segunda-feira, 18 de maio de 2026

A cruel matemática de um vício infantil

Acredito que, pela natureza humana, há vícios respeitáveis. Não me refiro, evidentemente, aos que obrigam a internamentos, intervenções familiares ou visitas discretas a estabelecimentos de reputação ambígua. Refiro-me àqueles vícios menores, toleráveis no seio social, até ternurentos, que nos permitem fingir que continuamos ligados a uma qualquer inocência de infância.

Coleccionar cromos parece ser um desses vícios. Pelo menos até ao momento em que um homem adulto, com responsabilidades editoriais, contas para pagar e preocupações institucionais sérias, se apanha a fazer cálculos probabilísticos sobre a representação geopolítica do Uruguai numa colecção Panini.

No primeiro dia, fui razoável. Comprei duas caixas. Um gesto de moderação, quase de antropólogo que decide observar um fenómeno social sem se deixar contaminar. No segundo dia, porém, a ciência experimental cedeu perante a compulsão e comprei três caixas adicionais. Façamos as contas, porque a exactidão numérica ainda é a única âncora moral nestes processos de degenerescência lúdica: cada caixa traz oito saquetas; cada saqueta contém sete cromos; cada caixa equivale, portanto, a 56 cromos; três caixas correspondem a 168; somadas às duas caixas iniciais, o total ascende a 280 cromos. Dito assim, parece menos um passatempo e mais um pequeno programa de investimento paralelo. 

A questão é que a Estatística começou a manifestar-se de forma ameaçadora. Dos 280 cromos adquiridos, tenho agora 247 úteis e 33 repetidos. Isto significa que cerca de 11,8% da minha experiência já consiste em pagar para voltar a receber aquilo que já possuía. Convenhamos, é um modelo económico que envergonharia alguns sectores esbanjadores da administração pública. Ainda assim, a colecção está em 25,2%, significando assim que um quarto da empreitada foi cumprido.

À primeira vista, não parece dramático. Porém, isto apenas uma percepção psicológica – e das perigosas. No início, cada saqueta abre-se com a emoção de quem espera descobrir um novo continente. Tudo é novidade. Até um obscuro lateral-esquerdo de uma selecção improvável merece atenção e respeito. Mas, à medida que o álbum se vai enchendo, instala-se uma inquietação subtil. O gesto de abrir deixa de ser esperança e passa a ser auditoria.

O mais curioso não está sequer no total, mas na distribuição errática desta pequena ordem mundial de cartão brilhante. Tal como o Irão, a Argentina, actual campeã do Mundo, comparece no meu acervo com a impressionante representação de um único cromo. Um. O Messi apareceu no contingente especial, o que significa que apanhei o sumo pontífice sem passar pelo colégio cardinalício. Pesquiso: no ‘mercado negro’ já há quem o ‘ofereça’ pela módica quantia de 65 euros – negociáveis.

Países inteiros parecem diplomaticamente ausentes desta conferência internacional improvisada sobre a mesa da sala. Em contrapartida, o Uruguai — esse pequeno mas bravo país de escassos três milhões de habitantes — já me ofereceu dez cromos. Dez. Neste momento, constitui a potência dominante da minha colecção. E, para tornar tudo mais bizarro, apenas um desses é repetido. Há claramente uma simpatia estatística pelas margens do Rio da Prata que a teoria das probabilidades talvez um dia explique.

Portugal está num estado de representação moderadamente digno. Tenho seis cromos portugueses, entre os quais o símbolo da Federação e a imagem da equipa. Tenho a estrutura, a bandeira, o aparelho institucional, mas ainda não tenho o Cristiano Ronaldo. Uma metáfora nacional, talvez. Temos os emblemas, os organismos, os enquadramentos formais, mas a figura tutelar tarda em aparecer.


Anúncio no OLX a vender o Lionel Messi… mas, nestas colecções, pelo contrário, a raridade não é proporcional ao talento.

