domingo, 21 de junho de 2026

A qualidade das chefias, nas empresas.

Há décadas que se instalou na esfera pública uma narrativa oficial, replicada com afinco por sucessivos governantes e confederações patronais, que culpa diretamente a base produtiva pelo atraso do país.
Sob esta ótica distorcida, a economia nacional permanece na cauda da Europa unicamente porque o trabalhador português seria pouco produtivo, as leis laborais sofreriam de uma rigidez quase soviética e o mercado exigiria uma flexibilização urgente.
Esta retórica, contudo, não passa de uma cortina de fumo muito bem desenhada para sacudir a água do capote e camuflar a incompetência das chefias, a ganância de curto prazo e a corrupção institucional que verdadeiramente paralisam o país.
O problema nunca foi apenas quem produz; o problema é quem vive à custa de quem produz.
Quando se confronta a propaganda governamental com a evidência empírica acumulada por estudos internacionais de referência, a pirâmide da responsabilidade inverte-se por completo.
O verdadeiro bloqueio económico de Portugal não reside nas fábricas, nas lojas, nos escritórios ou na dedicação de quem neles cumpre jornadas exaustivas. O trabalhador português é reconhecido, tanto cá dentro como lá fora, pela sua enorme capacidade e dedicação.
O problema estrutural localiza-se firmemente no topo: na falta de qualificação de quem manda, num modelo de especialização assente em serviços de baixo valor, numa carga fiscal asfixiante que serve de álibi à mediocridade empresarial e num histórico de desvio de fundos públicos comunitários que acabou por enriquecer os suspeitos do costume, em detrimento do desenvolvimento real.
Em março de 2026, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro subiu ao palanque para proclamar que Portugal tinha finalmente entrado na Liga dos Campeões da estabilidade económica e financeira. Esta afirmação, amplamente registada pela cobertura noticiosa da CNN Portugal em https://cnnportugal.iol.pt/.../69c6851ed34e28842c823f4a, procurava capitalizar politicamente o equilíbrio formal das contas públicas e a existência de excedentes orçamentais que agradam aos burocratas de Bruxelas.
A intenção política subjacente era óbvia: construir uma imagem de sucesso macroeconómico para anestesiar a opinião pública, aprovar o pacote laboral, projetar um otimismo artificial e convencer o eleitorado de que o atual xadrez partidário estava a operar um milagre financeiro.
Esta tentativa de colocar a economia portuguesa ao nível de colossos como o mercado alemão constitui, porém, um exercício clássico de ilusionismo para deitar areia para os olhos dos cidadãos.
Como o portal de verificação de factos Polígrafo fez questão de recordar em https://poligrafo.sapo.pt/.../luis-montenegro-portugal.../, o facto de o Produto Interno Bruto nacional crescer percentualmente acima da média da União Europeia não é uma conquista inédita do atual xadrez político, já se registando em anos anteriores como um mero reflexo da dependência extrema do turismo.
Comparar de forma direta a economia portuguesa com a alemã é uma manobra facciosa que ignora as leis laborais e os impostos profundamente diferentes de ambos os países. É a deturpação total comparar um país altamente industrializado com um país semi-industrializado. Além disso, quando a propaganda governamental tenta comparar ordenados mínimos à escala europeia, camufla deliberadamente o facto de que em Portugal se pagam catorze ordenados por ano, inviabilizando qualquer comparação direta com países que funcionam num regime de doze meses.
Este fetiche das elites políticas por manter o país na cepa torta através do esmagamento salarial não é novo.
Há uns anos, em 2007, o então ministro da Economia Manuel Pinho discursava perante empresários estrangeiros apregoando abertamente que Portugal era um excelente lugar para investir porque tinha baixos salários.
Quase duas décadas depois, percebe-se que absolutamente nada mudou na mentalidade empresarial e política.
Esta inércia nota-se facilmente quando vemos, ano após ano, o ordenado mínimo crescer por decreto enquanto todos os restantes escalões salariais da classe média permanecem estagnados, recusando-se a acompanhar a progressão na mesma proporção.
Se a mentalidade de grande parte do patronato está ancorada no passado, o ordenamento fiscal português funciona como o cúmplice perfeito para imobilizar a economia e punir quem tenta produzir.
O debate ganha um realismo cru quando se analisa o recibo de vencimento de qualquer profissional ou a folha de encargos de uma empresa que queira pagar um salário digno.
O sistema fiscal grita e implora para que não sejam pagos ordenados altos, utilizando escalões progressivos para penalizar de forma quase punitiva quem o tentar fazer.
