quarta-feira, 20 de maio de 2026

‘No Terramoto de 1975’

/Cinquenta anos depois, quando tudo parece esquecido neste país anestesiado pelos supostos brandos costumes, é importante que haja pessoas como o Tomás para tratar da amnésia./ Rui Moreira <https://sol.iol.pt/perfil/rui-moreira/695a2f7a0cf2c7eb2446713d> O epicentro de - No terramoto de 1975 - a notável obra do meu irmão Tomás que Rui Ramos considerou «o mais importante e interessante livro escrito sobre a revolução por ocasião dos seus 50 anos» - é um episódio que, apesar de noticiado à época, não mereceu atenção. Em resumo - porque tudo está relatado e bem documentado no livro -, em 1975 os trabalhadores metalúrgicos da Molaflex, assistindo à degradação da empresa desde que o seu patrão - o meu Pai, Ruy Höfle de Araújo Moreira - fora preso há mais de cem dias por Eurico Corvacho - o gauleiter do Conselho de Revolução para o Norte -, pronunciaram-se pacificamente contra a detenção à porta do Quartel de Santo Ovídio, no Porto. Convocada pela comissão de trabalhadores da empresa, a manifestação foi violentamente reprimida pelos militares. O meu Pai, que estava em isolamento e não poderia conhecer ou tampouco incentivar o protesto, foi transferido para Lisboa pela calada da noite. Durante dias, a família não soube do seu paradeiro. Os partidos democráticos, que se opunham ao jugo gonçalvista, ficaram em silêncio. O livro faz justiça aos que desmentiram a ‘luta de classes’, contextualizando as circunstâncias históricas em que se deu a detenção arbitrária do meu Pai e descrevendo as tentativas vãs de o envolverem numa conjura em que nunca participou. Sim, o meu Pai fez parte dos que bem cedo denunciaram que a revolução havia sido capturada por quem tinha como missão oferecer Angola aos soviéticos, coletivizar a economia e controlar os movimentos sociais. Mas essa denúncia não constituía crime. E, quando ficou claro que era inocente, mantiveram-no preso com o objetivo de atingir a sua empresa. À libertação tardia seguir-se-ia um incêndio na Molaflex por fogo posto, que interrompeu a produção por largos meses e coincidiu com um atentado bombista à casa de família. Cinquenta anos depois, a história oficial só nos fala da rede bombista de direita, só nos narra histórias em que os trabalhadores se revoltaram contra os patrões capitalistas e só nos faz crer que, por seremos livres, temos uma dívida para com militares que traíram e envergonharam a farda. Mas, na verdade, somos livres apesar deles e graças aos que combateram os seus desmandos. Os piores ‘orientaram-se’: Corvacho e Rosa Coutinho montaram um chorudo negócio de import/export com Angola, cobrando ao MPLA pelos serviços prestados. Já o esbirro que ainda hoje se vangloria de ter detido o meu Pai, de seu nome Boaventura Ferreira, acabaria condecorado por Marcelo com a Ordem da Liberdade. Esse ‘herói’ entrou no gabinete do meu Pai para o prender sem mandado de captura e com capangas armados até aos dentes. Encontrou-o a trabalhar, pois recusara-se a fugir mesmo sabendo que a canalha o ia prender. Os empresários do antigo regime que fugiram, e viram as suas grandes empresas nacionalizadas, refizeram os negócios à custa de indemnizações compensatórias e de novos privilégios corporativos, enquanto o meu Pai e tantos outros tiveram de resgatar as suas empresas intervencionadas ou sabotadas por comunistas e pela soldadesca a soldo. Não beneficiaram de apoios e foram esmagados pela falta de crédito, dada a má vontade e incompetência dos bancários da banca nacionalizada, que depois se converteram ao capitalismo e se transformaram em banqueiros de sucesso. Ao nosso Pai nem sequer lhe pediram desculpa pelo cativeiro, pelo dano físico e moral, pelo insulto, pelo impacto na família, pela destruição patrimonial. Os trabalhadores, que o acolheram com foguetes no dia em que regressou, mantiveram o seu emprego, mas a empresa nunca recuperou a pujança do passado. E o meu Pai nunca mais voltou a ser o mesmo: perdeu a saúde e o otimismo mas uniu-nos a todos, de dentes cerrados, até ao fim. Agora, o Tomás faz-lhe justiça, com sobriedade e sem comiseração. Na apresentação do livro revi muitos dos antigos trabalhadores, que encontro quando vou a São João da Madeira ou à nossa quinta em Milheirós, ali ao lado. Para eles, serei sempre, e com orgulho, ‘o filho do senhor Ruy’. Os netos e bisnetos do meu Pai, que não o conheceram, e os que lerem o livro perceberão por que razão será sempre o nosso querido herói. Cinquenta anos depois, quando tudo parece esquecido neste país anestesiado pelos supostos brandos costumes, é importante que haja pessoas como o Tomás para tratar da amnésia.

