sexta-feira, 22 de maio de 2026
O recente artigo de opinião de Ana Catarina Mendes, intitulado "Não é justiça forte, é justiça espetáculo"
Sob a capa nobre da defesa dos direitos fundamentais, o que ali se desenha é um plano coordenado para erguer uma muralha de opacidade em redor dos titulares de cargos públicos.
Vamos desmontar a reza, peça por peça, expondo a engrenagem de desinformação que tenta transformar arguidos poderosos em mártires da democracia.
O mito do parágrafo único e os envelopes de São Bento.
A narrativa da eurodeputada começa por atribuir a queda de um governo com maioria absoluta a um mero acidente de escrita do Ministério Público. É a tese do parágrafo fatal que teria destruído a estabilidade do país sem base factual.
Esta afirmação é factual mente falsa.
A Operação Influens não caiu do céu por causa de uma nota de imprensa mal redigida.
O comunicado oficial limitou-se a cumprir o imperativo de transparência ao informar o país de que corria um inquérito autónomo no Supremo Tribunal de Justiça, uma obrigação legal quando surgem indícios que visam o primeiro-ministro.
Para o cidadão compreender, o Ministério Público não inventou uma suspeita; apenas seguiu a lei que obriga a separar os processos quando o chefe do governo é visado, pois os procuradores de primeira instância não o podem investigar diretamente.
O que verdadeiramente abalou o executivo não foi a sintaxe jurídica, mas sim a descoberta de dezenas de milhares de euros em notas de dinheiro vivo escondidos em caixas de vinho e estantes de um gabinete oficial em São Bento.
Reduzir uma investigação complexa, sustentada em escutas telefónicas validadas por juízes e indícios de favorecimento em negócios milionários de lítio e hidrogénio, a um problema de redação é tentar fazer passar os cidadãos por estúpidos.
O fantasma da Casa Pia e os telefonemas de urgência
A escolha do processo Casa Pia para abrir o artigo é de uma enorme ousadia histórica.
Catarina Mendes usa o caso como o pecado original da justiça mediática, mas esquece-se de contar o que se passou nos bastidores do poder político em maio de 2003.
As célebres escutas telefónicas daquela época revelaram que figuras de topo do partido do governo, incluindo António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues, mantiveram contactos diretos com Paulo Pedroso nas vésperas da sua detenção.
Houve uma clara tentativa de controlo de danos e de interferência política. O foco das lideranças partidárias não foi a proteção das vítimas vulneráveis ou o apuramento da verdade, mas sim o ataque feroz aos magistrados e ao juiz de instrução Rui Teixeira, rotulando a investigação como uma cabala.
A validação destes factos e a cronologia dos áudios que expuseram a promiscuidade entre o poder político e os alvos da justiça estão documentadas publicamente na verificação de factos disponível em https://poligrafo.sapo.pt/.../rui-rio-ha-escutas.../. O arquivamento posterior da acusação contra o dirigente partidário na fase de instrução não apagou o rasto de pressão institucional que o regime exerceu para se auto proteger.
Miguel Macedo e a cortina de fumo do bipartidarismo
Para tentar vender a imagem de uma crítica isenta e transversal, o artigo recupera a absolvição de Miguel Macedo no caso dos vistos gold.
É uma manobra clássica de diversão: atira-se um nome da oposição para fingir que a indignação não tem colagem partidária única. Contudo, confunde-se propositadamente a responsabilidade criminal com a ética republicana.
A demissão de um ministro da Administração Interna quando os diretores máximos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e do Instituto dos Registos e do Notariado são detidos por suspeitas graves de corrupção não é um abuso judicial.
É a aplicação básica do princípio da responsabilidade política.
Um governante tem o dever de supervisão. A sua absolvição em tribunal anos mais tarde limpa o seu cadastro criminal, mas não apaga a degradação institucional e o desleixo na fiscalização dos serviços públicos sob a sua tutela direta. Usar este exemplo para atacar a magistratura é tentar institucionalizar a irresponsabilidade política em Portugal.
A falácia das fugas de informação e o direito ao escrutínio
O choro ritual contra as fugas de informação serve para construir a tese de que o Ministério Público passa deliberadamente papéis aos jornalistas para assassinar reputações.
Omite-se uma realidade processual elementar: assim que o processo deixa de estar em segredo de justiça interno e os arguidos têm acesso aos autos, centenas de pessoas, entre advogados, assistentes e funcionários, passam a ter cópias digitais de toda a matéria gravada e escrita.
Atribuir as fugas em exclusivo aos investigadores é uma falácia conveniente para quem quer desacreditar a acusação.