A engenharia fiscal em vigor atua como uma barreira imediata à meritocracia. No recibo de vencimento, o impacto é devastador: são onze por cento de Taxa Social Única deduzidos diretamente ao trabalhador, somados a mais vinte e três por cento de TSU que a empresa é obrigada a suportar de forma invisível para o funcionário. A isto juntam-se taxas de IRS que galgam agressivamente até atingirem os quarenta e oito por cento.
Qualquer cidadão percebe que em Portugal um bom ordenado vai quase todo para os cofres do Estado.
A comparação com os mercados mais fortes do mundo expõe a gravidade do cenário nacional.
Na Alemanha, um funcionário custa até menos vinte por cento à estrutura empresarial do que em Portugal, num mercado infinitamente mais robusto.
Nos Estados Unidos, o custo de um trabalhador chega a ser até quarenta por cento menor, inserido no maior mercado do mundo.
A disparidade na tributação das empresas e dos proprietários é igualmente gritante.
Na Alemanha, a empresa paga trinta por cento de IRC e o processo está encerrado, permitindo que o patrão retire até noventa e cinco por cento de dividendos sem sofrer mais impostos adicionais.
Em Portugal, o empresário enfrenta dezanove por cento de IRC, seguidos de mais vinte e três por cento de retenção sobre os dividendos quando tenta retirar o dinheiro por vias legais.
Isto sem contar com as constantes tributações autónomas e encargos adicionais que asfixiam a tesouraria.
Quem vive efetivamente à custa de quem produz, neste cenário, chama-se Estado.
O veredicto do World Management Survey e os capitalistas de meia-tigela
A desculpa clássica de que o país não pode pagar melhores salários porque a produtividade é baixa colide com a realidade dos factos.
A produtividade nacional, dos não indiferenciados, tem crescido de forma constante de há muitos anos para cá, impulsionada pelo esforço e pelas qualificações das gerações mais jovens.
O verdadeiro problema não está na base que produz, mas sim na organização e gestão do topo, que funcionam como a causa exata de uma economia pequena e de pouco valor acrescentado.
O World Management Survey, um projeto científico contínuo desenvolvido por académicos da London School of Economics, de Harvard e de Stanford, cujos dados detalhados podem ser consultados no portal oficial em https://worldmanagementsurvey.org/, demonstra de forma inequívoca que cerca de trinta por cento das diferenças de produtividade entre as economias mundiais se devem estritamente à qualidade da gestão de topo.
Portugal falha criticamente neste indicador, apresentando marcas severas de subdesenvolvimento organizacional.
Os dados e a análise sociológica do tecido empresarial expõem uma realidade desconfortável que muitos consideram pecado dizer em voz alta:
O défice de qualificações dos empresários:
O empresário médio português tem, frequentemente, apenas o nono ano de escolaridade.
Carece de conhecimento técnico, de mundividência e de capital para criar empresas em setores de grande valor acrescentado.
É por esta via que proliferam tantas empresas focadas unicamente em esmagar custos laborais.
Os capitalistas de meia-tigela:
Uma grande parte das pequenas e médias empresas serve primariamente para os seus donos pagarem as suas próprias despesas pessoais. Carros de gama alta, despesas de casa, viagens de férias, estudos académicos dos filhos e cartões de representação entram diretamente na contabilidade da empresa para fugir aos impostos e mascarar os lucros.
Estes gestores não têm qualquer preocupação com o aumento de escala, com a melhoria das condições de trabalho ou com o vencimento dos seus colaboradores, mas continuam a exigir adulação pública e subsídios estatais.
O tabu da escala e o isolamento:
A tradição cultural do país promove uma gestão de costas voltadas uns para os outros, onde vigora a máxima de dividir para reinar a pequenez.
Na condição de pequenos, reina o umbigo.
A escala é um tema tabu. Sem escala, não há sistematização superior de processos criativos, não há capacidade de captação de novos mercados, nem modernização atempada. Instala-se uma inércia que funciona como um motor empenado, arrastando as empresas para a mera sobrevivência e nunca para a superação.
Estudos independentes sugerem uma conclusão impressionante: com uma gestão justa, eficaz e eficiente, apoiada em políticas públicas acertadas, os salários em Portugal poderiam ser até cinquenta por cento mais altos do que são atualmente, sem aumentar os custos de produção e sem atacar os direitos de quem trabalha.
A introdução de uma medida simples e barata, como a exigência de formação e certificação adequada em liderança para quem exerça cargos de chefia, melhoraria acentuadamente a produtividade nacional.
Esta mentalidade de sobrevivência e mediocridade não é um exclusivo do setor privado; replica-se com contornos ainda mais graves dentro dos corredores da administração pública.
O ambiente de trabalho no funcionalismo público encontra-se frequentemente degradado por escolhas políticas erradas e pelo compadrio institucional.
