolvido criou tecnologia, indústria e mercados capazes de dar valor ao petróleo. Não foi propriamente uma revolução cultural no deserto.
Querem falar da China? Falemos. A China aumentou brutalmente o PIB sob um regime autoritário. É verdade. Mas continua a ser um país duríssimo para viver e trabalhar, com desigualdades brutais, vigilância massiva, repressão política e milhões de pessoas ainda presas a condições de vida que nenhum europeu aceitaria durante quinze minutos, excepto porventura na Albânia. E grande parte do salto chinês assentou em copiar em massa tecnologia criada em países livres.
A verdade é esta: o desenvolvimento precisa de criatividade. E a criatividade precisa de liberdade. Pode haver obediência sem liberdade. Pode haver fábricas sem liberdade. Pode haver disciplina sem liberdade. Pode até haver crescimento durante algum tempo sem liberdade. Mas a inovação, o pensamento crítico, a confiança social, a cultura de responsabilidade e a capacidade de reforma sustentada não nascem de sociedades aterrorizadas.
Nascem de sociedades onde se pode discordar, onde se pode criticar, onde se pode, até, fazer greve. Sítios onde a mudança se faz convencendo pessoas, e não esmagando nem aterrorizando pessoas.
Por isso, sim: isto muda pelo voto. Ou, pelo menos, só deve mudar por essa via. Não vejo alternativa menos má. É lento? É. É frustrante? Muito. Dá vontade de desistir quando se vê uma comunicação social que trata uns como santos e outros como ameaça? Evidentemente.
É irritante assistir a instituições capturadas por agendas políticas, enquanto fingem que estão apenas a defender a democracia? Óbvio.
Mas a alternativa é pior. A alternativa é aceitar a lógica de que, se o sistema está podre, então vale tudo para o derrubar. E quando se abre essa porta, ela nunca se fecha apenas para “os nossos”. Fecha-se para todos. Hoje é contra quem odiamos. Amanhã é contra quem incomoda. Depois é contra quem discorda. No fim, já ninguém fala e somos a Síria ou o Líbano.
Se alguém acha que existe forma melhor de reformar Portugal do que conquistar apoio popular, vencer culturalmente, convencer pessoas e criar uma maioria política suficientemente ampla para alterar o rumo do país, a minha mensagem é simples: está errado.
É difícil. É lento. É ingrato. É muitas vezes desesperante. Mas é o único caminho que pode produzir um país melhor sem destruir o país pelo caminho.
Parafraseando Churchill, a democracia é a pior forma de mudar as coisas. Excepto todas as outras que a humanidade já experimentou.
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