Agora, a questão essencial: estou azarado? Curiosamente, não. Pelo contrário. Fazendo as contas, a expectativa teórica para 280 tiragens aleatórias numa colecção de 980 cromos apontaria para cerca de 244 cromos únicos. Tenho 247. Ou seja, estou ligeiramente acima da média.

A sensação de agravamento não decorre de azar, mas da própria mecânica do processo. Neste momento, faltam-me 733 cromos. Isso significa que a probabilidade de o próximo cromo ser novo continua a ser de quase 75%. Três hipóteses em quatro. Parece óptimo. Mas a comparação é cruel: quando tinha apenas 100 cromos, essa probabilidade rondava os 90%. A degradação não é uma ilusão; é apenas matemática.

A pergunta seguinte é estratégica: continuo a comprar compulsivamente como se o futuro económico não existisse, ou mudo de táctica? Aqui convém algum racionalismo. Sem trocas, completar esta colecção seria um acto financeiramente tresloucado. Estatisticamente, o número esperado de cromos necessários para completar tudo ultrapassa os sete mil. Sete mil. Não é um álbum; é um plano de insolvência. Até atingir talvez 400 ou 500 cromos únicos, comprar ainda pode fazer sentido, porque o retorno continua aceitável.

Aliás, estou já convicto de que completar esta colecção é estatisticamente impossível apenas com compras. O senso comum ingénuo poderia supor que, tratando-se de uma colecção com 980 cromos, bastaria aproximar-me desse número com alguma margem para completar a empreitada. Afinal, se há 980 cromos, pareceria razoável imaginar que comprando 1000, 1200 ou até 1500 o problema estaria resolvido. A matemática, porém, tem um humor cruel e nenhuma consideração pelos sonhos de homens crescidos.

Ao fazer as contas — com a ajuda de ferramentas que conferem uma aparência respeitável a comportamentos questionáveis —, percebi que comprar o equivalente exacto à colecção não me daria qualquer hipótese de a completar. Como cada compra é aleatória e os cromos podem repetir-se indefinidamente, o número expectável de cromos únicos ao fim de 980 compras é de apenas cerca de 619.

Dito de outro modo: mesmo investindo o equivalente exacto ao tamanho da colecção, o mais provável seria ficar ainda a faltar-me mais de 360 cromos. Neste ponto percebe-se logo que a Panini não vende apenas cromos; vende uma sofisticada experiência prática sobre a crueldade da teoria das probabilidades.

Probabilidade teórica de completar a colecção Panini do Mundial 2026 em função do número total de cromos comprados, assumindo distribuição aleatória uniforme com reposição. O cálculo parte do modelo clássico do coupon collector problem, considerando um universo de 980 cromos distintos, em que cada novo cromo comprado tem igual probabilidade de corresponder a qualquer um desses elementos, independentemente das compras anteriores. A curva foi obtida através de modelização probabilística exacta, estimando, para cada número acumulado de compras, a probabilidade de que todos os 980 cromos já tenham surgido pelo menos uma vez.

 Mesmo com 3000 cromos comprados, a probabilidade continuaria virtualmente nula, o que equivale a dizer que eu poderia hipotecar uma parte significativa da minha dignidade financeira e continuar sem aquele obscuro médio defensivo do Uzbequistão ou um guarda-redes suplente da Coreia do Sul. Estou aqui a especular, porque nem fui ver se já os tenho.

Mais perturbador ainda: para atingir meros 50% de probabilidade de completar a colecção apenas através de comprando, seria necessário aproximar-me dos sete mil cromos. Sim, sete mil. Um número que já não pertence ao universo lúdico, mas ao da perturbação clínica. Para ter 90% de probabilidade, o exercício aproximar-se-ia dos nove mil cromos, altura em que já seria financeiramente mais prudente tentar comprar a Panini ou, pelo menos, adquirir um pequeno país com sistema fiscal complacente.

Para mim, está absolutamente clara uma verdade sobre a arquitectura amoral — ou talvez comercial — da Panini: as trocas entre coleccionadores não constituem um mero ritual folclórico da infância, uma tradição pitoresca de recreio escolar ou uma forma ingénua de socialização entre portadores de cromos repetidos. São, na verdade, uma peça estrutural do ecossistema, um mecanismo informal de correcção de um sistema probabilístico que, entregue em exclusivo ao acaso, bem usado pela empresa, transforma-se numa máquina de redundância e desgaste financeiro.

