quarta-feira, 3 de junho de 2026

A greve.

Pode ser uma imagem de texto que diz "Escola encerrada por motivo de greve"
Hoje dirijo-me à ajudante de cozinha que vai entrar às 10h e que vai sair às 23h, cansada, com dores nas pernas e com a cabeça cheia de contas.
Dirijo-me ao empregado de mesa que trabalha seis dias por semana, sempre de pé, sempre a sorrir, sempre a ouvir reclamações de quem nunca se perguntou como é viver com o salário mínimo e horários partidos.
Dirijo-me à empregada de limpeza que anda de casa em casa, de escritório em escritório, de escada em escada, muitas vezes doze horas por dia, invisível para quase todos, essencial para todos.
Dirijo-me ao motorista da Uber que passou a noite a conduzir, que já vai na décima hora de trabalho, que comeu qualquer coisa à pressa e que ainda tem de fazer mais umas viagens para compensar combustível, e o desgaste do carro.
Dirijo-me ao rapaz da construção civil que só trabalha quando é chamado, que só recebe se houver trabalho, que não tem garantias, não tem estabilidade e não tem um sindicato a parar o país por ele.
Dirijo-me ao recibo verde que pode ser despedido na hora, se balbuciar a palavra greve, a quem nem o salário mínimo se aplica.
Em suma, dirijo-me ao país onde o código do trabalho é uma palavra estranha, repetida por pessoas que vivem numa bolha, protegidas da vossa realidade e que não fazem a menor ideia de como se vive em Portugal.
Hoje é o vosso dia, embora ninguém vá dizer isso. Hoje é o dia em que vão ouvir muitas palavras bonitas sobre luta contra a exploração, precisamente ao mesmo tempo que ficam sem transportes para ir trabalhar, sem escola onde deixar os filhos, sem serviços a funcionar e sem qualquer preocupação por parte de quem vos está a complicar a vida.
Hoje é o dia em que vão ouvir pessoas que não querem saber de vocês dizerem que lutam por vocês.
Dizem que lutam pelos trabalhadores enquanto prejudicam os trabalhadores que não podem parar. Dizem que defendem os pobres enquanto bloqueiam a vida dos pobres.
Hoje, muitos de vocês vão sentir-se ainda mais invisíveis do que o habitual. Vítimas de partidos que falam em povo, mas só conhecem o povo quando precisam de votos. Vítimas de sindicatos que falam em trabalhadores, mas que na verdade só se preocupam com o futuro dos seus dirigentes. Vítimas de um Estado que vos cobra tudo e nada vos dá, para pagar os salários de quem nunca pode ser despedido, mesmo que nada faça e esteja a mais. Somos nós que os subsidiamos. São vocês.
Infelizmente, não vos posso prometer grande coisa. Não vos vou mentir como mentem os que vivem de palavras de ordem. Não conseguirei, sozinho, mudar o sistema que vos explora, vos taxa, vos ignora e depois ainda vos usa como decoração nos discursos.
Posso, quando me procuram, tentar fazer valer os vossos poucos direitos. Mas também sei que não é fácil. Vocês têm medo de perder o emprego. E têm motivo para ter medo. O país real é implacável.
Vocês aguentam porque não têm rede, têm filhos, não têm poupanças, e não têm família que vos segure a queda. Provavelmente nem subsídio de desemprego, porque não foram inscritos na segurança social.
Mas há uma coisa que posso fazer.
Posso dizer-vos que, sempre que escrevo para derrubar este sistema imoral, é em vocês que penso.
É nos vossos filhos. É nos meus filhos.
É nas pessoas que trabalham, pagam, cumprem, aguentam e continuam esquecidas por um país que foi construído para proteger quem não precisa de protecção.
Parece que ninguém vos vê. Mas alguns de nós vemos. Parece que ninguém vos ouve. Mas alguns de nós ouvimos.
Um bem-haja a todos os que hoje vão trabalhar apesar de tudo.
E um bem-haja aos trabalhadores invisíveis que mantêm Portugal de pé.

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