Acredito que, pela natureza humana, há vícios respeitáveis. Não me refiro, evidentemente, aos que obrigam a internamentos, intervenções familiares ou visitas discretas a estabelecimentos de reputação ambígua. Refiro-me àqueles vícios menores, toleráveis no seio social, até ternurentos, que nos permitem fingir que continuamos ligados a uma qualquer inocência de infância.
Coleccionar cromos parece ser um desses vícios. Pelo menos até ao momento em que um homem adulto, com responsabilidades editoriais, contas para pagar e preocupações institucionais sérias, se apanha a fazer cálculos probabilísticos sobre a representação geopolítica do Uruguai numa colecção Panini.
No primeiro dia, fui razoável. Comprei duas caixas. Um gesto de moderação, quase de antropólogo que decide observar um fenómeno social sem se deixar contaminar. No segundo dia, porém, a ciência experimental cedeu perante a compulsão e comprei três caixas adicionais. Façamos as contas, porque a exactidão numérica ainda é a única âncora moral nestes processos de degenerescência lúdica: cada caixa traz oito saquetas; cada saqueta contém sete cromos; cada caixa equivale, portanto, a 56 cromos; três caixas correspondem a 168; somadas às duas caixas iniciais, o total ascende a 280 cromos. Dito assim, parece menos um passatempo e mais um pequeno programa de investimento paralelo.
A questão é que a Estatística começou a manifestar-se de forma ameaçadora. Dos 280 cromos adquiridos, tenho agora 247 úteis e 33 repetidos. Isto significa que cerca de 11,8% da minha experiência já consiste em pagar para voltar a receber aquilo que já possuía. Convenhamos, é um modelo económico que envergonharia alguns sectores esbanjadores da administração pública. Ainda assim, a colecção está em 25,2%, significando assim que um quarto da empreitada foi cumprido.
À primeira vista, não parece dramático. Porém, isto apenas uma percepção psicológica – e das perigosas. No início, cada saqueta abre-se com a emoção de quem espera descobrir um novo continente. Tudo é novidade. Até um obscuro lateral-esquerdo de uma selecção improvável merece atenção e respeito. Mas, à medida que o álbum se vai enchendo, instala-se uma inquietação subtil. O gesto de abrir deixa de ser esperança e passa a ser auditoria.
O mais curioso não está sequer no total, mas na distribuição errática desta pequena ordem mundial de cartão brilhante. Tal como o Irão, a Argentina, actual campeã do Mundo, comparece no meu acervo com a impressionante representação de um único cromo. Um. O Messi apareceu no contingente especial, o que significa que apanhei o sumo pontífice sem passar pelo colégio cardinalício. Pesquiso: no ‘mercado negro’ já há quem o ‘ofereça’ pela módica quantia de 65 euros – negociáveis.
Países inteiros parecem diplomaticamente ausentes desta conferência internacional improvisada sobre a mesa da sala. Em contrapartida, o Uruguai — esse pequeno mas bravo país de escassos três milhões de habitantes — já me ofereceu dez cromos. Dez. Neste momento, constitui a potência dominante da minha colecção. E, para tornar tudo mais bizarro, apenas um desses é repetido. Há claramente uma simpatia estatística pelas margens do Rio da Prata que a teoria das probabilidades talvez um dia explique.
Portugal está num estado de representação moderadamente digno. Tenho seis cromos portugueses, entre os quais o símbolo da Federação e a imagem da equipa. Tenho a estrutura, a bandeira, o aparelho institucional, mas ainda não tenho o Cristiano Ronaldo. Uma metáfora nacional, talvez. Temos os emblemas, os organismos, os enquadramentos formais, mas a figura tutelar tarda em aparecer.
Agora, a questão essencial: estou azarado? Curiosamente, não. Pelo contrário. Fazendo as contas, a expectativa teórica para 280 tiragens aleatórias numa colecção de 980 cromos apontaria para cerca de 244 cromos únicos. Tenho 247. Ou seja, estou ligeiramente acima da média.
