Há dias que assistimos, em direto e em três atos, à construção de uma nuvem de pó destinada a um único fim: impedir o tuga comum de perceber quem faz o quê, quem decide o quê, e a favor de quem.
Não são três episódios avulsos.
São três variações do mesmo instrumento, tocadas por três mãos diferentes, com a mesma partitura de fundo: manter o país confuso o suficiente para não exigir contas a ninguém.
Comecemos pelo supostamente mais desculpável, para acabarmos no mais grave.
O Correio da Manhã confundiu, num título, a Lei da Nacionalidade com a Lei de Estrangeiros e de Concessão de Asilo — duas leis que tratam de perguntas opostas, quem já é português e quem pode entrar, ficar ou ser expulso.
Um jornal que vende assinaturas ao preço de rigor informativo não tem desculpa para esta trapalhada.
Mas ainda assim, chamemos-lhe o que é: negligência, misturada com necessidade de sobrevivência financeira. Há segunda intenção e desleixo de quem já não lê o que assina antes de publicar.
Já a Eva RapDiva foi mais longe, e sem a desculpa da redação apressada. Apropriou-se de uma decisão do Presidente da República — o envio da Lei do Retorno ao Tribunal Constitucional — e atirou a responsabilidade para cima do PSD, acusando-o de deslizar para a extrema-direita.
Trocar o autor de uma decisão institucional pelo adversário político do momento não é erro de picagem de ponto.
É propaganda travestida de indignação, feita para quem não vai verificar, só partilhar.
E depois há Seguro.
E aqui a coisa muda de categoria, porque o Presidente da República não erra factos nem inverte autorias — ele fabrica confusão com instrumentos muito mais sofisticados: linguagem.
"A segurança das nossas fronteiras não é incompatível com a dignidade humana", diz ele, num sábado, em Campo Maior, um dia depois de ter bloqueado precisamente os mecanismos que serviriam para reforçar essa segurança. "É preciso combater ferozmente a imigração ilegal", afirma, enquanto a sua própria nota ao Tribunal Constitucional protege, na prática, a permanência indefinida de famílias em situação irregular, com o argumento de que separar é pior do que deixar ficar sempre.
Não há mentira que se possa apontar a dedo, frase a frase.
Há uma arquitetura inteira construída para que as palavras digam uma coisa e os atos façam o oposto, e para que ninguém consiga provar a contradição em tribunal.
É a forma mais eficaz de manipulação que existe: aquela que nunca mente tecnicamente, porque delega a mentira na distância entre o que se diz e o que se faz.
Três atores, três instrumentos, um único resultado:
o tuga que só lê títulos sai de cada um destes episódios um pouco mais convencido de que não percebe nada disto, um pouco mais disposto a desistir de exigir explicações, um pouco mais fácil de governar sem prestar contas.
É essa a função real da confusão pública: não convencer ninguém de nada, apenas exaurir a capacidade coletiva de exigir responsabilidades.
E o mais desolador é que já tínhamos sido avisados de que este caminho terminaria mal.
Há mais de uma década, o instituto nacional de estatística da Noruega — dificilmente uma fonte suspeita de xenofobia — publicava estudos mostrando que os custos líquidos para as finanças públicas de certos fluxos migratórios não se limitam à primeira geração: perpetuam-se, porque os imigrantes têm filhos, e o Estado continua a pagar a fatura muito depois de qualquer debate político sobre o tema ter arrefecido.
Não era profecia de extremista de bar.
Era estatística de Estado, fria e sóbria, publicada em Oslo, ignorada em Lisboa. Se um país do norte da Europa, rico, organizado e com décadas de experiência em integração, já tinha os números na mesa e mesmo assim tropeçou nos mesmos dilemas que hoje nos paralisam, que direito temos nós de fingir surpresa quando a fatura chegar cá?
A confusão não é acidente.
É o produto.
E enquanto o país continuar a discutir de que cor é a fumaça, ninguém vai perguntar quem ateou o fogo. Embora esteja à vista e todos saibam... não só quem o ateou, mas que continua a soprar ventos pela calada, para ele não apagar.
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