Na verdade, o que assusta a classe política não é o método da fuga, é o conteúdo revelado.
Numa democracia aberta, o direito dos cidadãos a saber como os seus governantes gerem o erário público e que favores trocam com grandes grupos económicos sobrepõe-se à exigência de um apagão informativo. O jornalismo cumpre o seu papel constitucional ao expor estes meandros, e as regras que garantem a liberdade de imprensa.
A tese de que a justiça está a usurpar o poder político cai por terra quando olhamos para as instâncias superiores do próprio sistema judicial.
O Tribunal Constitucional é o exemplo mais flagrante de partidarização institucional.
Dez dos seus treze juízes são eleitos por voto direto dos deputados no parlamento, o que resulta numa partilha de quotas ideológicas entre os dois maiores partidos do bloco central.
Esta engenharia de nomeação belisca a confiança pública e cria a perceção legítima de que certas decisões são tomadas para acomodar agendas partidárias.
O exemplo recente da validação das alterações à Lei da Nacionalidade é visto por vários setores como um frete legislativo feito à medida de interesses específicos, sacrificando o rigor jurídico em nome da conveniência eleitoral.
Quando as cúpulas da justiça parecem sintonizadas com quem as nomeia, o povo percebe que o sistema foi desenhado para perpetuar o estado de coisas e proteger os infratores de colarinho branco.
O abuso do garantismo como passaporte para a impunidade
O texto de opinião de Ana Catarina Mendes utiliza o conceito sagrado de garantismo penal como um escudo para a impunidade.
Exige-se que a presunção de inocência funcione como uma mordaça social, impedindo o eleitorado de fazer qualquer juízo de valor político sobre comportamentos antiéticos até que exista uma sentença definitiva.
Num país onde os recursos sucessivos, os incidentes de suspeição e as manobras dilatórias permitidas pelos códigos processuais fazem com que os processos arrastem por mais de uma década, exigir o silêncio da sociedade civil até ao trânsito em julgado é o mesmo que garantir um salvo-conduto permanente para os políticos continuarem a exercer funções e a disputar eleições sem escrutínio.
O que o artigo classifica como justiça espetáculo é, na verdade, o pânico generalizado das elites partidárias perante uma magistratura que se recusa a arquivar processos nas gavetas do poder.
O combate à corrupção e ao tráfico de influências não destrói a democracia; o que destrói o Estado de Direito é a tentativa concertada de amordaçar os procuradores para salvar os suspeitos do costume e prevenir os do futuro...
WHISTLEBLOWER
Críticas a Donald Trump, um buraco negro e uma viagem ao passado com Paul McCartney: assim foi a despedida de Stephen Colbert do Late Show
"Não entrevistou o Papa Leão, mas recebeu um notável elenco de estrelas. No último episódio do Late Show, Colbert despediu-se do teatro que foi sua casa por 11 anos com música, humor e beatlemania.
A multidão no exterior do Ed Sullivan Theatre, em Nova Iorque, casa do The Late Show há 33 anos, é evidência da realidade inevitável: após 11 anos como líder de audiências no panorama da late night television, o programa apresentado por Stephen Colbert chegou ao fim. Numa noite emotiva, o humorista despediu-se da “máquina de alegria” das noites da CBS ao lado de um elenco de convidados invejável, sem descartar o habitual humor crítico e ágil: entre censuras à administração Trump e ao canal de televisão, sucederam-se momentos musicais, um Papa Leão XIV mal-disposto e uma pitada de fantasia.
O último programa de Colbert abriu com um segmento de quatro minutos, em que se dirigiu à audiência ao vivo e aos espectadores em casa. “[Durante anos,] estivemos aqui para sentir as notícias convosco e, não sei de vocês, mas eu certamente senti-as”, admitiu o apresentador, tirado do ar pela administração da CBS por alegados problemas financeiros. A decisão, tornada pública pelo próprio Colbert no passado mês de julho, esteve envolta em polémica, uma vez que foi avançada poucos dias depois de o humorista acusar a Paramount (empresa-mãe do canal) de ter praticado “um grande e gordo suborno” à administração Trump, a fim de consumar um negócio milionário." Do observador
Há municípios afectados pelas tempestades que "ainda não avaliaram nenhuma casa", ministro da Economia apela a mais rapidez.
Importante para todos é saber-se quais as camaras, e de preferência saber-se a que partido pertence o presidente dessa camara! que ainda nada fizeram!
"O ministro da Economia alertou para a "disparidade" nos processos de avaliação de habitações afectadas pelas tempestades do inverno, apelando aos municípios “mais lentos se aproximem dos mais rápidos".
