domingo, 21 de junho de 2026

Na manhã de 12 de junho de 2026, os sistemas informáticos do Serviço Nacional de Saúde colapsaram durante onze horas.

Pode ser uma imagem de texto que diz "WHISTLEBLOWER.PI WHISTLEBLOWER.PT PORTUGAL E AS FALHAS DE INTERNET jo o QUE SE PASSA REALMENTE"
Na manhã de 12 de junho de 2026, os sistemas informáticos do Serviço Nacional de Saúde colapsaram durante onze horas.
Médicos em todo o país ficaram sem acesso aos processos clínicos dos doentes.
As farmácias não conseguiam aviar receitas. Hospitais em Loures, Almada e o IPO do Porto ficaram às escuras digitalmente.
A causa, segundo a tutela: "uma falha de energia". A verdade por trás desta explicação de quatro palavras é um escândalo com trinta anos de história, dezenas de responsáveis políticos e um padrão sistemático que só beneficia as operadoras, enquanto os portugueses pagam e ficam sem serviço.
Portugal tem uma das melhores coberturas de fibra ótica da Europa.
Apenas 25% dos utilizadores sente que recebe o que paga.
Ninguém é punido ou responsabilizado por isso.
O DIA EM QUE O SNS COLAPSOU
12 de Junho de 2026: Onze Horas de Silêncio Digital
Às 08h50 da manhã de uma sexta-feira normal, os médicos de centros de saúde e hospitais em todo o Portugal continental abriram os sistemas informáticos e encontraram o vazio.
O sistema de Prescrição Eletrónica Médica estava em baixo.
Os processos clínicos dos doentes eram inacessíveis.
A requisição de exames era impossível.
As consultas continuaram — com papel e caneta, como nos anos 80.
Nas farmácias, a situação era igualmente caótica.
Os terminais não comunicavam com os servidores do SNS.
Não era possível validar comparticipações.
Quem precisava de medicação estava dependente de receitas manuais — quando os médicos tinham blocos de papel disponíveis, o que nem sempre acontecia.
Os SPMS — Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, a entidade responsável pela infraestrutura tecnológica do SNS — emitiram um comunicado a dizer que estava a ocorrer "uma falha de energia que causou perturbações no acesso a alguns serviços e sistemas de informação".
Não especificaram que sistemas.
Não especificaram onde.
Não deram hora prevista de resolução.
Oito horas depois do início do colapso, grande parte das unidades de saúde continuava sem acesso.
O Sindicato Independente dos Médicos avisou que havia locais no Alentejo e na Grande Lisboa onde os sistemas ainda não funcionavam no final do dia. Os SPMS contradisseram: "Não identificámos qualquer situação."
Rui Martins, fundador da associação Cidadãos pela Cibersegurança, colocou a questão com clareza cirúrgica: "Se o problema ocorreu num datacenter profissional, que devia ter geradores, baterias e sistemas UPS (de alimentação ininterrupta) como é possível que uma falha de energia tenha deitado abaixo tantos sistemas?
Quer dizer que o sistema não é redundante."
A resposta dos SPMS confirmou, inadvertidamente, o problema: após o colapso, admitiu-se que está a ser criado "um segundo polo central". Ou seja: até 12 de junho de 2026, toda a infraestrutura digital do Serviço Nacional de Saúde de Portugal — processos clínicos, receitas, exames, sistemas de hospitais — dependia de um único centro de dados, sem redundância operacional verificável.
Toda a infraestrutura digital do SNS estava num único centro de dados.
Sem backup.
Sem redundância.
Foi assim durante anos.
Ninguém achou que fosse um problema até o sistema colapsar.
Este não é um problema técnico isolado.
É a expressão mais recente de um padrão que se repete há décadas em Portugal: infraestruturas críticas construídas sem resiliência, governadas sem responsabilização, e protegidas por comunicações oficiais que explicam sem esclarecer.
O PAÍS SEM LUZ, SEM REDE, SEM COMUNICAÇÕES
28 de Abril de 2025: O Apagão que Expôs Tudo
Um ano antes do colapso do SNS, às 10h34 do dia 28 de abril de 2025, a rede elétrica ibérica falhou de forma catastrófica. Portugal e Espanha entraram no maior apagão energético das suas histórias recentes. Em minutos, o tráfego de internet em Portugal caiu 50%. Em cinco horas, estava 90% abaixo do normal. As redes da MEO, NOS, Vodafone e NOWO evaporaram-se à medida que as baterias de backup das antenas foram cedendo.
A presidente da ANACOM — a reguladora das comunicações — admitiu publicamente o que qualquer técnico já sabia: os sistemas de backup das operadoras "não estavam preparados para o apagão".
As empresas tinham assinado contratos com promessas de autonomia de 72 horas.
Na prática, as baterias não aguentaram oito horas.
Mas o verdadeiro escândalo não estava nas torres das operadoras privadas.
Estava na rede do próprio Estado.
O SIRESP: A Rede de Emergência que Falha em Todas as Emergências
O SIRESP é a rede nacional de comunicações de emergência — o sistema pelo qual bombeiros, polícia, proteção civil e serviços médicos comunicam em catástrofes.
Custou centenas de milhões de euros ao erário público.
Foi construído para ser a espinha dorsal das comunicações do Estado quando tudo o resto falha.
No apagão de abril de 2025, mais de 75% das antenas do SIRESP falharam.
As baterias tinham autonomia nominal de seis horas em condições ideais.
O apagão durou mais de oito.
O sistema de contingência via satélite — operado pela NOS, com um investimento de 800 mil euros anuais de dinheiro público, falhou entre as 15h58 e as 23h00.
A falha simultânea dos dois sistemas criou um blackout duplo nas comunicações de emergência do Estado.
O mais perturbador é que isto não foi uma surpresa.
O SIRESP já tinha falhado sistematicamente:
· 2017, Pedrógão Grande: colapso das fibras óticas durante os incêndios mortais.
· 2018, Monchique e tempestade Leslie: rede "globalmente inoperacional", segundo relatório oficial.
· 2025, apagão ibérico: colapso simultâneo da transmissão terrestre e do sistema de satélite.
· 2026, tempestade Kristin: nova falha generalizada nas zonas mais afetadas.
O único evento de elevada exigência operacional em que o SIRESP funcionou foi a Jornada Mundial da Juventude.
A TVI/CNN Portugal acedeu à versão integral do relatório do grupo de trabalho criado para analisar as falhas do SIRESP, e comparou-a com a versão tornada pública pelo governo.
