
Isto não é sobre o ambiente. É sobre quem vai controlar a energia — e o dinheiro — quando os combustíveis fósseis acabarem. E Portugal está a ser preparado para ser, mais uma vez, a vítima.
O LOBO A GUARDAR O GALINHEIRO
Imaginem o seguinte cenário: um país decide combater o tráfico de droga. E para liderar a estratégia nacional antidroga, nomeia... um ex-traficante. Alguém que fez carreira a vender droga. Alguém cujos contactos, cuja fortuna e cuja visão do mundo foram moldados pelo narcotráfico.
Toda a gente gritaria: "Estão loucos? Isto é uma piada de mau gosto!"
Pois bem. Na União Europeia aconteceu exatamente o mesmo. Só que em vez de droga, estamos a falar de petróleo. Em vez de traficante, temos um ex-executivo da Shell. E em vez de estratégia antidroga, temos a política climática que vai decidir o futuro energético de 450 milhões de europeus — incluindo os portugueses.
O nome do homem é Wopke Hoekstra. O cargo é Comissário Europeu do Clima. E a nomeação não é um acidente. É uma confissão. A confissão de que a transição energética não é liderada por ambientalistas, cientistas ou defensores do interesse público. É liderada por quem sempre lucrou com a destruição do planeta — e que agora quer lucrar com a sua suposta salvação.
https://euobserver.com/.../meet-the-new-fossil-fuel-eu.../
PARTE I: QUEM É ESTE HOMEM? O CURRÍCULO DA VERGONHA
Wopke Hoekstra não é um ambientalista. Nunca foi. É um gestor financeiro que fez carreira nas entranhas da indústria fóssil.
Antes de ser político, Hoekstra trabalhou para a Shell, a gigante petrolífera anglo-holandesa que está entre as maiores poluidoras da história do planeta. A Shell sabia desde os anos 70 que o petróleo estava a aquecer o clima. E o que fez com essa informação? Escondeu-a. Financiou negacionistas. Continuou a perfurar, a extrair, a vender. E Hoekstra estava lá. A receber o seu salário. A subir na hierarquia.
Depois da Shell, Hoekstra foi para a McKinsey & Company, a consultora que assessorou as maiores petrolíferas do mundo a contornar regulações ambientais. A McKinsey ajudou a desenhar estratégias de "greenwashing" muito antes de a palavra existir.
Eis o homem que hoje decide o futuro climático da Europa.
A pergunta que todos deviam fazer — e que ninguém fez — é esta: o que é que um homem que dedicou a vida a vender petróleo vai fazer quando lhe entregam as chaves da política climática?
A resposta é simples: vai proteger os interesses de quem o pagou durante décadas.
PARTE II: O HISTÓRICO QUE NÃO ENGANA
Se o currículo já é mau, o histórico político é pior.
Como Ministro das Finanças dos Países Baixos, Hoekstra opôs-se ao fim da extração de gás em Groningen. Groningen é uma província holandesa que foi literalmente destruída por terramotos causados pela extração de gás. Casas rachadas, famílias desalojadas, vidas arruinadas. E Hoekstra defendeu que a extração continuasse. Porquê? Porque parar a extração era parar o dinheiro.
O mesmo Hoekstra foi acusado por organizações ambientais de conceder subsídios e isenções fiscais a grandes poluidores. Enquanto os cidadãos holandeses pagavam impostos sobre tudo, as empresas que mais poluíam recebiam borlas fiscais. É a justiça climática segundo Hoekstra.
E, já agora, foi este mesmo Hoekstra que, como ministro das Finanças, liderou a ala dura contra os países do sul da Europa durante a crise da dívida. Chamou-nos preguiçosos. Exigiu austeridade brutal. Quis sangrar Portugal, a Grécia, a Espanha. Hoje, esse mesmo homem vem a Lisboa "debater a transição verde". A ironia é macabra.
PARTE III: A PORTA GIRATÓRIA EM BRUXELAS — O ESQUEMA QUE NINGUÉM VÊ
O caso Hoekstra não é isolado. É a ponta visível de um icebergue que apodreceu Bruxelas.
Facto 1: Só as sete maiores empresas de combustíveis fósseis do mundo mantêm mais de 50 organizações de lobby em Bruxelas.