A CAMISINHA DE 1830 QUE VEM COM SACANAGEM IMPRESSA

A CAMISINHA DE 1830 QUE VEM COM SACANAGEM IMPRESSA

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O Rijksmuseum, em Amsterdã, guarda essa peça. É um preservativo de 1830 feito de tripa de ovelha. A imagem impressa nele mostra uma freira levantando a batina para três padres nus. Por quase dois séculos, o maior museu da Holanda teve vergonha de colocar isso numa vitrine.

Só em 2022 ele foi exposto pela primeira vez. O nome da exposição? "Safe Sex?". Compraram em leilão por mil euros. Antes disso, sexo era assunto de depósito.

Essa tripa de ovelha conta 400 anos de história em 19 centímetros. O desenho é uma piada anticlerical francesa. Depois da Revolução de 1789, zoar a hipocrisia da Igreja virou esporte nacional. Imprimir uma orgia num preservativo em 1830 era crime triplo. Obscenidade, heresia e ofensa à moral. Quem comprou arriscou prisão para dar risada.

E não pense que era baratinho. Um preservativo desses custava o equivalente a vários dias de trabalho de um operário em Paris. Era artigo de luxo, vendido em bordéis caros e farmácias "sob o balcão". A mesma elite que fazia lei para prender "sodomita", usava isso em segredo.

A história do preservativo não começou com prazer. Começou com medo de morrer. Em 1560, o médico italiano Gabriele Falloppio estava desesperado. A sífilis, chamada de "doença francesa", matava mais soldado que guerra. Ele inventou uma bainha de linho embebida em ervas e testou em 1.100 homens. Nenhum se infectou. Foi o primeiro teste clínico da história.

No século XVIII, virou acessório de sedutor. Giacomo Casanova, o maior cafajeste da história, chamava de "redingote anglaise", casaco inglês. Ele soprava para testar se tinha furo, usava e depois lavava para reusar. Fediam, eram caros, mas funcionavam. Sem eles, Casanova teria morrido de sífilis aos 30.

O problema é que usar era ilegal. Nos Estados Unidos, as Leis Comstock de 1873 proibiam vender qualquer coisa "obscena" pelo correio. Preservativo dava cadeia. Por isso eram vendidos disfarçados como "proteção para viajantes" ou "artigo de borracha medicinal". A hipocrisia sempre deu um jeito.

A revolução veio em 1844, quando Charles Goodyear patenteou a vulcanização da borracha. Em 1855 nasceu o primeiro preservativo de borracha. Ainda era grosso como pneu de bicicleta. Só em 1920, com o látex, ficaram finos e descartáveis como conhecemos hoje.

Duas guerras mundiais transformaram ele em equipamento militar. Na Segunda Guerra, o exército americano distribuía 50 milhões por mês. O slogan era direto: "Não esqueça, coloque antes de colocar dentro". Sífilis e gonorreia tiravam mais soldado de combate que bala.

Depois veio a AIDS em 1980 e o preservativo virou questão de vida ou morte global. Saiu da gaveta da farmácia e foi parar em campanha de governo na TV.

Essa peça de 1830 é um documento. Mostra três coisas que nunca mudaram. Primeiro, que sexo sempre foi político. Segundo, que a lei era para pobre e o prazer para rico. Os mesmos príncipes que eram exilados por "escândalo" como Ludwig Viktor da Áustria frequentavam os lugares onde um objeto desses circulava. Terceiro, que antes da penicilina em 1943, sífilis era sentença de cegueira, loucura e morte. Reis como Henrique VIII tiveram sintomas. Essa tripa de ovelha tosca era a única coisa entre uma noite de prazer e definhar por 20 anos.