A diferença é reveladora: a versão divulgada omite referências a responsabilidades concretas, suaviza a gravidade das falhas e elimina críticas ao modelo contratual.
Numa mensagem de 24 de abril de 2026, a adjunta do ministro da Administração Interna, Valentina Marcelino, pediu que partes críticas do relatório fossem remetidas para anexo e "omitidas por razões de segurança".
O secretário-geral adjunto António Pombeiro recusou, afirmando não estar "disponível para ser tratado como um estagiário de redação".
O relatório que chegou ao público é diferente do que os técnicos escreveram.
Alguém no governo decidiu que os portugueses não deviam saber tudo.
Ficámos a saber pela imprensa.
Para além das falhas técnicas, o SIRESP é também palco de um escândalo de contratação pública.
A empresa SIRESP contratou diretamente, sem seguir o Código dos Contratos Públicos, uma empresa de consultoria chamada Euritex, gerida por alguém descrito nos documentos como "alegadamente compadre" do então presidente da SIRESP, major-general Viegas Nunes.
O trabalho terá começado seis meses antes de o contrato ser sequer assinado. O valor total das irregularidades detectadas: cerca de 94 mil euros de dinheiro público.
A 28 de janeiro de 2026, a tempestade Kristin atingiu Portugal com rajadas de até 238 km/h. Causou entre 14 a 15 mortes, mais de 2.177 feridos e danos estimados em mais de seis mil milhões de euros — a catástrofe natural mais cara da história de Portugal, equivalente a mais de 1,6% do PIB nacional.
A tempestade destruiu 61 postes de altíssima tensão da REN — 7% de toda a rede nacional de transmissão — e mais de 750 postes de alta e média tensão da E-Redes.
Mais de 850 mil clientes ficaram sem eletricidade. E onde não há eletricidade, não há internet: o tráfego colapsou até 70% em Leiria e 52% em Coimbra.
A "solução" encontrada para repor a fibra danificada foi tão reveladora quanto perturbante: sem postes disponíveis para repor rapidamente, os cabos de fibra ótica foram pousados diretamente no chão.
Em plena via pública.
Expostos a qualquer intervenção acidental ou deliberada.
Em março de 2026, a MEO reportava 95,9% de disponibilidade nas zonas afetadas — com data de recuperação total prevista para 30 de abril, três meses após a catástrofe. Em muitas zonas, não foi cumprida.
VOCÊ PAGA E NÃO RECEBE: O ESCÂNDALO DA VELOCIDADE
Portugal na Vanguarda no Papel, na Cauda na Experiência Real
Os números oficiais são invejáveis.
No terceiro trimestre de 2025, 93,4% dos acessos de banda larga em Portugal eram de alta velocidade (acima de 100 Mbps).
Portugal era o quarto país da União Europeia com maior proporção de ligações acima de 100 Mbps.
Há municípios com cobertura de fibra a 10 Gbps.
O país é frequentemente apresentado como um caso de sucesso europeu na modernização das telecomunicações.
E depois existe a realidade que os portugueses vivem todos os dias nas suas casas e escritórios.
Um estudo nacional realizado pela Netsonda para a DE-CIX em maio de 2026, envolvendo 600 utilizadores com fibra ótica até casa, revelou o que qualquer português já suspeitava: apenas 25% considera que a qualidade real da sua ligação corresponde ao que paga mensalmente.
Cerca de 22% dos utilizadores reporta interrupções semanais.
7% reporta falhas diárias.
No segmento de clientes com os planos mais caros — acima de 500 Mbps —, a frequência de falhas é apenas um ponto percentual menor do que a média geral. Ou seja: pagar mais não resolve o problema.
Nos sete dias anteriores ao inquérito: 51% dos utilizadores teve páginas que demoravam demasiado a carregar.
46% registou microcortes.
36% teve dificuldades em streaming de vídeo.
33% enfrentou congelamento de imagem durante videochamadas — o que significa reuniões de trabalho interrompidas, consultas médicas online comprometidas, aulas a falhar.
As operadoras vendem gigabits.
A publicidade mostra números enormes.
Mas o que os utilizadores precisam não é de velocidade máxima, é de estabilidade.
São coisas fundamentalmente diferentes, e a distinção é deliberadamente obscurecida pelo marketing.
53% dos utilizadores do estudo diz que o que mais quer é uma ligação mais estável.
51% quer melhor desempenho com múltiplos dispositivos em simultâneo.
A velocidade de download surge apenas em terceiro lugar, com 42%.
As operadoras investem em campanhas sobre velocidade máxima porque é uma métrica que podem controlar e exibir.
A estabilidade é mais difícil de vender — e mais cara de garantir.
Há ainda um problema de arquitetura de rede que raramente é explicado ao consumidor: mesmo com fibra ótica em casa, o tráfego de dados de um utilizador em Lisboa para um servidor também em Lisboa pode viajar por Frankfurt ou Amsterdão antes de regressar, porque as operadoras não mantêm acordos de interligação direta (peering) suficientes a nível local.
O resultado é latência adicional e instabilidade que nenhum upgrade de pacote resolve.
Pagar o dobro não dá o dobro da qualidade.
Dá o mesmo serviço instável com um número maior na fatura.
COMO CHEGÁMOS AQUI: TRINTA ANOS DE DECISÕES POLÍTICAS
1995–2011: A Privatização por Etapas da Jóia da República
Para perceber o estado atual das telecomunicações em Portugal é preciso recuar a 1994, quando os governos decidiram criar um "campeão nacional" — a Portugal Telecom — que juntou a TLP, a TDP, a Telecom Portugal e a Marconi numa única empresa pública.
Um ano depois, em junho de 1995, ainda sob o governo de Cavaco Silva (PSD), começou a privatização.
A primeira fase entregou 27,26% ao mercado privado. Em 1996, 1997, 1999 e 2000 — todos sob governos socialistas de António Guterres — seguiram-se mais quatro fases.
Em dezembro de 2000, o Estado ficou apenas com uma "golden share" de 500 ações — uma participação simbólica que lhe conferia poder de veto em decisões estratégicas.
Em julho de 2011, na sequência do memorando da troika assinado pelo governo de José Sócrates (PS) e executado pelo governo de Passos Coelho (PSD/CDS), o Estado desfez-se dessa última proteção. O ministro das Finanças Vítor Gaspar vendeu a golden share da Portugal Telecom, cumprindo uma exigência que consta explicitamente no memorando de entendimento.