Sem esse mercado paralelo de permutas — esse admirável capitalismo de bairro fundado na equivalência entre o Cristiano Ronaldo e o Deroy Duarte, o cabo-verdiano que joga no Ludogorets — a conclusão da colecção deixaria de ser uma ambição lúdica para entrar no domínio da perturbação compulsiva.

Na verdade, a Panini não vende apenas cromos, mas um modelo matemático em que o entusiasmo inicial é progressivamente substituído por repetição, frustração e erosão orçamental, até que o coleccionador, outrora saudável, se descubra a ponderar seriamente adquirir mais cinquenta saquetas apenas para capturar um obscuro lateral-esquerdo da Coreia do Sul, o que será uma insanidade.

https://paginaum.pt/2026/05/18/a-cruel-matematica-de-um-vicio-infantil

Pedro Almeida Vieira




A MEIA-VERDADE / MENTIRA do,PRESIDENTE do TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

Escrevo isto a propósito da recente declaração de Inconstitucionalidade da proposta de Lei sobre a perda de nacionalidade portuguesa, como pena acessória para crimes graves. . O Presidente actual, de saída, do T.C. afirmou que o chumbo do projecto de Lei foi votado por Unanimidade! Foi noticiado que todos os juízes reprovaram o diploma de alteração à legislação penal, que tinha sido alvo de fiscalização preventiva. . A MEIA-VERDADE / MENTIRA Ora o Tribunal Constitucional é composto por 13 juízes, com mandatos únicos de 9 anos. Destes, 10 são eleitos pela Assembleia da República (por maioria qualificada) e 3 são cooptados (escolhidos pelos restantes juízes). . Acontece que neste momento da Votação estavam no exercício das suas funções apenas 10 Juízes e não 13. Isto porque os restantes 3 ainda não foram eleitos pela Assembleia da República. . VEJAMOS a ORIGEM de CADA um dos 10 JUÍZES actuais . Indicados pelo PS 1. José João Abrantes – Presidente – Indicado pelo PS; 2. José Ascensão Ramos - Indicado pelo PS; 3. Dora Lucas Neto - Indicada pelo PS; 4. Joana Fernandes Costa - Indicada pelo PS; . Indicados pelo PSD 1. João Carlos Loureiro – Vice-Presidente- Cooptado – PSD; 2. Afonso Patrão – Indicado pelo PSD; 3. José Eduardo Figueiredo Dias - Indicado pelo PSD; . Outros 1. Mariana Canotilho – Indicada pelo PCP; 2. Carlos Carvalho – Cooptado Independente; . CONCLUSÃO Donde a tal “unanimidade” refere-se a um Tribunal Incompleto; Ou seja, uma “meia-verdade”, ou “meia-mentira”, como se queira; Para ter sido uma verdade absoluta, a tal “unanimidade” anunciada, teriam de ter votado 13 Juízes e não os 10 que votaram. . O FUTURO Agora o PSD quer preencher os 4 lugares a preencher (contando com o Presidente que sai): • 2 ao PSD, que ficará com 5 Juízes; • 1 ao CHEGA • 1 ao PS, que a ser assim ficará com 5 Juízes, • 1 que permanece do PCP • 1 que permanece Independente: contando com a próxima saída do actual Presidente, que anunciou a tal “unanimidade”! . Ficará assim o Tribunal Constitucional a ter: • 5 Juízes indicados pelo PS; • 1 Juíz indicado pelo PCP; . 1 Juiz independente; Mais • 5 Juízes indicados pelo PSD; • 1 Juíz indicado pelo CHEGA; . PERGUNTO: 1º. - Estamos na realidade perante um Tribunal ideológicamente Independente? A resposta é muito clara! NÃO! Nem NUNCA o tivemos! . 2º. – Se estivermos a falar de independentes dos partidos, sem filiação partidária, aí sim! . TERMINO MAS … é credível que as pessoas /Juízes se “esqueçam" da sua inclinação Ideológico / Política? Desculpem, mas isso seria sobre-humano! . 3°. - Estão as indicações dos Juízes em consonância com a Representação Parlamentar dos partidos que os indicam? Claro que NÃO! . Miguel Mattos Chaves

sábado, 16 de maio de 2026

O início eufórico que antecipa a repetição como antecâmara da obsessão.

