/E, assim, graças aos Climáximos Portugal vai tornar-se um case study de melhoria climática que o resto do mundo irá imitar. Saques, pilhagens e assaltos a bancos suceder-se-ão por todo o planeta e, no dia seguinte, tal como o bisonte pintado em Altamira que foi caçado horas depois, a crise climática termina./ João Cerqueira <https://sol.iol.pt/perfil/joao-cerqueira/695914ee0cf255913377e47b> 19 de maio 2026 Há cerca de 30 mil anos os primeiros humanos modernos, ou Cro-Magnon, pintaram auroques, cavalos, bisontes e outros animais nas paredes das cavernas onde viviam. Os Cro-Magnon acreditavam que dessa forma poderiam controlar os animais dos quais dependia a sua sobrevivência. Através de rituais magico-religiosos, que incluíam música, dança e narrativas míticas, pretendiam conseguir o aumento da fertilidade destes animais e a sua posterior captura. E o facto de raramente se encontrarem representações deles próprios nestas cavernas significava que estes homens não se consideravam superiores aos animais, pelo contrário. Ou seja, veneravam a natureza e dela só extraiam o que necessitavam para sobreviver. Assim, se a esta prática somarmos uma ausência de pegada ecológica, os Cro-Magnon foram os primeiros ecologistas. Os descendentes dos Cro-Magnon no século XXI são os Climáximos. Ainda que a pegada ecológica dos Climáximos nada tenha a ver com a dos Cro-Magnon, seja até igual à de qualquer cidadão poluidor que usa meios de transporte movidos a combustíveis fósseis, roupas fabricadas na China, telemóveis, computadores e cartão de crédito de plástico, a crença no pensamento mágico é semelhante. Os Climáximos não pintam obras de arte em cavernas, ou noutros locais, antes borratam paredes e atiram tinta contra pessoas e quadros, mas o objectivo mágico, a crença de que uma acção irá – sabe-se lá como - desencadear a outra, é análoga. É por isso que, depois das borratadas e do corte de estradas, os Climáximos começaram agora roubar supermercados. Segundo eles, roubar uma lata de salsichas é um alerta quanto às consequências da crise climática sobre os alimentos, uma denúncia dos lucros escandalosos destas grandes empresas, enfim, um protesto contra o capitalismo predador que aquece o planeta e contribui para o aumento da fome. Parece que a fome até diminuiu nos últimos dois anos - https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/novo/a-fome-no-mundo-diminui-mas-as-disparidades-persistem-alerta-relatorio-da-onu/ <https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/novo/a-fome-no-mundo-diminui-mas-as-disparidades-persistem-alerta-relatorio-da-onu/> - mas, no reino do pensamento mágico, os números são um sortilégio que cada um manipula como lhe der jeito. A narrativa mítica, desta vez anticapitalista, também está presente; as mensagens deixadas nas prateleiras após os roubos são como as mãos dos artistas pré-históricos deixadas nas paredes; e é bem provável que quando se reúnem nas florestas, com as caras pintadas, penas na cabeça e sob efeito de cogumelos alucinogénios, os Climáximos executem danças rituais ao som de batuques e flautas até tombarem de exaustão. Aparecesse por lá algum director do Pingo Doce ou da Sonae e poderia ter o mesmo destino que um auroque pré-histórico encurralado por Cro-Magnons. O problema destes Cro-Magnons do século XXI é que roubar meia dúzia de artigos num supermercado não é suficiente para inverter o aquecimento global, ou as alterações climáticas, ou os humores de São Pedro que, com a suas chaves do Céu, abre e fecha as chuvas. No máximo, o clima poderá melhorar em Barrancos ou em São Lourenço da Montaria - e neste momento até está bom -, mas é preciso muito mais magia, batucada e alucinação para abranger todo o território nacional, os Açores – um caso complexo – e a Madeira. E quanto a uma melhoria global, isso nem se fala. Portanto, são necessárias acções de magia em grande escala: uma roubalheira global. Primeiro, há que saquear todos os supermercados nacionais, roubar todos os bancos e assaltar umas vivendas em Cascais. E, assim, graças aos Climáximos Portugal vai tornar-se um case study de melhoria climática que o resto do mundo irá imitar. Saques, pilhagens e assaltos a bancos suceder-se-ão por todo o planeta e, no dia seguinte, tal como o bisonte pintado em Altamira que foi caçado horas depois, a crise climática termina. Cumprido o seu dever, os Climáximos poderão abandonar de vez as cidades e começar a viver em cavernas como os seus ancestrais Cro-Magnon. E se lhes faltarem auroques, não quiserem abater cavalos ou souberem caçar coelhos, talvez ainda reste algum supermercado próximo onde possam fazer compras.
Sem comentários:
Enviar um comentário