Os processos de administração do Estado estão amplamente manietados pelo fenómeno dos empregos para os rapazes do partido, os chamados jobs for the boys.
As chefias intermédias e de topo são repetidamente escolhidas por critérios de fidelidade partidária em detrimento da competência técnica ou da capacidade de liderança.
Nestes ambientes, o mantra que domina a rotina diária é o empurra para provocar o deslize e o erro, promovendo uma cultura de irresponsabilidade onde ninguém assume decisões estratégicas.
Em vez de se estimular a cooperação e a inovação, o sistema coage os funcionários públicos a manterem-se isolados, com cada macaco no seu galho, num ambiente de trabalho profundamente infeliz e desmotivador.
O Estado falha em gerir o seu próprio capital humano, desperdiçando o talento de milhares de técnicos qualificados para proteger as nomeações políticas das elites do regime.
Para compreender como a economia portuguesa foi empurrada para este beco sem saída, é necessário analisar o impacto real dos fundos comunitários e as restrições impostas pela União Europeia.
Face aos milhares de milhões de euros que entraram em Portugal ao longo das últimas décadas, seria virtualmente impossível a economia não registar algum crescimento nominal.
No entanto, o destino desse capital obedeceu a escolhas políticas deliberadas que hipotecaram o futuro industrial do país.
A adesão ao Euro impossibilitou qualquer tipo de política industrial séria e independente, beneficiando deliberadamente as potências industriais do Centro e do Norte da Europa.
É um exercício de realismo geopolítico perceber que a União Europeia nunca permitiria que os fundos comunitários fossem utilizados para colocar os países do Sul a competir diretamente com a indústria alemã ou francesa.
Limitado nas suas políticas de captação de Investimento Direto Estrangeiro de alto valor tecnológico, o governo português deitou-se na cama que Bruxelas preparou.
O dinheiro estrangeiro e os apoios públicos foram canalizados em massa para o turismo e para o imobiliário.
O turismo foi a escolha conveniente para os governantes: é uma indústria que não requer capital intensivo, dispensa mão de obra altamente qualificada e não exige empresários com elevados estudos de gestão.
Transformou-se o país num imenso resort de sol e praia, assente em serviços de baixo valor.
O reverso da medalha desta opção política está à vista de todos: uma economia totalmente vulnerável, salários permanentemente baixos e uma crise habitacional sem precedentes, onde os cidadãos locais deixaram de conseguir aceder a habitação nas suas próprias cidades devido à especulação imobiliária.
É exatamente para proteger este modelo económico decadente que surge o pacote laboral proposto pelo Executivo de Luís Montenegro, apoiado pelas bancadas do PSD, da IL e do CDS.
A pressa em alterar o Código do Trabalho, promovendo a flexibilização de horários e facilitando os mecanismos de adaptabilidade, não tem como objetivo real aumentar a produtividade.
Trata-se de um logro político para colocar novamente todo o peso do ajustamento económico sobre os ombros de quem trabalha, mantendo intactos os privilégios de sempre do patronato.
Esta reforma laboral baseia-se na falácia da economia do derrame, a teoria há muito rebatida de que se dermos mais benesses e flexibilidade ao topo, a riqueza eventualmente acabará por pingar até aos que estão em baixo.
A história económica de Ronald Reagan e Margaret Thatcher provou que este modelo apenas serve para concentrar a riqueza e esmagar as classes médias.
O que move verdadeiramente uma economia é colocar o dinheiro na base produtiva, porque os trabalhadores não acumulam capital em paraísos fiscais; gastam-no na economia real, gerando consumo, comércio e encomendas.
A alteração legislativa de Luís Montenegro é um fato feito à medida para manter os lucros de um patronato esclavagista à custa do bolo do trabalhador, perpetuando de forma estrutural a baixa produtividade.
Para que uma reforma laboral fosse minimamente séria e justa, teria de ser obrigatoriamente precedida por um pacote patronal robusto e moralizador, focado em punir a fraude fiscal dos gerentes, exigir certificação de competências às chefias e fechar a torneira dos fundos europeus a quem paga salários mínimos.
Mas mexer no pacote patronal é uma linha vermelha que a Luís Montenegro não interessa tocar.
O atual xadrez governativo prefere manter a subserviência aos lóbis e às confederações empresariais que sustentam o regime político.
É mais fácil aprovar leis que precarizam a base produtiva do que forçar os capitalistas de meia-tigela a profissionalizarem a sua gestão.
Enquanto a discussão pública for alimentada pelas ilusões de uma Liga dos Campeões orçamental e se recusar a punir a incompetência de quem manda, Portugal continuará preso a um modelo extrativo, subsidiando a mediocridade dos patrões com o sacrifício e a perda de futuro de quem trabalha.


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