quinta-feira, 4 de junho de 2026

A dita esquerda...

Os textos que tenho publicado sobre a brutalidade da carga fiscal que recai sobre os trabalhadores que ganham o salário mínimo ou pouco mais têm tido um eco enorme. Não me surpreende. As pessoas sabem o que pagam. Sabem o que sobra ao fim do mês. Sabem que trabalham cada vez mais para viver cada vez pior.
O que me surpreendeu foi outra coisa.
As críticas mais agressivas não vieram da direita. Não vieram dos empresários. Não vieram dos chamados "ricos". Vieram quase sempre de pessoas ligadas à esquerda, aos sindicatos ou à função pública.
Dei por mim a perguntar porquê.
Porque motivo alguém que se apresenta como defensor dos mais desfavorecidos reage com tanta hostilidade quando se fala da tributação dos salários mais baixos? Porque motivo alguém que diz lutar pelos trabalhadores se incomoda quando se fala dos trabalhadores invisíveis, aqueles que não podem fazer greve, não têm sindicatos a defendê-los e muitas vezes nem sequer conseguem fazer valer os direitos que já existem na lei?
Cheguei a uma conclusão desconfortável. A esquerda contemporânea não vive da pobreza. Vive da exploração da pobreza.
Não quer resolver os problemas dos mais desfavorecidos. Quer manter o poder político e cultural que resulta de falar em nome deles. Aquela aparência de serem "do bem".
Quando alguém diz que um trabalhador com salário mínimo suporta uma carga fiscal absurda, isso não é visto por eles como uma denúncia de uma injustiça. É visto como uma ameaça. Porque coloca em causa uma narrativa central: a de que mais Estado significa sempre mais justiça social.
Por isso não há debate. Não discutem a tributação dos salários mais baixos, não discutem o peso dos impostos indirectos nem os das contribuições.
Não discutem os trabalhadores sem representação efectiva, não discutem os milhares de portugueses que trabalham todos os dias e continuam pobres.
Discutem sim, a pessoa que levantou o assunto. É o privilégio. É o advogado. É a origem. É qualquer coisa, desde que não seja o tema do texto.
Custa-lhes admitir que este Estado explora fiscalmente os pobres e admitir que isso é uma perversão do estado social. Talvez porque reconhecer isso obrigasse a questionar interesses instalados há décadas. Talvez porque reconhecer isso obrigasse o Estado a emagrecer e deixasse esta malta com salários mais baixos e menos postos de trabalho.
Quanto a mim, continuarei a falar dos esquecidos deste regime. Dos que trabalham, dos que pagam, dos que sustentam o Estado com a riqueza que criam. Se isso é esquerda ou direita? Foi a direita que me adoptou, e é a esquerda que me persegue. Tirem as vossas conclusões.
Falar dos pobres que trabalham tornou-se uma das coisas mais subversivas que se podem fazer em Portugal. Se assim é, continuarei a subverter.
Publico esta imagem com este texto porque neste momento, apesar de não serem as pessoas da CGTP a queimar os caixotes do lixo, são elas que queimam os pobres e é assim que me parece que olham para eles. Os restos que metem num contentor ao qual podem simplesmente pegar fogo. Parece-me adequado!
Pode ser uma imagem de o Portão de Brandemburgo e texto

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