O início da minha saga com a colecção do Mundial da Panini confrontou-me com uma realidade pouco compatível com a fantasia pueril que acompanha estas aventuras: perante a minha escassez de tempo, manifesta inexperiência e absoluta falta de treino logístico nesta matéria, depressa percebi que o entusiasmo, por si só, não bastaria para impedir o colapso organizacional.

Uma coisa é abrir saquetas com a jubilação de um rapaz de doze anos; outra, bem diferente, é gerir de forma racional um universo de 980 cromos, dispersos por dezenas de selecções, variantes especiais e armadilhas estatísticas concebidas para humilhar a memória humana.

Percebi assim, com inquietante rapidez, que não posso confiar na memória. Seria o caminho mais curto para acreditar que aquele lateral suplente da Costa Rica, acabado de emergir de uma saqueta com a solenidade de um presságio, era novidade absoluta, quando, afinal, já repousava, duplicado ou triplicado, algures entre outros enganos semelhantes.

Também me pareceu pouco sensato proceder à colagem imediata na caderneta. Não por falta de entusiasmo patriótico ou devoção coleccionista, mas porque o acto exige uma combinação improvável de paciência beneditina, precisão cirúrgica e unhas adequadas à delicada operação de separar aquele microscópico intervalo entre o papel de cobertura e a película autocolante do cromo.

Assim, fiel a impulsos que por vezes me fazem parecer um funcionário prussiano com tendências estatísticas, optei por uma organização germânica: matriz em Excel, países por ordem alfabética, jogadores numerados de 1 a 20 por selecção, especiais devidamente assinalados, e siga. Uma arquitectura de dados digna de quem, em vez de brincar, simula um ensaio clínico multicêntrico.

A minha estreia consumista fez-se com dois conjuntos em caixa, totalizando 112 cromos. Sem qualquer analíse estatística, este resultado, confesso, pareceu-me auspicioso. Apenas três repetidos, o que significa 109 cromos únicos logo na primeira investida. Traduzido em percentagem — porque todo o vício respeitável merece uma falsa camada de racionalidade quantitativa —, arranquei com 11,1% da colecção completa preenchida. 

Para uma primeira incursão deste género, explica-me a Estatística, o expectável seria algo próximo dos seis repetidos. Saí, portanto, com metade do infortúnio previsto. A probabilidade de obter um resultado tão favorável ou melhor andaria, grosso modo, pelos 12%, o que, não sendo um milagre mariano nem uma intervenção directa da FIFA nos assuntos terrenos, configura um começo simpático. Querem lá ver que a Panini afinal é bondosa?

Em todo o caso, a aleatoriedade tratou de exibir as suas excentricidades. Dei por mim com sete uruguaios, seis sauditas, cinco neozelandeses, e pequenos contingentes de belgas, colombianos, equatorianos, egípcios, marroquinos, mexicanos e escoceses, como se estivesse a montar um congresso diplomático desorganizado. Portugueses tenho três.

Em contrapartida, a França comportou-se como um sindicato em greve, a Suécia pura e simplesmente não compareceu, a Turquia evaporou-se, a Bósnia-Herzegovina manteve prudente neutralidade, e a Argélia recusou participar sem apresentar justificação formal.

Foi então que entrei na fase menos romântica da aventura: a da Matemática cruel. No primeiro dia, praticamente cada cromo surgia com elevada probabilidade de novidade, dado que eu partia de um admirável vazio estatístico. Agora, porém, já tenho 109 lugares ocupados, o que significa que cerca de 11% do universo possível se encontra preenchido. Em português corrente: a máquina probabilística da Panini vai começar a conspirar contra mim.

