A mente humana é uma máquina admirável, sobretudo quando resolve deixar de pensar para começar a coleccionar. O homem, apesar de ser animal dotado – que inventou a metafísica, a álgebra, a sonata, os impostos e até o requeijão light –, desce com enorme facilidade à condição de roedor quando lhe põem diante dos olhos uma saqueta colorida com sete cromos lá dentro. Sete.
Vejam este número bíblico, número cabalístico, número de dias da Criação, número de pecados capitais, que se mostra tão diabólico que transforma um adulto já dentro da segunda idade, aparentemente funcional, num ser que frequenta até papelarias e quiosques com o ar inquieto de quem procura morfina em vielas esconsas.
Foi assim comigo nos últimos anos.
Comecei a colecção dos cromos Panini com aquela inocência perigosa dos homens que ainda acreditam controlar os seus actos. No primeiro dia, entrei no Auchan da Rua Damasceno Monteiro e comprei algumas saquetas. Poucas, pensei eu. Uma experiência. Uma brincadeira. Um regresso moderado à infância. Mas a palavra “moderado”, em matéria de cromos, deve ser lida com a mesma cautela com que se lê “provisório” num imposto português.
Nos dias seguintes, o abastecimento correu bem. O sistema parecia civilizado: comprava umas saquetas, abria-as com uma dignidade relativa, separava os repetidos, alinhava os novos, registava na folha de cálculo do Excel e contemplava tudo como um cartógrafo do Império. Nessa fase inicial, nada se apresenta como vício. Surge vestido de passatempo. Cheira a nostalgia, não a compulsão. Fala-nos da infância. Sussurram-nos que somos apenas coleccionadores, jamais dependentes. Ora, o primeiro papel da dependência é fazer-nos mentirosos.
Depois, numa bela tarde, o Auchan secou.
Não foi uma ruptura comercial; foi uma catástrofe íntima. A prateleira vazia olhou para mim com a crueldade mineral das coisas que não se importam connosco. Onde antes brilhavam saquetas, restava o nada. E o nada, para um coleccionador, deixa de ser uma ausência para ser uma provocação.
Desci então à Papelaria Fonsecas, na Rua Maria Andrade, alcandorada embaixada da esperança onde ainda consegui comprar mais material, incluindo uma bela caixa, também ela objecto coleccionável, porque a Panini, como todo o génio maléfico, não se limita a vender o vício: empurra a moldura, o relicário, o altar portátil onde o vício se exibe com ar de decoração. Descobri que existiam quatro caixas diferentes. Quatro. O vício agradeceu a informação e registou-a para futura destruição orçamental.
Porém, também ali o manancial se extinguiu. O distribuidor, esse deus invisível dos cromos, recolheu-se aos seus mistérios. Ainda consegui, num último assalto de prudência desgovernada, comprar dez saquetas no Continente da Almirante Reis. Dez saquetas: setenta cromos. Setenta possibilidades de redenção, repetição, júbilo ou insulto estatístico.
A partir daí entrou-se na fase da abstinência, desde sábado passado.
Convém falar desta palavra com respeito: a abstinência dos cromos não provoca tremores visíveis, nem febres, nem delírios com morcegos no tecto. É pior: provoca telefonemas. O viciado começa a activar a rede: amigos, conhecidos, familiares, vizinhos, pessoas que há anos não recebiam uma mensagem que não fosse “bom Natal” passam a ser abordadas com uma pergunta de inquietante simplicidade: “Viste cromos Panini à venda por aí?”
A pergunta parece inocente, mas contém a degradação inteira. Quem a faz já atravessou uma fronteira moral: já não compra cromos; procura fornecedores. Já não frequenta lojas; inspecciona pontos de distribuição. Já não visita papelarias; ausculta mercados paralelos. A geografia da cidade transforma-se num mapa de abastecimento: Graça, Arroios, Almirante Reis, até Vila Franca de Xira, Continente, Auchan, Pingo Doce, papelarias antigas, quiosques melancólicos, balcões de tabaco, tudo passa a ser lido com olhos de um contrabandista.
E foi assim, neste degradante percurso, que descobri a nova aristocracia do vício: as listas. No Largo da Graça, a distinta tabacaria, papelaria e livraria Havaneza Bandeira, “a servir clientes desde 1937”, já existe lista para próximas remessas. Naturalmente, inscrevi-me. Na Papelaria Fonsecas, também já deixei o nome para me ligarem quando chegarem as “minhas” 24 saquetas. Vinte e quatro. Um número que, em qualquer outra circunstância, seria administrativo, passa aqui a promessa de salvação.
A lista de espera é, assim, a nova forma burguesa da dependência. O viciado, impedido de rastejar, inscreve-se. A civilização consiste nisto: transformar o desespero em formulário.