Hoje você compra na farmácia sem pensar. Em 1830 era contrabando. Em 1920 era vergonha. Em 1980 era sobrevivência.

De tripa de ovelha ao látex, a história do preservativo é a história de como a humanidade tentou separar sexo de morte. E pelo visto, com uma boa dose de deboche no meio.

Texto: Renato Drummond Tapioca Neto


Gamanço máximo.

/E, assim, graças aos Climáximos Portugal vai tornar-se um case study de melhoria climática que o resto do mundo irá imitar. Saques, pilhagens e assaltos a bancos suceder-se-ão por todo o planeta e, no dia seguinte, tal como o bisonte pintado em Altamira que foi caçado horas depois, a crise climática termina./ João Cerqueira <https://sol.iol.pt/perfil/joao-cerqueira/695914ee0cf255913377e47b> 19 de maio 2026 Há cerca de 30 mil anos os primeiros humanos modernos, ou Cro-Magnon, pintaram auroques, cavalos, bisontes e outros animais nas paredes das cavernas onde viviam. Os Cro-Magnon acreditavam que dessa forma poderiam controlar os animais dos quais dependia a sua sobrevivência. Através de rituais magico-religiosos, que incluíam música, dança e narrativas míticas, pretendiam conseguir o aumento da fertilidade destes animais e a sua posterior captura. E o facto de raramente se encontrarem representações deles próprios nestas cavernas significava que estes homens não se consideravam superiores aos animais, pelo contrário. Ou seja, veneravam a natureza e dela só extraiam o que necessitavam para sobreviver. Assim, se a esta prática somarmos uma ausência de pegada ecológica, os Cro-Magnon foram os primeiros ecologistas. Os descendentes dos Cro-Magnon no século XXI são os Climáximos. Ainda que a pegada ecológica dos Climáximos nada tenha a ver com a dos Cro-Magnon, seja até igual à de qualquer cidadão poluidor que usa meios de transporte movidos a combustíveis fósseis, roupas fabricadas na China, telemóveis, computadores e cartão de crédito de plástico, a crença no pensamento mágico é semelhante. Os Climáximos não pintam obras de arte em cavernas, ou noutros locais, antes borratam paredes e atiram tinta contra pessoas e quadros, mas o objectivo mágico, a crença de que uma acção irá – sabe-se lá como - desencadear a outra, é análoga. É por isso que, depois das borratadas e do corte de estradas, os Climáximos começaram agora roubar supermercados. Segundo eles, roubar uma lata de salsichas é um alerta quanto às consequências da crise climática sobre os alimentos, uma denúncia dos lucros escandalosos destas grandes empresas, enfim, um protesto contra o capitalismo predador que aquece o planeta e contribui para o aumento da fome. Parece que a fome até diminuiu nos últimos dois anos - https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/novo/a-fome-no-mundo-diminui-mas-as-disparidades-persistem-alerta-relatorio-da-onu/ <https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/novo/a-fome-no-mundo-diminui-mas-as-disparidades-persistem-alerta-relatorio-da-onu/> - mas, no reino do pensamento mágico, os números são um sortilégio que cada um manipula como lhe der jeito. A narrativa mítica, desta vez anticapitalista, também está presente; as mensagens deixadas nas prateleiras após os roubos são como as mãos dos artistas pré-históricos deixadas nas paredes; e é bem provável que quando se reúnem nas florestas, com as caras pintadas, penas na cabeça e sob efeito de cogumelos alucinogénios, os Climáximos executem danças rituais ao som de batuques e flautas até tombarem de exaustão. Aparecesse por lá algum director do Pingo Doce ou da Sonae e poderia ter o mesmo destino que um auroque pré-histórico encurralado por Cro-Magnons. O problema destes Cro-Magnons do século XXI é que roubar meia dúzia de artigos num supermercado não é suficiente para inverter o aquecimento global, ou as alterações climáticas, ou os humores de São Pedro que, com a suas chaves do Céu, abre e fecha as chuvas. No máximo, o clima poderá melhorar em Barrancos ou em São Lourenço da Montaria - e neste momento até está bom -, mas é preciso muito mais magia, batucada e alucinação para abranger todo o território nacional, os Açores – um caso complexo – e a Madeira. E quanto a uma melhoria global, isso nem se fala. Portanto, são necessárias acções de magia em grande escala: uma roubalheira global. Primeiro, há que saquear todos os supermercados nacionais, roubar todos os bancos e assaltar umas vivendas em Cascais. E, assim, graças aos Climáximos Portugal vai tornar-se um case study de melhoria climática que o resto do mundo irá imitar. Saques, pilhagens e assaltos a bancos suceder-se-ão por todo o planeta e, no dia seguinte, tal como o bisonte pintado em Altamira que foi caçado horas depois, a crise climática termina. Cumprido o seu dever, os Climáximos poderão abandonar de vez as cidades e começar a viver em cavernas como os seus ancestrais Cro-Magnon. E se lhes faltarem auroques, não quiserem abater cavalos ou souberem caçar coelhos, talvez ainda reste algum supermercado próximo onde possam fazer compras.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Estado impedido de exigir documentos já existentes nos serviços públicos. O que muda na prática?