Facto 2: O orçamento anual combinado para estas operações é de 64 milhões de euros.
Facto 3: No último mandato da Comissão Europeia, registaram-se quase 900 reuniões entre representantes da Comissão e a indústria fóssil. Isto significa, em média, uma reunião por dia útil.
Facto 4: A indústria do petróleo e gás está a investir 75 milhões de euros por ano para promover o hidrogénio não-renovável como pilar da transição energética.
Tradução: Enquanto os cidadãos europeus pensam que a transição energética está a ser desenhada para salvar o planeta, ela está a ser desenhada em salas de reuniões fechadas, entre lobistas e ex-colegas, para salvar os lucros das petrolíferas.
O esquema é este: a indústria que criou o problema está a ser contratada para o resolver. É como pedir a um incendiário que lidere os bombeiros. Ele até pode apagar o fogo — mas vai cobrar por cada balde de água. E vai garantir que o fogo nunca se apaga completamente, porque se o fogo se apagar, ele deixa de ser necessário.
PARTE IV: O HIDROGÉNIO — A NOVA FACHADA VERDE
O lobby fóssil percebeu que o petróleo e o gás têm os dias contados — não por convicção ambientalista, mas porque os ventos políticos mudaram. E adaptou-se.
A nova aposta chama-se hidrogénio. Mas atenção: não é o hidrogénio verde, produzido a partir de energias renováveis. É o hidrogénio azul ou cinzento, produzido a partir de gás natural — ou seja, a partir de combustíveis fósseis.
As mesmas empresas que durante décadas perfuraram, poluíram e mentiram estão agora a posicionar-se para controlar a produção, o transporte e a distribuição de hidrogénio. As mesmas infraestruturas de gasodutos que transportam gás russo podem ser adaptadas para transportar hidrogénio. Os mesmos contratos, os mesmos intermediários, os mesmos lucros.
É o velho negócio do gás com uma nova embalagem verde.
E Hoekstra, o ex-Shell, está no centro da máquina que vai decidir que tipo de hidrogénio recebe financiamento europeu, que projetos são aprovados, que regiões são escolhidas como "hubs" de hidrogénio.
Adivinhem quem vai ganhar?
A Shell. A BP. A Total. As mesmas de sempre.
PARTE V: PORTUGAL — A VÍTIMA PERFEITA
E Portugal? Portugal está no centro do alvo. E é aqui que a história se torna perigosa para nós.
Facto 1: Mais de 86% da eletricidade produzida em Portugal em 2025 teve origem renovável. Somos um dos melhores alunos da Europa. Mas a nossa produção é intermitente — vento e água não estão sempre disponíveis. Isto torna-nos dependentes das importações de eletricidade de Espanha e do resto da Europa.
Facto 2: Os preços da eletricidade no mercado grossista são definidos a nível europeu, muitas vezes com base no gás. Isto significa que, mesmo com 86% de renováveis, pagamos a fatura como se a nossa eletricidade viesse do carvão. É um sistema perverso que beneficia os produtores de gás e prejudica os consumidores.
Facto 3: Hoekstra esteve em Lisboa nos dias 11 e 12 de maio de 2026. Veio "debater a transição verde". Visitou uma fábrica de celulose que recebeu fundos europeus para biomassa. Reuniu-se com o Governo português.
A pergunta é: veio fazer o quê?
A resposta mais provável é esta: veio alinhar Portugal com a agenda das grandes corporações europeias.
Veio garantir que o hidrogénio que Portugal vai consumir é o hidrogénio que as petrolíferas europeias vão vender.
Veio garantir que as infraestruturas energéticas portuguesas são compatíveis com os gasodutos que as empresas do Norte da Europa controlam.
Portugal tem sol, vento, mar e biomassa. Tem tudo para ser energeticamente independente. Mas a independência energética de Portugal é um pesadelo para as grandes petrolíferas europeias. Porque um país que produz a sua própria energia é um país que não compra a energia delas.
O plano de Hoekstra para Portugal não é ajudar-nos a ser independentes. É manter-nos dependentes.
PARTE VI: O ASSALTO VERDE — QUEM PAGA A FATURA?