Cada nova compra passa, assim, a aumentar a probabilidade de me oferecer aquele prazer agridoce, quase litúrgico, de abrir uma saqueta com expectativa infantil, ver surgir um brilho promissor, e descobrir, com melancolia administrativa, que se trata de um senhor paraguaio que já possuo em duplicado.

Esta, afinal, é a velha maldição das colecções. O início é euforia, o meio é repetição e o fim transformará homens razoáveis em criaturas obcecadas com a localização exacta de um obscuro defesa-central da Coreia do Sul, cuja ausência passa a parecer uma falha intolerável na ordem do universo.

Terei em breve o segundo dia de compras. Veremos se a sorte persiste ou se a teoria das probabilidades decide, com a habitual frieza académica, recolocar-me no meu devido lugar.

***

https://paginaum.pt/2026/05/16/o-inicio-euforico-que-antecipa-a-repeticao-como-antecamara-da-obsessao

Pedro Almeida Vieira



sexta-feira, 15 de maio de 2026

COMO OS FUNDOS EUROPEUS FINANCIAM O DECLÍNIO DA ESCOLA PÚBLICA E A SUBSÍDIO-DEPENDÊNCIA

A máquina de propaganda estatal rejubila com as gordas fatias de milhões que chegam de Bruxelas, mas a realidade por trás dos números revela uma profunda distorção das prioridades nacionais. 