O Estado deixa de poder exigir documentos que já tem nos seus próprios serviços. Nova regra, com efeitos imediatos, alarga-se a entidades que gerem fundos europeus e apoios às empresas. O que muda na obrigação de entregar documentos ao Estado? 1 de 8 O novo despacho, publicado esta terça-feira em Diário da República, reforça uma regra simples: o Estado deixa de poder pedir aos cidadãos e às empresas documentos que já estejam na posse de outros serviços públicos. Na prática, sempre que a informação já exista dentro da Administração Pública, passa a ser responsabilidade dos próprios serviços obtêm-la internamente. Despacho n.º 3790/2026, de 24 de março. O diploma é explícito ao determinar que as entidades “devem abster-se de solicitar […] documentos em posse de qualquer serviço e organismo da Administração Pública”, eliminando pedidos repetidos e redundantes. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/3790-2026-1075988812 Que entidades passam a estar obrigadas a cumprir esta regra? 2 de 8 A grande novidade é o alargamento da regra a organismos com forte impacto económico. Passam a estar abrangidas entidades como: Agência para o Desenvolvimento e Coesão; Estrutura de Missão “Recuperar Portugal”; Autoridades de gestão de fundos europeus; Direção-Geral da Economia; IAPMEI (incluindo empresas públicas participadas); AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal; Agência para a Investigação e Inovação.Estas entidades gerem incentivos, fundos europeus e apoio às empresas — áreas onde a burocracia tem sido mais criticada. Os organismos referidos devem garantir a partilha de dados e documentos necessários à correta instrução e ao bom andamento dos procedimentos, nos quais se incluem procedimentos de candidaturas, que estejam a seu cargo, entre si e entre todos os restantes serviços e organismos da Administração Pública. Em que situações deixa de ser necessário entregar documentos? 3 de 8 Sempre que um documento já exista num serviço público — por exemplo, dados fiscais, certidões ou registos — o cidadão ou empresa deixa de ter de o apresentar novamente. Mas há uma condição essencial: é necessário dar autorização. O acesso à informação depende do consentimento do titular, garantindo controlo sobre os dados. Ou seja, o princípio é: menos papel, mas com controlo do cidadão. O que muda na prática para empresas e cidadãos? 4 de 8 Na prática, esta alteração pode significar: menos deslocações e pedidos de certidões; redução de custos administrativos; processos mais rápidos (sobretudo em candidaturas a fundos); menos duplicação de documentos. Para as empresas, especialmente as que recorrem a apoios públicos, o impacto pode ser significativo ao reduzir atrasos e exigências burocráticas. Que diploma é alterado por este despacho? 5 de 8 O novo despacho altera o Despacho n.º 8312/2025, que já previa esta dispensa de entrega de documentos. A diferença é que agora o Governo pretende garantir que a regra não fica apenas no papel, alargando-a e impondo a sua aplicação a mais entidades, sobretudo nas áreas económicas. Qual é a base legal desta dispensa de documentos? 6 de 8 A medida assenta no artigo 28.º-A do Decreto-Lei n.º 135/99, que estabelece que os serviços públicos devem organizar-se para não exigir aos cidadãos documentos que já existam na Administração. O objetivo é claro: inverter a lógica tradicional em que o cidadão prova tudo, passando essa responsabilidade para o próprio Estado. Por que motivo o Governo fez esta alteração agora? 7 de 8 O despacho reconhece a necessidade de “assegurar uma aplicação uniforme” da regra, admitindo implicitamente que ela não estava a ser cumprida de forma consistente. A mudança surge também num contexto de pressão para reduzir burocracia, sobretudo no acesso a fundos europeus e no apoio às empresas. Quando entram em vigor estas regras? 8 de 8 As novas regras entram em vigor imediatamente, na data da publicação do despacho, isto é, esta terça-feira, dia 24 de março. Isto significa que, em teoria, os serviços abrangidos deixam desde já de poder pedir documentos que o próprio Estado já detenha. <https://eco.sapo.pt/descodificador/estado-impedido-de-exigir-documentos-ja-existentes-nos-servicos-publicos-o-que-muda-na-pratica/02-que-entidades-passam-a-estar-obrigadas-a-cumprir-esta-regra> *