Nesse mesmo ano, a Caixa Geral de Depósitos vendeu a participação de 6% que detinha.
Note-se: nesse dia, em 2011, havia ainda nove países da UE que mantinham golden shares em empresas de telecomunicações estratégicas.
A Alemanha mantinha 20% da Volkswagen apesar de condenações europeias.
O Reino Unido mantinha participações na Rolls Royce e na BAE Systems.
Portugal foi o único a abdicar voluntariamente e completamente de qualquer capacidade de veto sobre a sua principal infraestrutura de comunicações.
Sem proteção estatal, a Portugal Telecom ficou vulnerável aos seus acionistas e à sua própria gestão.
O que se seguiu é uma das maiores histórias de destruição de valor empresarial da história portuguesa.
A empresa investiu 897 milhões de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo, um investimento desastroso que a deixou com perdas catastróficas quando o BES entrou em resolução em 2014. Fundiu-se com a operadora brasileira Oi, que estava em dificuldades. Entregou à Oi os seus ativos em Portugal, em África e na Ásia.
Distribuiu 11,5 mil milhões de euros em dividendos aos acionistas entre 2000 e 2014 — enquanto não investia na modernização da rede.
Em janeiro de 2015, a PT Portugal foi vendida à Altice por 7,4 mil milhões de euros.
O grupo franco-israelita fundado por Patrick Drahi — e com influência determinante do empresário português Armando Pereira — tornou-se o dono da principal infraestrutura de telecomunicações do país. Vinte anos depois da privatização, a empresa que o Estado tinha no seu balanço estava nas mãos de um fundo privado estrangeiro.
Em julho de 2023, uma megaoperação policial com cerca de 90 buscas domiciliárias e não domiciliárias — incluindo à sede da Altice Portugal, na zona de Picoas em Lisboa — revelou o que o Ministério Público suspeita ser um esquema fraudulento de dimensão colossal.
Armando Pereira, cofundador da Altice e figura central na expansão do grupo em Portugal, foi detido para interrogatório. Está indiciado por 11 crimes: seis de corrupção ativa no setor privado, um de corrupção passiva, e quatro de branqueamento de capitais. O seu parceiro de negócios Hernâni Vaz Antunes, o alegado "braço direito", está indiciado por mais de 20 crimes, incluindo fraude fiscal qualificada.
No total, o Ministério Público suspeita que o esquema terá lesado o Estado em mais de 100 milhões de euros em fraude fiscal e desviado da própria Altice cerca de 250 milhões de euros.
Em março de 2026, autoridades portuguesas e francesas realizaram novas buscas domiciliárias a Armando Pereira, em Guilhofrei (Vieira do Minho), e ao empresário Hernâni Vaz Antunes, no âmbito de diligências conjuntas com o Ministério Público francês — investigação que se alargou a partir dos negócios Altice em França.
O processo continua em investigação.
A França também abriu a sua própria investigação, envolvendo o universo Altice na SFR e no canal BFM. Patrick Drahi disse sentir-se "enganado".
A Altice afirma ter sido vítima.
Os investigadores continuam a trabalhar.
O que está provado independentemente do desfecho judicial é que a empresa que controla a principal infraestrutura de telecomunicações de Portugal estava, durante anos, a ser gerida com práticas que levaram a dezenas de buscas policiais, à detenção dos seus principais responsáveis e a investigações em múltiplos países.
A empresa que gere a rede de internet e telecomunicações de milhões de portugueses tem o seu cofundador indiciado por 11 crimes.
Isso não impediu ninguém de continuar a pagar a fatura mensal.
A Venda das Torres:
Quando as Infraestruturas se Tornaram Negócio de Antigos Ministros
Enquanto decorria a transformação da PT em Altice, as grandes operadoras portuguesas protagonizaram um processo que poucos acompanharam mas que transformou radicalmente a natureza da infraestrutura nacional de telecomunicações — e que tem uma dimensão política que raramente é dita com todas as letras.
Em junho de 2018, a Altice anunciou a venda de 75% das suas 3.000 torres de telecomunicações em Portugal por 660 milhões de euros.
O comprador era um consórcio formado pelo Morgan Stanley Infrastructure Partners e pela Horizon Equity Partners — um fundo de investimento criado em 2017 por dois ex-governantes do governo de Passos Coelho: António Pires de Lima, ministro da Economia entre 2013 e 2015, e Sérgio Monteiro, secretário de Estado das Infraestruturas e Telecomunicações entre 2011 e 2015.
Ambos tinham a tutela direta do setor das telecomunicações precisamente quando a Altice comprou a Portugal Telecom ao grupo Oi, em 2015.
Dois a três anos depois de saírem do governo, criaram um fundo de investimento e compraram as torres que tinham — enquanto governantes — deixado disponíveis para venda. Em 2020, o mesmo consórcio revendeu a totalidade das torres à espanhola Cellnex por 800 milhões de euros.
Mais 140 milhões em dois anos sobre um ativo de infraestrutura nacional.
Os ex-ministros que tutelaram as telecomunicações quando a PT foi vendida à Altice voltaram dois anos depois — desta vez como investidores — para comprar as torres da mesma Altice por 660 milhões. Revenderam-nas por 800 milhões.
Tudo legal.
Tudo transparente.
E por isso mesmo tão revelador.
A NOS vendeu as suas aproximadamente 2.000 torres — através da NOS Towering — à mesma Cellnex por até 550 milhões. No total, a Cellnex passou a controlar cerca de 5.800 antenas em Portugal — metade da infraestrutura móvel do país — nas mãos de uma única empresa espanhola de capital financeiro.
O que significa isto na prática?
As operadoras portuguesas deixaram de ser proprietárias das torres onde correm as suas próprias redes.
Tornaram-se inquilinas, pagando rendas por cada site a uma empresa estrangeira.
Quando uma tempestade destrói antenas ou um apagão esgota as baterias de backup, as responsabilidades de manutenção estão distribuídas entre operadoras e um proprietário terceiro, com contratos e SLAs negociados, com os seus próprios incentivos financeiros.
A Autoridade da Concorrência portuguesa aprovou todas as transações sem impor condições de resiliência nacional.