O ministro da Economia reconheceu que “há ainda muito a fazer na atribuição dos apoios até 10 mil euros” para a reconstrução de casas que ficaram destruídas depois do comboio de tempestades que assolou o país em janeiro e fevereiro. Esta sexta-feira no parlamento, Manuel Castro Almeida admitiu que há atrasos, “apesar de 13 municípios já terem concluído todos os processos e 10 municípios terem ultrapassado os 90%”. Nestes casos, os apoios foram pagos ou indeferidos.
Segundo Castro Almeida, os processos de indemnização estão a decorrer “de formas diferenciadas”. Há municípios que estão “muitíssimo mais lentos e alguns não avaliaram nenhuma casa”.
Observador
No Palácio de Belém, algo mudou profundamente na forma como Portugal se posiciona perante o mundo.
Fontes próximas do meio diplomático revelam um descontentamento crescente com a presidência, que decidiu romper com a tradição de neutralidade do país para ceder ao populismo fácil das redes sociais e das agendas ideológicas.
O primeiro grande sinal desta cedência aconteceu a 19 de maio, durante a entrega do Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa, um evento oficial que pode ser consultado no portal em http://www.coe.int.
No seu discurso, o Presidente da República usou o palco para fazer um ataque unilateral a Israel. Chorou publicamente a morte de indivíduos descritos como jornalistas na Faixa de Gaza, mas omitiu deliberadamente o resto da história.
Para quem acompanha estes temas sem o filtro da propaganda, a realidade é muito mais crua do que o discurso oficial faz parecer.
Muitos destes supostos repórteres são, na verdade, operacionais armados.
Indivíduos que de dia faziam reportagens encomendadas e à noite guardavam armas, integrados nas fileiras do Hamas e da Jihad Islâmica.
Quando a figura máxima do Estado português chora por estes agentes sem contextualizar quem eles eram, está a validar desinformação e a branquear o terrorismo.
O Presidente preferiu ignorar os relatórios de segurança e conseguiu a proeza de não proferir uma única palavra sobre o Irão ou sobre o Hezbollah, que diariamente bombardeia o norte de Israel.
A confirmação desta deriva política veio logo no dia seguinte, a 20 de maio.
As portas do Palácio de Belém abriram-se para receber oficialmente os familiares dos dois médicos portugueses detidos na chamada Global Sumud Flotilla.
O registo deste encontro e a agenda oficial da Presidência estão acessíveis em http://www.presidencia.pt.
À saída, montou-se o habitual circo mediático perante as câmaras, com queixas de que o cônsul de Portugal em Telavive ainda não tinha conseguido falar com os detidos, tentando passar a imagem de que os jovens médicos são heróis desamparados.
Desmontando a retórica política, a verdade sobre este caso é simples.
Aquela flotilha nunca foi uma missão de caridade ou de ajuda humanitária.
Foi uma provocação política orquestrada para desafiar a segurança e furar um bloqueio militar numa zona de guerra ativa. Os dois médicos sabiam perfeitamente ao que iam. Ninguém entra numa operação daquelas por ingenuidade. Eles conheciam os riscos e sabiam que seriam usados como peões de manobra ideológicos.
Ao recebê-los em Belém com honras e passadeira vermelha, o Presidente acabou por transformar ativistas radicais em mártires nacionais, validando quem viola bloqueios militares e apoia indiretamente estruturas terroristas.
Um passaporte português serve para proteger os cidadãos cumpridores e trabalhadores, não para ser usado como salvo-conduto por ativistas que vão conscientemente criar incidentes internacionais e depois exigem que o Estado os vá salvar.
Esta postura de Belém representa uma rutura e uma traição ao eleitorado moderado que colocou o Presidente no poder.
Ao ceder à pressão das franjas mais radicais para garantir aplausos fáceis dos comentadores de serviço, o Chefe de Estado escolheu a imagem pessoal em detrimento da justiça, promovendo a divisão interna e manchando a credibilidade externa da diplomacia portuguesa.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Da decadência moral de um homem em abstinência de cromos.
A mente humana é uma máquina admirável, sobretudo quando resolve deixar de pensar para começar a coleccionar. O homem, apesar de ser animal dotado – que inventou a metafísica, a álgebra, a sonata, os impostos e até o requeijão light –, desce com enorme facilidade à condição de roedor quando lhe põem diante dos olhos uma saqueta colorida com sete cromos lá dentro. Sete.
Vejam este número bíblico, número cabalístico, número de dias da Criação, número de pecados capitais, que se mostra tão diabólico que transforma um adulto já dentro da segunda idade, aparentemente funcional, num ser que frequenta até papelarias e quiosques com o ar inquieto de quem procura morfina em vielas esconsas.
