terça-feira, 19 de maio de 2026

“Armadilha de Tucídides”.

 O que é o aviso que Xi fez a Trump. Thucydides recounted how rising power Athens challenged Sparta, resulting in a destructive 30-year war.Natalllenka.m/Shutterstock <https://www.shutterstock.com/image-vector/greek-mural-sparta-warriors-athens-mythology-2282882227?trackingId=d34427e3-80fd-4aac-9120-2288a7be51c7&listId=searchResults> *O presidente da China recordou ao seu homólogo norte-americano o conceito histórico que expressa os receios de um conflito entre as duas maiores potências do planeta.* Nas declarações iniciais da recente cimeira com Donald Trump, a 15 de Maio, o presidente chinês,*Xi Jinping*, invocou uma frase do historiador grego do século V a.C.*Tucídides*para lançar um aviso velado ao presidente dos Estados Unidos. “O mundo chegou a uma nova encruzilhada. Conseguirão a China e os EUA ultrapassar a chamada*‘Armadilha de Tucídides*‘ e construir um novo paradigma para as relações entre grandes potências?” Tucídides tem tido uma presença surpreendentemente forte nos assuntos internacionais este ano, diz*Neville Morley*, professor de História Clássica da Universidade de Exeter, num artigo noThe Conversation <https://theconversation.com/xi-warned-trump-against-the-thucydides-trap-heres-what-ancient-greece-can-tell-us-about-us-china-relations-283106>. Em Janeiro, o primeiro-ministro canadiano,*Mark Carney*, citou a famosa frase do Diálogo dos Mélios segundo a qual “*os fortes fazem o que podem*e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, para alertar para o declínio de uma ordem assente em regras. Outros*citaram-na para descrever as acções militares*norte-americanas na Venezuela e no Irão, tanto em sentido positivo como negativo. Xi, porém, recorreu antes à visão de Tucídides sobre a “r*azão mais verdadeira*, embora menos discutida” da*Guerra do Peloponeso*entre Atenas e Esparta. A tradução mais conhecida das suas palavras, de 1875, é esta: “Foi a ascensão de Atenas, e*o medo que isso despertou em Esparta*, que tornou a guerra inevitável.” O académico norte-americano de relações internacionais*Graham Allison*desenvolveu a partir daí a ideia da*Armadilha de Tucídides*. O objectivo declarado de Tucídides era que os leitores considerassem a sua história*útil para compreender acontecimentos futuros*. Assim, defendeu Allison, podemos transformar as suas palavras num princípio geral: quando uma “potência estabelecida” como Esparta é*confrontada com uma “potência emergente”*como Atenas, o*resultado é, em geral, o conflito*. *A História, sustenta Allison, confirma esta tese*. Ao longo dos séculos, 12 de 16 exemplos de uma grande potência estabelecida confrontada com uma rival emergente*resultaram em guerra, incluindo as duas guerras mundiais*. S*erá também esse o caso entre os EUA*, hegemonia global desde o colapso da União Soviética, e*uma China ressurgente que desafia o seu domínio*, em especial no plano económico? Três armadilhas A ideia de Allison foi muito debatida. Em 2017, foi convidado para a Casa Branca para falar sobre a sua aplicação à China e aos Estados Unidos. Por isso, a referência de Xi à Armadilha de Tucídides foi*menos uma ideia nova do que uma evocação*do primeiro mandato de Trump. *A teoria foi levada a sério pelo Governo chinês*, nem que fosse como guia para o pensamento norte-americano. Esta foi identificada como*uma das três armadilhas*que a China enfrenta hoje. As outras duas são a*Armadilha de Tácito*, conceito que descreve uma situação em que um governo ou líder se torna tão impopular que passa a ser odiado e criticado independentemente do que faça, e a*Armadilha do Rendimento Médio*, que descreve a estagnação de um país que, após ter deixado a pobreza para trás, perde competitividade e não consegue avançar para o patamar de economia rica. A discussão sobre a Armadilha de Tucídides tem-se centrado sobretudo na análise de Allison sobre a situação contemporânea. O debate tem girado em torno de saber se a sua caracterização da relação entre os EUA e a China está correcta e se o advento das*armas nucleares e/ou a interdependência económica*alterou essa dinâmica. Allison apresentou a Armadilha de Tucídides como um aviso, para incentivar ambos os governos a procurar compromissos e cooperação. *O risco é que a potência estabelecida interprete Tucídides*como dizendo-lhe para*conter potenciais rivais antes de estes se tornarem uma ameaça*— mesmo que isso torne a guerra mais provável. Daí a ênfase de Xi em evitar a armadilha. Mas os políticos norte-americanos da linha mais crítica relação à China vêem nisso um*estratagema para adiar o conflito*até que o equilíbrio de poder seja mais nivelado. Uma lição de prudência Uma vez que esta é apresentada como uma teoria assente em dados históricos e na autoridade de Tucídides, vale a pena notar que*é questionável*em ambos os aspectos. Caracterizar muitos conflitos do passado como dizendo respeito apenas a duas potências rivais, uma estabelecida e outra em ascensão, é duvidoso; a Primeira Guerra Mundial*foi apenas sobre a Grã-Bretanha e a Alemanha*, por exemplo? Quanto a Tucídides,*a frase crucial é uma tradução muito livre*do que de facto escreveu, que é muito mais ambíguo. Uma versão mais literal seria: “O facto de Atenas se tornar grande*levou os espartanos a temer e impeliu para a guerra*”. *Impeliu quem? Tucídides não especifica*. Os espartanos? E, se assim foi, foram realmente impelidos ou apenas sentiram que o estavam a ser? Ambos os lados? Ou toda a situação? Está simplesmente a ser pouco claro — ou fá-lo deliberadamente, para levar os leitores a pensar mais profundamente? Depois de apresentar esta*afirmação opaca e algo ambígua*, Tucídides expôs uma narrativa detalhada dos acontecimentos que conduziram à declaração de guerra por Esparta. Essa narrativa incluiu muitos momentos em que as coisas poderiam, discutivelmente,*ter tido um desfecho diferente*. A sua interpretação deu relevo tanto a desenvolvimentos de curto como de longo prazo, bem como a*decisões e emoções individuais*, além de factores estruturais. A sua “armadilha” é muito mais complexa — e,*definitivamente, não é inevitável*. Isto é muito familiar para leitores atentos de Tucídides. A sua obra não oferece leis simples sobre a guerra e a política, antes expõe a complexidade do comportamento humano de uma forma que nos leva a pensar mais profundamente sobre ele. Mas*as suas ideias são muitas vezes apresentadas de forma errada*, como princípios simplistas que supostamente explicam o mundo. A resposta de Trump a Xi, de que os EUA poderiam estar em declínio sob Biden, mas*são agora o país mais “quente” de sempre*,é uma leitura errada até da versão simplificada de Tucídides proposta por Allison. A teoria da “Armadilha” nada diz sobre declínio; diz apenas que*a superpotência estabelecida enfrenta agora uma rival*. Mas a*ansiedade em torno do declínio e da decadência*impregna hoje o pensamento ocidental. Talvez isso seja indício do mesmo tipo de medo que passou a dominar o pensamento espartano e que, como o próprio Tucídides relatou, arrastou ambos os Estados para uma guerra destrutiva. https://theconversation.com/xi-warned-trump-against-the-thucydides-trap-heres-what-ancient-greece-can-tell-us-about-us-china-relations-283106

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