“Armadilha de Tucídides”.

 O que é o aviso que Xi fez a Trump. Thucydides recounted how rising power Athens challenged Sparta, resulting in a destructive 30-year war.Natalllenka.m/Shutterstock <https://www.shutterstock.com/image-vector/greek-mural-sparta-warriors-athens-mythology-2282882227?trackingId=d34427e3-80fd-4aac-9120-2288a7be51c7&listId=searchResults> *O presidente da China recordou ao seu homólogo norte-americano o conceito histórico que expressa os receios de um conflito entre as duas maiores potências do planeta.* Nas declarações iniciais da recente cimeira com Donald Trump, a 15 de Maio, o presidente chinês,*Xi Jinping*, invocou uma frase do historiador grego do século V a.C.*Tucídides*para lançar um aviso velado ao presidente dos Estados Unidos. “O mundo chegou a uma nova encruzilhada. Conseguirão a China e os EUA ultrapassar a chamada*‘Armadilha de Tucídides*‘ e construir um novo paradigma para as relações entre grandes potências?” Tucídides tem tido uma presença surpreendentemente forte nos assuntos internacionais este ano, diz*Neville Morley*, professor de História Clássica da Universidade de Exeter, num artigo noThe Conversation <https://theconversation.com/xi-warned-trump-against-the-thucydides-trap-heres-what-ancient-greece-can-tell-us-about-us-china-relations-283106>. Em Janeiro, o primeiro-ministro canadiano,*Mark Carney*, citou a famosa frase do Diálogo dos Mélios segundo a qual “*os fortes fazem o que podem*e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, para alertar para o declínio de uma ordem assente em regras. Outros*citaram-na para descrever as acções militares*norte-americanas na Venezuela e no Irão, tanto em sentido positivo como negativo. Xi, porém, recorreu antes à visão de Tucídides sobre a “r*azão mais verdadeira*, embora menos discutida” da*Guerra do Peloponeso*entre Atenas e Esparta. A tradução mais conhecida das suas palavras, de 1875, é esta: “Foi a ascensão de Atenas, e*o medo que isso despertou em Esparta*, que tornou a guerra inevitável.” O académico norte-americano de relações internacionais*Graham Allison*desenvolveu a partir daí a ideia da*Armadilha de Tucídides*. O objectivo declarado de Tucídides era que os leitores considerassem a sua história*útil para compreender acontecimentos futuros*. Assim, defendeu Allison, podemos transformar as suas palavras num princípio geral: quando uma “potência estabelecida” como Esparta é*confrontada com uma “potência emergente”*como Atenas, o*resultado é, em geral, o conflito*. *A História, sustenta Allison, confirma esta tese*. Ao longo dos séculos, 12 de 16 exemplos de uma grande potência estabelecida confrontada com uma rival emergente*resultaram em guerra, incluindo as duas guerras mundiais*. S*erá também esse o caso entre os EUA*, hegemonia global desde o colapso da União Soviética, e*uma China ressurgente que desafia o seu domínio*, em especial no plano económico? Três armadilhas A ideia de Allison foi muito debatida. Em 2017, foi convidado para a Casa Branca para falar sobre a sua aplicação à China e aos Estados Unidos. Por isso, a referência de Xi à Armadilha de Tucídides foi*menos uma ideia nova do que uma evocação*do primeiro mandato de Trump. *A teoria foi levada a sério pelo Governo chinês*, nem que fosse como guia para o pensamento norte-americano. Esta foi identificada como*uma das três armadilhas*que a China enfrenta hoje. As outras duas são a*Armadilha de Tácito*, conceito que descreve uma situação em que um governo ou líder se torna tão impopular que passa a ser odiado e criticado independentemente do que faça, e a*Armadilha do Rendimento Médio*, que descreve a estagnação de um país que, após ter deixado a pobreza para trás, perde competitividade e não consegue avançar para o patamar de economia rica. A discussão sobre a Armadilha de Tucídides tem-se centrado sobretudo