O recente anúncio da colocação a concurso de 3,1 mil milhões de euros do Portugal 2030 até abril de 2027, longe de ser uma vitória para o desenvolvimento do país, serve de capa para a perpetuação de um modelo que asfixia os serviços públicos essenciais enquanto alimenta clientelas e circuitos paralelos de financiamento. 
A presente investigação desmonta a intrincada rede de interesses que liga gabinetes ministeriais, institutos públicos, associações de fachada e empresas privadas na maior operação de desvio de fundos europeus alguma vez montada no sector da educação em Portugal.
O ponto de partida desta engrenagem encontra-se na mais recente atualização do calendário do Portugal 2030. Sob o argumento da aceleração da execução dos fundos europeus, o Governo calendarizou a abertura de 211 novos concursos. Destes, 191 avisos serão lançados ainda antes do final do corrente ano, movimentando cerca de 2,81 mil milhões de euros.
A tutela apresenta estes dados como um indicador de dinamismo económico e de eficiência administrativa. Contudo, quando se descodificam os destinatários e as tipologias destes concursos, percebe-se que a prioridade política não passa por salvar as estruturas fundamentais do Estado, mas sim por injetar capital em programas de formação e subsidiação cujos resultados práticos na produtividade nacional continuam por demonstrar. 
O site oficial portugal2030.pt disponibiliza a lista de operações aprovadas, onde se podem identificar os principais beneficiários deste manancial financeiro.
O Definhamento da Escola Pública versus o Oásis das Escolas Profissionais
O maior concurso individual de todo este pacote financeiro tem abertura marcada para o início de junho, através do programa Pessoas 2030, ostentando uma dotação de 230 milhões de euros. 
O destino? 
Cursos profissionais para o ano letivo que se avizinha. A atribuição desta verba astronómica contrasta de forma violenta com o cenário de debilidade em que se encontra a escola pública regular. 
Enquanto o ensino público tradicional definha a olhos vistos — fustigado por uma escassez crónica de professores que deixa milhares de alunos sem aulas a disciplinas fundamentais, pela perda de autoridade e exigência nas salas de aula, e pela degradação física dos edifícios escolares —, o Estado opta por canalizar a maior fatia do investimento para o ensino profissional.
Esta escolha política ganha contornos ainda mais graves quando analisamos o histórico de distribuição de verbas do Portugal 2030. 
No encerramento das contas anteriores, ficou demonstrado que a Educação recebeu uma dotação massiva superior a 630 milhões de euros de fundos europeus executados. 
No entanto, o destino desse dinheiro não foi o reforço dos quadros da escola pública, a valorização das carreiras dos professores ou a modernização dos agrupamentos escolares tradicionais. 
Esse bolo financeiro de mais de 630 milhões de euros serviu, quase na totalidade, para lubrificar a máquina das escolas profissionais, muitas delas privadas e associativas, e para cursos de dupla certificação geridos fora do ensino regular.
Cria-se, assim, um sistema de educação a duas velocidades: uma escola pública empobrecida e desvalorizada para o ensino geral, e um ecossistema privado altamente financiado por fundos comunitários para o ensino técnico, onde muitas vezes a facilidade de progressão e a retenção de alunos servem apenas para garantir a continuidade do fluxo financeiro institucional. 
O próprio governo, através do aviso PESSOAS-2025-10, veio a público confirmar que este fluxo de dinheiro é canalizado para escolas profissionais privadas e escolas do ensino particular e cooperativo, escancarando as portas do erário a entidades cujo principal interesse é o lucro, não a qualidade pedagógica.
O Núcleo Duro do Esquema: Advance Station, Joviform e a Teia de Empresas de Fachada
A ponta mais visível deste icebergue é o caso da Advance Station (ex-Joviform). Só em 2024, esta empresa facturou 1,6 milhões de euros na venda de formações através de um esquema que lesou famílias em todo o país. O seu modus operandi é meticulosamente orquestrado: entra em escolas públicas através de uma associação de fachada chamada AILE — Associação Internacional Lusófona para a Educação —, cujo presidente é, na realidade, um dos sócios principais da própria empresa. 
Com a autorização ministerial obtida sob falsos pretextos, a AILE recolhia dados de alunos e encarregados de educação através de alegados "inquéritos escolares" ou "testes vocacionais". De posse destes contactos, a Advance Station telefonava aos pais, convocando-os para reuniões apresentadas como tendo ligação à escola, onde, em vez de um acompanhamento pedagógico, se deparavam com uma agressiva sessão de venda de cursos online de elevado custo, associados a contratos de longa duração.