A transição energética, tal como está a ser gerida, é um assalto em três atos:
Ato 1: A socialização dos custos. Os investimentos em renováveis, redes elétricas, barragens e centrais de hidrogénio são financiados com dinheiro público — impostos dos contribuintes, fundos europeus, tarifas na fatura da luz. Quem paga o investimento inicial são os cidadãos.
Ato 2: A privatização dos lucros. Quando as infraestruturas estão construídas e começam a dar lucro, são privatizadas — ou nunca chegaram a ser totalmente públicas. Os lucros vão para acionistas privados, muitos deles estrangeiros. É o caso da EDP, cujos dividendos vão para a China Three Gorges (lembram-se do artigo anterior?).
Ato 3: A perpetuação da dependência. A arquitetura do sistema energético europeu é desenhada para que países como Portugal continuem dependentes das importações. Primeiro eram as importações de petróleo e gás. Agora serão as importações de hidrogénio e de eletricidade. A fonte muda, a dependência fica.
E quem paga a fatura final? O consumidor português. Aquele que já paga uma das faturas de eletricidade mais caras da Europa. Aquele que vê o seu poder de compra ser corroído todos os meses. Aquele que não tem alternativa senão pagar — porque a energia não é um luxo, é uma necessidade.
PARTE VII: A RESISTÊNCIA — O QUE TEMOS DE FAZER
Este artigo não é um convite ao desespero. É um alerta para a ação. Porque o assalto verde ainda não está consumado. Ainda há tempo para resistir.
Primeiro: Exigir transparência total.
Quem reuniu com Hoekstra em Lisboa? O que foi discutido? Que compromissos foram assumidos? O Governo português tem a obrigação de tornar públicas todas as atas, todas as reuniões, todos os acordos. Nada de "reuniões técnicas" à porta fechada.
https://sapo.pt/.../comissario-europeu-para-o-clima...
Segundo: Apostar na descentralização energética.
A melhor defesa contra os grandes grupos energéticos é a microprodução. Painéis solares em cada telhado. Comunidades de energia renovável. Cooperativas energéticas. Cada família, cada bairro, cada aldeia a produzir a sua própria energia. Quanto menos dependermos do mercado centralizado, menos poderão os Hoekstras e as Shells controlar-nos.
Terceiro: Recusar o hidrogénio fóssil.
Portugal não precisa de hidrogénio azul ou cinzento. Portugal tem recursos renováveis de sobra para produzir hidrogénio verde. Exijam que cada euro de financiamento público vá para hidrogénio 100% renovável. Nada de subsídios disfarçados à indústria fóssil.
Quarto: Denunciar as portas giratórias.
Sempre que um político ou alto funcionário europeu sair de um cargo público para uma petrolífera, denunciem. Partilhem. Gritem. A porta giratória só funciona porque ninguém a vê. Façam barulho.
Quinto: Votar com conhecimento.
Nas próximas eleições, perguntem aos candidatos: qual é a sua posição sobre a independência energética de Portugal? Vai defender os interesses dos consumidores portugueses ou os interesses das grandes petrolíferas europeias?
Aceita reunir-se com lobistas da Shell?
E exijam respostas claras.
Sem rodeios.
A ESCOLHA É NOSSA
Wopke Hoekstra não é o problema.
É o sintoma.
O problema é um sistema que permite que um ex-executivo de uma petrolífera se torne Comissário do Clima.
Um sistema que permite que as empresas que destruíram o planeta liderem a sua suposta salvação.
Um sistema que trata a energia não como um bem público, mas como uma mercadoria para enriquecer acionistas.
Portugal está na linha da frente desta batalha.
Temos sol, vento, mar e recursos naturais que muitos países invejam.
Temos tudo para ser um exemplo de independência energética.
Mas para isso, temos de resistir.
Temos de recusar ser o cliente cativo das petrolíferas europeias.
Temos de exigir que a transição energética seja feita para os portugueses, pelos portugueses e com os portugueses — não para a Shell, pela Shell e com os lucros da Shell.
O assalto verde está em curso. A resistência começa agora. E começa aqui.
WHISTLEBLOWER
PARTILHEM ISTO. A verdade sobre Hoekstra, sobre as portas giratórias e sobre o assalto verde não vai aparecer nos jornais de referência. Eles também estão no esquema. A informação é a vossa arma. Usem-na.
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