Foi assim comigo nos últimos anos.
Comecei a colecção dos cromos Panini com aquela inocência perigosa dos homens que ainda acreditam controlar os seus actos. No primeiro dia, entrei no Auchan da Rua Damasceno Monteiro e comprei algumas saquetas. Poucas, pensei eu. Uma experiência. Uma brincadeira. Um regresso moderado à infância. Mas a palavra “moderado”, em matéria de cromos, deve ser lida com a mesma cautela com que se lê “provisório” num imposto português.
Nos dias seguintes, o abastecimento correu bem. O sistema parecia civilizado: comprava umas saquetas, abria-as com uma dignidade relativa, separava os repetidos, alinhava os novos, registava na folha de cálculo do Excel e contemplava tudo como um cartógrafo do Império. Nessa fase inicial, nada se apresenta como vício. Surge vestido de passatempo. Cheira a nostalgia, não a compulsão. Fala-nos da infância. Sussurram-nos que somos apenas coleccionadores, jamais dependentes. Ora, o primeiro papel da dependência é fazer-nos mentirosos.
Depois, numa bela tarde, o Auchan secou.
Não foi uma ruptura comercial; foi uma catástrofe íntima. A prateleira vazia olhou para mim com a crueldade mineral das coisas que não se importam connosco. Onde antes brilhavam saquetas, restava o nada. E o nada, para um coleccionador, deixa de ser uma ausência para ser uma provocação.
Desci então à Papelaria Fonsecas, na Rua Maria Andrade, alcandorada embaixada da esperança onde ainda consegui comprar mais material, incluindo uma bela caixa, também ela objecto coleccionável, porque a Panini, como todo o génio maléfico, não se limita a vender o vício: empurra a moldura, o relicário, o altar portátil onde o vício se exibe com ar de decoração. Descobri que existiam quatro caixas diferentes. Quatro. O vício agradeceu a informação e registou-a para futura destruição orçamental.
Porém, também ali o manancial se extinguiu. O distribuidor, esse deus invisível dos cromos, recolheu-se aos seus mistérios. Ainda consegui, num último assalto de prudência desgovernada, comprar dez saquetas no Continente da Almirante Reis. Dez saquetas: setenta cromos. Setenta possibilidades de redenção, repetição, júbilo ou insulto estatístico.
A partir daí entrou-se na fase da abstinência, desde sábado passado.
Convém falar desta palavra com respeito: a abstinência dos cromos não provoca tremores visíveis, nem febres, nem delírios com morcegos no tecto. É pior: provoca telefonemas. O viciado começa a activar a rede: amigos, conhecidos, familiares, vizinhos, pessoas que há anos não recebiam uma mensagem que não fosse “bom Natal” passam a ser abordadas com uma pergunta de inquietante simplicidade: “Viste cromos Panini à venda por aí?”
A pergunta parece inocente, mas contém a degradação inteira. Quem a faz já atravessou uma fronteira moral: já não compra cromos; procura fornecedores. Já não frequenta lojas; inspecciona pontos de distribuição. Já não visita papelarias; ausculta mercados paralelos. A geografia da cidade transforma-se num mapa de abastecimento: Graça, Arroios, Almirante Reis, até Vila Franca de Xira, Continente, Auchan, Pingo Doce, papelarias antigas, quiosques melancólicos, balcões de tabaco, tudo passa a ser lido com olhos de um contrabandista.
E foi assim, neste degradante percurso, que descobri a nova aristocracia do vício: as listas. No Largo da Graça, a distinta tabacaria, papelaria e livraria Havaneza Bandeira, “a servir clientes desde 1937”, já existe lista para próximas remessas. Naturalmente, inscrevi-me. Na Papelaria Fonsecas, também já deixei o nome para me ligarem quando chegarem as “minhas” 24 saquetas. Vinte e quatro. Um número que, em qualquer outra circunstância, seria administrativo, passa aqui a promessa de salvação.
A lista de espera é, assim, a nova forma burguesa da dependência. O viciado, impedido de rastejar, inscreve-se. A civilização consiste nisto: transformar o desespero em formulário.
Nos supermercados, onde a moral é menos personalizada, reparei entretanto que não há listas. Reina o estado de natureza. Um caixa contou-me que, no dia anterior, um senhor comprara 500 saquetas. Quinhentas. Repito, para que a enormidade se imponha: 500 saquetas. Como cada uma traz sete cromos, o cavalheiro saiu dali com 3.500 cromos. Três mil e quinhentos pequenos rectângulos de esperança auto-colante.