A AILE operava com o NIF de outra entidade, e a rede de empresas associadas inclui ainda a Act Academy, Skills Gym, Instituto Unicenter e Joviform. O "Professor Francisco" era o nome utilizado pelos técnicos da Advance Station/AILE para realizar as reuniões com os pais, usando um discurso persuasivo e manipulador para os convencer a assinar os contratos. As escolas que serviram de "porta de entrada" incluem o Agrupamento de Escolas Alfredo da Silva (Sintra), Matias Aires (Agualva-Mira Sintra), Gualdim Pais (Pombal), Dr. Ramiro Salgado (Torre de Moncorvo), Escola EB 2/3 de António Feijó (Ponte Lima) e Júlio, numa operação que se estendeu de norte a sul do país.
A Fachada AILE e os Seus Cúmplices Institucionais
A AILE não agia sozinha. 
Esta associação sem fins lucrativos era, na prática, a máscara institucional que permitia à Advance Station aceder ao interior das escolas. 
O seu "presidente" é o mesmo sócio principal da empresa comercial, numa confusão de papéis que deveria ter disparado todos os alarmes das entidades reguladoras. 
No entanto, nem a DECO — Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, que recebeu "largas dezenas de queixas" sobre a empresa e cuja jurista Ana Sofia Ferreira denunciou publicamente o caso —, nem a Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) conseguiram travar o esquema a tempo. 
O Ministério da Educação, sob a liderança do ministro Fernando Alexandre, demorou anos a reagir, limitando-se a enviar um comunicado às escolas e a revogar a autorização concedida à AILE quando a pressão mediática se tornou insustentável.
O ministro Fernando Alexandre, que tem no seu currículo a avaliação de políticas públicas, ficará para a história como o responsável pela inacção que permitiu a continuação deste esquema. A sua biografia oficial, disponível no site do governo, mostra um homem com um doutoramento em Economia, mas cuja passagem pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação será lembrada pela forma como tratou este caso. 
A pergunta que fica é: por que razão um ministro com um percurso académico de destaque não agiu mais cedo? 
A resposta pode estar na teia de influências que liga o seu governo ao universo da formação profissional privada.
O Circuito do IEFP: Maquilhagem Estatística e Precariedade
O segundo pilar desta estratégia assenta no papel do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). O plano de concursos prevê, para setembro, o lançamento de 144,5 milhões de euros destinados exclusivamente a estágios profissionais. 
A dotação massiva para estágios e formações contínuas cumpre uma dupla função política que urge denunciar.
O primeiro efeito imediato é a manipulação das estatísticas oficiais. Um cidadão inscrito num curso de formação ou num estágio temporário deixa de ser contabilizado como desempregado, permitindo ao Governo apresentar taxas de desemprego artificialmente baixas. 
O segundo efeito é a criação de um ciclo de subsídio-dependência que afeta tanto as empresas como os cidadãos. 
Em vez de se incentivar a criação de postos de trabalho estáveis, duradouros e com salários dignos, o Estado subsidia a contratação temporária.
Muitas empresas habituaram-se a rodar estagiários a custos residuais, descartando-os assim que o financiamento público termina, para logo de seguida candidatar-se a um novo aviso. 
A medida "Estágios +Talento", gerida pelo IEFP, é um exemplo paradigmático: com candidaturas abertas até julho de 2026 e bolsas comparticipadas pelo Instituto, este programa perpetua um modelo de emprego precário onde os estágios sucedem a estágios sem que haja qualquer criação líquida de postos de trabalho estáveis.
A Indústria da Imigração e a Rota dos Fundos do FAMI
A engrenagem do Portugal 2030 articula-se ainda com os avisos do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), direcionados para a gestão dos fluxos migratórios e integração de cidadãos estrangeiros. 
A proliferação de cursos profissionais e ações de formação especificamente voltadas para a população imigrante tem servido, na prática, como uma ferramenta de conveniência económica e burocrática.
Por um lado, a inscrição e frequência destas ações formativas funcionam frequentemente como mecanismos facilitadores para a obtenção de documentação, regularização de estatutos e acesso célere a subsídios e apoios sociais do Estado. Por outro lado, este modelo de formação rápida e massificada serve os interesses de setores económicos que dependem historicamente de mão de obra intensiva, barata e com baixa qualificação.
A lista de beneficiários do FAMI 2030, disponível para consulta pública, inclui entidades cujo negócio é, precisamente, a captação de mão de obra imigrante para setores de baixo valor acrescentado. 
A CÂNDIDO JOSÉ RODRIGUES II RENEWABLES, S.A. (CJR Renewables) recebeu 75.000 euros para projetos de "Migração Laboral", num exemplo claro do casamento entre a integração de imigrantes e os interesses de uma empresa de construção civil e energias renováveis que opera em Portugal e no estrangeiro. 
A TALENTUS - Associação Nacional de Formadores e Técnicos de Formação é outra entidade que recebeu financiamento FAMI para o projeto "Portugal para o Mundo - Formação em Língua e Cultura Portuguesas", num negócio que ilustra como os fundos da integração alimentam a indústria da formação.
