sábado, 16 de maio de 2026

O início eufórico que antecipa a repetição como antecâmara da obsessão.

O início da minha saga com a colecção do Mundial da Panini confrontou-me com uma realidade pouco compatível com a fantasia pueril que acompanha estas aventuras: perante a minha escassez de tempo, manifesta inexperiência e absoluta falta de treino logístico nesta matéria, depressa percebi que o entusiasmo, por si só, não bastaria para impedir o colapso organizacional.

Uma coisa é abrir saquetas com a jubilação de um rapaz de doze anos; outra, bem diferente, é gerir de forma racional um universo de 980 cromos, dispersos por dezenas de selecções, variantes especiais e armadilhas estatísticas concebidas para humilhar a memória humana.

Percebi assim, com inquietante rapidez, que não posso confiar na memória. Seria o caminho mais curto para acreditar que aquele lateral suplente da Costa Rica, acabado de emergir de uma saqueta com a solenidade de um presságio, era novidade absoluta, quando, afinal, já repousava, duplicado ou triplicado, algures entre outros enganos semelhantes.

Também me pareceu pouco sensato proceder à colagem imediata na caderneta. Não por falta de entusiasmo patriótico ou devoção coleccionista, mas porque o acto exige uma combinação improvável de paciência beneditina, precisão cirúrgica e unhas adequadas à delicada operação de separar aquele microscópico intervalo entre o papel de cobertura e a película autocolante do cromo.

Assim, fiel a impulsos que por vezes me fazem parecer um funcionário prussiano com tendências estatísticas, optei por uma organização germânica: matriz em Excel, países por ordem alfabética, jogadores numerados de 1 a 20 por selecção, especiais devidamente assinalados, e siga. Uma arquitectura de dados digna de quem, em vez de brincar, simula um ensaio clínico multicêntrico.

A minha estreia consumista fez-se com dois conjuntos em caixa, totalizando 112 cromos. Sem qualquer analíse estatística, este resultado, confesso, pareceu-me auspicioso. Apenas três repetidos, o que significa 109 cromos únicos logo na primeira investida. Traduzido em percentagem — porque todo o vício respeitável merece uma falsa camada de racionalidade quantitativa —, arranquei com 11,1% da colecção completa preenchida. 

Para uma primeira incursão deste género, explica-me a Estatística, o expectável seria algo próximo dos seis repetidos. Saí, portanto, com metade do infortúnio previsto. A probabilidade de obter um resultado tão favorável ou melhor andaria, grosso modo, pelos 12%, o que, não sendo um milagre mariano nem uma intervenção directa da FIFA nos assuntos terrenos, configura um começo simpático. Querem lá ver que a Panini afinal é bondosa?

Em todo o caso, a aleatoriedade tratou de exibir as suas excentricidades. Dei por mim com sete uruguaios, seis sauditas, cinco neozelandeses, e pequenos contingentes de belgas, colombianos, equatorianos, egípcios, marroquinos, mexicanos e escoceses, como se estivesse a montar um congresso diplomático desorganizado. Portugueses tenho três.

Em contrapartida, a França comportou-se como um sindicato em greve, a Suécia pura e simplesmente não compareceu, a Turquia evaporou-se, a Bósnia-Herzegovina manteve prudente neutralidade, e a Argélia recusou participar sem apresentar justificação formal.

Foi então que entrei na fase menos romântica da aventura: a da Matemática cruel. No primeiro dia, praticamente cada cromo surgia com elevada probabilidade de novidade, dado que eu partia de um admirável vazio estatístico. Agora, porém, já tenho 109 lugares ocupados, o que significa que cerca de 11% do universo possível se encontra preenchido. Em português corrente: a máquina probabilística da Panini vai começar a conspirar contra mim.

Cada nova compra passa, assim, a aumentar a probabilidade de me oferecer aquele prazer agridoce, quase litúrgico, de abrir uma saqueta com expectativa infantil, ver surgir um brilho promissor, e descobrir, com melancolia administrativa, que se trata de um senhor paraguaio que já possuo em duplicado.

Esta, afinal, é a velha maldição das colecções. O início é euforia, o meio é repetição e o fim transformará homens razoáveis em criaturas obcecadas com a localização exacta de um obscuro defesa-central da Coreia do Sul, cuja ausência passa a parecer uma falha intolerável na ordem do universo.

Terei em breve o segundo dia de compras. Veremos se a sorte persiste ou se a teoria das probabilidades decide, com a habitual frieza académica, recolocar-me no meu devido lugar.

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https://paginaum.pt/2026/05/16/o-inicio-euforico-que-antecipa-a-repeticao-como-antecamara-da-obsessao

Pedro Almeida Vieira



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