A sensação de agravamento não decorre de azar, mas da própria mecânica do processo. Neste momento, faltam-me 733 cromos. Isso significa que a probabilidade de o próximo cromo ser novo continua a ser de quase 75%. Três hipóteses em quatro. Parece óptimo. Mas a comparação é cruel: quando tinha apenas 100 cromos, essa probabilidade rondava os 90%. A degradação não é uma ilusão; é apenas matemática.
A pergunta seguinte é estratégica: continuo a comprar compulsivamente como se o futuro económico não existisse, ou mudo de táctica? Aqui convém algum racionalismo. Sem trocas, completar esta colecção seria um acto financeiramente tresloucado. Estatisticamente, o número esperado de cromos necessários para completar tudo ultrapassa os sete mil. Sete mil. Não é um álbum; é um plano de insolvência. Até atingir talvez 400 ou 500 cromos únicos, comprar ainda pode fazer sentido, porque o retorno continua aceitável.
Aliás, estou já convicto de que completar esta colecção é estatisticamente impossível apenas com compras. O senso comum ingénuo poderia supor que, tratando-se de uma colecção com 980 cromos, bastaria aproximar-me desse número com alguma margem para completar a empreitada. Afinal, se há 980 cromos, pareceria razoável imaginar que comprando 1000, 1200 ou até 1500 o problema estaria resolvido. A matemática, porém, tem um humor cruel e nenhuma consideração pelos sonhos de homens crescidos.
Ao fazer as contas — com a ajuda de ferramentas que conferem uma aparência respeitável a comportamentos questionáveis —, percebi que comprar o equivalente exacto à colecção não me daria qualquer hipótese de a completar. Como cada compra é aleatória e os cromos podem repetir-se indefinidamente, o número expectável de cromos únicos ao fim de 980 compras é de apenas cerca de 619.
Dito de outro modo: mesmo investindo o equivalente exacto ao tamanho da colecção, o mais provável seria ficar ainda a faltar-me mais de 360 cromos. Neste ponto percebe-se logo que a Panini não vende apenas cromos; vende uma sofisticada experiência prática sobre a crueldade da teoria das probabilidades.
Mesmo com 3000 cromos comprados, a probabilidade continuaria virtualmente nula, o que equivale a dizer que eu poderia hipotecar uma parte significativa da minha dignidade financeira e continuar sem aquele obscuro médio defensivo do Uzbequistão ou um guarda-redes suplente da Coreia do Sul. Estou aqui a especular, porque nem fui ver se já os tenho.
Mais perturbador ainda: para atingir meros 50% de probabilidade de completar a colecção apenas através de comprando, seria necessário aproximar-me dos sete mil cromos. Sim, sete mil. Um número que já não pertence ao universo lúdico, mas ao da perturbação clínica. Para ter 90% de probabilidade, o exercício aproximar-se-ia dos nove mil cromos, altura em que já seria financeiramente mais prudente tentar comprar a Panini ou, pelo menos, adquirir um pequeno país com sistema fiscal complacente.
Para mim, está absolutamente clara uma verdade sobre a arquitectura amoral — ou talvez comercial — da Panini: as trocas entre coleccionadores não constituem um mero ritual folclórico da infância, uma tradição pitoresca de recreio escolar ou uma forma ingénua de socialização entre portadores de cromos repetidos. São, na verdade, uma peça estrutural do ecossistema, um mecanismo informal de correcção de um sistema probabilístico que, entregue em exclusivo ao acaso, bem usado pela empresa, transforma-se numa máquina de redundância e desgaste financeiro.
Sem esse mercado paralelo de permutas — esse admirável capitalismo de bairro fundado na equivalência entre o Cristiano Ronaldo e o Deroy Duarte, o cabo-verdiano que joga no Ludogorets — a conclusão da colecção deixaria de ser uma ambição lúdica para entrar no domínio da perturbação compulsiva.
Na verdade, a Panini não vende apenas cromos, mas um modelo matemático em que o entusiasmo inicial é progressivamente substituído por repetição, frustração e erosão orçamental, até que o coleccionador, outrora saudável, se descubra a ponderar seriamente adquirir mais cinquenta saquetas apenas para capturar um obscuro lateral-esquerdo da Coreia do Sul, o que será uma insanidade.
https://paginaum.pt/2026/05/18/a-cruel-matematica-de-um-vicio-infantil
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