Há um detalhe que fecha o círculo de forma particularmente reveladora: a Cellnex não se limitou a comprar as torres comerciais da MEO e da NOS.
A empresa espanhola assinou também um contrato com a SIRESP, SA para a manutenção das infraestruturas básicas de suporte da rede de comunicações de emergência do Estado — a mesma rede que colapsou em mais de 75% das suas antenas durante o apagão de abril de 2025.
Ou seja: a mesma empresa que adquiriu metade da infraestrutura móvel comercial do país, através de um negócio que passou pelas mãos de antigos governantes, tornou-se também responsável pela manutenção física das torres de emergência do Estado.
Quando o sistema falhou, a cadeia de responsabilidade entre o Estado, a SIRESP, SA e a Cellnex é exatamente o tipo de diluição de responsabilidades que torna difícil apurar, com rigor, quem falhou e porquê.
Após as tempestades do início de 2026, o CEO da Cellnex, Marco Patuano, admitiu publicamente que o apagão de 2025 "demonstrou a necessidade de novos investimentos" em baterias que aumentem a autonomia das torres, anunciando um "programa preventivo" de reforço de resiliência sem revelar valores ou prazos concretos para Portugal.
A REGULAÇÃO QUE NÃO REGULA
A ANACOM: Poder Nominal, Dentes de Plástico
A Autoridade Nacional de Comunicações tem sede em Lisboa, emprega dezenas de técnicos e engenheiros competentes, publica relatórios detalhados, faz conferências de imprensa e emite recomendações.
O que não faz, de forma consistente, é obrigar.
Em 2024, a ANACOM aplicou 6,5 milhões de euros em coimas a operadoras.
No mesmo ano, a MEO faturou 2,81 mil milhões de euros, com um EBITDA de 947 milhões.
A coima mais pesada à MEO — 1,4 milhões de euros — representa 0,15% das receitas anuais da empresa.
A coima de 858 mil euros à NOS é igualmente simbólica face à dimensão do grupo.
As operadoras fazem o cálculo racional: incumprir pode ser mais barato do que cumprir.
Após o apagão de abril de 2025, que derrubou as comunicações de um país inteiro porque as baterias das antenas não aguentaram oito horas, um grupo de trabalho parlamentar criado para analisar o incidente recomendou formalmente, em abril de 2026, que o Governo estabelecesse por via legislativa ou regulatória uma autonomia energética mínima de 72 horas para infraestruturas críticas, incluindo telecomunicações, juntamente com a revisão dos limites de armazenamento de combustível, o reforço da rede elétrica e a classificação do retalho alimentar e das farmácias como infraestruturas críticas.
Mais de um ano depois do apagão, esta recomendação não se converteu em lei.
Um relatório da Ookla, divulgado no aniversário do apagão, conclui precisamente isto: as próprias operadoras já avançam mais depressa no reforço da resiliência das suas redes do que o Estado português na criação de obrigações legais.
Espanha, onde ocorreu exatamente o mesmo apagão, avançou para um decreto-lei com requisitos de 24 horas para infraestruturas críticas e 12 horas para os níveis intermédios. Portugal continua com recomendações parlamentares por implementar.
A ANACOM é tutelada pelo Ministério das Infraestruturas e Habitação — o mesmo que define a política de telecomunicações do país, que gere os leilões de espectro, e que tem interesse político em manter as operadoras investindo e operando.
É o regulador a reportar ao regulado.
Em maio de 2026, o ministro Miguel Pinto Luz pressionou publicamente a ANACOM a acelerar a renovação das licenças de espectro das operadoras — que vencem em 2027 — para dar "previsibilidade aos investidores".
No mesmo discurso no congresso da APDC, pediu às operadoras que "deixem de apontar o dedo ao Governo" pela demora na reposição das redes após as tempestades de 2026. E acrescentou: "É tempo de acarinharmos os empresários e remunerarmos bem o seu risco."
É esta a filosofia regulatória que governa o setor: o regulador pressiona para proteger os interesses das empresas, e quando as empresas falham os consumidores, o ministro pede que ninguém aponte o dedo.
"É tempo de acarinharmos os empresários" — disse o ministro das Infraestruturas, em maio de 2026, numa conferência do setor das telecomunicações.
Meses depois do apagão.
Meses depois das tempestades.
Semanas antes do colapso do SNS.
A ANACOM reconhece por escrito, nos seus relatórios, que o mercado das telecomunicações em Portugal tem uma "estrutura oligopolista" que "sugere a possibilidade de os operadores terem incentivos para um comportamento coordenado, em detrimento de um comportamento concorrencial".
Esta frase existe num documento regulatório oficial. E não produziu nenhuma mudança estrutural.
Com três operadores a dominar o mercado, MEO, NOS e Vodafone, e a partilharem infraestrutura física entre si (NOS e Vodafone partilham sites 5G desde 2020), o incentivo para competir em qualidade de serviço é estruturalmente baixo.
A concorrência faz-se no preço dos pacotes e no conteúdo televisivo incluído, não na resiliência da rede.
A entrada da operadora romena DIGI veio introduzir alguma pressão de preços — o EBITDA da MEO recuou 4,8% em 2025 precisamente por isso.
Mas a DIGI tem cobertura geograficamente limitada e não chega ao país profundo, que continua refém do oligopólio estabelecido.
A DIMENSÃO GEOPOLÍTICA QUE NINGUÉM DISCUTE
Portugal na Encruzilhada dos Cabos Submarinos
Existe uma dimensão desta história que raramente chega ao debate público português, mas que é discutida nos corredores da NATO, da União Europeia e dos serviços de informação de vários países: Portugal ocupa uma posição geoestratégica central nas telecomunicações globais.
Vários cabos submarinos — que transportam 99% de todo o tráfego digital intercontinental — aterram em território português, incluindo nos Açores.
Estes cabos ligam a Europa às Américas e a África. São a espinha dorsal física da internet global que atravessa o Atlântico.
Quem controla, perturba ou monitoriza estes cabos tem acesso potencial a uma fração enorme das comunicações mundiais.
A vulnerabilidade desta infraestrutura tem-se tornado cada vez mais evidente.
Incidentes no Mar Vermelho e atividade suspeita no Mar Báltico demonstraram como é relativamente simples perturbar a conectividade internacional seja por sabotagem deliberada, seja por âncoras de navios estrategicamente arrastadas.