Ao preço corrente, terá deixado no altar da Panini um total de 750 euros. Um dízimo respeitável, correspondente a uma viagem, um bom electrodoméstico de linha branca, uma semana de hotel. Ou, no caso vertente, uma montanha de papel brilhante destinada a provar que a infância, quando regressa, deve trazer consigo um terminal multibanco.
A Matemática, porém, impõe-se aqui. O álbum tem 980 cromos. O ingénuo cavalheiro pensou, às tantas, que 3.500 cromos chegariam para completar a colecção e ainda construir uma pequena muralha defensiva com os repetidos. Mas a teoria das probabilidades informa-nos que não: comprando 3.500 cromos ao acaso, a expectativa científica será obter cerca de 952 cromos diferentes. Ou seja, depois de abrir 500 saquetas, gastar 750 euros, respirar cola imaginária e atravessar uma experiência próxima da iluminação mística, aquele açambarcador – que evitou a tomada da minha dose – ainda ficará com 27 ou 28 buracos no álbum. Em contrapartida, possuirá perto de 2.548 repetidos de vários quadrantes, quantidade suficiente para empapelar uma casa-de-banho, iniciar uma microeconomia escolar ou fundar uma seita.
Este é o génio perverso do sistema. A colecção aproxima-se da plenitude como Aquiles da tartaruga: chega cada vez mais perto, mas os últimos cromos transformam-se em criaturas mitológicas. No início, tudo é abundância. Cada saqueta traz novidades. Depois começam os repetidos. Primeiro, toleráveis. Depois, irritantes. Mais tarde, ofensivos. Por fim, metafísicos. Um cromo repetido pela décima vez deixa de ser um pedaço de papel e passa a ser uma pergunta sobre Deus.
A Panini sabe isto, tenho a certeza. Ou, pelo menos, comporta-se como se soubesse. A escassez não mata o vício; apenas o tempera. A interrupção do fornecimento jamais cura o dependente; apenas lhe educa a ansiedade.
Durante dias, o coleccionador fica privado da dose, observa o álbum incompleto, conta as cadernetas vazias, passa os dedos pelas páginas como uma viúva por retratos antigos, promete a si próprio que, quando voltarem as saquetas, comprará apenas algumas. Mas a mente, depois da abstinência, já não calculará em unidades, mas em salvação. A dose seguinte tem de compensar, em triplo, a ausência anterior. Assim nasce a overdose cromática.
O mecanismo é conhecido em qualquer mercado de tentação. A privação cria tensão; a tensão cria desejo; o desejo, quando reencontra o produto, perde a compostura. Um fornecimento regular permitiria uma dependência calma, quase doméstica. A escassez intermitente transformará o consumidor num náufrago diante da tábua. Quando finalmente chegam caixas novas, ninguém compra “umas saquetas”. Comprar-se-á como quem repele a morte.
Talvez exista aqui apenas logística deficiente. Talvez os distribuidores tenham subestimado a procura. Talvez Portugal esteja cheio de adultos discretos a reviver infâncias mal resolvidas, escondidos atrás de pastas de trabalho e desculpas familiares. Mas a minha suspeita, que vale o que valem as suspeitas nascidas entre repetidos, é outra: a escassez favorece o transe. A falta torna o regresso mais intenso, a prateleira vazia constitui uma publicidade sem cartaz e o produto ausente torna-se mais poderoso do que o produto disponível.
Por isso, o homem das 500 saquetas não será já um excêntrico isolado, mas uma profecia. Representa ele aquilo que todos os coleccionadores temem ser e secretamente admiram: alguém que decidiu saltar a fase da moderação e avançar directamente para o colapso. O seu gesto tem, convenhamos, a grandeza napoleónica: invadiu a Rússia dos cromos com 750 euros e regressou, muito provavelmente, sem apanhar Moscovo – ou o médio-central da Bielorrússia.
Resta-me, pois, aguardar a chamada da Havaneza da Graça, a remessa da Papelaria Fonsecas, a sorte eventual de um Continente distraído. Resta-me fingir que controlo a situação, dizer-me, com voz serena, que são apenas 24 saquetas. E resta-me depois abrir cada uma com o respeito de um sacerdote e a vergonha de um reincidente.
Na verdade, a máquina diabólica da mente humana não precisa de grandes tragédias para revelar a sua natureza: basta-lhe uma caderneta, uma marca italiana, sete cromos por saqueta e a promessa cruel de que, algures no mundo, existirá ainda aquele último cromo que falta quando desesperadamente precisarmos dele antes da loucura.
https://paginaum.pt/2026/05/20/da-decadencia-moral-de-um-homem-em-abstinencia-de-cromos