na análise de Allison sobre a situação contemporânea. O debate tem girado em torno de saber se a sua caracterização da relação entre os EUA e a China está correcta e se o advento das*armas nucleares e/ou a interdependência económica*alterou essa dinâmica. Allison apresentou a Armadilha de Tucídides como um aviso, para incentivar ambos os governos a procurar compromissos e cooperação. *O risco é que a potência estabelecida interprete Tucídides*como dizendo-lhe para*conter potenciais rivais antes de estes se tornarem uma ameaça*— mesmo que isso torne a guerra mais provável. Daí a ênfase de Xi em evitar a armadilha. Mas os políticos norte-americanos da linha mais crítica relação à China vêem nisso um*estratagema para adiar o conflito*até que o equilíbrio de poder seja mais nivelado. Uma lição de prudência Uma vez que esta é apresentada como uma teoria assente em dados históricos e na autoridade de Tucídides, vale a pena notar que*é questionável*em ambos os aspectos. Caracterizar muitos conflitos do passado como dizendo respeito apenas a duas potências rivais, uma estabelecida e outra em ascensão, é duvidoso; a Primeira Guerra Mundial*foi apenas sobre a Grã-Bretanha e a Alemanha*, por exemplo? Quanto a Tucídides,*a frase crucial é uma tradução muito livre*do que de facto escreveu, que é muito mais ambíguo. Uma versão mais literal seria: “O facto de Atenas se tornar grande*levou os espartanos a temer e impeliu para a guerra*”. *Impeliu quem? Tucídides não especifica*. Os espartanos? E, se assim foi, foram realmente impelidos ou apenas sentiram que o estavam a ser? Ambos os lados? Ou toda a situação? Está simplesmente a ser pouco claro — ou fá-lo deliberadamente, para levar os leitores a pensar mais profundamente? Depois de apresentar esta*afirmação opaca e algo ambígua*, Tucídides expôs uma narrativa detalhada dos acontecimentos que conduziram à declaração de guerra por Esparta. Essa narrativa incluiu muitos momentos em que as coisas poderiam, discutivelmente,*ter tido um desfecho diferente*. A sua interpretação deu relevo tanto a desenvolvimentos de curto como de longo prazo, bem como a*decisões e emoções individuais*, além de factores estruturais. A sua “armadilha” é muito mais complexa — e,*definitivamente, não é inevitável*. Isto é muito familiar para leitores atentos de Tucídides. A sua obra não oferece leis simples sobre a guerra e a política, antes expõe a complexidade do comportamento humano de uma forma que nos leva a pensar mais profundamente sobre ele. Mas*as suas ideias são muitas vezes apresentadas de forma errada*, como princípios simplistas que supostamente explicam o mundo. A resposta de Trump a Xi, de que os EUA poderiam estar em declínio sob Biden, mas*são agora o país mais “quente” de sempre*,é uma leitura errada até da versão simplificada de Tucídides proposta por Allison. A teoria da “Armadilha” nada diz sobre declínio; diz apenas que*a superpotência estabelecida enfrenta agora uma rival*. Mas a*ansiedade em torno do declínio e da decadência*impregna hoje o pensamento ocidental. Talvez isso seja indício do mesmo tipo de medo que passou a dominar o pensamento espartano e que, como o próprio Tucídides relatou, arrastou ambos os Estados para uma guerra destrutiva. https://theconversation.com/xi-warned-trump-against-the-thucydides-trap-heres-what-ancient-greece-can-tell-us-about-us-china-relations-283106

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A cruel matemática de um vício infantil

Acredito que, pela natureza humana, há vícios respeitáveis. Não me refiro, evidentemente, aos que obrigam a internamentos, intervenções familiares ou visitas discretas a estabelecimentos de reputação ambígua. Refiro-me àqueles vícios menores, toleráveis no seio social, até ternurentos, que nos permitem fingir que continuamos ligados a uma qualquer inocência de infância.