A NATO tem alertas formais sobre ameaças a cabos submarinos europeus.
O SIS Avisou.
Ninguém Agiu Suficientemente.
Em 2024, o Serviço de Informações e Segurança emitiu um alerta formal: Portugal está a ser alvo de ataques de atores estatais estrangeiros com o objetivo de comprometer infraestruturas críticas nos setores da defesa, energia e telecomunicações.
Os ciberataques em Portugal aumentaram mais de 716% desde 2019.
Portugal não tem legislação específica adequada para proteger os cabos submarinos que atravessam as suas águas territoriais.
As sanções legais em vigor ainda fazem referência a multas expressas em escudos — a moeda que Portugal abandonou há mais de duas décadas.
A Comissão Europeia alocou 347 milhões de euros para reforçar a segurança dos cabos submarinos europeus.
Portugal está na lista de beneficiários.
As medidas legislativas nacionais complementares não acompanharam o ritmo.
OS RESPONSÁVEIS, NOMEADOS
Uma Cadeia de Responsabilidades que Nenhum Partido Quer Assumir
PS — PARTIDO SOCIALISTA
Os governos de António Guterres (1995–2002) conduziram quatro das cinco fases de privatização da Portugal Telecom. O governo de José Sócrates incluiu no memorando da troika (2011) a exigência de eliminar a golden share do Estado na PT, retirando ao país qualquer capacidade de influência sobre a sua principal infraestrutura de telecomunicações. Os governos de António Costa (2015–2024) não reverteram nenhuma das condições estruturais que criaram o oligopólio atual, não reforçaram substantivamente os poderes sancionatórios da ANACOM, e não criaram legislação de proteção adequada para as infraestruturas críticas de telecomunicações.
PSD/CDS
O governo de Cavaco Silva iniciou a privatização da PT em 1995. O governo de Passos Coelho executou a eliminação da golden share em julho de 2011, supervisionou a venda da participação da CGD na PT, e teve na sua equipa os ministros António Pires de Lima (Economia) e Sérgio Monteiro (Infraestruturas e Telecomunicações) — os mesmos que, após saírem do governo, criaram um fundo de investimento e compraram as torres da Altice por 660 milhões de euros, revendendo-as dois anos depois por 800 milhões. O atual governo de Luís Montenegro, com Miguel Pinto Luz como ministro das Infraestruturas, tem a tutela do setor desde março de 2024. Sob este governo, ocorreram o apagão de abril de 2025, as tempestades de janeiro de 2026 e o colapso do SNS de junho de 2026. A resposta regulatória ficou consistentemente aquém da espanhola em termos de autonomia energética obrigatória. O ministro pediu publicamente que as operadoras não culpem o governo pelas falhas de rede.
ANACOM — REGULADOR
A presidente Sandra Maximiano tem dirigido a ANACOM durante um período de falhas sistémicas sem precedentes.
O regulador identificou os problemas, publicou relatórios, emitiu recomendações — e não converteu nenhuma delas em obrigações legais suficientemente dissuasoras no prazo adequado. O poder de regular existe.
A vontade de exercê-lo com consequências reais para as operadoras tem sido escassa.
MEO/ALTICE
A empresa que controla a maior quota de infraestrutura de telecomunicações fixas de Portugal acumulou nove mil milhões e meio de dívida, vendeu as suas torres a um operador financeiro espanhol, tem o seu cofundador indiciado por 11 crimes, foi investigada pela PJ com 90 buscas, e tem as maiores quotas de reclamações do setor. Continuou a receber o dinheiro das faturas mensais de milhões de famílias portuguesas sem interrupção.
NOS E VODAFONE
Os restantes dois vértices do oligopólio partilharam com a MEO o processo de desinvestimento em infraestrutura física — vendendo torres à Cellnex — e partilham com ela a lógica de mercado coordenado que a ANACOM identificou mas não quebrou. Ambas falharam na manutenção de autonomia energética adequada nas suas redes durante o apagão de 2025.
CONCLUSÃO — O CONTRATO ROTO
Quando assina um contrato com uma operadora de telecomunicações em Portugal, está a pagar por um serviço essencial — tão essencial quanto a água, a eletricidade ou o gás.
A internet já não é um luxo.
É o canal pelo qual acede à saúde, ao trabalho, à educação, aos serviços do Estado, ao banco, à comunicação com a família.
O que esta investigação documenta é que esse contrato está sistematicamente roto.
As operadoras cobram por velocidades que não entregam de forma estável.
O Estado construiu uma infraestrutura digital de saúde sobre um único centro de dados sem redundância.
A rede de emergência do Estado — o SIRESP — falhou em todos os momentos em que foi genuinamente precisada.
As baterias das antenas não aguentaram um apagão.
Os relatórios que documentam as falhas são suavizados antes de serem publicados.
E o regulador pede às operadoras que não se preocupem com as críticas do governo.
Enquanto isso, as operadoras distribuem dividendos.
Os gestores recebem bónus.
Os políticos circulam entre o governo e os conselhos de administração das empresas reguladas.
E as famílias portuguesas pagam — todos os meses, por débito direto, pontualmente — por um serviço que nem nos piores momentos está garantido.
A questão não é técnica.
É política.
É uma questão de a quem serve o Estado português quando toma decisões sobre infraestruturas críticas: aos cidadãos que as usam, ou às empresas que as exploram.
A resposta, ao longo de trinta anos de decisões documentadas, parece ser sempre a mesma.
O português paga.
Não recebe.
E ninguém é punido.
Esse é o modelo de telecomunicações de Portugal — construído ao longo de trinta anos, por todos os partidos que governaram, para benefício de todos os operadores que investiram.
FONTES E METODOLOGIA
Este artigo cruza dados da ANACOM, SPMS, SIC, TVI/CNN Portugal, Público, Jornal de Negócios, ECO, Observador, Expresso, Rádio Renascença, CloudFlare Radar e DE-CIX. Inclui documentos parlamentares, relatórios regulatórios, notícias publicadas entre 2014 e junho de 2026, e declarações públicas de responsáveis políticos, reguladores e operadores.
As conclusões são da página WHISTLEBLOWER.PT com base nos factos apurados.
© WHISTLEBLOWER.PT — Junho de 2026

