A CAMISINHA DE 1830 QUE VEM COM SACANAGEM IMPRESSA

O Rijksmuseum, em Amsterdã, guarda essa peça. É um preservativo de 1830 feito de tripa de ovelha. A imagem impressa nele mostra uma freira levantando a batina para três padres nus. Por quase dois séculos, o maior museu da Holanda teve vergonha de colocar isso numa vitrine.
Só em 2022 ele foi exposto pela primeira vez. O nome da exposição? "Safe Sex?". Compraram em leilão por mil euros. Antes disso, sexo era assunto de depósito.
Essa tripa de ovelha conta 400 anos de história em 19 centímetros. O desenho é uma piada anticlerical francesa. Depois da Revolução de 1789, zoar a hipocrisia da Igreja virou esporte nacional. Imprimir uma orgia num preservativo em 1830 era crime triplo. Obscenidade, heresia e ofensa à moral. Quem comprou arriscou prisão para dar risada.
E não pense que era baratinho. Um preservativo desses custava o equivalente a vários dias de trabalho de um operário em Paris. Era artigo de luxo, vendido em bordéis caros e farmácias "sob o balcão". A mesma elite que fazia lei para prender "sodomita", usava isso em segredo.
A história do preservativo não começou com prazer. Começou com medo de morrer. Em 1560, o médico italiano Gabriele Falloppio estava desesperado. A sífilis, chamada de "doença francesa", matava mais soldado que guerra. Ele inventou uma bainha de linho embebida em ervas e testou em 1.100 homens. Nenhum se infectou. Foi o primeiro teste clínico da história.
No século XVIII, virou acessório de sedutor. Giacomo Casanova, o maior cafajeste da história, chamava de "redingote anglaise", casaco inglês. Ele soprava para testar se tinha furo, usava e depois lavava para reusar. Fediam, eram caros, mas funcionavam. Sem eles, Casanova teria morrido de sífilis aos 30.
O problema é que usar era ilegal. Nos Estados Unidos, as Leis Comstock de 1873 proibiam vender qualquer coisa "obscena" pelo correio. Preservativo dava cadeia. Por isso eram vendidos disfarçados como "proteção para viajantes" ou "artigo de borracha medicinal". A hipocrisia sempre deu um jeito.
A revolução veio em 1844, quando Charles Goodyear patenteou a vulcanização da borracha. Em 1855 nasceu o primeiro preservativo de borracha. Ainda era grosso como pneu de bicicleta. Só em 1920, com o látex, ficaram finos e descartáveis como conhecemos hoje.
Duas guerras mundiais transformaram ele em equipamento militar. Na Segunda Guerra, o exército americano distribuía 50 milhões por mês. O slogan era direto: "Não esqueça, coloque antes de colocar dentro". Sífilis e gonorreia tiravam mais soldado de combate que bala.
Depois veio a AIDS em 1980 e o preservativo virou questão de vida ou morte global. Saiu da gaveta da farmácia e foi parar em campanha de governo na TV.
Essa peça de 1830 é um documento. Mostra três coisas que nunca mudaram. Primeiro, que sexo sempre foi político. Segundo, que a lei era para pobre e o prazer para rico. Os mesmos príncipes que eram exilados por "escândalo" como Ludwig Viktor da Áustria frequentavam os lugares onde um objeto desses circulava. Terceiro, que antes da penicilina em 1943, sífilis era sentença de cegueira, loucura e morte. Reis como Henrique VIII tiveram sintomas. Essa tripa de ovelha tosca era a única coisa entre uma noite de prazer e definhar por 20 anos.
Hoje você compra na farmácia sem pensar. Em 1830 era contrabando. Em 1920 era vergonha. Em 1980 era sobrevivência.
De tripa de ovelha ao látex, a história do preservativo é a história de como a humanidade tentou separar sexo de morte. E pelo visto, com uma boa dose de deboche no meio.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
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