Nos supermercados, onde a moral é menos personalizada, reparei entretanto que não há listas. Reina o estado de natureza. Um caixa contou-me que, no dia anterior, um senhor comprara 500 saquetas. Quinhentas. Repito, para que a enormidade se imponha: 500 saquetas. Como cada uma traz sete cromos, o cavalheiro saiu dali com 3.500 cromos. Três mil e quinhentos pequenos rectângulos de esperança auto-colante.
Ao preço corrente, terá deixado no altar da Panini um total de 750 euros. Um dízimo respeitável, correspondente a uma viagem, um bom electrodoméstico de linha branca, uma semana de hotel. Ou, no caso vertente, uma montanha de papel brilhante destinada a provar que a infância, quando regressa, deve trazer consigo um terminal multibanco.
A Matemática, porém, impõe-se aqui. O álbum tem 980 cromos. O ingénuo cavalheiro pensou, às tantas, que 3.500 cromos chegariam para completar a colecção e ainda construir uma pequena muralha defensiva com os repetidos. Mas a teoria das probabilidades informa-nos que não: comprando 3.500 cromos ao acaso, a expectativa científica será obter cerca de 952 cromos diferentes. Ou seja, depois de abrir 500 saquetas, gastar 750 euros, respirar cola imaginária e atravessar uma experiência próxima da iluminação mística, aquele açambarcador – que evitou a tomada da minha dose – ainda ficará com 27 ou 28 buracos no álbum. Em contrapartida, possuirá perto de 2.548 repetidos de vários quadrantes, quantidade suficiente para empapelar uma casa-de-banho, iniciar uma microeconomia escolar ou fundar uma seita.
Este é o génio perverso do sistema. A colecção aproxima-se da plenitude como Aquiles da tartaruga: chega cada vez mais perto, mas os últimos cromos transformam-se em criaturas mitológicas. No início, tudo é abundância. Cada saqueta traz novidades. Depois começam os repetidos. Primeiro, toleráveis. Depois, irritantes. Mais tarde, ofensivos. Por fim, metafísicos. Um cromo repetido pela décima vez deixa de ser um pedaço de papel e passa a ser uma pergunta sobre Deus.
A Panini sabe isto, tenho a certeza. Ou, pelo menos, comporta-se como se soubesse. A escassez não mata o vício; apenas o tempera. A interrupção do fornecimento jamais cura o dependente; apenas lhe educa a ansiedade.
Durante dias, o coleccionador fica privado da dose, observa o álbum incompleto, conta as cadernetas vazias, passa os dedos pelas páginas como uma viúva por retratos antigos, promete a si próprio que, quando voltarem as saquetas, comprará apenas algumas. Mas a mente, depois da abstinência, já não calculará em unidades, mas em salvação. A dose seguinte tem de compensar, em triplo, a ausência anterior. Assim nasce a overdose cromática.
O mecanismo é conhecido em qualquer mercado de tentação. A privação cria tensão; a tensão cria desejo; o desejo, quando reencontra o produto, perde a compostura. Um fornecimento regular permitiria uma dependência calma, quase doméstica. A escassez intermitente transformará o consumidor num náufrago diante da tábua. Quando finalmente chegam caixas novas, ninguém compra “umas saquetas”. Comprar-se-á como quem repele a morte.
Talvez exista aqui apenas logística deficiente. Talvez os distribuidores tenham subestimado a procura. Talvez Portugal esteja cheio de adultos discretos a reviver infâncias mal resolvidas, escondidos atrás de pastas de trabalho e desculpas familiares. Mas a minha suspeita, que vale o que valem as suspeitas nascidas entre repetidos, é outra: a escassez favorece o transe. A falta torna o regresso mais intenso, a prateleira vazia constitui uma publicidade sem cartaz e o produto ausente torna-se mais poderoso do que o produto disponível.
Por isso, o homem das 500 saquetas não será já um excêntrico isolado, mas uma profecia. Representa ele aquilo que todos os coleccionadores temem ser e secretamente admiram: alguém que decidiu saltar a fase da moderação e avançar directamente para o colapso. O seu gesto tem, convenhamos, a grandeza napoleónica: invadiu a Rússia dos cromos com 750 euros e regressou, muito provavelmente, sem apanhar Moscovo – ou o médio-central da Bielorrússia.
Resta-me, pois, aguardar a chamada da Havaneza da Graça, a remessa da Papelaria Fonsecas, a sorte eventual de um Continente distraído. Resta-me fingir que controlo a situação, dizer-me, com voz serena, que são apenas 24 saquetas. E resta-me depois abrir cada uma com o respeito de um sacerdote e a vergonha de um reincidente.
Na verdade, a máquina diabólica da mente humana não precisa de grandes tragédias para revelar a sua natureza: basta-lhe uma caderneta, uma marca italiana, sete cromos por saqueta e a promessa cruel de que, algures no mundo, existirá ainda aquele último cromo que falta quando desesperadamente precisarmos dele antes da loucura.
https://paginaum.pt/2026/05/20/da-decadencia-moral-de-um-homem-em-abstinencia-de-cromos
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