Coleccionar cromos parece ser um desses vícios. Pelo menos até ao momento em que um homem adulto, com responsabilidades editoriais, contas para pagar e preocupações institucionais sérias, se apanha a fazer cálculos probabilísticos sobre a representação geopolítica do Uruguai numa colecção Panini.

No primeiro dia, fui razoável. Comprei duas caixas. Um gesto de moderação, quase de antropólogo que decide observar um fenómeno social sem se deixar contaminar. No segundo dia, porém, a ciência experimental cedeu perante a compulsão e comprei três caixas adicionais. Façamos as contas, porque a exactidão numérica ainda é a única âncora moral nestes processos de degenerescência lúdica: cada caixa traz oito saquetas; cada saqueta contém sete cromos; cada caixa equivale, portanto, a 56 cromos; três caixas correspondem a 168; somadas às duas caixas iniciais, o total ascende a 280 cromos. Dito assim, parece menos um passatempo e mais um pequeno programa de investimento paralelo. 

A questão é que a Estatística começou a manifestar-se de forma ameaçadora. Dos 280 cromos adquiridos, tenho agora 247 úteis e 33 repetidos. Isto significa que cerca de 11,8% da minha experiência já consiste em pagar para voltar a receber aquilo que já possuía. Convenhamos, é um modelo económico que envergonharia alguns sectores esbanjadores da administração pública. Ainda assim, a colecção está em 25,2%, significando assim que um quarto da empreitada foi cumprido.

À primeira vista, não parece dramático. Porém, isto apenas uma percepção psicológica – e das perigosas. No início, cada saqueta abre-se com a emoção de quem espera descobrir um novo continente. Tudo é novidade. Até um obscuro lateral-esquerdo de uma selecção improvável merece atenção e respeito. Mas, à medida que o álbum se vai enchendo, instala-se uma inquietação subtil. O gesto de abrir deixa de ser esperança e passa a ser auditoria.

O mais curioso não está sequer no total, mas na distribuição errática desta pequena ordem mundial de cartão brilhante. Tal como o Irão, a Argentina, actual campeã do Mundo, comparece no meu acervo com a impressionante representação de um único cromo. Um. O Messi apareceu no contingente especial, o que significa que apanhei o sumo pontífice sem passar pelo colégio cardinalício. Pesquiso: no ‘mercado negro’ já há quem o ‘ofereça’ pela módica quantia de 65 euros – negociáveis.

Países inteiros parecem diplomaticamente ausentes desta conferência internacional improvisada sobre a mesa da sala. Em contrapartida, o Uruguai — esse pequeno mas bravo país de escassos três milhões de habitantes — já me ofereceu dez cromos. Dez. Neste momento, constitui a potência dominante da minha colecção. E, para tornar tudo mais bizarro, apenas um desses é repetido. Há claramente uma simpatia estatística pelas margens do Rio da Prata que a teoria das probabilidades talvez um dia explique.

Portugal está num estado de representação moderadamente digno. Tenho seis cromos portugueses, entre os quais o símbolo da Federação e a imagem da equipa. Tenho a estrutura, a bandeira, o aparelho institucional, mas ainda não tenho o Cristiano Ronaldo. Uma metáfora nacional, talvez. Temos os emblemas, os organismos, os enquadramentos formais, mas a figura tutelar tarda em aparecer.


Anúncio no OLX a vender o Lionel Messi… mas, nestas colecções, pelo contrário, a raridade não é proporcional ao talento.

Agora, a questão essencial: estou azarado? Curiosamente, não. Pelo contrário. Fazendo as contas, a expectativa teórica para 280 tiragens aleatórias numa colecção de 980 cromos apontaria para cerca de 244 cromos únicos. Tenho 247. Ou seja, estou ligeiramente acima da média.

A sensação de agravamento não decorre de azar, mas da própria mecânica do processo. Neste momento, faltam-me 733 cromos. Isso significa que a probabilidade de o próximo cromo ser novo continua a ser de quase 75%. Três hipóteses em quatro. Parece óptimo. Mas a comparação é cruel: quando tinha apenas 100 cromos, essa probabilidade rondava os 90%. A degradação não é uma ilusão; é apenas matemática.