Eu diria que Portugal não tem falta de leis contra a corrupção.

Pode ser uma imagem de texto que diz "o MELHOR DA VIDA SÃO os AMIGOS E AS EMPRESAS DOS FILHOS. OSFILHOS EMPRES CONSTRÓI CONSTRÓIMAIS,LDA. MAIS, LDA. PUBL FUTUROCERTO,LDA FUTUROCERTO, LDA. TORIA TÉGICA INOVATUDO,LDA. INOVA TUDO, LDA. PLANOS AFINS AFINS,LDA PLANOS&AFINS,LDA. LDA GLOBAL GLOBALSOLUTIONS,LDA. SOLUTIONS,L CONTRATOS PÚBLICOS AOSERVIC"

Em Portugal, toda a gente sabe o que é corrupção. Toda a gente conhece os nomes, os esquemas, os contratos adjudicados as empresas que nasceram três semanas antes do concurso. Toda a gente sabe. Sendo assim, porque é que ninguém é condenado?

O problema começa no desenho do crime. Para que um político seja condenado por corrupção, é preciso provar a troca directa: este dinheiro, por este acto concreto, com esta intenção. Sem isso, não há crime. Há coincidência.
Mas até a corrupção evoluiu. Já ninguém é assim tão grosseiro.
Há a corrupção imaterial. O político não recebe nada directamente: não há dinheiro, não há viagem, não há envelope. O que há é um emprego para o filho numa empresa que depende de contratos públicos. Uma cadeira num conselho de administração para a mulher. Um lugar num projecto europeu para o cunhado. Tecnicamente, o político não recebeu nada. Recebeu o familiar. A lei prevê que a vantagem pode ir para terceiros, mas provar que o emprego do filho foi a contrapartida de uma decisão política específica é uma tarefa que quase nunca produz condenações. Todos vemos os filhos dos políticos em cargos de destaque, e todos sabemos que não é por terem genes particularmente bons. Pelo contrário, alguns até são comentadores televisivos e conseguimos claramente ver o nível das criaturas. Mas coisa diferente é provar qual foi o favor político em concreto que está a ser pago com aquele lugar.

Depois há os circuitos. O esquema mais sofisticado (e o mais comum) não deixa rastos directos entre o político e o dinheiro. Funciona assim: o Estado paga a uma empresa privada, por um serviço ou obra, um valor muito acima do preço de mercado. Essa empresa, uma vez recheada com o nosso dinheiro, subcontrata outra empresa, que pertence à mulher do presidente da câmara, ao filho do ministro, ou ao sócio do secretário de Estado. É, por exemplo, a sociedade de advogados que recebe honorários inexplicáveis e depois contrata a agência de comunicação da mulher do presidente para organizar eventos que, muitas vezes, nem organizaria e que nenhuma rentabilidade lhe trazem.

Mas assim, o dinheiro saiu do Estado. Chegou à família. Mas entre os dois há sempre uma ou duas empresas privadas que funcionam como camuflagem.

Para provar a corrupção neste esquema, é preciso ligar cada elo da cadeia: provar que a adjudicação foi intencional, que o preço foi exagerado (quase impossível em serviços como advocacia), e que a contratação posterior da empresa da mulher foi a contrapartida acordada. E ainda que o político sabia e quis tudo isto.
Cada elo é difícil. A cadeia inteira é quase impossível.

E a lei sabe disso. Ou melhor: foi construída de modo a saber disso.

A lei portuguesa prevê que a vantagem pode ser não patrimonial: um emprego, uma promoção, um favor. Prevê que pode ir para terceiros. Prevê figuras como o tráfico de influências e a participação económica em negócio. Mas cada uma destas figuras exige a sua própria cadeia de prova. E cada elo que falta é uma absolvição garantida.

O Ministério Público sabe disto melhor do que ninguém. Por isso, grande parte destes processos nem chega a julgamento. É arquivada antes. Não porque não aconteceu nada. Mas porque a lei foi desenhada para exigir exactamente aquilo que nunca existe: o recibo da troca, assinado e datado.

Quem desenhou a lei assim? Quem a manteve assim durante décadas? Quem bloqueou as reformas, complicou o que podia ser simples, e garantiu que cada elo da cadeia fosse tratado como um crime separado e isolado, impossível de provar em conjunto?

Os mesmos que a lei protege: o Bloco Central.

Eu diria que Portugal não tem falta de leis contra a corrupção. Tem excesso de leis feitas por quem precisa de não ser apanhado por elas, e que por isso as desenhou para se safar. 


Adeptos da FIFA

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sábado, 20 de junho de 2026

SOS Racismo.