Em vez de se promover uma política de imigração regulada e assente nas reais necessidades técnicas do país, utiliza-se o erário comunitário para formar trabalhadores destinados a ocupar postos de trabalho de baixo valor acrescentado. 
O resultado deste ciclo é a estagnação crónica dos salários em Portugal, o bloqueio à modernização tecnológica das empresas e a incapacidade contínua de reter os jovens talentos nacionais de alta qualificação, que se veem empurrados para a emigração enquanto o país subsidia a precariedade interna.
Decisores Políticos e a Pirâmide da Impunidade
A responsabilidade política por este estado de coisas é transversa e envolve várias figuras. 
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, cujo governo autorizou o financiamento de 65,8 milhões de euros para escolas profissionais privadas, mantém a máquina do Portugal 2030 a funcionar apesar dos alertas. 
Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), foi uma das vozes que alertou publicamente para o perigo, afirmando que as "escolas foram isco para burla" e manifestando receio de que os diretores viessem a ser responsabilizados.
A sua preocupação é legítima: os 811 diretores dos agrupamentos e escolas que permitiram a entrada da Advance Station nas suas instalações poderão vir a ser chamados a prestar contas. 
No entanto, a responsabilidade maior recai sobre quem tinha o dever de fiscalizar e não o fez: o Ministério da Educação e a Direção-Geral da Educação (DGE), que durante anos autorizaram e supervisionaram as atividades da AILE nas escolas com uma passividade que roça a cumplicidade.
Esta pirâmide de impunidade estende-se ainda aos sucessivos governos que, ao longo de décadas, permitiram que o esquema se instalasse e prosperasse. 
Há pelo menos duas décadas que pais e professores relatam as práticas comerciais abusivas da Advance Station e das suas antecessoras, e há pelo menos duas décadas que as instituições do Estado olham para o lado. A DECO denunciou o caso à Inspecção-Geral da Educação, mas o alerta foi insuficiente para travar o esquema. 
O Ministério Público, entretanto, mantém-se em silêncio, numa omissão que equivale a uma autorização tácita para que o saque continue.
O cenário exposto exige uma denúncia clara da inversão de valores na gestão dos fundos públicos. 
A pressa em anunciar milhares de milhões de euros a concurso serve para alimentar a ilusão de um país em crescimento, mas esconde a falência deliberada das funções sociais do Estado. 
Financiar circuitos privados de formação com mais de 630 milhões de euros em detrimento da reabilitação da carreira docente e das instalações da escola pública, e gastar milhões em estágios sucessivos que não criam emprego real, constitui um desperdício estratégico de recursos que compromete as futuras gerações.
Urge exigir transparência total na aplicação de cada euro do Portugal 2030, sob pena de transformarmos em definitivo o país numa economia dependente, precária e sem perspetivas de verdadeiro desenvolvimento. 
Não se trata de uma conspiração: é um facto investigado, denunciado e agora parcialmente suspenso pelo próprio Ministério da Educação — mas só depois de décadas de fovernos silenciosos e impunidade.
WHISTLEBLOWER.Pt 
Abaixo estão os links diretos das principais notícias, investigações e fontes oficiais usadas para esta denúncia dos esquemas de venda de cursos nas escolas e do uso dos fundos europeus.
🗞️ Principais Notícias de Imprensa
· Empresa vende cursos em escolas. "Famílias à beira de um ataque de nervos": https://rr.pt/.../empresa-vende-cursos-em-escolas.../470547/
· Pais endividados por causa de cursos vendidos em escolas: https://www.jn.pt/.../pais-endividados-por-causa.../18084186
· DECO denuncia práticas comerciais desleais em escolas: https://sapo.pt/.../deco-denuncia-praticas-comerciais...
· Cursos vendidos em escolas geram queixas há mais de 10 anos. Governo age: https://www.noticiasaominuto.com/.../cursos-vendidos-em...
· Até abril vão ser postos a concurso 3,1 mil milhões do Portugal 2030: https://eco.sapo.pt/.../ate-abril-vao-ser-postos-a.../
📰 Cobertura Específica do PÁGINA UM
· Burla nas escolas: http://paginaum.pt/.../burlas-nas-escolas-decadas-de...
· Ministério ordena suspensão: https://www.paginaum.pt/.../venda-agressiva-de-cursos...
· Fachada AILE: https://paginaum.pt/.../associacao-sem-fins-lucrativos-e...
· Escolas foram 'isco' para burla: https://paginaum.pt/2026/05/12/escolas-foram-isco-para-burla
· DECO denunciou à IGEC: https://paginaum.pt/.../burla-nas-escolas-deco-denunciou...
🏛️ Fontes Oficiais e Institucionais
· Portal da Transparência (Beneficiários de Fundos): https://transparencia.gov.pt
· Portugal 2030 (Plano de Avisos): https://portugal2030.pt
· Pessoas 2030 (Programa Temático): https://pessoas2030.gov.pt
· Fundo FAMI 2030 (Migração e Asilo): https://www.fami2030.gov.pt
· Governo de Portugal: https://www.portugal.gov.pt
· Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP): https://www.iefp.pt