A pergunta seguinte é estratégica: continuo a comprar compulsivamente como se o futuro económico não existisse, ou mudo de táctica? Aqui convém algum racionalismo. Sem trocas, completar esta colecção seria um acto financeiramente tresloucado. Estatisticamente, o número esperado de cromos necessários para completar tudo ultrapassa os sete mil. Sete mil. Não é um álbum; é um plano de insolvência. Até atingir talvez 400 ou 500 cromos únicos, comprar ainda pode fazer sentido, porque o retorno continua aceitável.

Aliás, estou já convicto de que completar esta colecção é estatisticamente impossível apenas com compras. O senso comum ingénuo poderia supor que, tratando-se de uma colecção com 980 cromos, bastaria aproximar-me desse número com alguma margem para completar a empreitada. Afinal, se há 980 cromos, pareceria razoável imaginar que comprando 1000, 1200 ou até 1500 o problema estaria resolvido. A matemática, porém, tem um humor cruel e nenhuma consideração pelos sonhos de homens crescidos.

Ao fazer as contas — com a ajuda de ferramentas que conferem uma aparência respeitável a comportamentos questionáveis —, percebi que comprar o equivalente exacto à colecção não me daria qualquer hipótese de a completar. Como cada compra é aleatória e os cromos podem repetir-se indefinidamente, o número expectável de cromos únicos ao fim de 980 compras é de apenas cerca de 619.

Dito de outro modo: mesmo investindo o equivalente exacto ao tamanho da colecção, o mais provável seria ficar ainda a faltar-me mais de 360 cromos. Neste ponto percebe-se logo que a Panini não vende apenas cromos; vende uma sofisticada experiência prática sobre a crueldade da teoria das probabilidades.

Probabilidade teórica de completar a colecção Panini do Mundial 2026 em função do número total de cromos comprados, assumindo distribuição aleatória uniforme com reposição. O cálculo parte do modelo clássico do coupon collector problem, considerando um universo de 980 cromos distintos, em que cada novo cromo comprado tem igual probabilidade de corresponder a qualquer um desses elementos, independentemente das compras anteriores. A curva foi obtida através de modelização probabilística exacta, estimando, para cada número acumulado de compras, a probabilidade de que todos os 980 cromos já tenham surgido pelo menos uma vez.

 Mesmo com 3000 cromos comprados, a probabilidade continuaria virtualmente nula, o que equivale a dizer que eu poderia hipotecar uma parte significativa da minha dignidade financeira e continuar sem aquele obscuro médio defensivo do Uzbequistão ou um guarda-redes suplente da Coreia do Sul. Estou aqui a especular, porque nem fui ver se já os tenho.

Mais perturbador ainda: para atingir meros 50% de probabilidade de completar a colecção apenas através de comprando, seria necessário aproximar-me dos sete mil cromos. Sim, sete mil. Um número que já não pertence ao universo lúdico, mas ao da perturbação clínica. Para ter 90% de probabilidade, o exercício aproximar-se-ia dos nove mil cromos, altura em que já seria financeiramente mais prudente tentar comprar a Panini ou, pelo menos, adquirir um pequeno país com sistema fiscal complacente.

Para mim, está absolutamente clara uma verdade sobre a arquitectura amoral — ou talvez comercial — da Panini: as trocas entre coleccionadores não constituem um mero ritual folclórico da infância, uma tradição pitoresca de recreio escolar ou uma forma ingénua de socialização entre portadores de cromos repetidos. São, na verdade, uma peça estrutural do ecossistema, um mecanismo informal de correcção de um sistema probabilístico que, entregue em exclusivo ao acaso, bem usado pela empresa, transforma-se numa máquina de redundância e desgaste financeiro.

Sem esse mercado paralelo de permutas — esse admirável capitalismo de bairro fundado na equivalência entre o Cristiano Ronaldo e o Deroy Duarte, o cabo-verdiano que joga no Ludogorets — a conclusão da colecção deixaria de ser uma ambição lúdica para entrar no domínio da perturbação compulsiva.

Na verdade, a Panini não vende apenas cromos, mas um modelo matemático em que o entusiasmo inicial é progressivamente substituído por repetição, frustração e erosão orçamental, até que o coleccionador, outrora saudável, se descubra a ponderar seriamente adquirir mais cinquenta saquetas apenas para capturar um obscuro lateral-esquerdo da Coreia do Sul, o que será uma insanidade.

https://paginaum.pt/2026/05/18/a-cruel-matematica-de-um-vicio-infantil

Pedro Almeida Vieira