Pode ser arte pop de ‎uma ou mais pessoas, barba, pessoas a estudar e ‎texto que diz "‎HMMM... ISTO É SURPREENDENTEMENTE APLICÁVEL... DIVERSIDADE INCLUSÃO TOLERÂNCIA E COMPLIANCE ACIMA DE TUDO! SOS RACISMO APAV Apoio à Vítima MANUAL MANUALDOKGB MANUAL DO KGB DETECÇÃO PERSEGUIÇÃO DE DISSIDENTES GUIA PRÁTICO PARA PROTEGER REGIME DISCURSO ÓDIO É CRIME!* *(o NÓS DIZEMOS QUE έ) Projecto co-financiado pela Uniao Europeia SOS RACISMO APAV poioàVitima ιο ZERO VERDADE RELATIVA SINAIS CRITICA ÁS DE ALERTA: MIVORIAS 5 SARCASSTO 台 QUESTIONA NARRATIVA ه LÓGICA INDEPENDENTE HUMOR FACTOS PERMANENTE GUIA PRATICO SOCIALMENTE CORRECTO COMO DENUNCIAR TEU MICROAGRESSÕES VIZINHO PARA NEU MANUAL PARALEIGOS LEIGOS LINGUAGEM OBRIGATÓRIA OBRI RE-EDUCAR RE- CANCELA EDUCAR DENUNCIAR LEMBRETE: RALMENTE‎"‎‎A propósito do “manual” do discurso de ódio da coligação APAV/SOS Racismo, importa dizer uma coisa: não descobriram a pólvora. Isto de escrever manuais para detectar, classificar, vigiar, condicionar e perseguir dissidentes tem já uma longa e belíssima tradição nos regimes que se diziam sempre do lado certo da História.
Duvidam?
Fica aqui uma pequena lista de exemplos históricos, só para percebermos como a criatividade burocrática aplicada à repressão política é uma arte intemporal.
Na União Soviética, o KGB infiltrava informadores entre estudantes para reportar não apenas planos de fuga, literatura proibida ou contactos suspeitos, mas também canções e piadas ouvidas à noite nos dormitórios. Sim, piadas! Criminalizar piadas não saiu da cabeça dos nossos wokes. É uma tradição histórica!
Na Lituânia soviética, os agentes reportavam estudantes que cantavam canções anti-soviéticas, gozavam com a propaganda oficial ou brindavam à independência da Lituânia. Também havia preocupação com jovens que se aproximavam de estrangeiros para comprar cigarros, roupa, discos ou pastilhas elásticas, porque isso era um indicio de "ocidentalização".
Na Alemanha de Leste, a Stasi tinha a famosa Directiva 1/76, onde se falava de “forças hostis-negativas”. O objectivo era fazer o levantamento de pessoas, grupos, contactos, influências e ambientes onde pudesse nascer actividade contrária ao regime. Em linguagem normal: descobrir quem pensava mal, quem falava com quem, quem podia influenciar quem e onde estavam os focos de pensamento dissidente.
A Stasi foi ainda mais longe com a chamada Zersetzung, uma espécie de sabotagem psicológica silenciosa. Entre as técnicas estavam rumores, cartas anónimas, telefonemas, fotografias comprometedoras, destruição da reputação, sabotagem profissional, criação de suspeitas dentro de grupos, rivalidades internas e isolamento social. Não era preciso prender imediatamente o dissidente. Bastava destruir-lhe a vida aos bocadinhos. Se quiserem saber onde nasceu a cultura do cancelamento, têm a vossa resposta na Stasi!
Na Alemanha de Leste, os alvos podiam ser grupos cristãos, movimentos de paz, ambientalistas, artistas críticos, pessoas que queriam sair do país ou simplesmente pessoas demasiado independentes para o gosto do partido. Num dos exemplos mais absurdos, a Stasi planeava usar acusações morais e intrigas conjugais para criar desconfiança dentro de um círculo de paz em Pankow. A ideia era simples: se não consegues vencer argumentos, destrói as relações. Se não os consegues prender todos, faz com que deixem de confiar uns nos outros.
Na Roménia comunista, a Securitate também tinha manuais e materiais de formação para ensinar os seus operacionais a descrever “inimigos do Estado”. O mais delicioso é que a linguagem psicológica e criminológica era usada para dar um ar científico à perseguição ideológica. Um manual da Securitate sobre psicologia criminal definia desvio como afastamento das “normas dominantes”. E quais eram as normas dominantes? As normas ideológicas do partido-Estado. Traduzindo: quem não cabia na visão oficial podia ser tratado como suspeito. A ciência, essa senhora respeitável, transformada em bengala de polícia política. Também aqui, os nossos wokes e a nossa UE não inovam. Copiam.
Na mesma Roménia, havia pessoas descritas como “elementos”, “inimigos”, “desviantes” ou “hostis à nossa ordem socialista”. A pessoa deixava de ser pessoa. Passava a categoria. Passava a etiqueta. Passava a caso. E quando um regime começa a transformar cidadãos em categorias suspeitas, já estamos no terreno onde tudo é possível e quase tudo acaba por ser justificado em nome de uma suposta higiene moral colectiva. Incluindo matar ou, na melhor das hipóteses, enviar para centros de "reeducação". Estejam atentos porque já há gente presa por opiniões políticas por cá, e em Inglaterra já há mais detidos por tweets do que por roubos. Não, não estou a exagerar. Antes estivesse.
Portanto, quando hoje vemos organizações supostamente dedicadas ao apoio à vítima a entrar em projectos políticos com manuais para detectar “discurso de ódio”, convém ter memória histórica e perceber que a metodologia é bem conhecida por quem tem um bocadinho de conhecimentos de História.
O padrão é sempre parecido: primeiro cria-se uma linguagem moralmente blindada, uma moral que não pode ser desafiada. Depois classificam-se opiniões como perigos. Depois, transformam-se os adversários em ameaças. Depois ensinam-se activistas, técnicos, funcionários e instituições a reconhecer os sinais de desvio, com manuais deste tipo. Finalmente, tudo passa a ser prevenção. E quando tudo é prevenção, já ninguém precisa de provar grande coisa. Basta suspeitar, catalogar, assinalar, denunciar e condicionar.
E assim se vão transformando Estados democráticos em ditaduras, em lume brando, com palavras bonitas, financiamentos públicos, projectos europeus, manuais... até que depois surge a policia política, nunca anunciada como tal. Só depois é que percebemos: "a policia política era aquela".

Quando é que isto muda?

