terça-feira, 9 de junho de 2026

Ainda a R.T.P.

No post anterior, escrevi sobre a brutalidade dos custos e dos impostos que sustentam a RTP, uma empresa que sobrevive não por ter público suficiente, mas porque o Estado obriga os portugueses a pagá-la.
Apareceram algumas pessoas, que naturalmente me merecem todo o respeito, dizendo que ainda assistem à RTP. É normal. A RTP não tem zero espectadores. Tem poucos espectadores.
Segundo dados deste ano, a RTP1 teve em Maio uma média diária de cerca de 235 mil telespectadores. O seu programa mais forte, “O Preço Certo”, consegue em certos dias chegar a 600 mil pessoas.
Ou seja, em média, a RTP tem a popularidade eleitoral do Bloco de Esquerda. No seu melhor momento diário, aproxima-se da dimensão eleitoral do Livre.
É pouca gente? É.
É mais do que ninguém? Também é.
Mas a questão nunca foi saber se ainda há portugueses que veem a RTP. A questão é outra: devemos obrigar milhões de portugueses a pagar quase 200 milhões de euros por ano para sustentar uma televisão que a esmagadora maioria não vê?
Em 2025, a Contribuição para o Audiovisual rendeu à RTP cerca de 195,7 milhões de euros. Essa contribuição vem escondida na conta de luz.
E sim, para quem vive confortável, isso parece pouco. São “apenas” alguns euros por mês. Para quem ganha bem, é dinheiro invisível. Para quem ganha um salário mínimo, ou pouco mais que isso, é mais uma fatia arrancada do orçamento familiar. É menos um prato de carne, menos um prato de peixe, menos um remédio.
A esquerda gosta muito de falar dos pobres em abstrato. Depois obriga os pobres a pagar a RTP.
Mas há uma questão ainda mais grave: a democracia de fachada.
Com o dinheiro que se gasta anualmente na RTP, seria possível pagar cerca de 3.000 médicos por um ano. Não estamos falando de trocos. Estamos falando de uma escolha política muito concreta: televisão pública ou médicos; propaganda estatal ou consultas; entretenimento estatal ou SNS.
E aqui está o problema: os portugueses não podem fazer verdadeiramente essa escolha.
Um candidato pode prometer mudar o logotipo. Pode prometer “modernizar” a RTP. Pode prometer “reformar” o serviço público. Pode prometer “aproximar a RTP dos portugueses”.
Mas nenhum candidato pode chegar aos portugueses e dizer, com consequências simples e diretas: “vou acabar com esse encargo obrigatório, fechar esse modelo e usar o dinheiro para contratar médicos”.
Primeiro porque a Constituição obriga o Estado a assegurar a existência de serviço público de rádio e televisão. Uma obrigação saída de um tempo em que a televisão era central, a internet não existia, não existia YouTube, Netflix, podcasts, redes sociais, smartphones e canais privados.
A Constituição congelou uma necessidade tecnológica do século XX e a transformou em uma obrigação política eterna.
É isto que chamo democracia de fachada.
Não podemos votar para deixar de pagar a RTP, porque isso não é constitucionalmente possível. Não podemos votar para despedir funcionários públicos desnecessários.
É por isso que a RTP é muito mais do que uma televisão. É um símbolo do regime. Um exemplo perfeito de como o Estado português deixou de servir os cidadãos e passou a se servir deles.
A RTP não existe porque os portugueses a escolheram livremente todos os anos. Ela existe porque o sistema decidiu que os portugueses têm que pagar por ela, mesmo que não a vejam, mesmo que tenham outras prioridades, mesmo que precisem de médicos, mesmo que estejam contando moedas no final do mês.
Depois nos dizem que não há dinheiro para o SNS. Haver há. Está é preso na máquina. E a máquina se alimenta primeiro e para o povo ficam as sobras.
É isto que separa uma democracia real de uma democracia decorativa. Numa democracia real, o povo pode mudar políticas. Numa democracia decorativa, o povo só pode mudar as caras
A RTP é apenas um exemplo. Um entre muitos.

Sem comentários: