quarta-feira, 3 de junho de 2026

A vida real não faz greve, mas a função pública faz.

Caros concidadãos. Meus amigos.
Daqui a poucas horas começa o vosso martírio. Nalguns casos, já começou.
A cirurgia cancelada. A audiência adiada. A escola fechada. O transporte suprimido. A repartição encerrada. A vida normal em suspenso, na véspera de um feriado e com uma ponte depois, numa daquelas coincidências que todos já conhecemos de outras datas.
Um conjunto de pessoas que todos pagamos, e que em média já beneficia de maiores salários, maior proteção e menos horas de trabalho do que a esmagadora maioria dos trabalhadores do privado, decidiu abusar de um direito que nasceu em condições verdadeiramente hediondas.
A greve nasceu num tempo em que o trabalhador era tratado como peça descartável. Em que homens, mulheres e crianças cumpriam jornadas brutais, sem proteção, sem segurança e sem descanso. Nasceu quando os mais fracos não tinham outra arma contra os mais fortes.
Hoje, em Portugal, a caricatura está completa.
Amanhã, os que vão parar não são os esmagados do sistema. São parte do sistema. São pagos pelo dinheiro dos contribuintes. Recebem ao fim do mês com o dinheiro de quem não pode faltar. De quem, se faltar, perde clientes. Perde encomendas. Perde negócio. Perde emprego. Em suma, perde a pouca estabilidade que tenta manter.
O trabalhador do privado vai trabalhar. O pequeno empresário vai abrir a porta. O trabalhador independente vai cumprir prazos. O recibo verde vai facturar se conseguir.
A vida real não faz greve, mas a função pública faz.
E faz em nome dos trabalhadores, como se o trabalhador do privado, mais frágil, mais pobre e mais substituível, não existisse. Como se fosse apenas um NIF destinado a alimentar um Estado cada vez maior, mais caro, mais pesado e menos capaz de devolver aquilo que exige.
Quando se perguntarem a quem interessa a situação actual do país, lembrem-se deste dia.
Quando se perguntarem a quem interessa que os vossos impostos sejam tão altos, lembrem-se deste dia.
Quando se perguntarem a quem interessa um Estado gigantesco, lento, caro, ineficiente e sempre faminto por mais dinheiro, lembrem-se deste dia.
Quando se perguntarem a quem interessa manter Portugal de fronteiras abertas ao terceiro mundo, sem controlo e sem respeito por quem cá trabalha e paga tudo, lembrem-se também deste dia.
Amanhã vão andar por aí. Uns poucos estarão numa rua, com cartazes, megafones e palavras de ordem sem significado.
A maioria estará nos shoppings, nas esplanadas ou nas praias, se o tempo ajudar, enquanto o país que dizem defender fica paralisado para quem precisa que ele ande.
Quando o Estado falir e chegar a hora de reformar este sistema imoral que vos explora, que vos taxa, que vos esmaga e que vos dá cada vez menos em troca, façam um favor a vocês próprios: prestem às queixas deles exactamente a mesma atenção que eles hoje prestam às vossas.
A greve continua a ser um direito. A falta de vergonha, infelizmente, também.
Transformar um direito histórico dos explorados numa arma dos protegidos contra os desprotegidos não é luta social. É descaramento.

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