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "Expresso esso 22 min G Milícia extrema-direita extrema- de desmantelada pela unidade anti-terrorismo da daP J pelo DCIAP queria invadir causar estragos nos dois locais. Motivo? Davam apoio comunidade imigrante em Portugal. Leia 0 artigo pelo link nos comentários Lider neonazi ačedeu aos arquivos municipais para obter as plantas do SOS Racismo e da Mesquita do MartimM Moniz"
Uma pergunta que aparece com frequência nos comentários é esta: quando é que isto muda? E, sobretudo, muda pelo voto?
Meus caros, se há coisa que tento fazer, com as limitações evidentes da condição humana, é raciocinar com algum rigor. Vou acertar sempre? Não. Ninguém acerta sempre, e eu muito menos. Não faltam por aqui pessoas a lembrar-me disso.
Mas tentando fazer um exercício lógico, baseado na história das civilizações, parece-me possível fazer uma distinção grosseira, mas útil: há sociedades que mudam governos, corrigem abusos e resolvem conflitos por vias essencialmente pacíficas. E há sociedades que passam a vida à pancada, até já ninguém saber muito bem se estão a lutar por uma ideia, por uma bandeira, por uma tribo ou apenas porque sim.
E o padrão histórico parece-me claro. Nas civilizações que conseguem resolver os seus problemas com pouco ou nenhum sangue, há mais estabilidade, mais desenvolvimento, mais tecnologia, mais confiança social e níveis de pobreza tendencialmente mais baixos.
Nas civilizações onde todos se comem uns aos outros, há pobreza, atraso, medo, morte e, invariavelmente, um chefe qualquer a explicar que a violência era necessária para salvar o povo.
Isto para dizer uma coisa muito simples: eu não acredito em soluções não pacíficas. Não acredito em aventuras de força. Não acredito em minorias iluminadas que decidem “salvar” o país contra o próprio país. Não acredito que um país melhor possa nascer de um chão encharcado de medo e repressão.
E não, isto não resulta de uma lavagem cerebral que me tenham feito na Faculdade. Resulta de olhar para a história com um mínimo de seriedade.
Falemos: Países que se desenvolveram sem liberdade, pluralismo e algum grau de consenso social? Há poucos exemplos. Os países do Golfo? Têm petróleo. E mesmo esses só prosperaram porque o mundo desenvolvido criou tecnologia, indústria e mercados capazes de dar valor ao petróleo. Não foi propriamente uma revolução cultural no deserto.
Querem falar da China? Falemos. A China aumentou brutalmente o PIB sob um regime autoritário. É verdade. Mas continua a ser um país duríssimo para viver e trabalhar, com desigualdades brutais, vigilância massiva, repressão política e milhões de pessoas ainda presas a condições de vida que nenhum europeu aceitaria durante quinze minutos, excepto porventura na Albânia. E grande parte do salto chinês assentou em copiar em massa tecnologia criada em países livres.
A verdade é esta: o desenvolvimento precisa de criatividade. E a criatividade precisa de liberdade. Pode haver obediência sem liberdade. Pode haver fábricas sem liberdade. Pode haver disciplina sem liberdade. Pode até haver crescimento durante algum tempo sem liberdade. Mas a inovação, o pensamento crítico, a confiança social, a cultura de responsabilidade e a capacidade de reforma sustentada não nascem de sociedades aterrorizadas.
Nascem de sociedades onde se pode discordar, onde se pode criticar, onde se pode, até, fazer greve. Sítios onde a mudança se faz convencendo pessoas, e não esmagando nem aterrorizando pessoas.
Por isso, sim: isto muda pelo voto. Ou, pelo menos, só deve mudar por essa via. Não vejo alternativa menos má. É lento? É. É frustrante? Muito. Dá vontade de desistir quando se vê uma comunicação social que trata uns como santos e outros como ameaça? Evidentemente.
É irritante assistir a instituições capturadas por agendas políticas, enquanto fingem que estão apenas a defender a democracia? Óbvio.
Mas a alternativa é pior. A alternativa é aceitar a lógica de que, se o sistema está podre, então vale tudo para o derrubar. E quando se abre essa porta, ela nunca se fecha apenas para “os nossos”. Fecha-se para todos. Hoje é contra quem odiamos. Amanhã é contra quem incomoda. Depois é contra quem discorda. No fim, já ninguém fala e somos a Síria ou o Líbano.
Se alguém acha que existe forma melhor de reformar Portugal do que conquistar apoio popular, vencer culturalmente, convencer pessoas e criar uma maioria política suficientemente ampla para alterar o rumo do país, a minha mensagem é simples: está errado.
É difícil. É lento. É ingrato. É muitas vezes desesperante. Mas é o único caminho que pode produzir um país melhor sem destruir o país pelo caminho.
Parafraseando Churchill, a democracia é a pior forma de mudar as coisas. Excepto todas as outras que a humanidade já experimentou.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Um ar que se nos dá: saiba quem mais polui a atmosfera em Portugal

 A ideia foi-se instalando com a eficácia das grandes simplificações contemporâneas: nos círculos mediáticos e políticos o grande problema ambiental será hoje, quase em exclusivo, o das alterações climáticas, causado pelas emissões de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa.

Nessa narrativa, repetida por governos, empresas, fundações, agências de comunicação e por boa parte da imprensa, o cidadão comum aparece como o culpado difuso: continua a usar combustíveis fósseis, anda de automóvel, não mudou os seus hábitos, embora, no caso português, viva num país onde os transportes públicos continuam, em muitas zonas, pelas ruas da amargura, mas onde se exige à população uma conversão ecológica que o próprio Estado não garante em condições mínimas.



 Pedro Almeida Vieira

paginaum

Global Notícias em falta.

 


Câmaras Municipais já cancelaram mais de 10 mil licenças de alojamento local por inatividade ou incumprimento de seguros

 Autarquias cancelaram 10.324 registos de alojamento local por falta de atividade e incumprimento do seguro obrigatório de responsabilidade civil. Lisboa, Porto e Algarve concentram maioria dos casos.
As autarquias portuguesas já cancelaram 10.324 registos de alojamento local (AL) no âmbito de uma operação nacional de limpeza do registo, destinada a eliminar unidades sem atividade. De acordo com o Diário de Notícias, o processo, iniciado no final de 2025, está a permitir identificar estabelecimentos licenciados que não estão em funcionamento efetivo.
A medida ganhou um novo enquadramento com a obrigação, em vigor desde março de 2025, da entrega anual do seguro de responsabilidade civil por parte dos titulares de AL. Este documento é exigido para cobrir eventuais danos causados a hóspedes ou a terceiros e a sua falta pode levar ao cancelamento do registo pelos municípios.
Entre os concelhos que já concluíram ou mais avançaram com o processo, destaca-se Lisboa, onde foram anuladas 6.765 licenças, cerca de 40% do total existente. Já no Porto, as autarquias cancelaram 1.413 registos, o equivalente a 12% do universo local, ficando a cidade com 10.821 unidades ativas.
A ALEP estima que o processo de registo do seguro de responsabilidade civil levará ao cancelamento de entre 40 e 45 mil alojamentos, mantendo-se ativos entre “85 a 90 mil” espaços.
No Algarve, a operação já foi concluída em dois municípios. Em Lagoa, a autarquia retirou 598 registos por falta de apresentação do seguro dentro dos prazos definidos, num total de 3.755 licenças. Em Lagos, o município avançou com o cancelamento de 1.548 registos, o que corresponde a 26% do total de alojamentos locais registados.
Segundo a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), o ritmo do processo varia consoante os municípios, com alguns a apresentarem já uma base mais atualizada devido a fiscalização prévia, enquanto outros ainda estão numa fase inicial de verificação, sobretudo no Algarve, onde se concentra grande parte da oferta nacional e onde o trabalho deverá prolongar-se nos próximos meses.
observador